Os anagramas de Varsóvia, de Richard Zimler


Ficha técnica
Título – Os anagramas de Varsóvia
Autor – Richard Zimler
Editora – Porto Editora
Páginas – 351
Datas de leitura – de 21 a 27 de abril de 2016


Opinião

“… nunca podemos voltar ao Tempo Anterior.” (pág. 328)

O mundo nunca mais pôde voltar ao tempo anterior a 01 de setembro de 1939. Tal como nunca mais havia podido voltar ao tempo anterior aos trágicos anos que mediaram a Primeira Grande Guerra. Tal como não pode voltar mais a qualquer tempo anterior a qualquer guerra.
O conflito, a carnificina bélica têm esse efeito. Nenhum mundo lhe fica imune. E tão pouco eu, como leitora, fico imune a todos os relatos (ficcionados ou não) que passam pelas minhas mãos e me permitem conhecer, saber mais sobre os horrores praticados em nome de um Deus, de uma raça, de uma crença política ou de algo mais que assuma suprema importância a um punhado de seres a quem não consigo apelidar de humanos…
Quando tenho nas mãos um livro sobre a Segunda Grande Guerra (à qual devoto uma obsessão um pouco doentia), procuro sempre que as suas páginas contenham uma narrativa que me agrida, que me sove com descrições de atos e pensamentos macabros, tortuosos, combinadas com outras de ações e reflexões heroicas, destemidas e que me fazem sentir orgulhosa de pertencer à raça humana. Tudo isso encontrei em Os anagramas de Varsóvia – estamos no ano de 1941 e percorremos as ruas do gueto da capital polaca, entramos nas casas cada vez mais delapidadas dos judeus encerrados por detrás dos muros “dessa cidade dentro de outra cidade” e contactamos com o seu dia-a-dia de medo, de fome, de perda daquilo que sustenta a dignidade de qualquer humano. Vivemos predominantemente no apartamento de Stefa, que o partilha com o seu filho Adam e o seu tio, um respeitável psiquiatra de seu nome Erik Cohen. Criamos afinidade com um outro punhado de personagens, como o grande amigo de Erik, Izzy, e com vizinhos que dão alguma cor e sensação de normalidade a uma vida confinada por detrás dos referidos muros do gueto e que se nos afigura como uma existência inimaginável nos dias de hoje (ou que pelo menos se afigurava inimaginável antes de sermos bombardeados por imagens de refugiados que desesperam por uma vida melhor em território europeu…).
Richard Zimler proporcionou-me assim uma viagem à Varsóvia de 1941 (cidade que desejo profundamente conhecer, bem como toda a Polónia), ao seu famigerado gueto e possibilitou-me também criar laços com personagens cativantes e vivas, de carne e osso, com os seus momentos de desespero, dor, incompreensão, aliados a instantes de humor, cumplicidade e fraternidade. Obrigou-me ainda a arrepiar-me e encolher-me perante atos macabros, atrozes e de uma perversidade refinada a que nos acostumaram os nazis. Chocou-me por fim com o quanto o medo irracional despoleta os instintos mais básicos e cobardes e leva a que um ser humano ponha em perigo a vida de outro só para salvar a sua ou a dos seus entes queridos. Enfim, Richard Zimler mostrou-me todas as faces da guerra, de uma guerra inigualável. E por aí conquistou-me, conquistou uma leitora.
Contudo, não consigo afirmar que me tenha conquistado por inteiro. Conquistou-me com o seu estilo a que me atrevo a apelidar de suave, vincado, mas sem muitos laivos de linguagem dura e crua, que dá predominância ao lado emocional e meditativo das personagens. Conquistou-me com reflexões que sublinhei por serem tão assertivas e com uma perspetiva muito fidedigna do viver no gueto de Varsóvia, da gente que o habitava e que punha ainda mais a sua vida em perigo tentando atravessar os muros e tentar a sua sorte do outro lado, do lado cristão. Conquistou-me, como já referi, com o cuidado que pôs na construção de personagens fascinantes e “reais”. Mas não me conquistou com o que sustenta o fio condutor da narrativa – o regresso do mundo dos mortos do protagonista que confidencia, ao único ser humano que o consegue ver, os últimos meses da sua vida, desde a entrada no gueto até à sua morte nas mãos dos nazis. Também não me conquistou todo o périplo investigativo em torno das mortes estranhas de crianças e que dois velhotes, de quase setenta anos, levaram a cabo. Achei-o algo forçado.
Tenho, no entanto que reconhecer que, apesar de tudo, foi uma leitura muito interessante e que cumpriu os propósitos – não posso considerá-la uma das melhores obras que já li sobre o Holocausto e o extermínio dos judeus, mas aguçou ainda mais a vontade que sinto em conhecer Varsóvia e outros locais da Polónia e ofereceu-me mais uma perspetiva de um tempo, de uma época, de uma guerra, de um conflito que não param de fascinar-me.
Por fim, deixo algumas passagens que sublinhei:
“… o futuro em polaco e alemão parecia ter deixado de ser um tempo conjugável pelos judeus.” (pág. 33)
Queria estar num sítio onde ninguém tivesse ouvido falar alemão”. (pág. 189)
Todos nós queremos ser escutados – para sentir que somos importantes. Queremos poder contar a história da nossa vida sem sermos interrompidos ou julgados, ou sem que nos peçam para passar ao que importa.” (pág. 329)

