Mostrar mensagens com a etiqueta Elena Ferrante. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Elena Ferrante. Mostrar todas as mensagens

História da menina perdida, de Elena Ferrante


Ficha técnica
Título – História da menina perdida
Autor – Elena Ferrante
Editora – Relógio D’Água
Páginas – 421
Datas de leitura – de 06 a 14 de junho de 2016

Opinião

Pensei: agora que Lila se deixou de ver tão nitidamente, tenho de me resignar a não voltar a vê-la.” (pág. 421)

Depois de praticamente nove meses encerra-se a tetralogia de A Amiga Genial. Encerra-se uma viagem por terras italianas, sobretudo pela cidade natal das duas protagonistas. Encerra-se a porta que me deu acesso privilegiado aos espaços, aos tempos e às vidas de duas protagonistas fantasticamente construídas pela mão genial da sua criadora. Encerram-se as derradeiras páginas de uma história que me possibilitou ser apresentada a uma das autoras mais promissoras da atualidade literária internacional. Encerra-se um ciclo que me “obrigou” a comprar os quatro volumes desta tetralogia e Crónicas do mal de amor.
Mas não é um encerramento definitivo. Como poderia sê-lo se o fascínio se mantém, se Ferrante marcou a sua posição no meu mundinho literário?
Esse fascínio e essa paixão são as consequências inevitáveis de um estilo cru, direto, realista e sem preâmbulos fantasiosos ou barrocos. Numa linguagem clara, simples faz-nos penetrar naquele que considero ser um reflexo muito verosímil de Nápoles da segunda metade do século XX e de Itália em geral. Pondo em palco um punhado generoso de personagens provenientes de várias classes sociais, Ferrante transporta-nos para vários espaços do seu país natal e muito provavelmente da cidade que a viu nascer ou crescer. Leva-nos sobretudo a entrar num bairro degradado, com poucas condições, mas onde se respira aquele ambiente que de imediato nos recorda filmes e séries que foram passando na RTP dos anos oitenta e noventa e que retratavam um povo mergulhado em conflitos sangrentos com a temível máfia, em constante sobressalto, mas ao mesmo tempo mostrando um orgulho entremeado com desconfiança, altivez e uma raiva que explodia em violentíssimas agressões físicas e verbais.
Como sabemos pela leitura dos volumes anteriores, foi nesse bairro e nesse ambiente atrás descrito que as nossas duas protagonistas cresceram. Contudo, enquanto Lila/Lina demonstra que, por muitas voltas que a sua vida dê, o bairro continua a ser a sua âncora, Lena/Lenú desde pequena refugiou-se nos estudos ansiando que os mesmos lhe oferecessem a sonhada possibilidade de escape, não só espacial como social. Assim, no final do terceiro volume, encontramos Lena a viver em Florença, casada com Pietro, filho de uma família abastada e socialmente reputada e Lila subindo a pulso na vida, mas nunca pondo em questão o abandono de Nápoles. Mas, por muito que Lena queira esquecer, arrumar num cantinho a sua existência anterior, as suas origens, estas perseguem-na e provocam uma reviravolta irremediável – o amor da sua infância, da sua adolescência de toda a sua vida reaparece e todos os seus planos, as suas diretrizes caem por terra. Enlouquecida pela constatação de que Nino a quer, a deseja, a persegue, Lena larga tudo – um casamento estável, uma vida desafogada, o marido, as filhas e segue Nino para onde quer que ele vá. E será assim que regressará a Nápoles e mais tarde ao bairro de onde tanto quis escapar. Lá, voltará ao convívio com Lila, à cumplicidade com a sua amiga de infância e aos velhos sentimentos de inferioridade, de ressentimento, de dúvida, de ciúmes. Voltará igualmente a um modo de vida sempre pontuado por superstições, rumores, medos, raivas, agressões num dialeto que em poucas palavras fere mais do que socos e pontapés e muita corrupção e criminalidade.
Este quarto e último volume acompanha então a vida adulta das duas amigas e leva-nos ao ponto de partida de toda a tetralogia – Elena e Lina já são senhoras de uma certa idade, já têm netos, mas a cumplicidade e amizade de outros anos desvaneceu-se. Contudo, com o súbito desaparecimento de Lina, que partiu para lugar incerto sem deixar qualquer rasto, Lena vê-se compelida a pôr em papel aquilo que a amiga sempre lhe pediu que não fizesse – contar as suas histórias, as suas vidas. Portanto, munida das suas recordações, do seu ponto de vista, oferece aos leitores uma perspetiva da amizade umbilical, estranha, ressentida, conflituosa, biliosa que sempre a uniu e unirá a Lila.
Considero que esta tetralogia é a consagração de uma Elena Ferrante que já me havia entontecido com as três histórias que compõem Crónicas do mal de amor. É impossível não nos enredarmos naquilo que esta misteriosa autora publica, porque, para além de personagens densas, redondas e maravilhosamente conflituosas, as suas narrativas são visuais, são realistas, são poderosas e põem, por um lado a nu a fealdade, a insegurança, a conflituosidade com os outros e consigo mesmo de qualquer ser humano e, por outro, os ambientes sociais de espaços degradados, pobres e de espaços requintados e mais afortunados.
Sendo assim, volto a aconselhar a leitura desta tetralogia e, já agora, de tudo o que já foi publicado por Ferrante, pois, apesar da leitura dos quatro volumes ter cimentado a relação antagónica de atração-repulsa que mantenho com Nápoles, percebo que esse cimentar é uma consequência do poder das palavras que provêm da genialidade da autora italiana.
Antes de terminar, apetece-me colocar a questão - de quem será a história da menina perdida?... Será da filha de Lila?... Será da própria Lila?... Será de Lena que nunca se encontrou verdadeiramente, que nunca se sentiu dona de si?...
Porque pode ser útil, deixo aqui o link dos comentários às três primeiras obras:
- A amiga genial
- História do novo nome
- História de quem vai e de quem fica

