Um circo que passa, de Patrick Modiano

Segunda-feira, 29 de junho de 2015




Opinião
O primeiro contacto que tive com Patrick Modiano – o mais recente prémio Nobel da literatura – foi no mínimo desconcertante. Após ter lido as últimas linhas de Um circo que passa, fechei o livro e dei comigo a dizer – “É só isto?”; “Li 133 páginas e voltei à estaca zero?”; “Continuarei a conhecer das personagens exatamente o mesmo que conhecia quando li as primeiras páginas, ou seja, quase nada?...” Magnífico exemplo de uma narrativa aberta… Mais não poderia ser…
Sendo assim, o sentimento que me domina neste momento é de frustração e alguma revolta. Porque queria mais, porra! “Papei” a obra em menos de 24 horas sobretudo porque a sua narrativa me envolveu desde o início, por ser realmente enigmática, misteriosa e enganadoramente simples. Simpatizei com as personagens principais (os jovens Jean e Gisèle), admirei a forma como o autor nos vai oferecendo pistas, dados para que os conheçamos cada vez melhor, mas tudo desabou quando o desenlace não nos proporciona as respostas que tanto queremos – quem é na verdade Gisèle?; Por que se acercou a Jean?; Que contêm as malas que ela leva consigo?; Que é que sucedeu para que Jean, um miúdo de 18 anos, viva num apartamento decrépito, na companhia de um amigo de seu pai e esteja separado de seus progenitores, um refugiado na Suíça e outro a viver no Sul de Espanha?; Quem são os homens com quem Gisèle se relaciona? Enfim, são muitas (demasiadas, até) as perguntas que ficam sem resposta…
A única explicação que me ocorre e que poderá minimizar o desconcerto e a frustração que reinam por estes lados será relacionar o título da obra com o seu recheio, ou seja, a semana que acompanhamos das vidas de Jean e Gisèle tem na vida do leitor o impacto que tem um circo que passa, um circo que entra na nossa rotina por um punhado de dias e se vai tão rapidamente como veio. Sem nos dar tempo para entabularmos conversa com os seus elementos, para saber mais sobre eles. Atraem-nos com as suas façanhas, com o seu estilo de vida diferente, mas dificilmente conheceremos quem está por detrás de uma máscara de palhaço, quem se equilibra num fio a vários metros acima do solo ou quem maneja com toda a mestria uma manada de animais perigosos.
Contudo, por mais que a explicação faça todo o sentido (no meu ponto de vista), a frustração ainda não desapareceu e talvez retraia a vontade que tinha de comprar mais obras de Patrick Modiano… Let’s wait and see…

NOTA – 06/10

Sinopse

Um Circo Que Passa revela bem o estilo de Patrick Modiano, fortemente marcado pela guerra, pelos anos 40 e pela sua própria infância.
A polícia, os bares duvidosos e as ruas de uma cidade simultaneamente amiga e inimiga - é nesta Paris dos anos 60 que acompanhamos a fuga e as deambulações de um casal à procura do amor. Uma história que tem como narrador Jean, e em que toda a ação gira em torno do seu relacionamento, aos dezassete anos, com a misteriosa Gisèle. Ambos têm muito a esconder um do outro. Partilham, porém, os mesmos sonhos. 

