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Malena es un nombre de tango, de Almudena Grandes



Ficha técnica
TítuloMalena es un nombre de tango
Autora – Almudena Grandes
Editora – Tusquets Editora
Páginas – 761
Datas de leitura – de 24 de setembro a 04 de outubro de 2018

RELEITURA

Opinião
Em setembro quis desafiar-me e pôr em prática um projeto que já me aliciava há bastante tempo. Como sabem, adoro fazer releituras de obras que me conquistaram num determinado momento e que merecem que as retire de novo da estante e lhes dê, uma vez mais, atenção, tempo e mimo. Por tudo isso, desafiei-me a criar o projeto – Uma releitura por mês. Escrevi doze títulos em doze post-its – nove amarelos (correspondentes a obras publicadas em Portugal) e três cor-de-rosa com títulos de obras de Almudena Grandes. Coloquei-os numa caixinha e todos os meses – de setembro de 2018 a agosto de 2019 faço um sorteio (podem ver o sorteio de setembro aqui e o de outubro aqui) e releio a obra que me caia em sorte.
No mês passado, decidi apenas sortear uma obra em espanhol, porque seria a única que iria ler em língua castelhana durante esse período. Tive a felicidade de retirar o papelinho que continha o título que queria reler em primeiro lugar – Malena es un nombre de tango, da minha Almudena.
Todos que me conhecem e me seguem por estas bandas estão carecas de saber que Almudena Grandes é uma das referências incontornáveis da minha vida de leitora adulta. Nas minhas estantes moram quase todas as suas obras e não há nenhuma que não me tenha tocado de uma forma muito particular e muito especial. Malena es un nombre de tango não foi obviamente exceção, muito pelo contrário. Na primeira leitura que fiz da mesma, fiquei tão arrebatada com a sua protagonista, com a sua história, com os estereótipos que carrega, com a luta que luta consigo própria e com os outros para libertar-se dessas ideias e tradições que a amarram e não a deixam ser feliz e sentir-se realizada, que soube de imediato que teria que lê-la de novo, um dia mais tarde. E esse dia chegou, oito anos e um mês depois.
Malena é a menina má de um par de gémeas. É a filha desajeitada, é a filha menos perfeita, é a aluna pouco brilhante e é a irmã que, ainda na placenta, roubou alimento à sua gémea, fazendo com que esta nascesse com aspeto de prematura, precisasse de ir para a incubadora e passasse os primeiros anos debaixo do olho clínico de médicos especialistas. É a miúda que sempre se sentiu culpada, sempre se sentiu deslocada e a ovelha negra de um família tradicional, burguesa e endinheirada. Cresce sem ter a proteção de ninguém, ouvindo e sabendo das coisas através de falas veladas, de críticas face ao perfeccionismo da irmã (que até o nome lhe roubou quando nasceu) e dos ensinamentos que mãe, avó e a própria gémea lhe tentam impor.
Malena nasce na década de 60, em plena ditadura franquista. Não passou por necessidades económicas, porque a sua família é endinheirada, mas desenvolve-se num ambiente que dita que o papel de uma menina é ser obediente, dar suma importância à família, crescer para ser uma boa filha, uma boa neta e futuramente uma boa mulher, submissa, religiosa, doméstica e uma boa mãe. Quando se dá conta de que, por muito que se esforce, nunca será como Reina, a sua mãe e a sua irmã, e que, pelo contrário, é portadora do sangue impuro que está presente em alguns elementos da sua família, tem consciência de que terá que expiar essa culpa. E fá-lo-á eternamente, diminuindo-se face à irmã, tentando calcar o amor que professa pelo seu avó e pela sua tia Magda (as outras ovelhas negras da família) e sentindo-se um pouco culpada sempre que dá ouvidos ao que ela quer, ao que o seu coração e o seu corpo lhe pedem.
É humanamente impossível não nos apaixonarmos por Malena. É uma miúda e mais tarde uma mulher vibrante, dona de um corpo que destila sensualidade, que apenas quer ser ela mesma, amar e ser amada numa época que está, aos pouquinhos, deixando que as mulheres desabrochem. A sua tórrida história de amor enquanto adolescente, a dor física que a assola quando é abandonada, as escolhas imperfeitas que faz em adulta, a diferença abismal entre ela, como progenitora, e a sua mãe e irmã, a vontade que tem de querer conciliar todos os papéis que a fazem mulher, tudo a torna numa protagonista inesquecível. E isso deve-se exclusivamente à genialidade de Almudena Grandes que nos entende, a nós mulheres, como muitíssimo poucas escritoras.
Numa obra de quase oitocentas páginas há muito mais do que Malena. Há histórias igualmente inesquecíveis de outros elementos da sua família, há um travo das dificuldades que caracterizaram a vida do espanhol anónimo durante a ditadura, há mais uma ou outra memorável história de amor e há, acima de tudo, o quebrar de tabus associados ao papel da mulher. Malena vai quebrando-os, tal como o fizeram a sua tia e a sua avó paterna. Leva muitas bofetadas enquanto o faz, mas no final compreende que valeu a pena e que se encontrou finalmente como ser humano e como mulher.
Quem já leu ou venha a ler esta obra, pode afirmar que poderia ser menos extensa, que a autora poderia cortar-lhe um bom punhado de páginas. Pode igualmente referir-se ao estilo de Almudena como algo rebuscado ou rendilhado. Não deixo de estar de acordo, sobretudo quando o comparo àquele que a própria autora depurou em obras seguintes. Contudo, mesmo assim, dou nota máxima a Malena, porque voltei a apaixonar-me por ela, perdidamente, como me apaixonei há oito anos e um mês.
Termino (e ainda havia tanto para dizer), informando que esta obra foi, há muitos anos, publicada em português. Infelizmente, só a conseguirão encontrar em alguma biblioteca ou alfarrabista. Mas se tropeçarem nela, deem-lhe uma oportunidade, sobretudo aqueles que não se assustam com o seu tamanho e com um estilo denso, que corre, com muita frequência, do passado para o presente e que parece ter saído, de rajada, da cabeça da autora para o papel.

NOTA – 10/10

Deixo-vos também o vídeo de opinião que publiquei entretanto no canal. Neste mesmo vídeo faço também referência a outra leitura que, infelizmente, não terminei.


Sinopse
Malena tiene doce años cuando recibe, sin razón, y sin derecho alguno, de manos de su abuelo el último tesoro que conserva la familia: una esmeralda antigua, sin tallar, de la que ella nunca podrá hablar porque algún día le salvará la vida. A partir de entonces, esa niña desorientada y perpleja, que reza en silencio para volverse niño porque presiente que jamás conseguirá parecerse a su hermana melliza, Reina, la mujer perfecta, empieza a sospechar que no es la primera Fernández de Alcántara incapaz de encontrar el lugar adecuado en el mundo. Se propone entonces desenmarañar el laberinto de secretos que late bajo la apacible piel de su familia, una ejemplar familia burguesa madrileña. A la sombra de una vieja maldición, Malena aprende a mirarse, como en un espejo, en la memoria de quienes se creyeron malditos antes que ella y descubre, mientras alcanza la madurez, un reflejo de sus miedos y de su amor en la sucesión de mujeres imperfectas que la han precedido.