NOTA – 08/10


Sinopse

Polónia, ano de 1940. Os nazis isolam milhares de judeus num pequeno gueto em Varsóvia. Erik Cohen, um velho psiquiatra judeu, vê-se obrigado a partilhar um pequeno apartamento com a sobrinha e o adorado sobrinho-neto de nove anos, Adam. Certo dia, porém, Adam desaparece e o seu corpo, estranhamente mutilado, só é encontrado na manhã seguinte, no arame farpado sobre o muro que rodeia o gueto. Quando um segundo cadáver aparece em circunstâncias muito similares - desta vez o de uma rapariga judia -, Erik e o seu velho amigo Izzy tentam obter respostas, lançando-se numa investigação tão sinistra quanto perigosa. O mistério adensa-se e as dúvidas também. Serão os próprios nazis responsáveis por aquelas mortes ou estará um traidor judeu envolvido nos crimes? Neste thriller histórico comovente e arrepiante, Richard Zimler conduz o leitor aos recantos mais sombrios de Varsóvia, num périplo pela própria alma humana.

A morte do pai - A minha luta (volume 1), de Karl Ove Knausgard


Ficha técnica
Título – A morte do pai – A minha luta (volume 1)
Autor – Karl Ove Knausgard
Editora – Relógio D’Água
Páginas – 377
Datas de leitura – de 16 a 20 de abril de 2016

Opinião
Até meados do passado mês de dezembro, a polémica e consequente visibilidade deste autor norueguês não me tinham feito mossa. Contudo, a azáfama e estratégica “pressão” que livrarias e editoras levam a cabo nessa época pré-natalícia ditaram que eu tropeçasse em algumas opiniões e reportagens sobre o épico propósito que Karl Ove Knausgard quer concretizar – escrever a sua autobiografia em seis volumes com o título de A minha luta.
Confesso que não sou a maior adepta de autobiografias, mas as expressões “escreve sobre a vida com dolorosa honestidade”; “criou uma história universal de lutas, grandes e pequenas, que todos enfrentamos na vida” “um trabalho profundo e hipnotizante” conseguiram que desse realmente atenção a este projeto e comentasse em casa que não me importaria de “adentrar-me” na vida de Karl Ove.
Como o meu maridinho adora fazer-me surpresas e oferecer-me, por exemplo, algum livro que ainda não figure na minha wishlist oficial, presenteou-me no último Natal com o primeiro volume da saga. A ordem cronológica das minhas leituras determinou que só agora o lesse. Fi-lo em cinco dias, mas tenho que admitir que por detrás da rapidez de leitura esteve muita perseverança, encorajamento a mim mesma e constante procura de algo que modificasse aquele pressentimento, aquela sensação que desde o início me segredavam que as 377 páginas que tinha nas mãos não me iriam preencher nem arrebatar, que a descrição da vida com dolorosa honestidade não teriam o efeito pretendido…
Não me deixei abater por essas impressões iniciais. Prossegui com a leitura. Ultrapassei a primeira parte que se debruça ora sobre o presente ora sobre a infância e a adolescência do autor. Penetrei na segunda parte com a esperança de que a narrativa possuísse algo mais, algo que me cativasse. Admito que melhora, que acompanhar a fase mais adulta de Karl Ove nos recompensa de certa forma, mas, mesmo assim, a sensação de que estamos a avançar a duras custas numa leitura maçadora não desaparece totalmente… Sobretudo porque, apesar da qualidade narrativa, que se destaca nas viagens que o autor faz ao interior de si mesmo e ao seu passado, a narração é como que plana, preenchida com imensos detalhes corriqueiros, repetidos e que não mexeram comigo, não provocaram um turbilhão (nem pequenino nem grande) nas minhas emoções nem levaram a que sentisse empatia, solidariedade, desprezo ou asco pelo narrador/protagonista.
Não foi uma leitura em vão. Não. A qualidade da escrita, a profundidade e a honestidade crua que povoam a obra não o permitiriam. Mas também não posso dizer que o prometido no texto da sinopse seja cumprido. Pelo menos para mim, falha. Encontrei a prometida honestidade, profundidade, partilha de lutas grandes e pequenas que fazem de nós seres humanos. Mas encontrei tudo isto aliado a um ritmo lento e maçador, que me levou a prosseguir com a leitura porque sou teimosa, perseverante e sempre estou à espera de que uma narrativa que se prefigura algo dececionante se transforme e me surpreenda.
Concluo dizendo aquilo que se pode adivinhar – ponho sérias reticências na compra dos volumes seguintes… Se os encontrar na biblioteca municipal ou se alguém mos emprestar, talvez faça o esforço de continuar, mas se assim não for, tenho muitas dúvidas em dar mais uma oportunidade a Karl Ove…