Nadie se salva solo, de Margaret Mazzantini

Domingo, 28 de junho de 2015




Opinião
Um casal que se separou. Dois filhos que ainda o une. Um emaranhado de recordações. Umas saborosas, outras dolorosas. Um jantar partilhado para tomar decisões sobre quem fica com as crianças nas férias de verão.
Uma narrativa crua, que põe a nu as fragilidades e o quão complexas são as relações humanas.
Gaetano e Delia são dois jovens cujas vidas casualmente se cruzam. Ele é aquele jovem que não sabe bem o que esperar, o que desejar do futuro. Escrevinha alguns textos e aspira que os mesmos lhe abram as portas desse futuro que se assemelha longínquo. Ela aproveita-se de uma adolescência carregada de transtornos alimentares para ganhar o seu sustento como nutricionista. Ambiciona viajar, saber mais para assim conhecer melhor os outros e a si mesma. Os dois são o oposto um do outro, mas o amor que cresce entre eles esbate essas diferenças, torna-as mais saborosas. A avalanche de emoções que lhes enche o peito faz com que o resto do mundo pouco importe. É essencial que se toquem, que se percam um no outro, que Gaetano se perca na boca de Delia, nos seus dentes roídos pelo ácido de anos e anos de anorexia e bulimia e que Delia se perca com o olhar nas feições assimétricas de Gaetano.
Rapidamente decidem viver juntos num apartamento minúsculo mas que não consegue aprisionar aquele amor infinito que os liga dessa forma tão especial, que permite a Gaetano olhar Delia e saber o que ela está a pensar, sentir-se orgulhoso e feliz por ela o ter escolhido a ele, a ele tão necessitado de afeto e de atenção.
         Como pôde então um amor destes terminar? Como consentiram eles que o seu casamento findasse em insultos, discussões por ninharias, críticas, indiferença e em olhares onde antes havia amor e agora há ódio, incredulidade e até asco?
         É aqui que Mazzantini revela, uma vez mais, a sua mestria, o seu perfeito conhecimento do carácter humano, daquilo que realmente nos define enquanto homem e mulher que estão em constante busca de afetos e que os perdem por egoísmo, por saturação e por outros motivos mais ou menos obscuros.
         É extremamente difícil manter um casamento feliz. Não um daqueles casamentos em que ele e ela se mantêm juntos por comodismo, pelos filhos, por razões religiosas ou por um número infinito de outras justificações. Refiro-me a um casamento em que olhamos para o nosso companheiro e continuamos a sentir vontade de afagar-lhe o rosto, de encostarmo-nos ao seu peito e receber aquele abraço reconfortante, partilhar risos, olhares de entendimento, angústias, pensamentos, emoções, enfim de partilhar com ele a nossa rotina, a nossa vida. Gaetano e Delia mostram-nos que, por muito que nos amemos, toda essa partilha, toda essa fusão podem dissipar-se sem que muitas vezes nos demos conta. Quando o fazemos já é demasiado tarde e o que resta é doloroso.
         Os restos, as obras do casamento de Gaetano e Delia amontoam-se como trapos dos quais nos queremos desfazer o mais rápido possível. Delia não suporta olhar para aquelas feições assimétricas de Gaetano que tanto amava sem agora sentir aquela sensação de asco que infalivelmente nos acomete quando já nenhum afeto (a não ser ódio ou indiferença) nos liga à outra pessoa. Gaetano faz aquilo que havia prometido nunca fazer – inicia uma relação adúltera que sabe não ter qualquer futuro mas que lhe dá aquilo que já não encontra em casa – a ser-se amado. Os filhos que têm são vistos como empecilhos, como culpados da quebra da tal união perfeita que havia entre os pais. A casa é uma amarga recordação de um passado que já não volta e de um presente onde impera a amargura e sobretudo a solidão. Ou seja, o conto de fadas não termina com o tradicional “Viveram felizes para sempre”. A realidade, o desfolhar do dia-a-dia não o permitem. Nós não o permitimos.
Como referi no início, a narrativa desta magnífica obra de Mazzantini desenrola-se numa noite, mais propriamente durante as horas em que Gaetano e Delia estão sentados frente a frente e tentam ter uma conversa civilizada sobretudo sobre como lidarão com a partilha dos filhos nas férias do verão. O diálogo que entabulam é então o suporte da obra, o que nos possibilita conhecê-los intimamente e compreender aquilo que na verdade os determina – estamos perante duas pessoas que se amaram muito e de cujo amor apenas sobrou ressentimento, dor e sobretudo solidão. Uma solidão que se agudiza perante recordações que lhes veem à memória, perante o exemplo de um casal mais velho que janta perto deles e que partilha gestos de carinho dos quais Gae e Delia já desconhecem o sabor, perante traços familiares do outro e que já não lhes pertencem. Uma solidão que dói e que, por muito magoados que estejamos, queremos que desapareça, nem que seja por um punhado de tempo. Porque a busca do amor, dos afetos teimosamente continua aí…
Nadie se salva solo é assim mais uma obra intensa, que me perturbou, que me deixou atarantada e ao mesmo tempo mais consciente do que nunca do quanto as emoções são a nossa vida. É mais do que óbvio que recomendo a sua leitura, mesmo avisando de antemão de que é um romance sofrido, difícil, doído. Como a vida o é frequentemente.
Não posso terminar esta opinião sem referir que esta música dos U2 (ainda gosto mais de ti, Mazzantini, por juntares as tuas palavras às de uma canção da maior banda do mundo) está muito presente na obra:



NOTA – 09/10



         Sinopse
         Delia y Gaetano eran pareja. Ya no lo son, y han de aprender a asumirlo. Desean vivir tranquilos pero, al mismo tiempo, les inquieta y seduce lo desconocido. ¿En qué se equivocaron? No lo saben. La pasión del comienzo y la rabia del final están todavía demasiado cercanas. En una época en la que parece que ya está todo dicho, sus palabras y silencios dejan al desnudo sus soledades, sus urgencias, sus recuerdos, y provocan brillos imprevistos al poner en escena, una noche de verano, el viaje del amor al desamor.

Aclamada por la crítica y los lectores, Nadie se salva solo es una de las grandes novelas de la literatura italiana actual: la conmovedora historia de una pareja contemporánea.

