Malena es un nombre de tango, de Almudena Grandes



Ficha técnica
TítuloMalena es un nombre de tango
Autora – Almudena Grandes
Editora – Tusquets Editora
Páginas – 761
Datas de leitura – de 24 de setembro a 04 de outubro de 2018

RELEITURA

Opinião
Em setembro quis desafiar-me e pôr em prática um projeto que já me aliciava há bastante tempo. Como sabem, adoro fazer releituras de obras que me conquistaram num determinado momento e que merecem que as retire de novo da estante e lhes dê, uma vez mais, atenção, tempo e mimo. Por tudo isso, desafiei-me a criar o projeto – Uma releitura por mês. Escrevi doze títulos em doze post-its – nove amarelos (correspondentes a obras publicadas em Portugal) e três cor-de-rosa com títulos de obras de Almudena Grandes. Coloquei-os numa caixinha e todos os meses – de setembro de 2018 a agosto de 2019 faço um sorteio (podem ver o sorteio de setembro aqui e o de outubro aqui) e releio a obra que me caia em sorte.
No mês passado, decidi apenas sortear uma obra em espanhol, porque seria a única que iria ler em língua castelhana durante esse período. Tive a felicidade de retirar o papelinho que continha o título que queria reler em primeiro lugar – Malena es un nombre de tango, da minha Almudena.
Todos que me conhecem e me seguem por estas bandas estão carecas de saber que Almudena Grandes é uma das referências incontornáveis da minha vida de leitora adulta. Nas minhas estantes moram quase todas as suas obras e não há nenhuma que não me tenha tocado de uma forma muito particular e muito especial. Malena es un nombre de tango não foi obviamente exceção, muito pelo contrário. Na primeira leitura que fiz da mesma, fiquei tão arrebatada com a sua protagonista, com a sua história, com os estereótipos que carrega, com a luta que luta consigo própria e com os outros para libertar-se dessas ideias e tradições que a amarram e não a deixam ser feliz e sentir-se realizada, que soube de imediato que teria que lê-la de novo, um dia mais tarde. E esse dia chegou, oito anos e um mês depois.
Malena é a menina má de um par de gémeas. É a filha desajeitada, é a filha menos perfeita, é a aluna pouco brilhante e é a irmã que, ainda na placenta, roubou alimento à sua gémea, fazendo com que esta nascesse com aspeto de prematura, precisasse de ir para a incubadora e passasse os primeiros anos debaixo do olho clínico de médicos especialistas. É a miúda que sempre se sentiu culpada, sempre se sentiu deslocada e a ovelha negra de um família tradicional, burguesa e endinheirada. Cresce sem ter a proteção de ninguém, ouvindo e sabendo das coisas através de falas veladas, de críticas face ao perfeccionismo da irmã (que até o nome lhe roubou quando nasceu) e dos ensinamentos que mãe, avó e a própria gémea lhe tentam impor.
Malena nasce na década de 60, em plena ditadura franquista. Não passou por necessidades económicas, porque a sua família é endinheirada, mas desenvolve-se num ambiente que dita que o papel de uma menina é ser obediente, dar suma importância à família, crescer para ser uma boa filha, uma boa neta e futuramente uma boa mulher, submissa, religiosa, doméstica e uma boa mãe. Quando se dá conta de que, por muito que se esforce, nunca será como Reina, a sua mãe e a sua irmã, e que, pelo contrário, é portadora do sangue impuro que está presente em alguns elementos da sua família, tem consciência de que terá que expiar essa culpa. E fá-lo-á eternamente, diminuindo-se face à irmã, tentando calcar o amor que professa pelo seu avó e pela sua tia Magda (as outras ovelhas negras da família) e sentindo-se um pouco culpada sempre que dá ouvidos ao que ela quer, ao que o seu coração e o seu corpo lhe pedem.
É humanamente impossível não nos apaixonarmos por Malena. É uma miúda e mais tarde uma mulher vibrante, dona de um corpo que destila sensualidade, que apenas quer ser ela mesma, amar e ser amada numa época que está, aos pouquinhos, deixando que as mulheres desabrochem. A sua tórrida história de amor enquanto adolescente, a dor física que a assola quando é abandonada, as escolhas imperfeitas que faz em adulta, a diferença abismal entre ela, como progenitora, e a sua mãe e irmã, a vontade que tem de querer conciliar todos os papéis que a fazem mulher, tudo a torna numa protagonista inesquecível. E isso deve-se exclusivamente à genialidade de Almudena Grandes que nos entende, a nós mulheres, como muitíssimo poucas escritoras.
Numa obra de quase oitocentas páginas há muito mais do que Malena. Há histórias igualmente inesquecíveis de outros elementos da sua família, há um travo das dificuldades que caracterizaram a vida do espanhol anónimo durante a ditadura, há mais uma ou outra memorável história de amor e há, acima de tudo, o quebrar de tabus associados ao papel da mulher. Malena vai quebrando-os, tal como o fizeram a sua tia e a sua avó paterna. Leva muitas bofetadas enquanto o faz, mas no final compreende que valeu a pena e que se encontrou finalmente como ser humano e como mulher.
Quem já leu ou venha a ler esta obra, pode afirmar que poderia ser menos extensa, que a autora poderia cortar-lhe um bom punhado de páginas. Pode igualmente referir-se ao estilo de Almudena como algo rebuscado ou rendilhado. Não deixo de estar de acordo, sobretudo quando o comparo àquele que a própria autora depurou em obras seguintes. Contudo, mesmo assim, dou nota máxima a Malena, porque voltei a apaixonar-me por ela, perdidamente, como me apaixonei há oito anos e um mês.
Termino (e ainda havia tanto para dizer), informando que esta obra foi, há muitos anos, publicada em português. Infelizmente, só a conseguirão encontrar em alguma biblioteca ou alfarrabista. Mas se tropeçarem nela, deem-lhe uma oportunidade, sobretudo aqueles que não se assustam com o seu tamanho e com um estilo denso, que corre, com muita frequência, do passado para o presente e que parece ter saído, de rajada, da cabeça da autora para o papel.

