O cavalheiro inglês, de Carla M. Soares


Ficha técnica
Título – O cavalheiro inglês
Autora – Carla M. Soares
Editora – Marcador
Coleção – Os livros RTP
Páginas – 399
Datas de leitura – de 19 a 27 de julho de 2016

Opinião
Oferecemos (o filhote e eu) este livro ao N. o ano passado, no Dia do Pai. Ele leu-o e recomendou-o. Mas por esta ou outra razão inexplicável, o livro foi remetido ao seu cantinho da estante e por lá foi ficando até que numa limpeza mais a fundo ao pó voltei a estar com ele nas mãos, decidi que teria que resgatá-lo da estante para a mesinha de cabeceira e mergulhar na sua história.
E ainda bem que o resgatei porque ninguém consegue ficar indiferente aos amores tumultuosos, ariscos e excitantes de Sofia da Silva Andrade e do seu enigmático cavalheiro inglês. A narrativa transporta-nos até aos finais do século XIX, época em que Portugal vivia uma situação conturbada a nível económico, social e político (é impossível não traçar um paralelismo entre o passado e o presente…). A nação estava ainda a tentar digerir a afronta do Ultimato Inglês, a família real e os seus gostos exorbitantes depauperavam ainda mais os já depauperados cofres nacionais e os assentos políticos de destaque mal aqueciam, pois quem se sentava neles fazia-o por muito pouco tempo, estando constantemente a ser substituído. Deste cenário nada favorável resultam consequências catastróficas para muitas famílias nobres, que, de um momento para o outro, constatam que estão a poucos passos de perder tudo o que investiram e uma vida de luxos e comodidades.
A família Silva Andrade é um desses exemplos. Agarrada a nostalgias, ao nome, ao título nobiliárquico e a preconceitos, apenas vê no casamento dos seus dois filhos com elementos de outras famílias nobres a solução ideal para escapar a uma vida inaceitável para quem não conhece outra que não seja pautada por dinheiro, posição social, festas, jantares e ambientes requintados.
Contudo, nem Sebastião, o filho varão, nem Sofia comungam com a visão estreitada e rígida dos seus progenitores. Ele alimenta-se de ideais anárquicos e defende a todo o custo a abolição de classes e sobretudo da monarquia. Ela combate com as armas que pode a posição inferior e de “bibelô” imposta às mulheres da sua classe, procura estar informada e deseja fazer algo mais do que sujeitar-se a um casamento para ajudar a família a resolver os seus problemas financeiros. Infelizmente, nem tudo é tão linear como estes irmãos anseiam e tanto um como o outro veem-se obrigados a pôr de lado os seus ideais, os seus sonhos…
Iniciei esta opinião fazendo referência aos amores de Sofia e de Robert, o seu cavalheiro inglês. É inegável que a obra escrita por Carla M. Soares é um romance histórico, mas também é evidente que a sua força maior reside nos seus protagonistas e especialmente, na força das suas personalidades e no amor que explode entre os dois.
Sofia é o paradigma da menina aristocrática que usa a cabecinha não só para enfeitá-la com chapéus, laços e fitas. Está atenta ao que se passa ao seu redor, escuta as conversas dos homens, lê os jornais e confidencia as suas preocupações com quem esteja disposta a ouvi-la. É dona de uma personalidade forte, de um geniozinho que explode à mínima provocação e de um coração que se aperta sobretudo com as desventuras do seu irmão.
Por sua vez, Robert é o típico homem atraente, enigmático e que consegue perturbar a determinação e a altivez de Sofia com a profundidade do seu olhar azul. Não é bem visto pela sociedade nobre portuguesa (muito menos pelos pais de Sofia) apenas porque é da banda inimiga, apenas porque calhou nascer em terras inglesas. Carrega consigo um passado sombrio, mas ao qual qualquer mulher faz vista grossa perante o seu charme, o seu olhar carregado de promessas “incendiárias” e toda a sua postura de “bad boy” com um coração de ouro, que tudo faz para ajudar os mais desfavorecidos nem que seja por vias menos claras ou por puro interesse próprio.
Por tudo isto, pela força e carisma destes protagonistas fui avançando com prazer e interesse na narrativa. Acedi de bom grado a que a sua história, a crescente cumplicidade e intimidade dos dois me disponibilizassem a perfeita evasão para outros tempos, para outros lugares, para outros costumes e me possibilitassem sair, esquecer estes dias tórridos. Mas reconheço que O cavalheiro inglês nos proporciona uma bela leitura por outras igualmente suculentas razões – o estilo simples, mas cuidado da escrita da autora, a bem documentada contextualização histórica (apenas ressalvo o que se diz no início da página 319 e que faz crer que, em finais do séc. XIX, se atravessava de comboio o rio Douro pela ponte D. Luís – penso que a informação correta seria “ponte D. Maria Pia”), o leque de personagens provenientes de vários estratos sociais, o clima de mistério e ação que envolve determinados acontecimentos da vida de Sofia e de Sebastião e a parte mais cómica e leve dos arrufos entre irmãos e entre os protagonistas.
Em conclusão, recomendo a leitura desta obra. É de leitura fácil, ótima para acompanhar-nos nestes dias de descanso e relaxamento, possui um ritmo vivo e oferece-nos uma história de amor daquelas às quais não faltam vilões, uma heroína “acorrentada a um castelo de preconceitos e tradições retrógradas” e um herói que, vindo de terras longínquas” luta contra “ventos e marés” para que a sua amada seja apenas sua. Em suma, os ingredientes indispensáveis estão lá – basta deixares tentar-te por eles J