El lápiz del carpintero, de Manuel Rivas

Segunda-feira, 22 de junho de 2015




Opinião
Manuel Rivas é um escritor galego cuja obra “¿Qué me quieres amor?” já me faz companhia desde que comecei a dar aulas de espanhol, desde que tive o privilégio de partilhar com os meus alunos o filme “La lengua de las mariposas”, cujo argumento é uma extraordinária e tocante adaptação dos vários contos que compõem a referida obra.
A beleza e intensidade dramática do filme não deixam ninguém indiferente e a emoção que sempre sinto quando assisto ao desabrochar da maravilhosa amizade entre Moncho e Don Gregorio impulsionaram-me a saber mais sobre Manuel Rivas e as obras que já publicou e consequentemente a comprar uma delas.
Comprei El Lápiz del Carpintero numa das frequentes viagens que faço à Galiza. Achei que fazia todo o sentido, sendo Manuel Rivas galego, comprar algo escrito por ele na sua comunidade natal J
He aprendido más de la guerra civil española leyendo El Lápiz del Carpintero, de Manuel Rivas, que en todos los libros de Historia.”
Günter Grass
O tema central da obra é realmente a guerra civil. Mais uma vez este conflito põe de um lado os ditos “rojos”, defensores da segunda república espanhola, e do outro os que se afiguram como representantes da máquina ditatorial encabeçada por “El Caudillo”. Voltamos a entrar em alguns estabelecimentos prisionais onde os inimigos do “Generalísimo” e de uma Espanha devota e católica esperam por uma morte certa ou por uma vida inteira atrás das grades. Voltamos a contactar com guardas que tudo escutam, que se movimentam como sombras, que sentem prazer em torturar e matar homens com quem possivelmente conviveram em crianças ou em outras idades. Voltamos a contactar com homens que, por defenderem ideologias que não vão ao encontro das dos que têm armas mais poderosas, se veem confinados atrás das grades, tentando não perder a autoestima, a dignidade, o brio, aquilo que os diferenciam dos simples animais.
Herbal é um desses guardas. Homem simples, quase analfabeto, proveniente de uma família de poucas posses vê-se, com a vitória do general Franco, numa posição de poder que lhe possibilita vigiar, espiar, atemorizar, torturar e inclusive matar quem está do outro lado das grades. Fá-lo com Francisco Miguel, “El pintor” e com o doutor Daniel Da Barca. Ao primeiro, mata-o num dos muito frequentes fuzilamentos que caracterizaram o pós-guerra. Ao segundo, espia e vigia não só porque Da Barca é considerado um inimigo muito perigoso mas também porque é aquele por quem Marisa Mallo se perdeu de amores, aquele por quem a mulher que Herbal ama desde sempre está decidida a esperar, passe ele o tempo que passe na prisão.
Francisco Miguel e Daniel Da Barca são dois desses “rojos” que, por defenderem as suas ideologias políticas, caíram nas mãos de guardas como Herbal e perderam a vida ou muitos anos de vida atrás de grades. “El pintor” tem um desenlace trágico, mas deixa para trás um lápis de carpinteiro que sempre mantinha preso na orelha. Um lápis de carpinteiro que passará a ser usado por Herbal. Um lápis de carpinteiro que todas as vezes que esteja preso na orelha do guarda lhe possibilitará “conversar” com “el pintor” e travará os ataques de ansiedade que o acometem frequentemente. Um lápis de carpinteiro que simboliza o seu lado mais humano, a sua consciência. Um lápis de carpinteiro que Herbal manterá anos e anos até que “el pintor” ou a sua consciência ou o seu lado mais humano o aconselham a oferecer a alguém mais jovem e carente de uma vida melhor.
El lápiz del carpintero é também a história de um grande amor. Um amor que sobrevive a dias infinitos de separação, de vidas sofridas, de obstáculos quase intransponíveis e que apenas perece quando a morte vem e leva um dos seus protagonistas. É ainda um hino à Galiza, ao seu tempo húmido, chuvoso, ao seu idioma, aos seus mitos e superstições e ao seu acercamento ao norte do nosso país, a uma zona com características tão similares às suas e da qual apenas está separada por uma fronteira meramente política.
Por fim, El lápiz del carpintero é uma obra que me encantou em fragmentos de grande beleza literária e ao mesmo tempo me dececionou um pouco noutros. Os constantes diálogos entre Herbal e a voz fantasma de “El pintor” buliram com o meu lado cético e considero que o capítulo inicial parece estar desajustado em relação aos restantes já que apenas serviu para contextualizar a grande analepse que suporta a trama da obra e nada mais, ou seja, o jornalista que vai entrevistar Daniel Da Barca nas primeiras páginas apenas será mencionado novamente no final da obra, de forma muito vaga e sem alusão alguma à referida entrevista.
É assim uma obra que recomendo, mas que não recomendo como aquela que mais ensine sobre a guerra civil espanhola. As de Almudena Grandes são muito mais didáticas e prendem-nos por esses motivos e muitos mais J
Termino esta opinião da mesma maneira que a comecei – com o trailer (em inglês...) desse filme magnífico que é La lengua de las mariposas e que me faz querer ainda ler a obra de Manuel Rivas da qual se adaptou o seu argumento J



NOTA – 08/10

Sinopse

En la cárcel de Santiago de Compostela, en plena Guerra Civil, un pintor dibuja el Pórtico de la Gloria con un lápiz de carpintero, reflejando los rostros... y aún más, la desesperación de sus compañeros de presidio. Un guardián su futuro asesino., lo observa todo. A partir de esta escena, el Lápiz de Manuel Rivas hilvana una historia donde el amor logra vencer a la desesperación.