NOTA – 06/10

Sinopse
Karl Ove Knausgård escreve sobre a vida com dolorosa honestidade. Escreve sobre a infância e os anos de adolescência, a paixão pelo rock, a relação com a sua afectuosa e algo distante mãe, e o seu pai, sempre imprevisível, cuja morte o desorientou. O álcool e a perda pairam como sombras sobre duas gerações da família.
Quando ele próprio se torna pai, Knausgård tem de encontrar um equilíbrio entre o amor pela família e a determinação em escrever. 

Knausgård criou uma história universal de lutas, grandes e pequenas, que todos enfrentamos na vida. Um trabalho profundo e hipnotizante, escrito como se a própria vida do autor estivesse em risco.
«A Morte do Pai» é o primeiro de seis romances que compõem a obra autobiográfica «A Minha Luta»
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O tímido e as mulheres, de Pepetela


Ficha técnica
Título – O tímido e as mulheres
Autor – Pepetela
Editora – Dom Quixote
Páginas – 301
Datas de leitura – de 10 a 15 de abril de 2016


Opinião
Quando penso em África, o meu olhar não se perde em nostalgias ou com aquele brilho sonhador. Nunca. Talvez já o tenha dito em outras opiniões. África não me seduz e penso que nunca fará. Por muitas razões que não vale a pena esmiuçar.
Contudo, tenho que dar a mão à palmatória e admitir sem qualquer espécie de constrangimento que me vergo perante maravilhosos criadores de “estórias” provenientes das terras quentes, sensuais e ricas do grande continente negro. Entrei sem pejo e com muita curiosidade nos mundos literários de Mia Couto e Agualusa e de lá nunca mais quis sair. Conhecidos, amigos e até o meu pai incitavam-me a conhecer outro nome, pequeno de tamanho, mas que seguramente me iria conquistar com o seu enorme talento e “estórias”, perspetivas e visões de um punhado de terra historicamente tão enraizado ao nosso passado e presente.
O tímido e as mulheres foi-me oferecido no Natal por clara sugestão minha. Lembro-me que estava com a minha mãe a fazer compras num desses grandes supermercados, que, como de costume, parámos na secção dos livros e que me detive na banca das promoções. Vasculhei por entre as opções e dei comigo com o livro de Pepetela nas mãos. Ao ver o meu interesse pela sinopse, a minha querida mamã “arrancou-mo” e colocou-o no carrinho das compras. E assim pude ter o primeiro exemplar da obra de Pepetela na minha estante. O primeiro de muitos, desejo.
O que salta de imediato à vista, à medida que vamos avançando na leitura é que esta se faz com muito agrado, serenamente e que, pelo menos a mim, “obrigou-me” a sublinhar ou a rodear léxico característico do português de Angola, como “desconseguiu”; “birra”; “kumbú”; “bumbar”; “kamba”; “gasosa”; “cachuchos”; “kuribotices” ou “xinguilar” e tentar “traduzi-lo” para o português de Portugal.
Por outro lado, a narrativa desenha-nos um panorama muito atual da Angola e sobretudo da sua capital. Vamos, através da escrita e visão de um conterrâneo, compreendendo como se desenrola o quotidiano de um país, de uma sociedade ainda muito afetada pelo seu passado recente e que tenta buscar uma entidade própria. Vamos assistindo ao crescimento desmesuradamente alucinante de uma capital, à corrupção que impera nos seus principais organismos e ainda, através de um punhado representativo de personagens, conhecendo os seus habitantes, as suas vidas condicionadas pelo pulsar e pela procura de uma identidade nacional, as suas lutas, os seus ideais, os seus sonhos e as suas realidades, enfim, tudo o que dá impulso aos avanços e recuos de uma nação e de um povo.
É óbvio que nunca estive em Luanda ou em Angola, mas senti que viajei até lá com este livro. E não desgostei da viagem, pelo contrário. Senti que o autor me faz percorrer e calcorrear espaços emblemáticos e em contínua expansão da sua capital e principalmente me apresentou o seu povo, a sua amabilidade, a sua perspetiva do passado, do presente e do futuro, as suas tradições (saboreei os almoços de sábado à tarde em casa da dona Luzitu como se fosse um dos convidados) e a beleza sedutora e quente dos seus homens e mulheres.
Sendo assim, Pepetela ganhou por mérito próprio o seu lugar junto dos seus compinchas africanos Mia Couto e Agualusa. É com uma sensação de satisfação que compreendo que me apresentei a outro autor lusófono e que não mais quero deixar de partilhar a minha estante com ele J Estou curiosíssima por ler mais das suas obras e adentrar-me em África, através dos seus autores, das suas obras, das suas “estórias”.
Pepetela recomenda-se. Recomendo-o tal como mo haviam recomendado. Porque vale a pena!
Termino com um pequeno glossário que “traduz” para o nosso português as palavras que registei antes J:
“desconseguiu” – não conseguiu
“birra” – cerveja; fino; imperial
“kumbú” – dinheiro
“bumbar” – trabalhar
“kamba” – amigo
“gasosa” – dinheiro que se dá em troca de um favor
“kuribotices” – fofocas; coscuvilhices
“xinguilar” – cair em transe