Los aires difíciles, de Almudena Grandes


Ficha técnica
Título – Los aires difíciles
Autora – Almudena Grandes
Editora – Tusquets
Coleção – Maxi Tusquets
Páginas – 793
Datas de leitura – de 11 a 24 de setembro de 2016

RELEITURA

Opinião
Regressar ao mundo de Almudena Grandes é como regressar a casa, ao nosso refúgio de cantinhos conhecidos, que nos acolhe de sorriso nos lábios e braços estendidos. Sempre que retiro da estante uma obra desta autora, que considero muito minha, sei com aquele saber que não engana que embarcarei numa viagem algo demorada (o número de páginas da maioria dos seus romances não engana…), mas que ficará comigo, não importa as vezes que decida fazê-la ou refazê-la.
Li pela primeira vez Los aires difíciles em 2008. Demorei praticamente dois meses a chegar à sua última página. Oito anos depois e acelerando pela “estrada do espanhol” a uma velocidade consideravelmente superior, encerrei a sua leitura duas semanas depois de a ter iniciado. É óbvio que o ritmo mais rápido se deve ao já referido maior domínio da língua espanhola e sobretudo ao facto de ter mergulhado na narrativa como se me estivesse a estrear nela.
Recordava que a história dividia as suas quase 800 páginas pelo presente e passado de dois protagonistas, um homem e uma mulher que as agruras da vida “obrigaram” a deixar toda uma existência citadina, madrilena e buscar refúgio numa pequena localidade do sul de Espanha, onde imperam as vontades dos ventos de levante, de ponente ou suão. Recordava ainda pequenos farrapos das suas histórias, da bagagem pesadíssima que não havia ficado perdida mesmo após terem posto centenas de quilómetros entre o ponto de partida e o ponto de chegada. O resto, ou seja praticamente tudo, foi uma jornada de primeiros encontros, de primeiras descobertas (com algumas sensações de “déjà vu”, como é óbvio) e de prazeres sensoriais arrebatadores, como só a minha Almudena tão magnificamente bem sabe levar os seus leitores a saborear.
Juan Olmedo é um homem de quarenta anos que, perante uma tragédia familiar, reúne os cacos que sobreviveram e larga sem olhar para trás uma vida que já nada lhe pode oferecer. Parte na companhia do seu irmão Alfonso, que nasceu com uma deficiência mental, e na companhia da sua sobrinha Tamara, que, com dez anos, é órfã de pai e mãe. Tenta desesperadamente fechar a porta à dor, a sentimentos de culpa, de nojo e compaixão por si próprio e recomeçar num lugar longínquo, que o havia acolhido anos antes de braços abertos, quando mais precisava de estar só e questionar o que verdadeiramente deveria mover a sua vida.
Na mesma urbanização de vivendas para veraneantes, uns metros ao lado instalou-se Sara Gómez, uma madrilena de cinquenta e três anos e que aí pretende saborear o resto dos seus dias. Mulher reservada, elegante, grita indícios de que também ela encontrou naquela localidade junto de Cádiz um abrigo só seu, que prefere fechar as portas a um passado de solidão, de não pertença a ninguém e a nenhum lado e abri-las a um presente sem contratempos, sereno como pode sê-lo o mar que lambe a praia vizinha.
A estes dois protagonistas junta-se um punhado de outras personagens não menos cativantes. Para além dos já mencionados Alfonso e Tamara, os Olmedo e Sara acolherão na sua nova vida Maribel e o seu filho Andrés, também eles portadores de fardos não menos pesados. Da sua vida anterior, daquela que tanto querem deixar do lado de fora, conheceremos os pais de Sara, a sua madrinha, o homem que mais amou e Damián Olmedo, Nicanor e Charo, a mulher de coxas da cor de leite-creme tostado e que trouxe o melhor e sobretudo o pior, o mais baixo, o mais vil e o mais doentio aos dias do passado de Juan.
A todas estas personagens e a outras mais secundárias, Almudena Grandes acrescenta uma narrativa que, como habitualmente, salta muito amiúde do presente para o passado, do presente de Sara para o passado de Juan e vice-versa, e adiciona o ingrediente vital, essencial para que quem descobre o mundo literário desta autora de lá mais não queira sair – um conhecimento imenso, completo daquilo que faz do ser humano um ser complexo, contraditório, imperfeito, emaranhado nas suas emoções e atitudes, mas tão, tão fascinante e belo.
É por tudo isto que se torna fácil e nada enfadonho embarcar numa leitura de mais de 700 páginas, que pesa mais de meio quilo e que é complicado transportar na carteira. Mal a narrativa arrancou só a muito custo lhe pus travão, só quando as malfadadas obrigações me obrigaram é que o fiz e dei por mim nos “ratitos libres” a papar mais de cem páginas de uma vez só. Porque o que escreve esta mulher que tanto venero me prende de tal forma ao sofá, à cadeira, à cama que parece que o mundo exterior se esfuma e só existimos eu, o livro e uma narrativa magistralmente bem construída, articulada e que me penetra e se aloja em mim como mais parte minha, do meu corpo, da minha alma, da minha vida.
Para rematar, refiro que Los aires difíciles está traduzida para português. Foi infelizmente a última obra de Almudena a ser publicada no nosso país e pela editora Dom Quixote. Por isso, para quem quiser perceber o porquê da minha veneração pela autora, pode fazê-lo sem precisar de dominar a língua espanhola. Façam-no porque não se arrependerão!

NOTA – 10/10

Sinopse (em português)
Um poderoso retrato de sentimentos e dos seus valores no nosso tempo.
Juan Olmedo e Sara Gómez são dois estranhos que se instalam, em princípios de Agosto, numa urbanização da costa de Cádis, dispostos a reiniciar as suas vidas. Desde logo sabemos que ambos têm um passado bem diferente em Madrid. Sem o desenterrarem, «destinados a conviver como os únicos sobreviventes de um naufrágio», trocam confidências e amizade graças a uma inesperada cumplicidade proporcionada pela partilha de uma empregada, Maribel, e pelo cuidar das crianças. Sara, que viveu a infância com a sua madrinha no bairro madrileno de Salamanca, sofre o estigma de ter tido tudo e de tudo ter perdido. 

Juan, por seu lado, foge de outras injustiças: uma tragédia familiar e um amor secreto e torturante que quase arruinou a sua vida. Como os ventos de poente e de levante, as suas existências parecem agitar-se ao sabor de um destino inóspito, embora eles tenham a vontade férrea de o pôr a seu favor.