Primavera con una esquina rota, de Mario Benedetti

Sexta-feira, 19 de junho de 2015





Opinião
Primavera con una esquina rota confirmou o que já era uma verdade incontornável – tendo lido apenas duas das suas obras, Mario Benedetti entra definitivamente para a categoria dos meus autores favoritos.
A explosão de emoções que havia saboreado com a leitura de A trégua voltou a avassalar-me e eu não ofereci resistência alguma. Como poderia fazê-lo perante uma obra a que dei o tratamento especial que apenas dou àquelas que me fazem mais e mais render-me incondicionalmente à leitura?
Li Primavera con una esquina rota devagarinho, saboreando cada página, sublinhando cada detalhe, cada pormenor, acariciando a sua lombada, encostando-o ao peito, enfim, dediquei-lhe a atenção e o carinho que dedico a tudo e a todos que dão aquele significado à minha vida, que me preenchem e me fazem mais feliz. Livros como este de Benedetti são as minhas joias.
Mal o abri, deparei-me com uma surpresa que me fez duvidar do que estava a ler, porque não estava nada à espera de ver a minha língua numa obra uruguaia:
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.”
                                                        Fernando Pessoa
Com o orgulho nos píncaros (sabe tão bem ter mais uma prova do quanto a nossa Literatura é grande!) e com a noção de que Benedetti já me tinha conquistado só com este inesperado pormenor, embrenhei-me numa narrativa que nos chega (tal como O Manual dos Inquisidores, de Lobo Antunes, não é, Nancinha?) dividida pelas diferentes perspetivas das suas personagens principais – cada capítulo tem o seu respetivo título que rapidamente associamos à personagem de Santiago, Graciela, Don Rafael, Beatriz ou Rolando – bem como momentos biográficos (que se diferenciam por estarem escritos em itálico) e que nos fazem acompanhar vivências dos anos de exílio de Benedetti.
A trama desta obra é simples – as personagens principais e inclusive o próprio Benedetti são uns exemplos mais das ditaduras e consequentes exílios que assolaram vários países da América Latina nas décadas de 60, 70 e 80. Santiago personifica os milhares de presos políticos que encheram as prisões do Uruguai, Chile, Argentina, Peru…; Graciela, sua mulher, representa todas as esposas que, de um momento para o outro, se viram sem os seus homens e foram forçadas a viver uma vida de exilada – tanto no seu próprio país ou em terras estrangeiras, afastadas dos seus, obrigadas a sustentar sozinhas uma família e a ser uma “viúva com o marido vivo”, eternamente à espera da sua remota libertação; Beatriz é mais um exemplo de um número incalculável de crianças a quem uns barrotes, muros altos e guardas a mando de uma ditadura repressiva transformam em órfãos de pais vivos; Don Rafael é, tal como o seu filho Santiago, um homem que comparte os ideais de liberdade e justiça para todos, mas que, por isso mesmo, se vê obrigado a deixar o seu país, a sentir a sua falta todos os dias e a tentar não sentir-se estrangeiro na terra que o acolheu; por fim, Rolando é o amigo de toda uma vida de Santiago, mas, como teve a sorte de não ser capturado, sente-se na obrigação de cuidar da família do seu companheiro.
O que faz de Primavera con una esquina rota uma obra inesquecivelmente deliciosa é a forma como Benedetti a conta, como se metamorfoseia em cinco personagens ao mesmo tempo banais e únicas e nos dá a possibilidade de tudo sabermos delas, de sermos os destinatários dos seus pensamentos, das suas esperanças, dos seus medos, das suas dúvidas, enfim de os conhecermos como ninguém.
Mario Benedetti é sobretudo conhecido internacionalmente pela sua obra poética, bem mais vasta que a sua obra de prosa. Contudo, esse lado poético encontra-se bem vincado nos dois romances que já tive o prazer de ler. O seu estilo é intimista, ternurento, com uma linguagem simples, comovente mas tão “certeira” e assim ideal para retratar não só uma época dolorida do seu país como também o que pauta os complexos relacionamentos humanos.
Provavelmente estarei a repetir-me ao afirmar que amo Benedetti e que não descansarei enquanto não ler todos os seus romances. Já com A Trégua havia sentido esta avalanche de emoções (que apenas experimento com uma grande e inolvidável obra) e agora, acompanhando o dia-a-dia de Santiago, Graciela, Beatriz, Don Rafael e Rolando, voltei a sentir esse alvoroço de sentimentos.
Resta-me referir que a genialidade de Benedetti está ainda presente na forma como construiu as personagens, sobretudo a pequena Beatriz, cujas atitudes, ideias e discurso são realmente típicas de uma criança, com “tiradas” inocentes e ao mesmo tempo assombrosas que nos deixam, a nós adultos, pasmados e maravilhados com a sua inteligência e perspicácia J
Tenho assim, por tudo o que referi (e muito do que ficou por dizer, pois sinto que este texto não transmite por completo o quanto Primavera con una esquina rota mexeu com todas as fibras do meu ser), dar nota máxima a esta leitura e recomendá-la vivamente!