NOTA – 08/10

Sinopse
Luanda nos dias de hoje.
Acompanhamos Heitor, um escritor em início de carreira, o tímido. Ouvimos a quente voz de Marisa, responsável por um programa de rádio de grande audiência, que a todos encanta e seduz.
Conhecemos Lucrécio, seu marido, uma mente brilhante aprisionada numa cadeira de rodas.
É este o trio que une as diversas histórias e personagens deste romance. Além dele, encontramos ainda os amigos de Heitor, o Senhor do Dia 13 e os habitantes de um musseque na periferia de Luanda: a grande família de dona Luzitu e, em especial, a bela Orquídea, outra das poderosas mulheres que habitam este livro. Todos eles nos conduzem por uma cidade que fervilha e cresce a um ritmo alucinante, onde os homens se apaixonam, sonham e desesperam, procuram novos caminhos, novas formas de vida e novas soluções.

Com a sua habitual mestria, Pepetela volta a surpreender-nos com este romance, desenhando uma paisagem imparcial e objetiva da atual sociedade angolana, fruto de muitas mutações culturais e políticas derivadas da sua história recente.

O remorso de Baltazar Serapião, de Valter Hugo Mãe


Ficha técnica
Título – O remorso de Baltazar Serapião
Autor – Valter Hugo Mãe
Editora – Porto Editora
Páginas – 278
Datas de leitura – de 05 a 09 de abril de 2016