Los besos en el pan, de Almudena Grandes


Ficha técnica
Título – Los besos en el pan
Autor – Almudena Grandes
Editora – Tusquets Editores
Páginas – 327
Datas de leitura – de 14 a 19 de maio de 2016


Opinião
Não é o melhor livro de Almudena, mas, caramba, é mais um livro desta fabulosa autora e só isso fez com que me tenha embrenhado nele com a mesma alegre antecipação, com a mesma ânsia, com o mesmo êxtase e com a certeza de que, tal como os outros que já li dela, iria dar ainda mais sabor à minha vida e confirmar o porquê de a leitura e os livros ocuparem um lugar primordial na minha vida.
Somos transportados para um bairro do centro de Madrid. Um bairro como outro qualquer, com ruas largas e estreitas, com poucos monumentos, mas um bairro bonito porque está vivo, porque continua a resistir apesar de estar a afundar-se numa crise que assola não só este bairro, como a própria cidade, o próprio país, a própria península, o próprio continente. Aí, Almudena apresenta-nos aos seus habitantes que pertencem a famílias da classe média, a famílias remediadas e a famílias que, de um dia para o outro, se veem sem a casa que tanto suor, dor e horas infinitas de trabalho e de poupanças lhes arrancou do corpo. Todos, sem exceção, sentem tremer e rasgar-se o chão estável e sólido de anos de prosperidade e despreocupação – perdem os empregos que pareciam para a vida, constatam que os seus salários sofrem cortes, observam o bairro ser invadido por mão-de-obra barata e subserviente, verificam que restaurantes, cabeleireiros e outros serviços lutam não só para manter a clientela habitual como também para não despedir os empregados e reconhecem que até as crianças sofrem porque os seus pais, os seus avós desesperam porque não têm como enviá-las para a escola com o lanche que era habitual.
Los besos en el pan é assim uma obra que reflete a realidade, a realidade que afeta aos espanhóis como nos afeta a nós. E é também o reflexo do quanto somos ibéricos, do quanto nos une apesar da fronteira política que dita que Vilar Formoso nos pertence e Tui é de terras castelhanas. Somos dois povos que, no século passado, viveram debaixo de ditaduras castradoras, que se arrastaram durante décadas sem fim, mas que ensinaram aos nossos avós o quanto um pão é valiosíssimo, que mesmo que caia ao chão, não deve ser desperdiçado, já que, com um beijo, todas as impurezas que possam advir dessa queda milagrosamente desaparecem. Somos dois povos que, depois desse jugo ditatorial, se viram perante anos de prosperidade onde a palavra poupança deixou de fazer sentido. Somos dois povos cujas gerações mais recentes se sentem completamente atarantadas e desesperadas perante cortes de salário, perda de privilégios, benefícios e ignorantes face à perspetiva de poupar, de desprender-se da casa do campo, das escapadelas de fim de semana, do telemóvel de última geração ou do carro de topo de gama. Somos igualmente dois povos que felizmente continuam (não sei por quanto tempo…) a dar muito valor à família, aos conselhos dos mais velhos e à comunhão de afetos, ideais e ensinamentos que resulta dessa convivência.
Por tudo isto, pela magistral escrita de Almudena, que transborda de verdades e sobretudo de afetos, de conhecimento da alma e do coração humanos, embrenhei-me sem qualquer filtro, completamente “despida” na leitura desta obra. Los besos en el pan deixou-me rendida, tocou como só aquela que é, sem dúvida alguma, uma das minhas escritoras de eleição consegue fazê-lo. Obrigou-me a afagar as suas páginas ainda com mais mimo, a deliciar-me com a belíssima foto de capa (onde uma menina nos chama e nos provoca uma mistura de sentimentos) e acima de tudo a desejar com muitas forças reler Almudena, reler histórias suas, mais antigas e que conheço muito bem, mas que onde me quero perder e encontrar de novo!
Gracias, Almudena, por tudo o que escreves e por me desafiares com um “enxame” de personagens, pertencentes a diversos núcleos familiares e que se entrelaçam num bairro de Madrid. Personagens admiráveis, desde uma avó que monta a árvore de Natal em setembro para assim mimar e alegrar os seus que se sentem derrotados pela crise até uma cabeleireira que não hesita em pentear as suas rivais chinesas que trabalham na manicure em frente e cobram uma escandalosa insignificância pelo trabalho. Personagens humanas, que retratam o dia-a-dia de um bairro espanhol, mas que bem poderia ser português. Gracias de nuevo, por todo, querida Almudena.
Termino dizendo que escrevi esta opinião muito bem acompanhada por um excelentíssimo cantor e músico. Graças ao sistema de “puxar para trás”, pude hoje ver e ouvir o concerto de quase três horas com que o senhor Bruce Springsteen agraciou mais de 60000 pessoas que puderam ver ao vivo. Não sou a sua fã número um, longe disso, mas tenho que reconhecer que o que ele e a sua fiel banda fazem em palco é magistral, tal como o é aquilo que Almudena oferece aos seus leitores. Por isso, deixo aqui também o meu obrigada ao Boss e à ajuda musical que me deu para pôr em palavras o quanto gostei de ler novamente a minha Almudena! Como reconhecimento, aqui uma das minhas canções favoritas deste venerável senhor:


NOTA – 09/10 (apenas porque sou muito exigente com o que Almudena escreve)


Sinopse
Hay que ser muy valiente para pedir ayuda, pero hay que ser todavía más valiente para aceptarla. Los besos en el pan, una conmovedora novela sobre nuestro presente.

¿Qué puede llegar a ocurrirles a los vecinos de un barrio cualquiera en estos tiempos difíciles? ¿Cómo resisten, en pleno ojo del huracán, parejas y personas solas, padres e hijos, jóvenes y ancianos, los embates de una crisis que «amenazó con volverlo todo del revés y aún no lo ha conseguido»? Los besos en el pan cuenta, de manera sutil y conmovedora, cómo transcurre la vida de una familia que vuelve de vacaciones decidida a que su rutina no cambie, pero también la de un recién divorciado al que se oye sollozar tras un tabique, la de una abuela que pone el árbol de Navidad antes de tiempo para animar a los suyos, la de una mujer que decide reinventarse y volver al campo para vivir de las tierras que alimentaron a sus antepasados?En la peluquería, en el bar, en las oficinas o en el centro de salud, muchos vecinos, protagonistas de esta delicada novela coral, vivirán momentos agridulces de una solidaridad inesperada, de indignación y de rabia, pero también de ternura y tesón. Y aprenderán por qué sus abuelos les enseñaron, cuando eran niños, a besar el pan.

ALERTAAAAAAAAAAAAA! Almudena ha vuelto!