NOTA – 08,09/10

Sinopse

Deixando o marido em Florença, Elena volta a Nápoles para viver com Nino Sarratore, esperando que este se separe da mulher. É agora uma escritora reconhecida e procura escapar ao ambiente conflituoso do bairro onde cresceu e a sua família continua a viver. Evita encontrar Lila. Mas as duas amigas de infância não conseguem manter-se distantes e acabam mesmo por engravidar ao mesmo tempo, o que lhes permite reencontrar, por algum tempo, a passada cumplicidade.

Crónicas do mal de amor, de Elena Ferrante


Ficha técnica
Título – Crónicas do mal de amor
Autora – Elena Ferrante
Editora – Relógio D’Água
Páginas – 385
Datas de leitura – de 01 a 10 de março de 2016


         Opinião
         Não foi fácil ler estas crónicas, isto é, as três histórias que Ferrante publicou antes da tetralogia de Nápoles que a catapultou para o merecido reconhecimento internacional. Não foi fácil porque as li numa época de trabalho dobrado e de muita burocracia consumidora de energia. Não foi fácil porque, apesar de já estar familiarizada com a escrita desta autora italiana, tive que fechar o livro em certas passagens, respirar fundo, fechar os olhos e preparar-me mentalmente para conseguir engolir a saliva de novo, normalizar a respiração e aguentar a revolta no estômago que me pedia a rendição, a desistência.
         Ser mãe é do melhor que a vida nos proporciona. Só quem é mãe tem a perfeita noção do quanto a ligação umbilical que nos une a um filho é física, emocional e inexplicável. É de um amor avassalador e que nunca diminui, pelo contrário. Por tudo isto, sempre que refletimos sobre o amor que existe entre uma mãe e um filho, pensamos em carinho, ternura, atenção, sacrifício, dádiva, renúncia e reagimos muito mal perante notícias de mães que abandonam os filhos, que não os cuidam, que descuram dos seus deveres de progenitora. Socialmente, é muito mais condenável se essa negligência ou abandono é materno que paterno, porque a ligação entre uma mãe e um filho vem de muito antes, vem de muitos meses antes do nascimento.
         As três histórias de Crónicas do mal de amor centram-se na relação entre mãe e filhos, no quanto essa ligação é determinante para o crescimento da criança, do quanto um descendente é completamente dependente de como a sua progenitora se comporta com ele e com os demais, do quanto esse comportamento molda o desenvolvimento e a personalidade de um filho. Contudo, a forma como Ferrante aborda o papel de filha, de mulher e de mãe transporta-nos para uma realidade que nada tem que ver com os estereótipos ou com o que convencionalmente associamos a esses laços filiais ou matrimoniais. A autora põe a nu integral, sem barreiras ou cortinas, o lado mais negro, mais duro, mais feio, mais abjeto daquilo que nos impele a magoar uma mãe ou um filho de propósito, a ser vingativo com quem nos deu a vida, a odiar aqueles seres que saíram da nossa barriga e que nos coartam, que impedem que sejamos donos de nós próprios.
         Perante o que disse até aqui, não me parece que seja difícil entender por que quase desisti destas crónicas de Ferrante. Por muito que me sinta à-vontade com a escrita desta autora, foi muito penoso e quase intragável obrigar-me a prosseguir com a leitura.