Opinião
Se dúvidas ainda houvesse, esta obra deita-as por terra – é prova claríssima do indiscutível talento de Valter Hugo Mãe como criador de histórias. Afasta-se daquilo que atravessa obras já lidas e aconchegadas num cantinho especial, ou seja, de um pendor mais poético, carregado de sensibilidade, beleza e outras emoções que despoletam empatia para com as personagens (como O filho de mil homens ou A máquina de fazer espanhóis) e abalroa-nos, usando as palavras do meu Saramago, com um tsunami que sacode violentamente os alicerces de todo o livrólico e amante da língua lusa.
Começo por dizer que nenhuma mulher que se preze engole de bom grado a forma como o género feminino é retratado nesta obra – “uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada, explicava o meu pai, ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros. (…) o mundo que as mulheres imaginavam era torpe e falacioso, viam coisas e convenciam-se de estupidez por opção, a suspirarem em segredos inconfessáveis, cheias de vícios de sonho como delírios de gente acordada, como se bebessem de mais ou tivessem sido envenenadas por cobra má.” (págs. 25, 26) Não só a visão que os homens têm do sexo oposto e que está espelhada no excerto transcrito fere o nosso orgulho como também as personagens femininas, retratadas como fornicadoras que se “deixam furar” por dez homens por dia, como bruxas dotadas dos poderes mais maléficos ou como simplesmente feias, vingativas ou torpes, espezinham a nossa essência e desencadeiam uma revolta surda que quase me levou a fechar a obra e amaldiçoar dois dos meus autores preferidos – o que a escreveu e o que a premiou e consequentemente recomendou.
Contudo, essa revolta e sensação de orgulho ferido apenas se revelaram com mais veemência nas páginas iniciais da obra, já que a leitura de O remorso de Baltazar Serapião pressupõe que nunca esqueçamos a sua contextualização histórica – a ação desenrola-se em plena Idade Média, durante o reinado de Dom Dinis. Ora, valendo-me das sapientes palavras do meu Saramaguinho “… o que acontece é que aquilo cheirava mal, era feio”. O Portugal do século XIII era de famílias nobres, endinheiradas, exploradoras e do povo faminto, ignorante e dependente; de homens que apenas viam na mulher alguém em quem podiam libertar o fogo que lhes queimava entre as pernas, alguém que lhes devia total obediência, cujo lugar era dentro de paredes, cuidando do marido e da prole; de mulheres submissas, que encarnavam todas as tentações, pecados e outros lados demoníacos e que, como tal, nunca eram de fiar; de crenças, superstições, bruxarias, feitiços e de uma religiosidade que andava de mão dada com o paganismo.
 Valter Hugo Mãe cava assim um fosso entre uma Idade Média “… desinfectada, limpa como se houvesse detergentes de todo o tipo…”, recorrente em outras obras, criando uma narrativa onde nos sentimos verdadeiramente na Idade Média, onde tropeçamos em dom Afonso, o nobre da aldeia da família de Baltazar, a quem todos devem obediência e que abusa desse estatuto para deitar mão a toda a criada jovem e bonita que trabalhe em sua casa; onde convivemos com os “Sarga”, alcunha da família de Baltazar, amaldiçoamos os seus elementos masculinos por todos os horrores que praticam nas suas mulheres, encolhemo-nos de nojo por determinadas práticas que levam a cabo com animais e condoemo-nos da mãe Sarga e de Ermesinda; onde somos testemunhas da sujidade, da fealdade, do quão homens e mulheres pouco se diferem de bestas e de uma “comunhão perfeita” entre Deus, o céu, o inferno, superstições, feitiços e bruxarias.
O remorso de Baltazar Serapião conquista-nos por tudo isto. Não é, no meu ponto de vista, uma obra de personagens que nos arrebatam como, por exemplo, Crisóstomo, Camilo ou Isaura de O filho de mil homens. É uma obra de época e sobretudo um hino à genialidade criadora de Valter Hugo Mãe, que nada descura na sua composição, desde os nomes das personagens, a contextualização, o pensamento medieval à primazia total das ações e reflexões masculinas face às correspondentes femininas (nunca soube verdadeiramente o que pensava Ermesinda e porque agia da forma como agia). Recorrendo de novo a Saramago – “… este remorso tem de ser lido como algo que traz muito de novo e fertilizará a Literatura.” (págs. 8, 9).
Foi assim uma leitura que me conquistou mais pela sua forma que pelo seu conteúdo. Não tão "preenchedora" como as de O filho de mil homens ou a de A máquina de fazer espanhóis. Mas que recomendo, porque Valter Hugo Mãe assim o merece.

NOTA – 08/10


Sinopse

Numa Idade Média brutal e miserável, Baltazar Serapião casa com a mulher dos seus sonhos e - tal como o pai fizera antes com a mãe e com a vaca, fêmeas irmanadas em condição e estatuto familiar - leva muito a sério a administração da sua educação. Mas o senhor feudal, pondo os olhos na jovem esposa, não desiste de exercer sobre ela os seus direitos... Entregue aos desmandos do poder e do destino, Baltazar será então forçado a seguir por caminhos que o levarão ao encontro da bruxaria, da possessão e, finalmente, do remorso.Com um notável trabalho de linguagem que recria poeticamente a língua arcaica e rude do povo, O Remorso de Baltazar Serapião, de Valter Hugo Mãe - autor, entre outros, de O Nosso Reino, selecionado pelo Diário de Notícias como um dos melhores romances portugueses de 2004 -, é uma tenebrosa metáfora da violência doméstica e do poder sinistro do amor.

Robin dos Bosques, de Howard Pyle


Ficha técnica
Título – Robin dos bosques
Autor – Howard Pyle
Coleção – Os meus clássicos
Editora – Book.it
Páginas – 38
Datas de leitura – de 26 de março a 04 de abril de 2016