Domingo, 01 de novembro de 2015



ALERTAAAAAAAAAAAAA! Almudena ha vuelto J
A minha última semana de outubro não poderia ter terminado melhor! Para além de ter matado saudades de gente que me diz muito e que, passados 20 anos, voltou a preencher a minha vida, recebi uma notícia que rapidamente partilhei com a minha Nancy e que agora quero partilhar com quem, como nós, é fã incondicional de Almudena Grandes, a fantástica autora espanhola, autora de obras soberbas e que sempre, sempre cumprem ou superam as expetativas!
No próximo dia cinco de novembro, será posta à venda (em Espanha apenas, infelizmente…) Los besos en el pan, a última obra de uma das minhas autoras favoritas. Com este romance (dono de uma capa lindíssima), faz uma pausa nos seus Episodios de una Guerra Interminable e brinda-nos com uma narrativa muito atual, que aborda estes tempos difíceis de crise e nos convida a entrar num bairro como outro qualquer, onde vivem famílias como a minha ou a vossa e que, ao longo de 336 páginas, enfrentarão “momentos agridulces de una solidaridad inesperada, de indignación y de rabia, pero también de ternura y tesón”. Ou seja, adivinha-se uma obra daquelas, como só a “minha” Almudena sabe escrever e que me está a deixar entusiasmadíssima, doidinha de emoção e de vontade de ter o livro nas minhas mãos!!!
Sendo assim, resta-me publicar este alerta, partilhar esta informação com as minhas compinchas admiradoras do mundo literário de Almudena e como quem não quer a coisa… relembrar que o Natal e o meu aniversário estão aí J
Aqui fica a sinopse desta obra que salta já para a minha wishlist!

Sinopsis
“Hay que ser muy valiente para pedir ayuda, pero hay que ser todavía más valiente para aceptarla. Los besos en el pan, una conmovedora novela sobre nuestro presente.”

¿Qué puede llegar a ocurrirles a los vecinos de un barrio cualquiera en estos tiempos difíciles? ¿Cómo resisten, en pleno ojo del huracán, parejas y personas solas, padres e hijos, jóvenes y ancianos, los embates de una crisis que «amenazó con volverlo todo del revés y aún no lo ha conseguido»? Los besos en el pan cuenta, de manera sutil y conmovedora, cómo transcurre la vida de una familia que vuelve de vacaciones decidida a que su rutina no cambie, pero también la de un recién divorciado al que se oye sollozar tras un tabique, la de una abuela que pone el árbol de Navidad antes de tiempo para animar a los suyos, la de una mujer que decide reinventarse y volver al campo para vivir de las tierras que alimentaron a sus antepasados… En la peluquería, en el bar, en las oficinas o en el centro de salud, muchos vecinos, protagonistas de esta delicada novela coral, vivirán momentos agridulces de una solidaridad inesperada, de indignación y de rabia, pero también de ternura y tesón. Y aprenderán por qué sus abuelos les enseñaron, cuando eran niños, a besar el pan.

Te llamaré viernes, de Almudena Grandes

Sexta-feira, 21 de agosto de 2015




Opinião
Tal como no ano passado, a minha Almudena Grandes deixou a sua marca no meu mês de agosto, colorindo alguns dias das minhas férias com uma história poderosa e intensa. Não tão estupendamente fantástica como a de Las tres bodas de Manolita, mas, mesmo assim, uma narrativa que me proporcionou muito bons momentos, com personagens muito bem construídas (bem ao estilo da autora) e com um emaranhado de histórias dentro da história principal, que nos permite saltar repentinamente do presente para o passado e ir conhecendo a forma de pensar e todo o mundo interior das personagens principais.
Te llamaré viernes é uma das obras dos primórdios da carreira de Almudena e tem determinadas características que apontam para tal – oferece-nos uma história densa, de leitura nada fácil, com permanentes e recorrentes saltos no tempo, com uma escrita carregada, onde imperam uma linguagem de adjetivos, de divagações, de pensamentos, recordações, devaneios e, não menos importante, descrições pouco pudicas e, como já ouvi alguém dizer, algo pornográficas J Mas não se fica por aqui, pelo contrário. É, como qualquer obra desta magnífica autora espanhola, seja de anos mais passados ou mais recente, um romance que nos cativa, que nos derrete e que nos comove desde as suas páginas iniciais (onde, por exemplo, Benito, o protagonista, recorda uma passagem banal e ao mesmo tempo fundamental da sua infância e que nos faz compreender de imediato a ligação umbilical que existia entre ele e a mãe) até às que encerram a narrativa e nos abrem o coração e nos levam a estender uma mão carinhosa a Manuela.
Benito e Manuela são as personagens principais de uma história que se desenrola numa Madrid onde ainda circulam as pesetas. São duas almas solitárias que deambulam pelas ruas da capital espanhola, sem qualquer objetivo concreto, fechadas cada uma no seu mundo cinzento, cheio de inseguranças, desilusões constantes e sonhos patéticos. Nenhum dos dois foi tão pouco agraciado fisicamente. Ele é enfezado, feio e tem o osso do peito muito saliente. Ela é gorda, dona de um rosto com feições pouco atrativas e revela pouco gosto na forma de vestir-se. Encontram-se casualmente, mas a sua história nada terá de vulgar nem de bonito.
Benito, homem perto dos quarenta, que sempre sofreu com o amor que dedicou às mulheres da sua vida, que apenas conheceu o fracasso, a desilusão, o desengano, o desamor, continua no entanto em busca da sua princesa, da sua história de encantar, mas fá-lo de uma forma patética e desoladora, acreditando que pode ter o seu final feliz com uma adolescente, filha da porteira de um prédio vizinho, com mulheres anónimas que respondem a anúncios que põe em revistas cor-de-rosa ou com Teresa, uma antiga paixão. Quando tropeça em Manuela, sente crescer em si dois sentimentos antagónicos – por um lado, sente repulsa perante o seu aspeto físico, por outro não resiste à sua espontaneidade, à sua rudeza de jovem nascida num meio rural e sobretudo ao seu poder encantatório de contar fábulas e contos de fada. E será assim dividido que Benito inicia uma relação de amor-repulsa, de poder-servidão com a sua Manuela, a quem ocasionalmente chamará de “Viernes”, transformando-se ele em Robinson Crusoe, perdido numa Madrid habitada por milhões de habitantes, amo e senhor de alguém que parece não pertencer àquele mundo urbano e cosmopolita, que se submete às normas do seu senhor, que possui uma inocência que nos desarma e que devagarinho vai ganhando o seu espaço no coração empedernido e dorido de Benito.
Para além de Benito e Manuela, Te llamaré Viernes está povoado de outras personagens sofridas, nada abonadas fisicamente, pouco carismáticas, mas que, com as suas vidas tristes, patéticas, dececionantes, nos tocam e ganham a nossa ternura. É impossível ficar indiferente à mágoa, ressentimento e saudades de momentos mágicos que caracterizam a relação de Benito com a sua mãe, à simplicidade saloia de Manuela, à intelectualidade e inteligência que Polibio “desperdiça” atrás de um balcão de um bar decrépito ou à vida perdida de Paquita. Por tudo isto e porque Almudena é genial na construção de histórias densas, carregadas de sentimentos e de realidades, rotinas e sonhos que se acercam aos do nosso dia-a-dia, tenho que dizer que Te llamaré viernes é uma obra marcante e que deixará saudades. Pode não ser a obra de Almudena que mais me tenha agradado, mas vale a pena, ai isso vale J