NOTA – 10/10

Deixo-vos também o vídeo de opinião que publiquei entretanto no canal. Neste mesmo vídeo faço também referência a outra leitura que, infelizmente, não terminei.


Sinopse
Malena tiene doce años cuando recibe, sin razón, y sin derecho alguno, de manos de su abuelo el último tesoro que conserva la familia: una esmeralda antigua, sin tallar, de la que ella nunca podrá hablar porque algún día le salvará la vida. A partir de entonces, esa niña desorientada y perpleja, que reza en silencio para volverse niño porque presiente que jamás conseguirá parecerse a su hermana melliza, Reina, la mujer perfecta, empieza a sospechar que no es la primera Fernández de Alcántara incapaz de encontrar el lugar adecuado en el mundo. Se propone entonces desenmarañar el laberinto de secretos que late bajo la apacible piel de su familia, una ejemplar familia burguesa madrileña. A la sombra de una vieja maldición, Malena aprende a mirarse, como en un espejo, en la memoria de quienes se creyeron malditos antes que ella y descubre, mientras alcanza la madurez, un reflejo de sus miedos y de su amor en la sucesión de mujeres imperfectas que la han precedido.

Balanço mensal - livros adquiridos e recebidos em agosto + setembro



Nestes dois últimos meses, a estante voltou a engordar bastantes gramas!
Em agosto, numa escapadela a terras de Espanha, comprei 3 livros que já moravam na wishlist há tempos. No final do mês, já em terras lusas, não resisti a uma promoção de 60% e trouxe para casa mais um livro que pedia encarecidamente para também sair da wishlist e ocupar o seu lugarzinho na minha estante.
Em setembro, nas duas visitas que fiz à Feira do Livro do Porto, comprei duas pechinchas – cada livro custou-me apenas 5 euros – e o maridinho, seguindo a recomendação de um colega, adquiriu uma novidade numa promoção de 20%. Por fim, a melhor e mais suculenta surpresa de todas aterrou na minha caixa de correio por tua culpa, Paula, que decidiste presentear-me com duas prendinhas que me puseram histérica (como podem ver aqui) e me fizeram acreditar ainda mais que somos verdadeiramente BOOKBESTIES!
Para saberem quais foram as minhas compras, a do maridinho e os miminhos que a Paula me ofereceu, deixo-vos o correspondente vídeo que, entretanto, publiquei no youtube. Espero que gostem e que partilhem aqui ou lá se pecaram durante estes dois meses e que novos habitantes têm a vossa estante!