NOTA – 10/10

Sinopse

Primavera con una esquina rota es un testimonio directo y dolorido que trata de una sociedad escindida, fracturada por la represión y el autoritarismo, e intenta ser un puente entre dos regiones –el Uruguay bajo la dictadura y el Uruguay del exilio– que constituyen un solo y lacerado país. Más allá de los acontecimientos políticos, la novela se centra en la profunda conmoción que éstos provocan en las relaciones humanas de los individuos que los sufren. Como en el resto de su obra, Mario Benedetti combina aquí ternura, denuncia, pasión, amor e Historia para transmitir al lector un mensaje de esperanza: la primavera, aunque mutilada, relevará por fin a un invierno que se anunciaba inacabable.

Saramago...

Quinta-feira, 18 de junho de 2015





Continuo a sentir tanto a tua falta...
Continuo a tentar minimizar essa falta, lendo-te uma vez e outra vez e outra vez... Surpreendo-me sempre com a tua forma única de interpretar o mundo, de ver e reparar nas coisas, e não paro de deliciar-me com as histórias mirabolantes mas tão certeiramente agudas que só a tua genialidade conseguia construir... 
Infelizmente a morte impediu que continuasses a brindar-nos com mais exemplos dessa genialidade, mas não te calou, porque todas as vezes que os teus leitores peguem numa das tuas obras e mergulhem nas suas histórias irão (re)descobrir-te, irão homenagear-te e sobretudo irão fazer-te fazer falar de novo, irão fazer-te viver. 
Como diz Valter Hugo Mãe:
"passam hoje cinco anos desde o dia em que saramago virou monumento eterno de portugal. nenhum tempo será suficiente para menorizar o tamanho da sua importância. continuar a ler o que escreveu é uma graça que concedeu à vida. a morte não sabe destruir isso."



No me cuentes tu vida, de Luis García Montero

Domingo, 14 de abril de 2015





Opinião
       “(…) tengo la impresión de que para salir de esta crisis necesitaremos más a los abuelos que a los jóvenes, o por lo menos necesitaremos que los jóvenes hablen con sus abuelos, conozcan su experiencia, aprendan a levantar un poco la voz y se acostumbren a luchar como ellos.(pág. 270)
Creio que este excerto é muito pertinente para compreendermos a obra que acabei de ler há poucos minutos. Foi a minha estreia no mundo literário de Luis García Montero, uma estreia bastante esperada, mas que, para ser sincera, me desiludiu um pouco.
No me cuentes tu vida é um chavão que recorrentemente ouvimos sair da boca dos filhos quando os seus pais tentam abordar algum tema, socorrendo-se da sua experiência, de episódios da sua vida e fazendo as inevitáveis comparações e retirando delas as também inevitáveis conclusões. Esse mecanismo de defesa e de rebeldia é perfeitamente compreensível e fez parte de muitas das discussões mais acesas que mantive com a minha querida mamã.
Ramón tem vinte e três anos e é o reflexo de muitos jovens de hoje em dia. Recém-licenciado, continua a viver em casa dos pais, mergulhando as suas horas em três ecrãs de computador e sem mostrar indícios de querer mudar essa rotina. Contudo, a chegada de Mariana vem dar um “basta” em tudo isto, sem, no entanto, conseguir quebrar o distanciamento que afasta cada vez mais Ramón do seu progenitor, Juan Montenegro, um homem que se autointitula de neurótico e que tenta a todo o custo dialogar com o filho, conhecê-lo melhor e dar-se a conhecer.
Como esses diálogos não parecem estar a surtir o efeito desejado, como os silêncios e os momentos constrangedores começam a amontoar-se, Juan aproveita um caderno que lhe é oferecido e decide escrever aí a sua história, anotar os seus pensamentos, as suas recordações, as suas perspetivas, o modo como vê e sente a vida, enfim, tudo aquilo que sempre quis partilhar consigo mesmo e sobretudo com o seu filho. Conta-lhe episódios da sua infância, da sua juventude, de como conheceu Lola, a atual esposa e mãe de Ramón, e dá-nos assim pinceladas de três épocas distintas mas interligadas – a da Espanha franquista e a de muitos exilados na Roménia, a dos anos 80, a chamada de Transição e finalmente a que nos está mais próxima e é mais global – a de um presente mergulhado numa crise económica e de valores e que apenas garante incerteza e angústia…
Ora, convém dizer neste momento que, como podem comprovar pela “wishlist” que está na primeira página do blogue, Luis García Montero era (e é) um dos autores que mais desejo tinha de conhecer, não só porque é marido da minha Almudena Grandes, mas sobretudo porque o que já havia lido sobre ele e algumas das suas obras, me interessava sobremaneira. Sendo assim, não hesitei quando, em dezembro, dentro de um dos meus espaços de eleição (a livraria “Casa del Libro” em Vigo), me deparei com No me cuentes tu vida nas mãos. A sinopse dizia tudo García Montero nos ofrece la historia de tres generaciones; la que sufrió el exilio tras la guerra, la que protagonizó la Transición y, finalmente, la de los que se enfrentan a un futuro incierto a causa de la crisis.Seis meses depois, custa-me admitir que as 459 páginas da sua narrativa tornam-se bastantes vezes algo repetitivas, maçudas. Os assuntos que a suportam (as referidas três gerações) são, no meu ponto de vista, demasiado mastigados, o que faz com que a trama (onde também não abundam os diálogos) não avance, se assemelhe a um novelo que parece não ter fim…
Contudo, nem tudo é negativo. Tenho que admitir que o estilo do autor é cativante, que a sua linguagem é própria de alguém com antecedentes poéticos (García Montero é sobretudo conhecido como poeta) e que as inquietudes, as dúvidas, as opiniões, as experiências de vida de Juan Montenegro são muito pertinentes, sobretudo aquelas que apontam para o caminho que é mencionado no excerto que abre esta opinião – o distanciamento entre gerações resultante de momentos e experiências díspares só agravará a crise que estamos vivendo e não está a trazer nem trará nada de positivo para ninguém. Há que aproveitar a experiência, o saber e os ensinamentos dos mais velhos para que a luta, a batalha contra a estagnação e a perda de valores que caracterizam o presente ganhe com isso. Mas também é necessário compreender que os ideais que regiam os batalhadores do passado terão que adaptar-se aos tempos e aos modos de ver a vida dos tempos que correm.
Resumindo, a minha estreia no mundo literário de García Montero não cumpriu plenamente as expetativas. Contudo, isso não significa que não voltarei a tentar e não siga com vontade de ler a obra dele que tenho na “wishlist” – Alguien dice tu nombre.
Resta-me dizer que em casa dos García Montero/Grandes, ela (Almudena Grandes) escreve bem melhor J