NOTA – 08/10

Sinopse

¿Cómo condensar en pocas lí­neas toda la complejidad de esta difícil historia de amor, que genera a su vez tantas otras que nos hacen pensar y sentir la abrumadora soledad en la que intentan sobrevivir estos personajes feos y huraños, crecidos en el desamor, conmovedores en medio de tanta dureza y tanta ternura? En un Madrid sin alma, Benito ata los cabos de su accidentada existencia gris, hecha para estrellarse una y otra vez «con la miseria del héroe», hasta el dí­a en que, cual un nuevo y desesperado Robinson urbano, encuentra a su Viernes en Manuela, con quien la Naturaleza no fue benigna pero a quien sí­ dotó del extraordinario don de fabular. Consuelan su tortuoso y tenue deseo de vida y amor el recuerdo insistente de las chinelas azul celeste de una madre infiel y los delirios filosóficos de Polibio, intelectual venido a menos, dueño del bar más cutre de la ciudad. A su alrededor, los demás, el jodido mundo que es como una isla desierta cuando no hay un maldito Viernes que te cuente un cuento.

El lector de Julio Verne, de Almudena Grandes

Sábado, 28 de setembro de 2013



Sinopse
Nino, hijo de guardia civil, tiene nueve años, vive en la casa cuartel de un pueblo de la Sierra Sur de Jaén, y nunca podrá olvidar el verano de 1947. Pepe el Portugués, el forastero misterioso, fascinante, que acaba de instalarse en un molino apartado, se convierte en su amigo y su modelo, el hombre en el que le gustaría convertirse alguna vez. Mientras pasan juntos las tardes a la orilla del río, Nino se jurará a sí mismo que nunca será guardia civil como su padre, y comenzará a recibir clases de mecanografía en el cortijo de las Rubias, donde una familia de mujeres solas, viudas y huérfanas, resiste en la frontera entre el monte y el llano. Mientras descubre un mundo nuevo gracias a las novelas de aventuras que le convertirán en otra persona, Nino comprende una verdad que nadie había querido contarle. En la Sierra Sur se está librando una guerra, pero los enemigos de su padre no son los suyos. Tras ese verano, empezará a mirar con otros ojos a los guerrilleros liderados por Cencerro, y a entender por qué su padre quiere que aprenda mecanografía.

Opinião
Que alegria poder dizer que li mais um livro da “minha” Almudena! E que livro!!! Tal como havia dito no post/comentário que escrevi sobre o primeiro volume de “Episodios de una Guerra interminable” – Inés y la alegría –, a ansiedade, as expetativas que sentia por ler este segundo volume eram imensas e agora posso afirmar que, como sempre acontece com um livro desta fantástica autora espanhola, as expetativas foram amplamente superadas!!! Só posso exclamar, como qualquer espanhol exclamaria, que “es precioso” J
        É incontestável que “devorei” El Lector de Julio Verne porque em primeiro lugar, é mais uma obra de Almudena Grandes, em segundo porque é o volume número dois do projeto iniciado com Inés y la alegría e por fim, mas não menos importante, porque sei que um romance com um título como esse não me passaria despercebido!... É certo que não me considero a maior fã de Júlio Verne, mas sei o impacto que as suas obras tiveram e ainda têm na vida de adolescentes que, como eu, não conseguem/conseguiram passar sem a companhia de uma bela aventura literária, repleta de emoção e momentos entusiasmantes, que não nos deixam/deixaram “largar” o livro até que lemos a sua última página!
        Tal como nos informa a sinopse, a ação de El lector de Julio Verne passa-se em Jaén (Andalucía), mais propriamente numa pequena povoação chamada Fuentesanta de Martos e tem como narrador e protagonista Nino, um miúdo de nove anos, filho de um guarda civil, que vive com a família no quartel, numa pequena casa com quartos que dividem paredes finíssimas com o referido quartel e que, como tal, são incapazes de abafar os horríveis sons do sofrimento dos presos que são torturados… As noites de Nino são assim muitas vezes povoadas por essa dor que ele ou confunde com pesadelos ou com ruídos próprios de um filme… É isso que diz a si mesmo e à sua irmã mais nova quando esta acorda e o procura com medo.
        Numa vida que é assim uma mistura de mentiras e de verdades veladas, Nino tem plena consciência de uma coisa – quando for adulto não quer ser guarda como o seu pai, não quer ser tratado como é o seu progenitor e os outros guardas pelos habitantes da aldeia que os veem como os inimigos, os detentores de uma lei castradora e que obriga a inúmeros homens e jovens a procurarem refúgio nas montanhas, a tornarem-se guerrilheiros, a fugirem para o exílio ou a perderem a vida só porque não concordam com o regime que a lei defende tão acirradamente. Nino vive então do lado da defesa da lei, mas esse lado faz com que seja uma criança que não tem com quem jogar futebol ou brincar… Contudo, no verão de 1947 a sua vida mudará por completo quando conhecer Pepe, el portugués (J), um forasteiro que vem viver para um moinho afastado da povoação e que será a partir desse momento o seu grande amigo, o seu confidente e aquele que o apresentará ao maravilhoso mundo dos livros, dos livros de Júlio Verne.
        Para além de Pepe, também as Rubias, que compõem uma família de apenas mulheres e Elena, que é hóspede delas, terão uma presença preponderante na vida de Nino. Com Elena aprenderá mecanografia para poder ter, segundo o pai, um bom emprego no futuro (já que a sua pequena estatura compromete a possível entrada na Guarda Civil) e conhecerá outros livros de Verne e outros autores (como o amado Galdós de Almudena) que mudarão de uma forma irreversível a visão que Nino tem do mundo. Por sua vez, com as temíveis Rubias entrará no universo feminino, um universo de mulheres de coragem, de “pelo na venta” e que lhe abrirão também as portas do misterioso e proibido mundo dos guerrilheiros…
        Num dos livros mais pequenos que já escreveu, Almudena mostra-nos assim outro episódio pouco conhecido de uma guerra interminável – um episódio que nos faz viajar para uma pequena povoação do sul de Espanha, com habitantes pouco afortunados, que vivem em duras condições, mas que continuam a combater uma guerra que supostamente já terminou há bastante tempo. E combatem-na tanto os guerrilheiros como as suas famílias que vivem no povoado, longe da montanha, mostrando sem piedade o quanto odeiam e desprezam aqueles que estão contra eles, sejam eles os guardas-civis ou mesmo os seus filhos, como Nino. Um desses guerrilheiros é o lendário e mítico Cencerro, cuja história (contada a Almudena por um habitante natural de Fuentesanta de Martos e ponto de partida para a consequente escrita de El Lector de Julio Verne), quase setenta anos mais tarde (Cencerro morreu em 1947) foi relembrada como se a sua lenda, o seu mito ainda estivessem frescos na memória de alguém que nasceu 2 anos após a sua morte!...
        É sobejamente sabido de que lado a autora se coloca e se colocaria nesta guerra interminável, mas, neste romance não há uma fronteira que separa radicalmente os guerrilheiros dos guardas, ou seja, nem os guerrilheiros e suas famílias são caracterizados como os “bons” nem os guardas como os “maus”. Para além do que já referi sobre o ódio que os familiares dos foragidos sentem sem distinção por todos os que “pertencem” aos defensores da lei, também estes últimos são personagens realistas, com qualidades e defeitos, como por exemplo o pai de Nino, que está deste lado da fronteira porque combateu, por coincidência, neste regimento e aí se manteve por uma questão de sobrevivência, sua e dos seus.