Balanço mensal - livros lidos em setembro



Setembro encheu-se de boas leituras e de desafios! Terminei, fazendo bingo e completando o cartão, a maratona literária – Bookbingo – Leituras ao sol 2, participei no #septemberthrills e dei início a um desafio que já habitava nos meus planos há bastante tempo – o de reler uma obra por mês, durante um ano. Completei seis leituras, abandonei uma e iniciei outra que só terminarei em outubro. Fica aqui, em vídeo, o balanço de todas essas leituras e experiências. Espero que gostem!


Deixo-vos ainda, e como é habitual, os links para acederem à opinião completa das obras lidas em setembro:
§  Avozinha Gângster, de David Walliams
§  A maior flor do mundo, de José Saramago
§  Meridiano 28, de Joel Neto
§  A terra de Léa, de Claire Graf
§  Soledad, de Raffaello Bergonse
§  Messias, de Boris Starling

E vocês, que leram no mês de setembro? Leram muito, leram pouco? Abandonaram alguma leitura? Contem-me tudo, OK? Aqui ou no Youtube, como quiserem, mas não se esqueçam de o fazer!

Messias, de Boris Starling



Ficha técnica
TítuloMessias
Autor – Boris Starling
Editora – Bertrand Editora
Páginas – 534
Datas de leitura – de 16 a 21 de setembro de 2018

Opinião
Como sabem, os thrillers não abundam nas minhas leituras, mas estes últimos meses tenho lido alguns e têm sido leituras bastante produtivas e saborosas. Em setembro, por causa do desafio literário organizado por duas booktubers que sigo com carinho (Dora e Cristina), chamado #septemberthrills, li este thriller, que trouxe da biblioteca da terrinha, e que me agradou sobremaneira! Deixo-vos o vídeo que publiquei no canal do youtube e que espero vos influencie e vos leve a dar-lhe uma oportunidade, porque é mesmo muito bom!


NOTA – 09/10

Sinopse
A primeira vítima foi encontrada pendurada numa corda. A segunda, espancada até à morte, jazendo numa poça de sangue. A terceira, decapitada. Os seus antecedentes são tão diferentes como os métodos do seu assassinato. Mas um pormenor arrepiante liga os três crimes: as suas línguas foram cortadas e substituídas por uma colher de prata. A polícia tinha provas suficientes para acreditar que estava perante um raro e perturbador fenómeno: o aparecimento de um serial Killer... E ele vai matar outra vez.

Balanço | Maratona Literária - Bookbingo Leituras ao Sol 2


Olá!

Deixo-vos o balanço da maratona literária - Bookbingo Leituras ao sol 2. Como podem ver pela imagem do vídeo, eu fiz BINGO! Adorei a experiência e quero muito repeti-la!
E vocês? Participaram nesta maratona ou participaram noutra? Partilhem comigo não só isso como também se gostaram deste vídeo/balanço, se já leram alguma das obras que me permitiram completar o cartão ou se ficaram com vontade de ler alguma! Deixem um comentário aqui ou nos "youtubes", onde quiserem, mas façam-no!
Beijinhos e leituras muito saborosas!




Soledad, de Raffaello Bergonse



Ficha técnica
TítuloSoledad
Autor – Raffaelo Bergonse
Editora – Ambar
Páginas – 175
Datas de leitura – de 11 a 15 de setembro de 2018