Opinião
Mamã, gostei deste livro, mas dou-lhe 8 em 10, porque não me agradou tanto como os outros”.
Desta vez começo a opinião com o seu fim, pois as palavras do meu filhote dizem praticamente tudo.
De uma forma muito resumida, o livro que acabámos de ler no dia quatro conta-nos, numa linguagem acessível e adaptada a um leitor infantil, a história de um herói que todos nós adultos bem conhecemos das inúmeras adaptações que foram feitas ao pequeno e grande ecrã. Contudo, se refletirmos um pouco, Robin dos Bosques pouco ou nada diz aos nossos filhos. Não combate em pé de igualdade com um Batman, um Capitão América ou um Homem-Aranha. As suas façanhas são muito modestas quando comparadas com aquilo que vemos e lemos sobre estes heróis mais modernos.
Por essa razão, apesar de a história de Robin dos Bosques estar muito bem adaptada neste livrinho e de conter ação, nos fazer rir em algumas partes e nos mostrar que um herói pode mostrar as suas proezas apenas com a ajuda de um arco e de uma flecha, está muito distante do mundo de hoje em dia das nossas crianças e, como tal, não me estranha que o entusiasmo do meu D. não tenha sido o mesmo demonstrado em leituras anteriores.
Termino então como comecei:

Nota – 08/10

Sinopse
Reunindo várias lendas e baladas de tradição oral, Howard Pyle escreveu, em 1883, uma das maiores histórias do imaginário das crianças, Robin dos Bosques. Com o seu primeiro livro infantil, o escritor e ilustrador imortalizou o herói que roubava aos ricos para dar aos pobres.
Entrar neste livro é entrar na floresta verde e densa de Sherwood, onde Robin dos Bosques vive à margem da lei com os seus companheiros, envolvendo-se em muitas e atribuladas aventuras.

Esta é uma história obrigatória para qualquer aventureiro e fala-nos da importância da generosidade, da entreajuda e da solidariedade.

Pasión India, de Javier Moro


Ficha técnica
Título – Pasión India
Autor – Javier Moro
Editora – Editorial Seix Barral
Páginas – 449
Datas de leitura – de 27 de março a 04 de abril de 2016

Opinião
Em outubro passado, quando me lamuriava pelos cantos, queixando-me de que não tinha quase nenhum livro novo para ler, a minha querida Verinha socorreu-me, emprestando-me três leituras que, segundo ela, seriam do meu agrado. Já aqui registei a opinião de duas delas (Regressar a casa, de Rose Tremain e Estrela errante, de J.M.G. Le Clézio) e restava-me a única de um autor espanhol e publicada na língua original. Não foi o facto de não estar traduzida que me “impediu” de lê-la mais cedo. A causa principal da minha relutância estava no título – Pasión India.
Confesso que não me atraem nada as paragens exóticas localizadas para os lados do Oriente. Tenho inclusive algum preconceito geográfico e civilizacional, pois não consigo ver-me a pisar terras ou países asiáticos, salvo alguma exceção. Quando penso na Índia, de imediato saltam-me à memória imagens de pobreza extrema, de toneladas de lixo acumulado por toda a parte, de comboios a abarrotar de gente, de rios imundos onde os indianos se banham e outras imagens nada apelativas para o meu gosto de viajante.
Por todas estas razões nunca me entusiasmam muito narrativas que centrem a sua ação em paragens indianas ou em outras semelhantes. Contudo, esta viagem que fiz pelas páginas de Pasión India foi deslumbrante e provocou grandes mossas no meu preconceito por terras orientais. Não o erradicou por completo, não me fez ansiar por umas férias na Índia, mas aumentou exponencialmente o meu respeito e a minha admiração por uma das civilizações mais antigas do nosso mundo.
Pasión India dá-nos a conhecer uma história de amor inesquecível, digna de figurar num compêndio similar ao de Mil e uma noites. O amor e consequente união entre uma jovem espanhola, plebeia, que todas as noites dança com a irmã num clube madrileno para sustentar a família e que cuja beleza e personalidade enfeitiçam um Rajá indiano, a ponto de “forçá-lo” a tudo fazer para conseguir que ela case com ele e o acompanhe para o outro lado do mundo. É realmente uma história de contos de fadas e mais extraordinária se torna porque foi verídica.
No início do século XX Anita Delgado, contra todas as expectativas e costumes da época, casa-se com Jagatjit Singh, o marajá de Kapurthala, um dos homens mais ricos da Índia da altura. Após o casamento vai viver para o país natal do seu marido e aí se mantém até a dissolução do matrimónio que a leva a regressar à Europa. Morre em Espanha em 1962, deixando como legado uma existência repleta dos ingredientes ideais para uma adaptação a um romance. E foi isso que fez Javier Moro.
Pegando nos referidos ingredientes, aliando-os a uma construção muito apelativa das personagens e a uma linguagem simples, objetiva, sem os tendenciosos excessos que uma história deste calibre poderia despoletar, o autor oferece-nos uma leitura que prende a nossa atenção do início ao fim, interligando passagens que relatam o foro íntimo e caseiro de um casal e das suas relações mais próximas com referências a momentos e acontecimentos históricos que revolucionaram o mundo da primeira metade do século XX e sobretudo que transformaram uma Índia debaixo do jugo imperial britânico num consequente país independente.
Foi assim uma leitura muito agradável, entusiasmante inclusive, e que me brindou com uma extraordinária história de amor, protagonizada por dois seres também eles dotados de personalidades cativantes. Foi ainda uma leitura que me abriu os horizontes, pois proporcionou-me a oportunidade perfeita para redimir-me de muito do meu preconceito ante uma civilização e um povo que me causa cada vez mais admiração e respeito. Se já no passado aprendemos muito com os povos que habitavam aquelas terras orientais (como, por exemplo, que devemos tomar banho com frequência, o que já era um hábito de indianos pobres ou ricos muito antes do início do século XX), a tolerância que eles demonstravam pelas diferentes religiões aí professadas (o que ainda hoje acontece), a sua afabilidade e hospitalidade e o respeito que tinham e têm pela natureza são exemplos do quanto os estereótipos por vezes toldam a nossa forma de ver e respeitar os outros.
Resta-me agradecer-te, Verinha, por me teres emprestado este livro que tanto gozo me deu! Foi mesmo uma leitura muito interessante e enriquecedora! Gracias, cariño!
Refiro por fim que esta obra está traduzida para português. Foi publicada pela Editora Caderno com o título  Uma Paixão Indiana.