A primeira crónica/história – Um estranho amor – é um pouco surreal, as bizarras deambulações da protagonista Delia para tentar perceber o que esteve por detrás da morte da mãe levam-na a confrontar-se com um passado sujo, violento e a finalmente confessar os ciúmes, a repulsa e a atração de querer ser igual à sua mãe:
         “Era a ela que eu queria fazer mal. Porque me tinha abandonado no mundo a brincar sozinha com as palavras da mentira, sem limites, sem verdade.” (pág. 126)
         “Estava de tal forma decidida a tornar-me diferente dela que perdia uma a uma as razões para ser semelhante.” (pág. 131)
         A segunda crónica/história – Os dias de abandono – era aquela da qual tinha mais expetativas, sobretudo por partilha de opiniões com uma compincha literária e pelo seu início: "Num dia de Abril, a seguir ao almoço, o meu marido anunciou-me de repente que queria deixar-me. Fê-lo enquanto levantávamos a mesa (...) Falou muito dos nossos quinze anos de casamento, dos filhos, e admitiu que não tinha acusações a fazer-nos..." (pág. 135). Não posso dizer que as expetativas não tenham sido cumpridas, mas a um preço quase deveras elevado, porque tudo é demasiado real, demasiado cru e ao mesmo tempo tão verosímil, tão assustadoramente verosímil que o estômago revolve-se ainda agora que já se passaram 4 dias desde que terminei a leitura. Ainda agora fecho os olhos como que para proteger-me de toda aquela dor, irracionalidade, perda de chão e de vontade de existir, buraco sem fim que nos pode transformar literalmente num farrapo autómato, largado num canto qualquer da casa, que não reage perante nada nem ninguém, mas que ganha vida e uma fúria arrasadora perante aquele que aniquilou a sua vida.
         Por fim, a terceira crónica/história – A filha obscura – permite-nos acompanhar as férias de Lena, uma mulher de quase cinquenta anos, separada do marido e das filhas. Nos dias que passa à beira-mar descreve-nos a leveza que sente por não ter de viver mais com as suas filhas –  "Quando as minhas filhas se mudaram para Toronto, onde o pai vivia e trabalhava há anos, descobri com perplexo espanto que não sentia qualquer desgosto, sentia-me leve, como se só então as tivesse posto definitivamente no mundo." (pág. 292)
Estamos perante uma mãe que confessa o inconfessável – a prisão que os filhos trazem para a vida de uma mulher, a perda da sua identidade – deixa-se de ser mulher para apenas ser-se mãe. E para onde vão os nossos projetos, os nossos sonhos, a nossa rotina, os nossos pequeninos prazeres quando a nossa existência é abalroada pela chegada de um ser minúsculo que nos suga e nos aniquila? E quantas vezes essa aniquilação, esse sugar dos nossos minutos diários revelam o que de mais monstruoso e animal todos possuímos dentro de nós?
Com tudo isto, nem sei bem se recomendo a leitura destas crónicas… Estão maravilhosamente bem escritas (como tudo o que sai da mão de Ferrante), mas são surrealmente reais, são assustadoramente reflexos de quem somos, expõem com uma precisão clínica o que de mais abjeto/humano nos compõe e, como tal, não são nada fáceis de digerir. Deixo ao vosso critério se as querem ler ou não…