NOTA – 08/10

Sinopse
PORTUGAL. 1892. Na sequência do Ultimato inglês e da crise económica na Europa e em Portugal, os governos sucedem-se, os grupos republicanos e anarquistas crescem em número e importância e em Portugal já se vislumbra a decadência da nobreza e o fim da monarquia.
 Os ingleses que permanecem em Portugal não são amados.
 O visconde Silva Andrade está falido, em resultado de maus investimentos em África e no Brasil, e necessita com urgência de casar a sua filha, para garantir o investimento na sua fábrica.

 Uma história empolgante que nos transporta para Portugal na transição do século XIX para o século XX numa descrição recheada de momentos históricos e encadeada com as emoções e a vida de uma família orgulhosamente portuguesa. 

2º aniversário de "O sabor dos meus livros"!


Este fim de semana estive longe do computador e do mundo da blogosfera e por essa razão não pude celebrar convenientemente o aniversário do meu “bebé de opiniões literárias” que nasceu há dois aninhos no dia 24 de julho J
Sendo assim, um dia depois, cá estou eu para, mais uma vez, expressar o quanto este projeto me preenche de alegria, o quanto traz um sabor especialíssimo aos meus dias e agradecer do fundo do coração a todos os que continuam a “provar” O sabor dos meus livros e a fazê-lo crescer dia a dia!
No último ano, ou seja, desde o primeiro aniversário, este meu cantinho engordou a olhos vistos, pois triplicou as suas visualizações – das 7000 que figuravam nas contas dessa altura, estamos prestes a atingir a bonita e redonda cifra das 25000! Não poderia ser uma “progenitora” mais orgulhosa e mais babada J
Resta-me deixar aqui a garantia de que vou continuar a cuidar e mimar o meu “bebé” (que já caminha sozinho, de cabeça erguida e com confiança no que o futuro lhe reserva) para que se fortaleça ainda mais, conquiste mais seguidores, mais apreciadores e sobretudo me possibilite partilhar convosco um dos maiores prazeres que a vida me dá – os livros, as histórias, as personagens, as viagens, o conhecimento e o encantamento da leitura J
Obrigada! J

Si a los tres años no he vuelto, de Ana R. Cañil


Ficha técnica
Título – Si a los tres año no he vuelto
Autora – Ana R. Cañil
Editora – Espasa Libros (Edição de Bolso)
Páginas – 399
Datas de leitura – de 11 a 18 de julho de 2016


Opinião

Jimena, tú eres roca y agua, pero yo soy la roca que durante todo el día sólo espera a la noche para que me abraces, vida mía.” (pág. 316)