NOTA – 09/10

Sinopse
Um conto de Fadas Moderno
Em Janeiro de 1908, uma espanhola de 17 anos, sentada num elefante luxuosamente ajaezado, faz a sua entrada numa pequena cidade do norte da índia. Todo o povo está na rua, rendendo homenagem à nova princesa, de tez tão branca como as neves dos Himalaias. Poderia parecer um conto de fadas, mas foi assim a boda da andaluza Anita Delgado com o riquíssimo marajá de Kapurthala. E o começo de uma grande história de amor - e traição - que se desenrolou durante quase duas décadas no coração de uma Índia preste a extinguir-se. Uma história que nos transporta ao fabuloso mundo dos marajás, com os seus haréns dignos das Mil e Uma Noites, os seus bacanais eróticos, a paixão pelas jóias, os palácios, e as caçadas de tigre.


Balanço mensal - livros lidos e adquiridos em março


Apesar de ter coincidido com uma altura repleta de trabalho, março foi um mês muito bom em leituras, já que li cinco obras “mais adultas” e partilhei três leituras infantis com o meu filhote.
No que diz respeito a aquisições, também reina a alegria nas estantes cada vez mais recheadinhas. Na prateleira dedicada às obras publicadas em espanhol, “aterraram” mais dois exemplares em edição de bolso. À dos livros publicados em português, juntaram-se quatro exemplares, dois que constavam da “wishlist”, um do meu amado Mario Benedetti e a última obra publicada/reeditada de Ken Follett.
Para celebrar o Dia do Pai, e aproveitando uma campanha da WOOK, o meu filhote e eu oferecemos ao homem da nossa vida Uma terra chamada liberdade, de Ken Follett. É obviamente um romance histórico (tão ao gosto do meu maridinho) e a sua sinopse promete uma leitura cativante e empolgante, com romance, aventura e história à mistura. Se seguir as pisadas dos outros livros que possuímos deste autor, não defraudará as expectativas – nem as do maridinho nem as minhas.
Como a promoção da WOOK era demasiado tentadora para uma aquisição só, aproveitei a oportunidade e mimei-me com outra das poucas obras de Mario Benedetti traduzidas para português. Obrigada pelo lume é considerado um dos romances mais marcantes da literatura sul-americana e tenho a certeza absoluta de que me renderei a ele, como já me rendi a tudo que li deste maravilhoso autor uruguaio.
No dia de Páscoa, o nosso afilhado Gonçalinho presenteou-me com dois livros que já moravam há algum tempo na “wishlist”. O primeiro é o aclamadíssimo Leitor de Bernhard Schlink, que parece possuir todos os ingredientes que procuro numa boa leitura – reflexão, dor, mistura e densidade de emoções conjugadas em pouco mais de 140 páginas. O segundo – Mágoas da escola – faz-nos viajar no tempo e ficar a conhecer as agruras de um mau estudante. O curioso é que esse mau estudante é nada mais nada menos do que o autor Daniel Pennac, referência incontornável da literatura francesa e o autor da conhecidíssima obra Como um romance.
Por fim, na recentíssima visita que fiz a Barcelona, os meus homens permitiram J que eu gastasse uns euritos na compra de dois livros de bolso de autores espanhóis não traduzidos cá… Si a los tres años no he vuelto, de Ana R. Cañil, também figurava na “wishlist” e é sobre duas mulheres de mundos distintos, que enfrentam de forma diferente a vida e o amor e protagonizam uma narrativa que facilmente nos arrebata e que ao mesmo tempo nos oferece uma perspetiva de uma Espanha do pós-guerra dividida e representada por personagens inesquecíveis. Do autor que está a revolucionar a literatura do país vizinho – Víctor de Árbol – comprei Respirar por la herida, um romance negro, com pinceladas de thriller e densidade psicológica e emocional. Espero muito deste romance e deste autor e só quero que não me desiluda, porque a Respirar por la herida seguir-se-ão os outros títulos que o autor já publicou.
Em relação às leituras deste mês que findou, não poderia estar mais satisfeita. Como já referi, foram oito no total, entre leituras mais adultas e mais infantis.
De todas elas retirei muito bons momentos e nenhuma me defraudou por completo. Destaco as que partilhei com o meu filhote e que deram azo à correspondente nova rubrica do blogue J e a momentos recheados de conhecimentos, boa disposição e muita cumplicidade!
Deixo-vos o link para acederem à opinião completa dessas obras lidas este mês:
Leituras “mais adultas”:
§  Crónicas do mal de amor, de Elena Ferrante
§  Se eu ficar, de Gayle Forman
§  Espera por mim, de Gayle Forman
§  Flores, de Afonso Cruz
§  O paraíso segundo Lars D., de João Tordo