NOTA – 09/10 (É-me impossível dar a nota máxima por causa do choque em que ainda me sinto…)


Sinopse
«Ferrante disse que gosta de escrever histórias “em que a escrita é clara, honesta, e em que os factos — os factos da vida normal — prendem extraordinariamente o leitor”. Com efeito, a sua prosa possui uma clareza despojada, e é muitas vezes aforística e contida (…). Mas o que os seus primeiros romances têm de electrizante é que, ao acompanhar complacentemente as situações desesperadas das suas personagens, a própria escrita de Ferrante não conhece limites, está ansiosa por levar cada pensamento para diante, até à sua mais radical conclusão, e para trás, até à sua mais radical origem. Isto é sobretudo óbvio na forma destemida como os seus narradores femininos pensam sobre filhos e sobre maternidade

Do Prefácio de James Wood

História de quem vai e de quem fica, de Elena Ferrante


Ficha técnica
Título – História de quem vai e de quem fica
Autora – Elena Ferrante
Coleção – Tetralogia de Nápoles – terceiro volume
Editora – Relógio D’Água Editores
Páginas – 325
Datas de leitura – de 05 a 11 de fevereiro de 2016


Opinião
“… continuava a ser uma subalterna dela [de Lila]. Senti que nunca conseguiria libertar-me dessa subalternidade, o que me pareceu insuportável. (…)
Desde então, durante anos, não voltámos a ver-nos, falámos só por telefone. Tornámo-nos, uma para a outra, fragmentos de voz, sem nenhum controlo do olhar. Mas o desejo de que ela morresse ficou escondido a um canto, enxotava-o, mas ele não se ia embora.” (págs. 174/5)

Eu queria vir a ser, embora nunca tivesse sabido o quê. E viera a ser, isso era verdade, mas sem um objetivo, sem uma verdadeira paixão, sem uma ambição determinada. Quisera vir a ser qualquer coisa – é essa a questão – só porque receava que Lila viesse a ser sabe-se lá o quem e eu lhe ficasse atrás. O meu vir a ser era vir a ser na esteira dela. Tinha de querer de novo vir a ser, mas por mim, como adulta, apartada dela.” (pág. 267)