Opinião
Sou uma mulher do Norte, mais propriamente do litoral, mas, a partir do momento em que comecei a calcorrear o nosso lindo país, não fui capaz de resistir aos encantos de paragens mais interiores, mais agrestes e menos verdes. Concordo plenamente com Miguel Torga, que afirmou um dia que o Minho é demasiado verde. Prefiro de longe as paisagens mais nuas, semeadas de pedregulhos, fragas ou então que se espraiam por quilómetros que parecem infinitos, como as transmontanas, as beirãs e as alentejanas.
Soledad, do autor que até agora me era desconhecido – Raffaelo Bergonse – levou-me de novo a uma vila alentejana que me fascina desde que a visitei pela primeira vez, há cerca de quinze anos. Refiro-me a Castelo de Vide, aninhada numa encosta e protegida pelo seu castelo e pela sua imponente torre de menagem. Já percorri as suas ruazinhas sinuosas pelo menos três vezes e a última ocorreu em 2012, durante uma semana inesquecível de férias de verão. Aqui ficam duas fotografias que testemunham a beleza e o encanto da vila:



Aconchegada por esse amor e fascínio, parti para a leitura com todos os sentidos em alerta e derreti-me com as descrições dos espaços urbanos que rapidamente recordei – ruas, praças, monumentos, portas em ogiva –, com a infinitude das paisagens e sobretudo com a sua quietude, a sua paz e o seu chamamento milenar, que sempre atraiu o Homem, como se pode depreender dos achados arqueológicos que abundam por lá. É por demais evidente que toda a magia e a precisão que o autor colocou nestas partes descritivas, nos pormenores, nas sensações e nos recantinhos mais recônditos provêm de alguém que conhece o espaço do nordeste alentejano como poucos e esse conhecimento, essa vivência (atestada pela pequena biografia numa das abas do livro) são o melhor, a parte mais positiva de uma narrativa que, no resto, não deixa de ser mediana.
A trama tem o seu início em Lisboa, onde vive e trabalha o nosso protagonista, José Diamantino. Contudo, irá deixar a capital muito em breve, porque atenderá ao pedido do seu patrão, pedido esse que o levará a Castelo de Vide para gerir uma livraria que está a precisar de carinho e uma boa gestão para poder sobreviver. A mudança é vista com muito bons olhos por José Diamantino, já que lhe permitirá deixar para trás um ambiente familiar repleto de rancor por um pai violento. Vai viver numa casa rodeada de natureza e sossego, vai saborear uma solidão que não lhe pesa no coração e vai entabular conversas com gente simples e franca. Vai criar amizades e vai amar desesperadamente. Vai finalmente viver. Mas será que vai conseguir de verdade romper com todas as amarras que o tinham aprisionado a um passado de submissão a um pai violento?
Termino dizendo que Soledad é uma obra de fácil leitura e que pode cativar o leitor que busca uma narrativa simples, com uma trama não muito densa, com poucas personagens e temas associados à desilusão, ao rancor, à vontade de escapar a doridas ligações familiares e a escolhas que se fazem irrefletidamente. Na minha opinião (que é algo parcial, por aquilo que já referi), ganha brilho e magia com a escolha do espaço onde se desenrola – a lindíssima vila de Castelo de Vide, o espaço natural fabuloso onde está situada e o encantamento que se respira naquelas paisagens que me enfeitiçaram para todo o sempre. Sinto que se a trama se desenrolasse noutro espaço, noutro local, não me diria muito… Atrevo-me a dizer que me diria muito pouco…

NOTA – 07/10 (por tua causa, Alentejo, por tua causa, Castelo de Vide)

Sinopse
Um livreiro que arrasta velhos fantasmas.
Uma mulher deslocada. 
Um estranho aguarelista solitário.
SOLEDAD é a surpreendente narrativa do encontro improvável de três vidas muito diferentes, e das suas consequências irreversíveis.
Uma fábula de amor e destino, que tem como testemunhas as imensidões rochosas do Nordeste Alentejano.