Este é o mote para uma belíssima história de amor que nem as mais medonhas adversidades conseguiram derrubar. É também o mote que descreve na perfeição uma das protagonistas da obra, uma jovem mulher que nos faz acreditar no quanto valores, educação, um carácter determinado e o amor fazem a diferença em situações inumanas, de tão horríveis e sofridas que são.
 Tomei conhecimento desta obra através de um blogue espanhol que sigo religiosamente – (El buho entre libros) – e que até hoje nunca me defraudou com as suas sugestões. E Si a los tres años no he vuelto é um exemplo dessas dicas preciosíssimas e que me fazem andar de lista na mão sempre que vou a Espanha e entro numa livraria, desgraçando a carteira… O autor do blogue atribuiu-lhe a pontuação máxima, não só porque desconfio que é um “agarrado” como eu a todo o bom romance que retrata a Guerra Civil Espanhola como é fácil de entender pelo que escreve que se encantou pelo estilo da autora e sobretudo pela força, dramatismo e intensidade dos acontecimentos narrados e das personagens que os protagonizam.
Jimena e Luis são dois jovens provenientes de mundos distintos. Ela é filha de gente humilde e trabalhadora e de paisagens rurais. Viveu toda a sua infância e adolescência rodeada de água, rochas, montanhas, cheiros e sabores que representam uma vida simples, honrada e em harmonia com a natureza e a retidão de valores e tradições. Contudo, o amor por um jovem soldado, republicano, oriundo de famílias mais abastadas vai abalroar toda a sua pacata e ordeira existência e levá-la, sem hesitações, a abandonar a vida como a conhecia até então e a seguir o seu homem. Deixa para trás Rascafrías e muda-se para Madrid nos finais da Guerra. Com o desfecho dramático desta para os defensores da República e com a consequente tomada do poder do Caudillo, a capital espanhola transforma-se num viveiro de espiões, polícias e bufos que alimentam detenções sistemáticas de todos aqueles que direta ou indiretamente apoiaram as cores da República. Obviamente Jimena e Luis não escapam a esse pós-guerra devastador e sofrerão na pele os horrores inimagináveis que a máquina sedenta de sangue do regime de Franco pôs em prática numa caça desenfreada e ávida em busca daqueles contaminados pelos ideais doentios de Marx e do resto da sua “horda”.
É neste ponto da narrativa que entraremos pelos portões de uma das prisões mais conhecidas da ditadura franquista – a prisão de Las Ventas, situada em Madrid e onde se detiveram milhares e milhares de mulheres republicanas, comunistas, porque eram consideradas inimigas, pior, porque eram a representação do Mal na Terra, Mal esse que era imprescindível erradicar para que mais ninguém se contagiasse.
Através da personagem de Jimena e de outras companheiras de cela, como Trini Gallego, Angelita ou Petra Cuevas, viveremos o dia-a-dia miserável numa prisão a abarrotar de mulheres, crianças, doenças, piolhos, percevejos, fuzilamentos, tortura, humilhação, desprezo e tantos outros sentimentos e condições que nenhum ser humano decente deve experienciar. Os relatos são duríssimos, crus e infelizmente muito realistas. E é isso que nos violenta, que nos corrói, espezinha mas que torna sólida, intensa e inesquecível esta narrativa.
Para além desse cenário de pós-guerra exemplarmente documentado e transposto para a ficção pela autora, outro dos trunfos preciosos desta obra é a força das suas personagens.
Jimena é força da natureza e uma protagonista à qual nos rendemos sem opor qualquer resistência. Não é possível ficar indiferente à sua determinação, à sua força, à sua retidão e à herança moral que lhe foi transmitida pela sua avó, pelo seu pai e até pela sua mãe, com quem tem desavenças e formas distintas de estar na vida. É uma jovem apaixonada, que luta até às últimas consequências pelo que é seu e pelo que anseia que não é nada mais do que ser feliz junto dos seus.
Do lado oposto está a anti-protagonista, La Topete (personagem verídica), a carcereira de Ventas e posteriormente da prisão maternal de San Isidro. Devota um ódio desmedido por tudo e todos que comungam de ideais vermelhos e é a encarnação da frieza, da crueldade e do terror que infunde em todas mal se ouvem os seus passos. O seu objetivo principal era separar os filhos das mães comunistas para que estas não os contagiassem e as descrições do que ela faz a progenitoras a quem arrebata os bebés são horríveis, de nos deixarem sem ar.
Ao lado de tais protagonistas fortíssimas encontrei outras que contribuíram imenso para que esta obra ocupe já um lugar muito especial na minha vida. Por razões óbvias não posso deixar de destacar Luis Masa, o amor de Jimena, mas reconheço que tenho uma particular predileção pelo seu irmão, Ramón, por Vicenta, a criada que se manteve fiel ao lado dos irmãos Masa e que é como se fosse uma segunda mãe dos mesmos, e por Trini, Angelita e Petra, as mulheres de uma coragem e valentia enternecedoras e que amparam Jimena nos momentos mais sofridos.
Por tudo o que referi até agora e mormente porque nunca nos devemos esquecer do passado, já que o mesmo nos ajuda a entender o presente e o futuro, aconselho vivamente esta obra (que infelizmente não está traduzida para português) àqueles que se desenrascam com a língua espanhola, já que o que ela narra não está muito distante do que aconteceu ao nosso país durante o Estado Novo e é apaixonante saber um pouco mais da História recente, seja ela nacional ou não. E se és um entusiasta (como eu) por períodos negros da referida História, então Si a los tres no he vuelto espera ansiosamente por ti J
Deixo para o fim algumas imagens e curiosidades associadas ao pós-guerra em Espanha e que estão referenciadas na obra:

Prisão de Ventas – esteve em funcionamento até 1967 e depois foi demolida. Atualmente não há nada, nenhuma placa, nenhum sinal, que testemunhe a sua existência.



Trinidad Gallego – outra das personagens verídicas que povoam a obra. Comunista, enfermeira e parteira, foi detida juntamente com a sua mãe e avó. Esteve encarcerada durante 7 anos. Deixo aqui o link para uma reportagem que El mundo fez com esta grande mulher!

http://www.elmundo.es/especiales/2006/07/espana/guerracivil/hist_gallego.html

Mariquita Pérez – a boneca do regime. Chegou ao mundo em 1940 e era o protótipo das bonecas de meninas de bem, já que encarnava todos os valores e ideais das meninas e senhoras da Falange.

 


NOTA – 09/10

Sinopse
Dos mujeres. Dos mundos.
Dos maneras de entender la vida y el amor.
Un formidable fresco de las dos Españas de la posguerra encarnadas en dos personajes inolvidables.

A minha História de Portugal


Ficha técnica
Título – A minha história de Portugal
Autores – Elisabete Jesus e Eliseu Alves
Editora – Porto Editora
Páginas – 143
Datas de leitura – de 05 de abril a 10 de julho de 2016


Opinião
Três meses e cinco dias depois terminámos uma leitura épica pelos acontecimentos mais marcantes da História do nosso país. E, por coincidência, terminámo-la num dia que ficará registado na vida dos portugueses como um dos mais gloriosos da nossa História mais recente – o dia em que o desporto, sobretudo o atletismo e o futebol, elevou o nome da nossa pátria, o orgulho luso a alturas galácticas e fez com que todos nós nos sentíssemos de novo conquistadores e donos do mundo.
O meu filhote ama de coração tudo o que tenha a ver com o desporto e principalmente tudo o que esteja relacionado com o desporto-rei. Por essa razão e porque seguiu religiosamente o campeonato europeu, foi relegando para segundo plano a nossa leitura diária de umas paginazinhas da História de Portugal. A mesma também foi prejudicada pelo trabalho de final de ano letivo. Como lemos sobretudo à noite, nunca insisti muito quando constatava que o João Pestana já absorvia as suas forças, quando havia valores mais altos que “se alevantavam” como o estudo ou alguns trabalhos ou ainda quando a televisão transmitia algum programa imperdível e que o D. queria à viva força ver “em direto”.
Sendo assim, a leitura de A minha História de Portugal foi avançando a passinhos muito lentos. Nunca lemos mais de seis páginas por dia e nem sempre o fizemos. No entanto, esse avanço a passo de caracol não impediu que fosse uma leitura muito instrutiva e muito saborosa. Para o D. foi muito interessante (palavras dele), porque possibilitou-lhe consolidar alguns conhecimentos que advinham das aulas de Estudo do Meio e aprender factos novos que lhe vão ser muito úteis na próxima etapa da sua vida escolar. Para mim, foi uma viagem dupla ao passado, pois relembrei matérias estudadas há uns bons aninhos, refresquei noções, personalidades e acontecimentos já esquecidos e aprendi que, por exemplo, palavras como “banana” ou “macaco” são de origem africana, “ananás” e “maracujá” são de origem brasileira e “bengala” ou “chávena” de origem oriental.
É uma obra muito bem conseguida e plenamente adequada à malta mais novinha. Possui uma linguagem simples e acessível, textos curtinhos, imagens reais e desenhos apelativos e no final existe um pequeno glossário para aquele léxico mais complicadito ou mais técnico. Está dividida por dinastias ou épocas históricas que se destacam e não é maçuda, ou seja, não nos inunda de informação excessiva, foca aquilo que é indispensável para que possamos viajar desde os primeiros povos que habitaram a Península Ibérica ao final do século XX.
Por tudo o que foi mencionado, tanto eu como o D. recomendamos e muito esta pequena História de Portugal, especialmente para meninos e meninas que já tenham tido algum contacto com o tema e queiram aprofundá-lo. Vale mesmo a pena, para miúdos e não só J
Para terminar, não resistimos a deixar aqui uma homenagem a quem tanto nos fez explodir de alegria, de orgulho e de patriotismo no passado dia 10 de julho, um domingo que nunca mais sairá das nossas memórias, não é, filhote?