Elena, a Lenú gordinha, estudiosa, calada, filha de um bairro pobre napolitano é agora uma mulher adulta e bem-sucedida. Com um diploma na mão, um romance publicado, um noivo proveniente de uma família abastada e respeitada nos círculos culturais, a amiga de Lina/Lila triunfou, tal como tanto almejava. Obteve aquilo por que tanto lutou.
Contudo, tal como é bem patente pelos excertos com que abri a opinião, essa ambição, esse querer vir a ser alguém foram visceralmente movidos por um instinto apenas – ser melhor do que Lina, suplantá-la, enxotar a sua sombra asfixiante e mostrar-lhe que esse doentio fio umbilical que as unia podia ser quebrado.
No início deste terceiro volume, Lina vive em condições muito precárias. Abandonou o seu bairro de sempre, abandonou o marido, levando o filho consigo, mas fê-lo na companhia de Enzo, que não hesitou em acompanhá-la. Os três vivem num apartamento miserável e Lina vê-se obrigada a trabalhar arduamente numa fábrica de enchidos pertencente a Bruno Soccavo, um jovem que havia conhecido durante as férias que passara em Ischia. Os seus dias são passados em condições horríveis, mal tem tempo para dedicar-se ao filho (que já é o menino doce e bem-comportado de antes) e à noite, derreada pelo cansaço, senta-se ao lado de Enzo e ajuda-o com os seus estudos. É aí que a faísca volta momentaneamente a acender-se, mas não é suficiente para abafar uma existência amarga, dura e sem perspetivas.
Por seu lado, Lenú vive a vida que sempre almejou. O seu romance é bem-sucedido, o que a leva a saltitar por ambientes culturais, fervilhantes de ideias, ideais e projetos entusiasmantes e travar conhecimento com homens e mulheres que estão na vanguarda literária, política e intelectual do país.
Sendo assim, as duas amigas vivem vidas completamente opostas, cujos caminhos só se voltam a cruzar quando Enzo contacta Lena e lhe pede que ajude Lina. E é aí que furtivamente os dados rolam. E o rumo da história das duas se inverte. E a amálgama de sentimentos que as une retorna. E volta a assustar-nos. E a entranhar-se em nós, como algo repulsivo, que queremos a toda a força escorraçar, mas que simultaneamente nos atrai.
Já afirmei e repito-o mais uma vez – a trama, as personagens, a contextualização espacial e temporal desta tetralogia é dolorosa, é crua, é, por que não, repulsiva, nada nem ninguém escapa à mordacidade da autora. Mas é vibrantemente real e, como tal, não há como escapar à leitura dos volumes que compõem a tetralogia de Nápoles. Este que acabo de ler é genial como os outros, a irmandade não se rompe, o interesse não esmorece e cria tantas ou mais expetativas como os seus antecessores. Contudo, não me arrebatou como o segundo – História do novo nome (ver opinião completa aqui) – talvez porque (e quem leu os três entenderá) este centra-se mais em Lina, por quem tendencialmente sinto mais afinidades, enquanto História de quem vai e de quem fica narra com mais pormenor a vida adulta de Lena e oferece-nos a sua perspetiva dos acontecimentos.
Não quero terminar esta opinião sem referir que no meio de tantas personagens “defeituosas”, destaco Enzo Scanno, homem íntegro, sisudo, trabalhador, dedicado e que, apesar de não ter tanto protagonismo, ganhou um lugar especial no meu cantinho de personagens cativantes e que espero consiga o seu quinhão de felicidade e justiça no quarto e último volume, que entretanto já foi publicado e se encontra nas livrarias. Maridinho, de que estás à espera? Há que trazê-lo para a nossa estante J

NOTA – 09/10

Sinopse
Elena e Lila, as duas amigas que os leitores já conhecem de A Amiga Genial e História do Novo Nome, tornaram-se mulheres. E isso aconteceu muito depressa.

Navegam agora ao ritmo agitado a que Elena Ferrante nos habituou, no mar alto dos anos 70, num cenário de esperança e incerteza, tensões e desafios até então impensáveis, unidas sempre com um vínculo fortíssimo, ambivalente, umas vezes subterrâneo, outras visível, com episódios violentos e reencontros que abrem perspetivas inesperadas.

História do novo nome, de Elena Ferrante


         
Ficha técnica
TítuloHistória do novo nome
Autora – Elena Ferrante
Coleção – Tetralogia de Nápoles – segundo volume
Editora – Relógio D’Água Editores
Páginas – 372
Datas de leitura – de 31 de dezembro de 2015 a 8 de janeiro de 2016