Meridiano 28, de Joel Neto



Ficha técnica
TítuloMeridiano 28
Autor – Joel Neto
Editora – Cultura Editora
Páginas – 420
Datas de leitura – de 03 a 10 de setembro de 2018

Opinião
Apaixonei-me por Joel Neto quando li Arquipélago. Foi uma leitura sublime, onde tudo está magistralmente orquestrado e que continuo a recomendar muitíssimo. A Arquipélago seguiu-se-lhe A vida no campo, num registo distinto, de não-ficção e que me fez aumentar ainda mais a vontade, já de si tremenda, de conhecer a ilha Terceira e de continuar a ler Joel Neto.
Quase dois anos depois dessas duas leituras, voltei a ter Joel Neto nas minhas mãos. Fui seguindo as pistas e indicações que o autor foi deixando nas redes sociais e na imprensa sobre a publicação de Meridiano 28 e nem imaginam o meu contentamento e euforia quando, por fim, em maio deste ano, comprei a obra (autografada e tudo) e a coloquei na minha estante. Aqueles que estão a par da minha mania das leituras cronológicas devem estar agora mesmo a questionar-se sobre como foi possível eu ter lido em setembro uma obra que apenas havia comprado 3 meses antes. A culpa é de uma das categorias da maratona Bookbingo, que “me obrigou” a retirar da estante um livro que tivesse um número no título. Meridiano 28 era a mais antiga que morava cá em casa e que encaixava nessa categoria, por isso não tive outro remédio que não lê-la antes da sua vez ;)
Meridiano 28 é o meridiano que atravessa o arquipélago dos Açores. Contudo, em termos literários é isso e muito, muito mais. Centra-se, como é óbvio, nesses torrõezinhos de terra que pertencem ao nosso país, sobretudo na ilha do Faial e faz-nos viajar a uma época que, como sabem, me fascina desde sempre – a Segunda Grande Guerra. Contudo, estaria a ser injusta se apenas dissesse isso sobre esta obra que, confesso já, me arrebatou.
A narrativa arranca em 2107. José Filemom Abke Marques (que nome maravilhosamente sui generis) enterrou o seu tio há poucos dias e recebe uma estranha visita na sua loja de informática. Não é a primeira vez que se encontra com aquele velhote que parece ser gémeo do ator Morgan Freeman, mas tudo faz para não dar a entender que o reconheceu. Tão-pouco se deixa tentar (pelo menos naquele dia) pela caixa que o misterioso homem lhe entrega e que, segundo ele, contém material relevante para que José termine o que prometeu fazer há mais de vinte anos, na biblioteca de uma luxuosa mansão dos arredores de Nova Iorque.
Este é o preâmbulo para uma trama que se molda com uma brilhante mistura de mistério, suspense, momentos históricos, viagens entre vários pontos do mundo, um equilíbrio perfeito entre presente e passado, dois homens protagonistas e provenientes da mesma família, deliciosas personagens secundárias e os Açores, esse arquipélago místico, mágico e que me atrai cada vez mais e mais.
Desengane-se quem pega em Meridiano 28 e espera encontrar nas suas 420 páginas uma narrativa de ritmo vertiginoso típica de um thriller ou romance de ação. Desengane-se igualmente quem crê, perante a lista gigantesca de personagens presente nas primeiras páginas, que se vai baralhar e perder-se no meio de tanta gente. Por fim, desengane-se quem acha que vai encontrar apenas uma narrativa de mistério ou apenas uma narrativa histórica. Meridiano 28 é uma amálgama brilhantemente urdida pelo autor e não defraudará nenhum leitor que busca o imprevisível, que procura narrativas que vão deixando cair, pouco a pouco, o pano e que são habitadas por personagens redondas, imperfeitas, algo banais, mas que nos agarram e se mantêm connosco durante muito tempo.
Para além de tudo isto que já referi, a obra agradou-me e conquistou-me pelo seu lado histórico e geográfico. Tenho, como já mencionei vezes se conta, um fascínio enorme pela Segunda Grande Guerra, mas até ter lido Meridiano 28, não tinha a mais pálida ideia de como este conflito tinha chegado às ilhas açorianos e de que forma tinha marcado as suas terras e os seus habitantes. Foi, assim, maravilhoso descobrir que na pequena ilha do Faial ingleses e alemães conviveram em paz durante os primeiros três anos da Guerra e que na Horta estavam instaladas importantes bases de uma das mais importantes redes de comunicação da época – a da telegrafia. Para além disso, através das deambulações dos dois protagonistas da obra – o já referido José Filemom e o seu tio, Hansi – pude conhecer a baía, ruas e outros locais da cidade da Horta e pude percorrer espaços da ilha como o Porto Pim, o Capelo e apreciar a beleza estonteante de um torrãozinho plantado em pleno Atlântico, sempre de olhos postos no Pico e na sua majestosidade. Por fim, pude experimentar o lado vulcânico da ilha, os seus tremores de terra e as suas erupções de grandes proporções.
Não quero terminar esta opinião (que já está gigante) sem abordar aquilo que acho ser o ponto fulcral de uma boa narrativa. Falo das suas personagens e nesta, na de Meridiano 28, as personagens, todas elas, estão muito bem construídas e é impossível ficar indiferente a José Filemom, à sua orfandade de emoções, à sua demanda de saber quem foi na verdade o seu tio Hansi (e saber igualmente quem é ele próprio) e ao desfecho que lhe reserva o autor. Aliás, o epílogo da obra é brutal e quando digo brutal não significa que nos deixe estarrecidos. É brutal, porque traz respostas, traz apaziguamento e fecha muitas portas que precisavam de ser fechadas. Gostei muito da personagem do José, comunguei da sua satisfação quando deu aquelas bofetadas (de luva branca) nas derradeiras páginas da obra, gostei imenso da Alice, do Fernando/Carlos Ponta-Garça e nutri um carinho que foi gradualmente crescendo por Hansi, pelo jovem e não menos jovem Hansi.
Termino (agora sim) dizendo que valeu a pena esperar dois anos por esta nova obra de Joel Neto. Está madura, consistente e muito bem conseguida. Recomendo-a vivamente, tal como o faço para as outras obras que já li do autor!