        Não posso terminar este comentário sem fazer alusão ao elemento de ligação entre Inés y la alegría e El Lector de Julio Verne, ou seja, ao restaurante La cocina de Inés, que aparece na foto que um guerrilheiro que foge para terras francesas manda à sua família. Sendo assim, é um elemento tão frágil que pode passar perfeitamente despercebido e não impedir que a leitura destas duas obras seja feita de um modo não cronológico e independente.

        Concluindo, não posso fazer outra coisa que não seja afirmar com todas as letras que ADOREI e RECOMENDAR que leiam este estupendo livro!!!


Inés y la Alegría, de Almudena Grandes

Sábado, 24 de agosto de 2013





Sinopse:
Toulouse, verano de 1939. Carmen de Pedro, responsable en Francia de los diezmados comunistas españoles, se cruza con Jesús Monzón, un cargo menor del partido que, sin ella intuirlo, alberga un ambicioso plan. Unos años después, en 1944, Monzón, convertido en su pareja, ha organizado el grupo más disciplinado de la Resistencia contra la ocupación alemana, prepara la plataforma de la Unión Nacional Española y cuenta con un ejército de hombres dispuestos a invadir España. Entre ellos está Galán, que ha combatido en la Agrupación de Guerrilleros Españoles y que cree, como muchos otros en el otoño de 1944, que tras el desembarco aliado y la retirada de los alemanes, es posible establecer un gobierno republicano en Viella. No muy lejos de allí, Inés vive recluida y vigilada en casa de su hermano, delegado provincial de Falange en Lérida. Ha sufrido todas las calamidades desde que, sola en Madrid, apoyó la causa republicana durante la guerra, pero ahora, cuando oye a escondidas el anuncio de la operación Reconquista de España en Radio Pirenaica, Inés se arma de valor, y de secreta alegría, para dejar atrás los peores años de su vida.

Opinião
"La Historia inmortal hace cosas raras cuando se cruza con el amor de los cuerpos mortales".
Este é o mote/a frase que nos acompanha durante as 715 páginas da obra e que, sem dúvida alguma, é a inspiração de todo o seu desenrolar. E quanta verdade encerra esta frase tão inspirada e inspiradora!...
Almudena inicia com esta obra um projeto constituído por seis livros (que se poderão ler de uma forma independente, embora tenham determinados elementos e passagens que fazem a ligação entre todo o projeto, mas que não prejudicam uma leitura não cronológica), ao qual chama de "Episodios de una Guerra Interminable" e que nos levará a conhecer acontecimentos, situações e momentos pouco conhecidos da recente História de Espanha.
Estes Episodios, segundo a própria autora, são uma homenagem y um ato público de amor a um dos seus escritores de eleição e à sua obra-prima -  "Episodios Nacionales" de don Benito Pérez Galdós. Abarcarão, nas seis obras que os integram, quase 40 anos de luta ininterrupta de personalidades reais e de personagens fictícias e anónimas que, com coragem, determinação, raiva e convicção, não desistirão de tentar pôr fim a uma ditadura e repressão ferozes que dominaram Espanha desde 1939 até 1975.
Inês é uma dessas personagens anónimas que, apesar de descender de uma família rica e burguesa, aliada do regime de Franco, sente na pele a falta de liberdade e luta contra a mesma primeiro alojando republicanos em sua casa durante a Guerra Civil, o que resulta no seu encarceramento após a vitória de Franco. Posteriormente, já do outro lado das grades mas ainda assim presa dentro das paredes da casa do seu irmão, Inés não resiste a seguir o chamamento dos seus camaradas e foge quando ouve clandestinamente o anúncio de uma invasão que será levada a cabo pelos republicanos exilados em França e que sonham regressar ao seu país - Habíamos luchado en Francia, pero no por Francia. En Francia, pero no para Francia. En Francia o donde fuera, pero sólo para volver, para volver a casa. (pág. 333).
Esta fuga de Inés e consequente reunião com os seus camaradas será o ponto de partida para uma história como só Almudena nos pode oferecer - tendo como pano de fundo a invasão fracassada do "Valle de Arán", um episódio da História espanhola muito pouco conhecido e convenientemente esquecido pelas duas frações - franquistas e comunistas - esta narrativa que combina personagens fictícias e verídicas convida-nos a juntar-nos a um grupo de militares e um punhado de corajosas mulheres que serão aqueles que mais sofrerão e mais sentirão na pele e no seu íntimo o fracasso da invasão cuidadosamente planeada mas que acaba em redondo fracasso, não pela oposição oferecida pelo exército do regime (apanhado de surpresa), mas consequência das lutas e desavenças internas no partido comunista...
Aliada a este pano de fundo histórico temos o amor de Inés y de Galán (bem como o amor de outros compatriotas) que serão o motor para que nunca desistam, para que lutem sempre pelos seus ideais, pelo sonho de voltar a viver numa Espanha livre. E é esta junção de "la Historia inmortal y del amor de los cuerpos mortales" que me fez apaixonar-me irremediavelmente por mais uma obra da minha Almudena J
Inés é uma mulher que desde o início cativa qualquer leitor, a sua força, as suas ganas de liberdade, a paixão que põe em tudo o que faz, principalmente na cozinha (local que a relaxa, que a faz sentir-se útil e bem consigo mesma) e o amor arrebatador que a une a Galán, são características que fazem dela uma personagem inesquecível! Uma personagem que conquista ainda mais afeto e admiração por nos dar a conhecer uma visão mais feminina de uma luta e de uma guerra intermináveis, de alguém que não perde o ardor revolucionário que a sempre guiou, mesmo fazendo parte do que podemos chamar a retaguarda, ser um exemplo de todas as mulheres que nunca baixaram os braços, que sempre apoiaram os seus amados, inclusive quando estes punham em risco as suas vidas.
Para finalizar esta opinião que já vai longa, uma referência à forma como está estruturada a obra - podemos dizer que está dividida em duas grandes partes - temos 4 capítulos "ficcionais", ou seja, que remetem para a história de Inés e dos seus camaradas e, intercalados com estes, 3 capítulos cujo título aparece entre parêntesis e que são dedicados às personagens verídicas, como a lendária "Pasionaria", ao partido comunista e suas ações no pós Guerra Civil. Como leitora, apesar de entender o porquê da inclusão destes "parêntesis", considero que, numa futura (re)leitura, irei optar por ler todos os 4 capítulos de ficção seguidos e só depois lerei os dedicados à História, aos factos verídicos, porque, assim, não sentirei tanto a quebra no ritmo da narrativa e de certeza que ficarei a ganhar com o desenrolar sem interrupções "del amor de los cuerpos mortales de Inés y de Galán" J

Agora só me resta esperar pelo segundo volume destes "Episodios" - El Lector de Julio Verne!!!