NOTA – 07/10

Sinopse
«No me cuentes tu vida», una frase con que los jóvenes han callado a sus padres cuando éstos trataban de aportarles su experiencia. Ramón, un joven de veintitrés años, se enamora de Mariana, la joven rumana que trabaja para su familia. Tras descubrir la sorprendente relación, Juan, el padre de Ramón, decide escribir su hist oria para encontrar en el pasado un punto de unión con el presente. García Montero nos ofrece la historia de tres generaciones; la que sufrió el exilio tras la guerra, la que protagonizó la transición y, finalmente, la de los que se enfrentan a un futuro incierto a causa de la crisis. Un canto a la memoria y al amor que refleja los confusos tiempos que nos ha tocado vivir.

Jerusalém, de Mia Couto

Segunda-feira, 26 de maio de 2014




Opinião
Com a leitura de Jerusalém, entrei no mundo de Mia Couto e dele já não saio mais!!!
É a história de quatro homens (um pai, dois filhos e um capataz), que se refugiam numa antiga coutada de caça, em fuga da cidade e de um passado demasiado presente. É ainda e sobretudo a história de Mwanito, o filho mais novo e narrador da obra, que apenas conhece o mundo de Jerusalém e que nada sabe do que se passa no mundo do “lado de lá” e que sofre por nunca ter conhecido a mãe. São dele as palavras que me conquistaram, logo no início da narrativa – “A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas.” (pág. 13)
Ora não preciso de dizer que, como mulher e como mãe, me rendi de imediato a esta declaração e nunca mais me deixei de sentir cativada pela beleza de tudo o que nos é contado por Mwanito, do princípio ao fim da obra.
O estilo de Mia Couto é belíssimo, poético e tão poderoso que nos faz identificar com tudo o que lemos, inclusive se a realidade da história nos parece um pouco louca e fora do que supostamente é normal!...
Agradeço do fundo do coração ao meu pai por me ter oferecido esta maravilhosa obra de Mia Couto e a possibilidade de assim conhecer uma das vozes mais arrebatadoras do panorama literário da língua portuguesa!
Aqui ficam algumas das passagens que sublinhei:
A escrita me devolvia o rosto perdido de minha mãe.” (pág. 46)
Mulheres são como ilhas: sempre longe, mas ofuscando todo o mar em redor.” (pág. 60)
Os mortos não morrem quando deixam de viver, mas quando os votamos ao esquecimento.” (pág. 63)
Cada dia é uma folha que tu rasgas, sou o papel que espera pela tua mão, sou a letra que aguarda pelo afago dos teus olhos.” (pág. 138)
Só agora entendi que a sedução mora em outro lugar. Talvez no olhar.” (pág. 144)
Cada um de nós foi uma mentira, mas nós os dois fomos verdade.” (pág. 194)

NOTA – 09/10

Sinopse
Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.

Jesusalém é seguramente a mais madura e mais conseguida obra de um escritor em plena posse das suas capacidades criativas. Aliando uma narrativa a um tempo complexa e aliciante ao seu estilo poético tão pessoal, Mia Couto confirma o lugar cimeiro de que goza nas literaturas de língua portuguesa. A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado, diz um dos protagonistas deste romance. A prosa mágica do escritor moçambicano ajuda, certamente, a reencantar este nosso mundo.