Esta foi a décima quinta leitura que fiz para a maratona literária Bookbingo – Leituras ao sol 2 – e foi para a categoria Livro com um número no título.

NOTA – 9,5/10 (apenas porque continuo a gostar um bocadinho mais de Arquipélago)

Sinopse
Em 1939, o mundo entrou em guerra. Foi o conflito mais mortífero da história da humanidade. Mas, na pequena ilha açoriana do Faial, ingleses e alemães conviveram em paz durante mais três anos. Eram os loucos dos cabos telegráficos.
Do mar em frente emergiam os periscópios de Hitler. Dezenas de navios britânicos eram afundados todos os meses. Já em terra, as crianças inglesas continuavam a aprender na escola alemã, dividindo as carteiras com meninos adornados de suásticas. As famílias juntavam-se para bailes e piqueniques.
Os hidroaviões da Pan American faziam desembarcar estrelas do cinema e da música, estadistas e campeões de boxe. Recolhiam-se autógrafos. Jogava-se ao ténis e ao croquet. Dançava-se o jazz. Viviam-se as mais arrebatadoras histórias de amor.
Poderia um agente nazi ter-se escondido nos Açores, consumada a derrota de Hitler? Quem foi Hansi Abke? Que sombra lança hoje sobre o destino de José Filemom Marques, o sobrinho criado no Brasil?
Um romance que vai de Lisboa a Nova Iorque, de Friburgo a Praga, de Bristol a Porto Alegre e às ilhas açorianas, onde todos são descobertos e ninguém pode ser apanhado. Um reencontro entre dois homens de tempos distintos e que talvez tenham mais em comum do que aquilo em que gostariam de acreditar. Uma memória das mulheres que amaram e talvez não tenham sabido fazê-lo.

A maior flor do mundo, de José Saramago



Ficha técnica
TítuloA maior flor do mundo
Autor – José Saramago
Editora – Editorial Caminho
Páginas – 36
Data de leitura – 02 de setembro de 2018