 Opinião
Entrei no novo ano na companhia de Lenú e Lina/Lila. Estreei-me neste ano mais redondo, como diz o meu filhote, viajando no tempo e no espaço e tornei a embrenhar-me nas ruas decrépitas de um dos bairros decrépitos de Nápoles dos anos sessenta. Voltei a frequentar as casas de famílias que já conhecia do primeiro volume desta tetralogia, voltei a percorrer ruas, praças e outros espaços de Nápoles e sobretudo voltei a sentir-me estupefacta e assolapada com um microuniverso que, encerrado nas fronteiras do bairro onde as duas protagonistas nasceram e cresceram, rebenta de uma tal violência física, verbal, psicológica, social que nos aturde e entorpece.
         As teias que a autora usou e entreteceu na criação do primeiro volume desta tetralogia mantêm-se. As personagens são praticamente as mesmas, deambulam quase sempre pelos mesmos espaços e limitaram-se a crescer e a seguir a vida que lhes foi destinada desde que nasceram. Trabalham onde estava destinado trabalhar, os filhos seguem as pisadas dos progenitores, aprendem com eles a pagar com violência, a não confiar em ninguém e a invejar com um ódio latente aqueles que foram bafejados com a sorte de ter uma vida melhor do que eles.
         Foi neste cenário que conhecemos no primeiro volume as duas protagonistas desta soberba história urdida pelo talento formidável de Elena Ferrante. Lenú e Lina provêm de duas famílias de trabalhadores remediados e desde muito pequenas que as une uma amizade peculiar, forte, repleta de sentimentos intensos, contraditórios, onde o amor e a admiração andam de mão dada com o ressentimento, o ódio e o rancor. São duas crianças e agora jovens completamente distintas e cujo destino também fez o favor de ainda mais distinguir. No final do primeiro volume, assistimos ao casamento de Lina com apenas dezasseis anos, enquanto Lenú é a única rapariga do bairro que conseguiu singrar nos estudos e frequentar o liceu. A primeira, apesar de ter dado frequentemente provas de que possui mais inteligência de que a sua amiga, viu a sua vida de estudante terminar abruptamente com um não dos pais. Considero que nunca mais se refez dessa negativa e que, a partir daí, os seus atos, a sua conduta para com os outros e para consigo mesmo, foram um espelho disso mesmo e da vontade indomável de provar a todos que mudaria a sua vida, que seria alguém, nem que tivesse que espezinhar todo aquele que se metesse no seu caminho. Assim o fez. Desde o dia do seu casamento, Lina faz e desfaz, é implacável, fria, déspota, rebaixa quem está ao seu lado apenas com o olhar, não verga nem com as surras que apanha do marido. Contudo, essa fachada de obstinação, de força e de desdém para com tudo e todos esconde uma menina que se sente morta por dentro, que aterroriza face ao que escolheu para a sua própria vida e que apenas desabrocha quando se apaixona pela primeira vez. O amor por alguém que a faz florescer não só como mulher mas também como o ser inteligentíssimo que é, que a faz ter outra vez sede de conhecimento, produz uma reviravolta total naquilo que era uma existência árida, pontuada de violência e despoleta em Lina uma vontade e força tais que a levará a tomar atitudes drásticas, das quais ela nunca mais se esquecerá.
         Mais uma vez, tal como acontecera no primeiro volume, enquanto a vida de Lina é como um mar revolto, o dia-a-dia de Lenú pauta-se pela estagnação e por um outro género de batalha – a vontade de afirmar-se, de ser um exemplo para um bairro que não está acostumado a que os seus filhos prossigam os estudos. A vontade de afirmar-se sobretudo perante Lina, a sua melhor amiga. A vontade de finalmente poder provar de que era melhor do que ela em algo, de buscar as ferramentas para sair da sordidez daquele bairro e ser mais do que a Lenú, filha dos porteiros, a Lenú, amiga de Lina, a Lenú gordinha e dos óculos quase maiores que a sua cara. Assim, acompanhamos todo o seu esforço e todos os seus sacrifícios, as suas batalhas diárias para conseguir estudar o que sabe que é necessário, as frustrações quando não alcança as notas que quer, as vergonhas e o fingimento que veste cada vez que os outros se dão conta da sua ignorância, da sua pobreza, do seu sotaque de napolitana de bairro e a amarga constatação de que, por muito que estude, por muito que se esforce sempre se sentirá segunda em relação a Lina.
         A grandeza e pujança deste segundo volume estão nos detalhes que constroem o seu antecessor. Elena Ferrante é detentora de um estilo e de uma competência tão suculentos que transformam a leitura de, atrevo-me a dizer, qualquer uma das suas obras numa experiência absorvente, transfiguradora, quase inigualável, tal é a força, a violência, a complexidade de sentimentos que desperta, a raiva, o rancor, o desprezo que sentimos entrelaçados com a compaixão, a felicidade, a tristeza, a angústia. As personagens, principalmente as protagonistas estão maravilhosamente bem construídas, são redondas, repletas de contrastes e contradições, mexem connosco incessantemente, não nos abandonam durante a leitura (nem mesmo depois), fazem questão de fazer parte do nosso quotidiano e deixam uma marca indelével. Por outro lado, o contexto espacial, temporal, histórico e social é outra das mais-valias desta tetralogia. A caracterização do bairro, da gente que o habita, de Nápoles e de outros espaços italianos são o espelho da sociedade napolitana dos anos sessenta, de uma pobreza explorada sem misericórdia por gente com ligações “camorrianas”, de como os tentáculos da Máfia se infiltravam em todos os meios, mais ou menos favorecidos, e de como era praticamente impossível escapar a tudo isto.
         Termino esta primeira opinião do ano dizendo que, por muito que tenha gostado de A amiga genial, História do novo nome é ainda mais arrebatadora (talvez porque as duas amigas já são quase adultas e assim mais próximas da minha faixa etária), mais sofrida, mais pungente, enfim mais absorvente e faz-nos querer (e muito) saltar já para o terceiro volume. Só não o faço agora por causa da minha mania das leituras cronológicas J e sobretudo porque preciso de respirar um pouco, de aligeirar a coisa e de afastar-me momentaneamente de um ambiente assim hostil.
         É óbvio que recomendo sem reservas este volume e toda a tetralogia. Entrei da forma mais literariamente perfeita em 2016 J