NOTA – 10/10 

Sinopse

Como se formou Portugal? Por onde navegaram os exploradores Portugueses? O que encontraram? Porque temos monumentos colossais? Quem os construiu? O que significa viver em democracia? O que é a União Europeia? Encontras as respostas a estas e muitas outras questões n'A minha História de Portugal. Descobre grandes personalidades, batalhas épicas, descobertas gloriosas, culturas diferentes, obras de arte fascinantes, revoluções turbulentas, assim como aspetos interessantes do quotidiano dos nossos antepassados. - Textos claros e concisos narram os principais momentos da nossa História.- Imagens de época documentam as narrativas.- Reconstituições panorâmicas recriam o passado e mostram cidades, castelos e mosteiros.- A arte portuguesa vista ao pormenor.- Curiosidades e lendas da nossa História.- As datas-chave da construção de Portugal. 

Obrigada pelo lume, de Mario Benedetti


Ficha técnica
Título – Obrigada pelo lume
Autor – Mario Benedetti
Editora – Cavalo de ferro
Páginas – 225
Datas de leitura – de 04 a 10 de julho de 2016

         Opinião
Num dia em que os valores patrióticos estão ao rubro e que o orgulho de uma nação nos une, desfolhei a última página de mais uma brilhante obra do meu amado Mario Benedetti.
Obrigada pelo lume é a quarta obra que saboreio de um dos meus escritores favoritos, mas, ao contrário das restantes, é aquela que mais nos aproxima do povo uruguaio e da visão negativista que partilhamos dos nossos países e do que nos define.
A ação desenrola-se nos meados do século XX e, mais uma vez, mergulhamos numa narrativa profundamente emocional, onde o narrador dá primazia a monólogos de um protagonista que, aos 44 anos, é um homem desencantado com a vida, com os outros, com um pai que odeia e sobretudo consigo próprio. Ao longo das 225 páginas que compõem o romance, vamos seguindo os passos de Ramón Budiño, calcorreando as ruas, praças e outros espaços de Montevideu e penetrando na alma, história e visão de um povo e país que tantas semelhanças possuem connosco.
No arranque da obra, juntámo-nos ao protagonista e a um punhado de uruguaios. Encontram-se expatriados (a maioria momentaneamente) em terras do Tio Sam e o discurso que saltita entre os convivas recorda muito o menosprezo e o sentimento de inferioridade que o portuguesinho sente face a si mesmo, aos seus e aos outros.
Eu não deveria vir aos Estados Unidos, porque cada vez que cá venho fico com febre. A pensar no Uruguai, sabes, a pensar no quão limitados somos. Aqui tudo é grande e tudo se faz em grande.
(…)
“Nós temos uma filosofia de Tango (…) A querida, a esposa, o mate, o futebol, a aguardente de cana, o velho bairro Sul, muito sentimentalismo. E assim não se vai a nenhum lado. Somos brandos, percebes?” (pág. 17)
Fecho os olhos e de imediato sou bombardeada com comentários equivalentes a estes que apenas são camuflados em momentos como os que vivemos hoje, dia 10 de julho, pelo menos até ao final da noite. Tanto somos bestiais como, num ápice, retrocedemos e transformámo-nos em bestas. Talvez ainda não nos tenhamos cumprido apenas por isso mesmo – porque o queixume, o lamento, a depreciação são parte integrante de nós, porque nunca nada nos parece perfeito e principalmente porque pouco ou nada fazemos para reverter a situação…