Balanço mensal - livros adquiridos e lidos em maio

Quinta-feira, 04 de junho de 2015






O balanço (que faço com alguns dias de atraso, mas o trabalho assim o obriga…) do mês de maio foi bastante positivo. Consegui controlar os gastos e só comprei dois livrinhos – um que estava já há bastante tempo na minha wishlist e outro para o meu maridinho. Fui assim altruísta não só porque ele também merece o miminho como evitei dessa forma ficar com a consciência tão pesada J
Para além dessas duas aquisições, outra deliciosa obra já mora na nossa estante desde o dia da mãe! Como já é tradição, os meus dois homens mostraram o quanto adoram mimar-me e “lá se viram forçados” a oferecer-me mais um livro J, neste caso a última obra de João Tordo – O luto de Elias Gro – que anseio com todas as minhas forças de “livrólica” que me encha as medidas quanto me encheu a Biografia involuntária dos amantes!
Em meados do mês, aproveitei mais uma vez as frequentes promoções que a Bertrand faz e encomendei Nada, de Carmen Laforet e A Beleza e a Dor da Guerra, de Peter Englund. A primeira aborda a sociedade espanhola do pós-guerra e da ocupação franquista da cidade de Barcelona. Foi-me recomendada pela minha querida cúmplice de livros – Ana Sofia – e estou segura de que me arrebatará e dará finalmente ao meu maridinho a perfeita oportunidade de ler algo sobre a Guerra Civil espanhola e a ditadura franquista. Já a segunda figurava há uns bons meses na wishlist do N. (ele já nem se lembrava de a ter apontado!...) e está composta por um “brilhante mosaico de perspetivas que reconstrói sentimentos, impressões, experiências e flutuações de humor de vinte pessoas (…), deixando-as falar não apenas por si próprias, mas também por todos aqueles que foram de alguma forma moldados [pela Primeira Grande Guerra], mas cujas vozes foram esquecidas e ignoradas, ou simplesmente não se fizeram ouvir.” Resumindo, mais dois volumes que abordam a temática da guerra. Que chatice J
No que diz respeito às leituras terminadas em maio, tenho que afirmar que estou um pouco espantada comigo mesma, porque, apesar do trabalho ter sido duro e me ter consumido horas preciosas de vida, consegui “papar” seis leituras J e dessa forma manter o ritmo mensal de livros lidos!

Deixo-vos aqui a lista de livros lidos em maio:

Vamos juntos ver mais longe, de Anny Duperey
 Até nos vermos lá em cima, de Pierre Lemaitre
Mulherzinhas, de Louise May Alcott
A bibliotecária de Auschwitz, de Antonio Iturbe