         NOTA – 10/10

         Sinopse
         Este romance continua a história de Lila e Elena, tendo como pano de fundo a cidade de Nápoles e a Itália do século XX.
Lila, filha de um sapateiro, escolhe o caminho de ascensão social no próprio bairro e, no final de A Amiga Genial, vemo-la casada com um comerciante. Elena, pelo contrário, dedica-se aos estudos.
 Ambas têm agora 17 anos e sentem-se num beco sem saída. Ao assumir o nome do marido, Lila tem a sensação de ter perdido a identidade. Elena, estudante modelo, descobre que não se sente bem nem no bairro nem fora dele.
 No início, vemos Elena a abrir um caderno de notas onde Lila fala sobre a vida com o seu marido e as complicadas relações com a Mafia e os grupos neofascistas, que invadem os bairros com as suas proclamações.

 Lila e Elena hesitam entre a tendência para a conformidade e a obstinação em tomar nas suas mãos o seu destino, numa relação conflitual, inseparável mistura de dependência e vontade de autoafirmação, em que o amor é um sentimento «molesto» que se alimenta do desequilíbrio até nos momentos mais felizes.

A amiga genial, de Elena Ferrante

Sábado, 05 de setembro de 2015




Opinião
Uma ida matinal ao cabeleireiro foi o pretexto ideal para devorar as páginas finais de A amiga genial, livro que me acompanhava desde o primeiro dia deste mês.
O nome de Elena Ferrante, a autora, está envolto numa onda de mistério. É o pseudónimo de uma escritora italiana, da qual pouco ou nada se sabe, já que a mesma expressamente deseja que assim seja – para ela, o importante, o essencial são os livros, que, uma vez escritos, para nada precisam dos seus criadores. Se tiverem uma mensagem, algo para dizer, com certeza encontrarão quem os leia e esses leitores, que encontram e são encontrados pelos livros, não necessitam dos supérfluos pormenores biográficos dos escritores.
Já troquei comentários com variadas pessoas sobre A amiga genial e todos foram carregados de opiniões mais do que positivas. Já é do conhecimento público que é o primeiro volume de uma tetralogia. Já foi inclusive lançado pela editora Relógio d’Água o segundo volume – História do novo nome. A minha querida amiga literária, Ana Sofia, acabou de lê-lo há pouquinho tempo e confidenciou-me que é avassalador. Tudo isto são motivos suficientes para aguçar a nossa curiosidade e para impelir-nos a entrar de bom gosto no mundo da misteriosa e talentosa Elena Ferrante.
Tal como referi, A amiga genial é o primeiro volume da apelidada tetralogia de Nápoles e traz-nos a história de duas amigas – Elena (Lenú) e Lila. Logo nas suas páginas iniciais (no prólogo que abre A amiga genial) nos apercebemos de que o mote para a criação desta tetralogia está centrado no momento presente, no qual Lila, já com a idade de sessenta e seis anos, desapareceu sem deixar absolutamente qualquer rasto. Este desaparecimento deixa Elena “deveras irritada” e é a perfeita desculpa para que esta se sente ao computador e comece a escrever “os pormenores da nossa história, tudo aquilo que me ficara na memória.” (pág. 16).
Assim, o volume que terminei de ler narra a infância e adolescência das duas amigas, sobretudo na perspetiva de Elena, a sua narradora. Acompanhamos o turbulento início da amizade, a cumplicidade das duas, o seu afastamento por causa dos dissabores da vida e um reaproximar que fica momentaneamente interrompido por um final intenso e que nos deixa em desespero, numa ansiedade louca pelo volume que se segue. Em linhas gerais este será o resumo (muito resumido) da trama da obra. Contudo, o que nos prende, o que nos agarra, o que nos verga perante o talento indiscutível desta autora italiana é muito mais do que isto…