A imagem que retive do Uruguai de Benedetti aproxima-se assim perigosamente da que caracteriza o nosso país à beira-mar plantado. Como tal, experimentei sentimentos contraditórios – solidariedade, compaixão e desalento… Contudo, Obrigada pelo lume não se resume apenas a um retrato do país natal do autor e dos seus conterrâneos como povo e parceiros na construção da sua História e identidade. É isso e muito mais.
Tal como aconteceu com a leitura de A trégua, Primavera con una esquina rota e La borra del café, voltei a maravilhar-me com a arte e mestria com que Benedetti aborda e se adentra na alma e no íntimo das personagens. É sublimemente poética e inspiradora a forma como nos ligamos a Ramón, a personagem mais destacada e como vamos relembrando, perspetivando e questionando os nossos pensamentos, atos e sonhos perante aquilo que vamos lendo. Neste caso, estamos perante uma personagem desencantada, que odeia quase visceralmente o seu Velho, bem como tudo o que ele representa na sua vida presente, as amarras sanguíneas que os unem, a sua própria cobardia para quebrá-las e a obsessão que o preenche e que o acorrenta, não permitindo que viva uma existência em pleno.
Ramón é assim sinónimo de um presente estagnado, de alguém que anseia quebrar as amarras que o prendem a um Velho que representa talvez um passado repressivo, desprezível e autoritário. É igualmente a imagem de um homem que se acomodou a uma vida rotineira, a um casamento entorpecido, sem chama nem ânimo, a uma relação fria e distante com o irmão mais novo e inclusive com o filho e a desejar abrigar-se no olhar e nos braços da cunhada. É por fim a representação de um homem que tem a noção de que apenas alcançará a sua liberdade, a sua totalidade, buscando valentia para aniquilar quem sabe aquele que é o seu maior inimigo.
Com esta obra regressei ao mundo de Benedetti que tanto venero. Foi um regresso pintado com cores distintas, ou seja, mergulhei numa história povoada de cores mais cinzentas, mais escuras, onde impera o lado mais negativo, a tristeza, a frustração, a revolta, a cobardia e principalmente o asco por si mesmo. Contudo, a ternura, a doçura, a inocência e a nostalgia por algo que não volta, a magia de raros momentos de fusão entre dois seres que preferem quebrar as regras a vacilar, hesitar e a questionar vão entrelaçando-se com todo esse cinzentismo e desalento e vai permitindo que reencontremos aquele que considero ser o verdadeiro Mario Benedetti, alguém que nunca se vergou perante as adversidade e que adoçou e elevou a literatura sul-americana a patamares sublimes.
Mario Benedetti deve ser lido por todos que adoram penetrar nos meandros que compõem a vida humana e Obrigada pelo lume (reeditada pela Cavalo de Ferro, que também publicou A trégua e recentemente A borra do café) uma boa porta para o mundo deste fantástico autor uruguaio. Não deixem de o conhecer!

NOTA – 09/10

Sinopse

Ramón Budiño viveu toda a sua vida à sombra do pai, Edmundo, homem poderoso e autoritário, que ele odeia e deseja ver morto. «Eliminar o velho» talvez seja mesmo a maior obsessão da medíocre vida de Ramón. A sua história, marcada por um vaivém entre o presente e o passado, por um questionar sobre tudo o que o rodeia, a pátria, a revolução, o amor, o sexo, o seu lugar na sociedade e, sobretudo, pela falta de coragem para «eliminar o velho» é o espelho de um país que não tolera gestos dramáticos, e que está mergulhado numa grave crise politica e social sem um fim à vista.