Leituras infantis (partilhadas com o filhote):
§  O meu atlas interativo, de Jenny Slater, Katrin Wiehle e Maryin Sanders
§  Atlas puzzle de Portugal – fauna e flora, de Carmen Rodríguez
§  As regras de futebol, de autores vários 

O paraíso segundo Lars D., de João Tordo


Ficha técnica
Título – O paraíso segundo Lars D.
Autor – João Tordo
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 207
Datas de leitura – de 23 a 26 de março de 2016


Opinião
Torna-se algo difícil escrever a opinião sobre uma leitura que já terminei há alguns dias. Apraz-me a sensação de encerramento que está por detrás do texto que se segue à leitura de um livro e, por isso, sempre que posso, escrevo esse texto pouco tempo depois do desfecho da última página. Contudo, a época pascoal, com os seus consequentes dias de descanso e evasão, não permitiu (e ainda bem que não J) que me sentasse ao computador e encerrasse com a correspondente opinião a leitura da segunda obra de uma trilogia que se iniciou com O luto de Elias Gro (ver opinião aqui).
Torna-se ainda mais difícil escrever esta opinião porque O paraíso segundo Lars D. não me entusiasmou como o havia feito o seu antecessor.
As linhas estruturantes repetem-se de uma obra para a outra, estamos perante duas narrativas prenhes de emoções, de dor, de solidão, de questionamentos múltiplos sobre a vida, a morte, a precaridade da existência, a perda de alguém e o impacto que essa perda tem no outro, enfim, duas narrativas onde predomina a densidade de um punhado de personagens e a multiplicidade dos seus eus. Contudo, por esta ou aquela razão que não consigo realmente definir, fui avançando na leitura e a empatia, a identificação que normalmente me atrai ou me repele ante personagens, ações ou ideais não aconteceu.
Sou uma apaixonada pela obra de Tordo. Tenho muitos dos romances que publicou e Biografia involuntária dos amantes foi uma das melhores leituras que fiz em 2015 e nos últimos anos. A beleza, a carga emocional e, por que não, a maturidade da escrita tordiana estão bem patentes em tudo o que publicou ultimamente e esta obra que dá seguimento à trilogia não é exceção. Mesmo assim, não me arrebatou. Talvez porque a carga filosófica inerente à busca de respostas para questões que atormentam a existência humana se sobrepôs. Talvez porque a apatia da mulher de Lars, a sua resignação me incomodou um pouco. Talvez porque a esta narrativa lhe falte a perspicácia e precocidade de uma menina como Cecília por quem me apaixonei com amor de mãe em O luto de Elias Gro. Talvez porque, como já referi, não consegui ligar-me às personagens, não consegui sentir as suas angústias, dores, medos e tormentos como se fossem meus.
Resta-me aguardar pelo terceiro volume que encerrará a trilogia e desejar que seja um encerramento perfeito, que me proporcione um mergulho repleto de sabor na escrita de Tordo e nas emoções que daí advêm.

NOTA – 07/10

Sinopse

Numa manhã de Inverno, Lars sai de casa e encontra uma jovem a dormir no seu carro. Ele é um escritor sexagenário e, poucas horas mais tarde, parte em viagem com a jovem deixando para trás um casamento de uma vida inteira e um romance inédito: O luto de Elias Gro.