A bibliotecária de Auschwitz, de Antonio G. Iturbe

Domingo, 31 de maio de 2015




Opinião
“… que se trata de mais do que uma guerra de fronteiras, que se está a exterminar uma raça.” (pág. 296)
Este fragmento da obra que terminei de ler resume na perfeição o porquê de tanto eu como o meu maridinho preferirmos ler livros que abordam a Segunda Grande Guerra do que a sua antecessora.
Comentei há pouco tempo num blogue que vou seguindo (a propósito da obra O último judeu) que a relação que mantenho com tudo o que se relaciona com esta temática é um tudo ou nada obsessiva, uma mistura de amor e ódio. É indescritível o quanto sofro com o que já li e vou lendo sobre as macabras e desumanas atrocidades nazis, mas ao mesmo tempo, não consigo (e nem quero…) resistir a comprar, a pedir emprestado, a reler qualquer obra que as retrate. Por muito sofredora, traumatizante e dolorosa que seja, a guerra (e sobretudo a de 39 – 45) é igualmente apaixonante, cativante, sedutora e por tudo isso uma das minhas temáticas favoritas.
Ofereci A Bibliotecária de Auschwitz como prenda de Natal ao meu maridinho (sim, ainda ando a ler livros que chegaram às nossas estantes nessa festividade), mas foi uma daquelas prendas que é, por assim dizer, um “2 em 1” – tanto faria as suas delícias como as minhas J. É claro que ele a leu primeiro (não tem as minhas manias de ler tudo por ordem cronológica de chegada aqui a casa) e logo me advertiu que, quando a lesse, teria que estar sempre munida do pacote de lenços de papel… Não estranhei a advertência, não só porque choro com muita facilidade como também sabia de antemão que a relação “Auschwitz – extermínio – condições desumanas – mortes aos milhares” produziria essas consequências “lacrimais”. Contudo, é com muita satisfação que digo que apenas chorei uma vez e sei que isso se deve a alguma mestria do autor.
Antonio G. Iturbe faz-nos chegar uma história baseada em factos e personagens verídicas. Conta-nos assim o percurso de uma adolescente judia que, desde o início da guerra até ao seu final, vivenciou experiências pungentes, terríveis, que a fizeram deixar a sua Praga natal, a transportaram desde o gueto de Terezín até ao campo de Auschwitz e por fim a levaram ao campo de Bergen Belsen, onde foi finalmente libertada pelas tropas aliadas. Foi um percurso atroz, mas que não a quebrou, que nunca conseguiu fazê-la sucumbir, que não lhe amputou as forças, a teimosia, a determinação, o fogo que transmitia o seu olhar.
As bestas nazis não conseguiram vergar Dita Adlerova porque esta menina de catorze anos estava rodeada de seus pais, de um punhado de adultos resilientes e de oito livros. Oito livros que milagrosamente chegaram a Auschwitz, passaram por todas as rondas diárias e estavam à disposição das crianças do Bloco 31, instalado no campo BIIb, a que chamam “campo familiar”.
Podemos considerar este “campo familiar” um oásis na máquina de extermínio que era Auschwitz. Aí, deixavam que as crianças vivessem, não lhes rapavam o cabelo e tinham uma rotina que, para os nazis, era mais do que os descendentes dos “porcos judeus e das cadelas judias” tinham direito. Sendo assim, no Bloco 31 funcionava o mais semelhante a uma escola, com alguns adultos que se disponibilizavam a transmitir ensinamentos aos petizes e a organizar com eles alguns eventos festivos, inclusive para celebrar datas importantes do calendário judeu. Enfim… Uma fachada para tapar os olhos dos enviados de organizações como a Cruz Vermelha Internacional e dessa forma abafar os boatos das atrocidades que estavam a ser cometidas em vários campos de concentração situados na Polónia.
Dita Adlerova tinha uma função vital no Bloco 31. Era a sua bibliotecária, a guardiã do seu mais precioso tesouro – os já referidos oito livros que ela, todos os dias, retirava do esconderijo, escondia nuns bolsos (feitos de propósito) debaixo do vestido e punha à disposição dos utentes da escola. Um atlas, um tratado de Geometria, um romance e uma gramática russos, um livro de Freud, O Conde de Montecristo (em francês), Uma Breve História do Mundo e As aventuras do Bravo Soldado Sveijk. A todos Dita trata como a um velho e estimado amigo – “Abraça o monte de folhas como abraçaria um velho amigo. Cola com um pouco de goma-arábica algumas lombadas mais estragadas. Limpa com um pano e saliva uma capa suja pela terra do esconderijo. Trata as feridas (…). Quando já não pode fazer mais nada para repará-los, passa a mão pelas páginas para alisar os vincos. Mais do que alisá-las, acaricia-as.” (págs. 319, 320)
Nunca conseguirei imaginar o que na realidade Dita sofreu com os horrores da guerra. Mas consigo perfeitamente imaginar e até compreender o prazer, o orgulho e a intrepidez que o seu cargo, o constante contacto com os livros, as histórias que lia, recordava ou ouvia semeavam no seu carácter já indomável e destemido. Porque os livros têm esse poder. A leitura tem esse poder. “Tinha subido para o comboio da leitura. Sentiu nessa noite a emoção de uma descoberta, a de saber que não importava quantas barreiras os Reichs do planeta erguessem à sua frente, porque se abrisse um livro poderia passá-las todas.” (pág. 95)
Por tudo o que escrevi até agora, é muito fácil adivinhar o quanto esta obra me empolgou e cativou. Não só o autor nos dá a conhecer mais um relato de uma extraordinária sobrevivente da maior e mais mortífera máquina de extermínio como o faz com uma linguagem direta, sem floreados, mas onde os pormenores mais macabros e mais angustiantes nos chegam de forma suave, pouco detalhada e entrelaçados com outros polvilhados da alegria e rotina possíveis num campo de morte. Aliado a isto, estão os livros, esses milagrosos livros que também sobrevivem ao extermínio nazi e permitem que Dita e outros valerosos judeus lutem até ao fim, não se rendendo, nem que isso lhes custe a vida.
Termino esta opinião que já vai longa com uma passagem que sublinha o quão “perigosos e subversivos” podem ser os meus queridos livros:
Ao longo da história, todos os ditadores, tiranos e opressores, fossem arianos, negros, orientais, árabes ou eslavos, fosse qual fosse a cor da sua pele, quer defendessem a revolução popular, os privilégios dos ricos, o primado de Deus ou a disciplina sumária dos militares, fosse qual fosse a sua ideologia, tiveram uma coisa em comum: todos, sem exceção, perseguiram os livros com uma sanha feroz. Os livros são perigosos, fazem pensar.” (pág. 15)
Deixo também uma foto da “verdadeira Dita Adlerova” – Dita Kraus






NOTA – 09/10


Sinopse
Auschwitz-Birkenau, o campo do horror, infernal, o mais mortífero e implacável. E uma jovem que teima em devolver a esperança. Sobre a lama negra de Auschwitz, que tudo engole, Fredy Hirsch ergueu uma escola. Num lugar onde os livros são proibidos, a jovem Dita esconde debaixo do vestido os frágeis volumes da biblioteca pública mais pequena, recôndita e clandestina que jamais existiu. No meio do horror, Dita dá-nos uma maravilhosa lição de coragem: não se rende e nunca perde a vontade de viver nem de ler porque, mesmo naquele terrível campo de extermínio nazi, «abrir um livro é como entrar para um comboio que nos leva de férias».