Uma terra chamada liberdade, de Ken Follett


Ficha técnica
Título – Uma terra chamada liberdade
Autor – Ken Follett
Editora – Editorial Presença
Páginas – 453
Datas de leitura – de 29 de junho a 03 de julho de 2016

         Opinião
         Ken Follett não desilude. Não me deslumbra, mas tão pouco desilude.
Quando leio um livro deste autor de bestsellers sei que não me irei deparar com uma narrativa excecionalmente bem escrita. Nem com personagens intensas, vibrantes, inesquecíveis. Sei que encontrarei a receita infalível para que Ken Follett venda livros que nem pão a nível mundial – um enredo envolvente, uma contextualização histórica verosímil e bem documentada, um leque de personagens interessantes, com vilões e heróis, uma história de amor (pelo menos) que derruba adversidades atrás de adversidades e frequentes descrições de quentíssimos atos de cariz sexual (que me fazem suspeitar que o autor tem uma boa tara por aquilo que diz respeito a envolvimentos carnais J).
Ora, tudo isto está presente em Uma terra chamada liberdade. Viajamos até aos finais do século XVIII e ao longo das mais de quatrocentas páginas percorreremos três grandes espaços – as terras altas de Escócia, a capital inglesa e as plantações de tabaco do estado da Virgínia, nos Estados Unidos. Acompanharemos personagens provenientes de estratos sociais diferentes, das quais se destacam Mack McAsh, trabalhador condenado a uma vida de escravidão nas minas de carvão do seu país e Lizzie Halim, uma aristocrata, cujos comportamentos rebeldes pouco femininos nada se adequam ao que espera de uma jovem menina da sua classe. As vidas dos dois acabarão fatalmente por se cruzar e será a sua epopeia em busca da liberdade que dará cor e interesse à narrativa.
Aliada à história de Mack e Lizzie, a contextualização epocal é outra das mais-valias desta obra como de outras escritas pelo autor. Neste caso, damos um salto no tempo e conhecemos a instabilidade política e económica que se vivia por terras de Sua Majestade nos finais de 1700, as condições miseráveis em que os menos favorecidos viviam, a escravidão praticada pelos nobres na exploração mineira e posteriormente as sementes que brotaram e levaram ao nascimento de uma nação em terras americanas, de uma nação onde supostamente todos poderiam travar uma luta mais justa pelo sonho de ser livre. Livres dos grilhões ditados por classes sociais, por condições de vida ou por inconcebíveis regras que proibiam, por exemplo, uma mulher de cavalgar “à homem”.
Sendo assim, para quem busque uma leitura com todos estes ingredientes, recomendo que leiam esta obra e já agora qualquer uma que Ken Follett escreva ou tenha escrito, pois, mesmo confessando não ser a sua maior fã, tenho que admitir que o papei com alguma sofreguidão e que não me arrependo das horas que o tive entre mãos.

NOTA – 7,5/10

Sinopse

Condenado à nascença a uma vida de escravidão, Mack McAsh vê-se forçado a trabalhar nas minas de carvão da Escócia, no ano conturbado de 1766. Porém, Mack não perde a esperança de ser livre. Inesperadamente, encontra uma aliada. Lizzie Hallim é a bonita aristocrata rebelde e determinada que, apesar da sua condição, também se encontra aprisionada em intrigas e jogos de poder. Devido às ideias progressistas de Mack, Sir George, senhor das terras e dono da mina, dificulta-lhe a vida, obrigando-o a fugir. Num volte-face é Lizzie quem o ajuda. Os dois jovens não sabem que em breve a paixão será tão avassaladora no velho mundo como no novo. Das minas de carvão da Escócia às sujas ruas da Londres, passando pelas plantações de tabaco na Virgínia, os dois enamorados querem apenas conquistar algo para as suas vidas: a liberdade.