Opinião
Vou fazer-vos uma confissão. Uma confissão escabrosa de quem se diz “a maior fã de Saramago” – mais de vinte anos depois de ter lido A Jangada de Pedra, peguei pela primeira vez e finalmente li de fio a pavio A maior flor do mundo. Digam lá – não é um pecado horrendo tê-lo feito apenas agora?! Que raio de fã sou eu??
Contudo, na última visita à biblioteca da terrinha, ia determinada a redimir-me desse pecado terrível e trouxe a edição com capa dura e com belíssimas ilustrações da Editorial Caminho. Li-a em poucos minutos e bastou esse punhado de minutos para embrenhar-me de novo no mundo do meu Saramaguinho e sentir-me em casa.
Quem olha para uma fotografia ou imagem de José Saramago dificilmente o imagina como contador e criador de histórias infantis. As suas feições austeras e algo carrancudas impedem que os leitores (e não só) o vejam como tal. Eu incluo-me (ou incluía-me) nesse rol de gente e constatei que o próprio também, já que a curta narrativa de A maior flor do mundo arranca com o autor a confessar que se não se sente capacitado para montar uma história infantil, simples, com poucas e descomplicadas palavras. Foi, como podem compreender, desconcertante e ternurento ser testemunha da sinceridade deste monstro das letras mundiais, que admite, sem nenhum pejo, essa falha e, chega, inclusive, a pedir ajuda aos leitores mais pequenos, àqueles que venham a ler a história desta flor, que a moldem aos seus gostos, que a desenvolvam e encerrem como mais lhes aprouver.
A história é, como não poderia deixar de ser, muito curtinha e deliciosa. Toca-nos, como devem tocar todas as histórias infantis, vai direitinha ao coração e está maravilhosamente ilustrada nesta edição, com imagens alusivas à narrativa e ao próprio autor, que nos aparece sentado a uma secretária, com feições mais suaves e sorridentes, a tentar moldar o melhor possível uma história bonita e simples. Entrei em estado de completo derretimento nos poucos minutos em que estive com a obra na mão, não só pelo que já referi, pela viagem de uma menino que termina aos pés de uma flor murchinha, pela humildade de Saramago ao confessar a sua incapacidade em criar histórias infantis, como também pelo quanto ainda me apertam as saudades que tenho deste homem que teve um papel imprescindível no meu percurso enquanto leitora.

     

Por tudo isto, não vos será difícil de adivinhar o quanto esta leitura foi especial, memorável e agridoce. Pude conhecer uma nova faceta do meu Saramago, pude matar as saudades que tenho das suas letras e voltei a sentir-me “amputada”, revoltadíssima, porque nem os génios escapam às leis da mortalidade.
Reparei o meu erro, redimi-me e adorei fazê-lo!

NOTA – 10/10

Sinopse
«E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar? 
Uma magnífica obra do escritor José Saramago, com bonitas ilustrações de João Caetano.»
Prémio Nacional de Ilustração – 2001
Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura, 4.º ano de escolaridade - Leitura autónoma e leitura com apoio dos professores ou dos pais.

Avozinha Gângster, de David Walliams



Ficha técnica
TítuloAvozinha Gângster
Autor – David Walliams
Editora – Porto Editora
Páginas – 256
Datas de leitura – 01 a 02 de setembro de 2018