Las tres bodas de Manolita, de Almudena Grandes

Sexta-feira, 22 de agosto de 2014




Sinopse:
En un Madrid devastado, recién salido de la guerra civil, sobrevivir es un duro oficio cotidiano. Especialmente para Manolita, una joven de dieciocho años que, con su padre y su madrastra encarcelados, y su hermano Antonio escondido en un tablao flamenco, tiene que hacerse cargo de su hermana Isabel y de otros tres más pequeños. A Antonio se le ocurrirá una manera desesperada de prolongar la resistencia en los años más terribles de la represión: utilizar unas multicopistas que nadie sabe poner en marcha para la propaganda clandestina. Y querrá que sea su hermana Manolita, la señorita Conmigo No Contéis, quien visite a un preso que puede darles la clave de su funcionamiento. Manolita no sabe que ese muchacho tímido y sin aparente atractivo va a ser en realidad un hombre determinante en su vida, y querrá visitarlo de nuevo, después de varios periplos, en el destacamento penitenciario de El Valle de los Caídos. Pero antes tiene que saber quién es el delator que merodea por el barrio.
La tres bodas de Manolita es una emotiva historia coral sobre los años de pobreza y desolación en la inmediata posguerra, y un tapiz inolvidable de vidas y destinos, de personajes reales e imaginados. Una novela memorable sobre la red de solidaridad que tejen muchas personas, desde los artistas de un tablao flamenco hasta las mujeres que hacen cola en la cárcel para visitar a los presos, o los antiguos amigos de colegio de su hermano, para proteger a una joven con coraje.

Opinião: 
Foi com uma satisfação e um prazer indescritíveis que, no passado mês de abril, na visita que fiz à monumental cidade de Ávila pude ter, pela primeira vez nas minhas mãos, o mais recente romance de Almudena Grandes - Las tres bodas de Manolita - o terceiro romance da série Episodios de una Guerra Interminable, da qual já li e tenho (como preciosidades sem preço) El lector de Julio Verne e Inés y la alegría.
O enredo desta história centra-se numa Madrid devastada pela recentemente terminada Guerra Civil, mas, tal como é habitual nas obras desta autora, as analepses e prolepses são recorrentes e vamos poder acompanhar o percurso de personagens antes e durante os anos da Guerra e já no desenlace, ficamos a conhecer o destino de algumas delas depois da morte de Franco. Contudo, a trama central transporta-nos aos anos do pós-guerra, durante os quais seguiremos as vidas de várias personagens que tentam sobreviver da melhor maneira possível, lutando contra a fome, a falta de condições de vida e contra um regime franquista que espalha os seus poderosíssimos tentáculos por todas as partes, destruindo de uma forma lenta, mas inexorável, as já devastadas vidas das famílias que apoiaram a República.
Uma dessas família é a de Manolita Perales que, com o terminar da guerra, se vê numa situação terrível - com apenas dezoito anos, esta jovem, com o pai e a madrasta presos, o irmão mais velho escondido e desaparecido para o resto do mundo, tem que tomar a seu cargo o sustento de quatro irmãos mais pequenos.
À medida que a narrativa se desenvolve, vamos travando conhecimento com aspetos que caracterizaram os primeiros anos da ditadura franquista - os internatos de freiras que recebiam as filhas das presas para que supostamente elas continuassem a sua formação escolar, mas onde as mais velhas (como Isabel Perales) eram escravizadas e obrigadas a lavar roupa com soda cáustica; a vida quotidiana dos presos de Porlier, as filas das mulheres que os visitavam e nas quais Manolita (quando visitava seu pai e, mais tarde, Silverio, el Manitas) se sentia como uma delas, protegida, acarinhada e amada; o capelão dessa mesma prisão que encheu os bolsos e a barriga à custa dos reclusos e das suas mulheres, ao organizar casamentos fictícios (muitas vezes entre filhas e pais, irmãos e irmãs) para que estes pudessem desfrutar de uma hora sem grades ou rede entre eles num quarto infestado de todo o género de bichos, sujíssimo, sem condições nenhumas e, ainda por cima, sempre na companhia de outros presos; a vida em Cuelgamuros aquando da construção do monumento de Valle de los Caídos, onde Silverio e milhares de outros presos republicanos trabalharam para assim poderem diminuir a sua pena - um dia de trabalho correspondia a uma diminuição de 5 dias de pena.
Para além deste enriquecedor e detalhado retrato social da capital madrilena dos anos quarenta e inícios dos anos cinquenta, Las tres bodas de Manolita é uma obra que nos apresenta personagens criadas como Almudena tão bem sabe, com muito cuidado nos pormenores e com uma riqueza e complexidade que continuam a surpreender-me e a empolgar! A maneira como também nos faz fazer parte das suas vidas e principalmente das suas relações (a descrição e  narração dos amores de Manolita e Silverio e de Antonio e Eladia são tão intensamente bem trabalhados que me fizeram suspirar, conter a respiração, sorrir, chorar, enfim, vivê-los como se fossem meus!) é algo que é único e deslumbrante no estilo desta magnífica autora espanhola.
Por fim, não posso deixar de referir que, tal como aconteceu en El lector de Julio Verne, também neste terceiro romance da série iniciada com Inés y la Alegría há breves referências a personagens e espaços de essas duas obras - na página 477, há uma alusão à taberna que Inés e outras mulheres republicanas geriam em Toulouse e na página 597 Antonio, depois de ter fugido da prisão é entregue a Pepe, el Portugués, que está acompanhado por Nino, personagens protagonistas de El lector de Julio Verne. Também é impossível deixar passar em branco que na obra "tropeçamos" em algumas referências ao clube de eleição da autora - o Atlético de Madrid J!

É óbvio que recomendo e MUITO a leitura desta e de qualquer obra de Almudena!!! E editoras portuguesas, de que estão à espera para continuar a traduzir a obra desta fantástica e importantíssima autora? Por favor, façam-no!

Atlas de Geografia Humana, de Almudena Grandes

Quinta-feira, 30 de março de 2012




Acabei de ler o livro de Almudena Grandes, Atlas de Geografia Humana, e que posso dizer? AMEI, tal como amo cada livro desta autora espanhola!
Foi o segundo livro que li dela em português (acho que prefiro ler em espanhol…) e tenho que admitir que, apesar da ajuda da língua materna, tive dificuldades em entrar na história das quatro protagonistas, já cada capítulo ia abordando, alternadamente, a vida dessas mulheres, amigas e colegas de trabalho, e a linguagem usada pela autora é densa, complexa e os avanços e os recuos no tempo são constantes.
Contudo, quando me familiarizei com tudo isto, embrenhei-me no livro e suspirei de prazer e de pena quando cheguei à última página, porque não há como esta autora para abordar o mundo feminino! O nosso complexo mundo, os nossos desejos, os nossos sonhos, as nossas obsessões, as nossas manias, a nossa fragilidade, a nossa força, o nosso lado mais negro e mais suave – está tudo lá!!!