Balanço mensal - livros lidos e adquiridos em junho


Cinco livros lidos. Quatro de autores portugueses e outro que encerrou uma tetralogia que já me acompanhava há quase um ano. Duas leituras perfeitas, uma desilusão.
Abri o mês com uma reconciliação. Em teu ventre reconciliou-me com José Luís Peixoto, com quem andava de relações quase cortadas. Apelou ao meu instinto maternal, adoçou o meu ceticismo e ateísmo face aos milagres de Fátima e conquistou-me com a riqueza de uma linguagem que me sussurra, enleva e embala, como tenho que admitir que só alguns autores conseguem fazer.
História da menina perdida encerra a aclamada tetralogia de Elena Ferrante e deixou-me um sabor agridoce, já que, por um lado, pude finalmente saber o que se passou com Lina (desaparecida – enquanto mulher já avançadota na idade – desde as primeiras páginas do volume um), mas, por outro, com o desfecho caiu-me a ficha – não vai haver mais nenhum volume a publicar brevemente, a Lena e a Lina passarão a acenar-me apenas da estante e só poderei estar com elas de novo se me lançar numa releitura da sua amizade genial.
Ambas as mãos sobre o corpo foi uma desilusão. Emprestada pela minha querida Nancy (ainda bem que foi empréstimo e não desperdício de dinheiro…), esta obra é demasiado densa, com uma linguagem poética que raia – pelo menos para mim – a incompreensão que abunda em alguma poesia que prefiro não ler. A sua autora é sobretudo conhecida pelas suas criações poéticas e transferiu para este romance (o primeiro que escreveu enquanto tal) tudo aquilo que não me agrada nada na linguagem em verso…
Depois de uma desilusão, caíram nas minhas mãos duas obras deliciosamente perfeitas J
Arquipélago já habitava a minha estante desde fevereiro, mas só no final deste mês se mudou para a minha mesinha de cabeceira. Sabia pelo que havia lido na blogosfera e afins que iria ler uma obra que seguramente me cativaria. Por essa razão, parti para a sua leitura com algumas expetativas e, para minha felicidade, as mesmas foram amplamente ultrapassadas, pois das mãos e criatividade de Joel Neto saiu uma obra que nos preenche e nos faz vibrar com o seu lado mágico, místico, histórico e com um punhado de personagens envolventes e a quem não queremos dizer adeus. E a sua ação passa-se na Terceira, nesse bocadinho de paraíso plantado no meio do Atlântico!
Fechei o mês com outra obra que rebenta a escala da perfeição. Contos de cães e maus lobos são doze pequeninas histórias de puro encantamento, escritas por um autor que em tudo o que escreve brinca da forma mais doce e mais bela com a nossa língua, provocando no leitor uma amálgama de sentimentos que é sinónimo de genialidade e de um prazer que só a literatura, a boa literatura é capaz de oferecer.
Como dei conta na publicação “Desabafos intercalados com títulos de obras que muito me apetecem”, não fui à Feira do Livro de Lisboa nem à de Madrid. Ora, isso provocou-me alguma azia literária e só consegui “kompensá-la” da única forma possível – pecando quase lascivamente J Aproveitando promoções, engordei a estante cá de casa com seis novos moradores. E desta vez foi magnânima, porque desses seis, dois são exclusivamente para o maridinho!
Diretamente da wishlist para a estante, viajaram Uma história de amor e trevas, de Amos Oz, uma obra autobiográfica e cuja sinopse é viciante para quem é viciada em tudo o que se relaciona com a Segunda Guerra Mundial; A senda estreita para o norte profundo, de Richard Flanagan, outro retrato do conflito de 39-45 e recomendadíssimo por Miss Lamora do blogue O imaginário dos livros; Que importa a fúria do mar, de Ana Margarida Carvalho, romance de estreia da autora, finalista do prémio Leya de 2012 e que nos traz uma história de amor que atravessa o regime de Salazar e Portugal e Cabo Verde; Gramática do medo, de Maria Manuel Viana e Patrícia Reis, última criação de uma das minhas autoras portuguesas favoritas e que faz mergulhar numa viagem simultaneamente interior e geográfica.
De todas estas obras espero, anseio por viagens ficcionais que me arrebatem e me façam vibrar todas as fibras literárias que me habitam.
Ao maridinho ofereci a continuação de duas viagens que o estão a deixar entusiasmadíssimo – O pavilhão púrpura, de José Rodrigues dos Santos e Assim nasceu Portugal (volume II) – a vitória do imperador, de Domingos Amaral.
Como é habitual, termino este balanço com os links que permitem aceder às opiniões completas das leituras de junho:
§  Em teu ventre, de José Luís Peixoto
§  História da menina perdida, de Elena Ferrante
§  Ambas as mãos sobre o corpo, de Maria Teresa Horta
§  Arquipélago, de Joel Neto
§  Contos de cães e maus lobos, de Valter Hugo Mãe