Opinião
Na última semana de agosto fui devolver livros à biblioteca da terrinha e é mais do que óbvio que não vim de lá de mãos vazias. Fui acompanhada pelos meus dois homens e no saco “de compras” trouxemos três livros.
Tinha reservado com antecedência esta obra de David Walliams que sabia que encaixaria que nem uma luva na categoria “Livro Silly” da maratona em que estou a participar. No final do ano passado uma colega de trabalho emprestou-me Sr. Pivete e, como podem comprovar aqui, fiquei rendida ao estilo do autor (simultaneamente hilariante e ternurento), à personagem do Sr. Pivete (que nunca mais me irá abandonar) e aos subterfúgios, às mensagens e chamadas de atenção que povoam (de forma indireta, claro) a narrativa e que são uma alfinetada aos comportamentos familiares dos dias de hoje.
Em Avozinha Gângster, os protagonistas são, tal como em Sr. Pivete, uma criança e um sénior. Ben (ou Benny) todas as sextas-feiras é arrastado pelos seus pais para casa da avó, porque esse é o dia dedicado ao casal, é nesse dia que pai e mãe disfrutam de um tempo a sós a ver O Dança com as estrelas na televisão ou ao vivo. Para Ben, não há maior tortura do que estar em casa da avó, ser obrigado a engolir a sua sopa de couve, o seu puré de couve, o seu pudim de couve, jogar todas as noites Scrabble e ter suportar o cheiro dos pums que a avó vai disparando sempre que se movimenta e que parecem o “quá, quá” de um pato. Contudo, nem tudo é o que parece e debaixo daquele ar de avozinha com cabelos brancos, dentadura, que veste sempre o mesmo casaquinho de malha, em cujas mangas guarda os lenços de papel que vai usando, esconde-se alguém que é mundialmente famosa por roubar joias!!!
Como devem calcular, voltei às gargalhadas que havia dado com a primeira obra que li de David Walliams. É impossível não rir com a caracterização da avó, é impossível não rir com os apartes hilariantes que vão aparecendo ao longo da narrativa. Contudo, tal como me havia acontecido com Sr. Pivete, também voltei às lágrimas (como não haveria eu de chorar com uma história que envolva velhotes e, ainda por cima, velhotes e netos?...) e a anotar mentalmente a forma habilidosa e inteligente como o autor aborda numa trama juvenil, repleta de ação e muito divertida, temáticas preocupantes da sociedade atual – filhos a quem os pais pouca atenção dedicam, filhos a quem os pais querem impingir os seus próprios sonhos e aspirações e adultos que pouco ou nenhum valor dão aos seniores, aos seus seniores.
Por tudo isto, digo aquilo que já havia dito aquando da leitura de Sr. Pivete. Foi uma experiência deliciosa e que quero, sem dúvida, repetir. Pretendo trazer da biblioteca as outras obras de David Walliams que lá moram e divertir-me com elas tanto como me diverti com as duas que já li dele. Concluo, acrescentando apenas que, se comparar Sr. Pivete, com esta avozinha, tenho que dizer que, das duas obras, a primeira continua a ser a minha preferida, somente por uma razão que tem a ver com uma parte importante da ação de Avozinha Gângster e que, para os meus 43 anos, é pouco credível. No entanto, creio que para os mais novos essa parte será uma das mais interessantes e não lhes “estragará” o prazer de conhecer esta avozinha e o seu “Benny”.
É óbvio que, para finalizar, tenho que recomendar (e muito) esta leitura a miúdos e a graúdos! Leiam-na e leiam as outras obras do autor! Não se arrependerão!

NOTA – 09/10

Esta foi a décima terceira leitura que fiz para a maratona literária Bookbingo – Leituras ao sol 2 – e foi, como já disse, para a categoria Livro silly.

PS – Que próxima obra de David Walliams me recomendam?

Sinopse
O nosso herói, Ben, adormece só de pensar que tem de ficar em casa da avó. Que seca! É a avozinha mais aborrecida de sempre: só pensa em jogar jogos de tabuleiro e comer sopa de couve. Mas há dois segredos que Ben desconhece:
§  A sua avozinha é uma famosa ladra de joias.
§  E toda a vida sonhou roubar as Joias da Coroa inglesa, e agora precisa da ajuda de Ben…
Uma história sobre preconceitos e aceitação, cheia de piadas engraçadas e palavras tolas, ao estilo bem-humorado do comediante David Walliams, com mais de 4 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.

Balanço mensal - livros lidos em agosto


         Agosto é mês de férias, de tempo só para nós e de tempo para saborear o maior número de leituras possível. Foi o que tentei fazer - li sete livros e abandonei um. Agosto também foi o mês em que me lancei num novo projeto que quero conciliar com este cantinho. Assim sendo, partilho convosco, num novo formato, o balanço dessas sete leituras.
       Deixo-vos ainda, e como é habitual, os links para acederem à opinião completa das obras lidas em agosto:
§  Crime adormecido + Cai o pano, de Agatha Christie
§  O fim da inocência (vol. I), de Francisco Salgueiro
§  O jovem da porta ao lado, de Josie Lloyd e Emlyn Rees
§  A rapariga no gelo, de Robert Bryndza
§  Debaixo de algum céu, de Nuno Camarneiro
§  Arrugas, de Paco Roca
§  Amores secretos, de Kate Morton

E vocês, que leram no mês de agosto? Leram muito, leram pouco? Abandonaram alguma leitura? Contem-me tudo, OK? Aqui ou no Youtube, como quiserem, mas não se esqueçam de o fazer!