Almudena Grandes, ¡cómo me encantas! ¡Ya no puedo imaginar mi vida sin tus libros!

Para quem ainda tenha dúvidas se deve ler Almudena Grandes, aqui fica a sinopse de Atlas de Geografia Humana:
Rosa, Fran, Marisa e Ana. Quatro mulheres a caminho do "epicentro" da catástrofe, ou melhor, dos quarenta anos. Quatro mulheres totalmente diferentes ente si mas unidas por um objetivo comum: a organização de um Atlas de Geografia na editora onde trabalham. Quatro mulheres que afinal assistem à composição dos seus próprios Atlas pessoais povoados de problemas amorosos, desilusões, esperanças e fracassos.

O regresso de Almudena Grandes com uma obra em que se ultrapassa oferecendo ao leitor quatro personagens femininas com identidades psicológicas ímpares que consubstanciam também o retrato de uma geração. A autora de Malena é um Nome de Tango e Sete Mulheres, num livro que foi considerado como o mais significativo da sua carreira literária. A não perder.

El corazón helado, de Almudena Grandes

Sexta-feira, 03 de junho de 2011




De regresso ao mundo de Almudena Grandes, da minha Almudena! E foi um regresso tão prolongado!... Demorei 42 dias a ler aquela que considero (das obras que já li desta magnífica autora espanhola) a sua obra maestra, aquela que mais me encheu as medidas, aquela que nas suas 1225 (!) páginas me emocionou, me encheu o coração e a alma dum prazer que arrepia, que me tocou como poucas…
El corazón helado inicia a sua narrativa no dia do enterro de Julio Carrión, homem de negócios cujo prestígio remonta aos anos do franquismo. Deixa a seus filhos não só uma substancial fortuna como também um passado cheio de sombras, o qual não gostava de recordar e que estava associado à Guerra Civil e à Divisão Azul.
No enterro, em fevereiro de 2005, o seu filho Álvaro, desvinculado dos negócios familiares, surpreende-se com a presença de uma jovem mulher desconhecida e que está misteriosamente ligada à vida do seu falecido pai. Essa jovem, Raquel Fernández Perea, é filha e neta de exilados em França e sabe tudo sobre a vida de seus pais e avós. Contudo, há uma parte dessa vida que permanece por esclarecer – aquela que ocorreu numa tarde em que acompanhou o seu avô numa visita que fez a uns desconhecidos e com os quais parece haver uma dívida pendente.
Álvaro e Raquel estavam condenados a encontrar-se porque as respetivas histórias familiares, que são também as histórias de muitas famílias espanholas, desde a Guerra Civil até à época da Transição, fazem parte de si mesmos e explicam as suas origens, o seu presente.
Tudo isto é apenas o ponto de partida de uma obra que me prendeu irremediavelmente, de uma obra complexa, repleta de momentos emocionalmente notáveis, que nos fazem sentir o que sentem as personagens (o estilo de Almudena é perfeito por isto mesmo!) e que só posso recomendar a quem se interessa, como eu, por relatos que não são lineares, que nos fazem crescer como leitores, de pequenas histórias que dão forma a histórias maiores, a um labirinto de histórias que se unem como peças de um puzzle para dar origem a uma história mais vasta, mais complexa, mas mais parecida com a vida!
Ainda há que dizer que, com este maravilhoso e soberbo calhamaço, entrei de uma forma bem mais profunda na interessantíssima História recente do nosso país vizinho, sobretudo no que esteve por detrás da Guerra Civil e nas consequências nefastas que o franquismo, tal como o salazarismo, trouxe aos espanhóis.

Acho que não preciso de acrescentar mais nada – El corazón helado está genial y ¡punto!

Estaciones de Paso, de Almudena Grandes

Sexta-feira, 25 de março de 2011



(RELEITURA) / (LEÍDO EN ESPAÑOL)



Entrei no mundo de Almudena Grandes através desta coletânea de contos, Estaciones de Paso, emprestada pela minha Nancy, e nunca mais de lá saí!!!! Todas as obras que já li desta fantástica autora espanhola são MARAVILHOSAS, repletas de narrativas densas, profundas, com muita introspeção psicológica, ou seja, um estilo literário que me obriga a refletir, a entrar "no mundo interior" de cada personagem e a conhecer os seus medos, as suas fragilidades, os seus anseios, os seus sonhos, enfim, a conhecer a sua essência enquanto pessoas. E mesmo que sejam pessoas ficcionais, são o retrato da realidade, de uma realidade que não é e nunca será linear!

Estaciones de Paso contém 5 histórias completamente diferentes, com temas muito variados, mas com uma característica em comum - todos os seus protagonistas são adolescentes, cinco adolescentes que se encontram num situação que foge ao seu controlo, pois não a  conseguem compreender, sentem muitas dificuldades em lidar com ela, mas têm que vivê-la... Contudo, no final, toda esta incompreensão e dificuldades farão com que os protagonistas amadureçam, percebam o seu lugar enquanto pessoas e entendam que a vida não é fácil, mas há que vivê-la e seguir em frente.

O primeiro conto que o livro nos oferece foi e será aquele que mais impacto teve e terá em mim. Intitula-se "Demostración de la existencia de Dios" e é um monólogo enfurecido, enraivecido e doloroso de um adolescente de 14 anos que perdeu o seu irmão mais velho por causa de uma leucemia. O monólogo é dirigido diretamente a Deus (mesmo  que o protagonista se diga ateu), já que este último quer respostas para uma situação incompreensível, devastadora, que o deixa impotente, mesmo tendo-se sujeitado a um transplante de medula para tentar salvar o seu irmão.  
Ao mesmo tempo que se dirige a Deus, o protagonista vai vendo a transmissão de um jogo de futebol da sua equipa de eleição (o Atlético de Madrid) e fica ainda mais irado porque nem esse jogo lhe traz algum consolo, já que o Atlético é goleado...
Este conto marcou-me por todo o sofrimento que ninguém deveria sentir, muito menos um adolescente e, sobretudo, pela forma como o seu testemunho chega até nós, com uma linguagem direta, cheia de calão, típica de adolescentes, e que, para quem já passou por uma situação semelhante, nos faz sentir muito próximos do protagonista.

Para finalizar, volto a fazer a pergunta que já me fiz milhentas vezes e que, quem conhece a obra de Almudenas Grandes, também faz - como é possível que nenhuma editora portuguesa queira continuar a publicar as obras desta GENIAL autora espanhola???? É certo que as suas primeiras obras foram traduzidas e publicadas pela Presença e pela Dom Quixote, mas, inexplicavelmente, depois da publicação de Os Ares Difíceis nada... Assim, quem não consiga ler em espanhol fica, sem dúvida, um leitor mais pobre...