Elena Ferrante é possuidora de uma escrita visceral, carnal, crua, sem paninhos quentes, mas que retrata magistralmente a realidade humana, plena de contradições, de sentimentos ambíguos, de egoísmos, de medos, de invejas, de ciúmes, de violência. É impossível não ficarmos rendidos às vivências do bairro suburbano e pobre onde coabitam as famílias de Elena, Lila e de outras personagens que estão presentes no seu dia-a-dia. Ao longo da obra, o espaço predominante é esse mesmo e página após página sentimo-nos lá, somos espetadores da rotina de um punhado de famílias, de tal forma bem construídas, com tradições e costumes muito enraizados, nas quais o patriarca distribui pouco afetos e muita pancada, a mulher reflete no rosto a submissão, o rancor por essa vida submissa e sem perspetivas e as crianças sabem desde tenra idade comportar-se como uma enguia para assim por vezes escapulir-se de situações de violência e por outros procurá-las, confrontá-las.
Podemos dizer que Lila e Elena são o espelho dessas crianças e ao mesmo tempo são o seu oposto. Elena é das pouquíssimas crianças que têm possibilidades de prosseguir estudos e Lila… bom, Lila é uma força da natureza, de uma natureza maléfica, contraditória, inteligentíssima, autodidata, que luta com todas suas forças para manter-se no seu bairro de sempre, mas realizando os seus sonhos – tornar-se rica, sair de uma vida pobre através da escrita, dos seus desenhos, da criação de sapatos ou de um casamento.
Elena e Lila são igualmente o oposto uma da outra – Elena é tímida, medrosa, procura o afeto e a aprovação dos outros, sabe que tem que estudar e dedicar-se horas e horas ao estudo para poder ser a primeira da classe e nunca, em momento algum, se sente completamente segura de si e do seu valor, nem mesmo quando Lila lhe chama de sua amiga genial. Por outro lado, Lila, desde tenra idade, mostra não ter medo de nada nem de ninguém, nunca foge a um desafio e se não fosse pelas circunstâncias de uma vida pobre, possuiria todos os atributos para ser genial, pois é dona de uma capacidade e de uma inteligência raras. Contudo, mesmo sendo assim tão distintas, estas duas raparigas têm uma amizade forte, que vai resistindo a muitos percalços e que as unirá, de uma forma ou de outra, para toda a vida.
Neste ponto de uma opinião que vai longa, tenho que refrear a minha vontade de seguir desvendando mais da narrativa e centrar a atenção no que está por detrás da sua criação e que me fez render ao estilo e escrita de Elena Ferrante. São magníficas a habilidade e competência da autora de oferecer-nos, como já disse, uma história que espelha a realidade de uma Nápoles pobre, patriarcal, de gente que passa de geração em geração superstições, medos, ódios e rumores e que dispara violência para tudo e para todos. É também magistral a construção das personagens, sobretudo a das duas protagonistas e dos sentimentos ambivalentes que as une. Desde o minuto em que vê pela primeira vez Lila até ao momento presente, até à altura em que esta desparece (“Vamos ver quem vence, desta vez, disse para mim” – pág. 16), Elena tem consciência de que sente atração e repulsão pela amiga, que se sente diminuída na sua presença, que ser a primeira da classe, obter classificações brilhantes e elogios pela parte dos professores é abafado, espezinhado pelo carácter, pela determinação, pela rebeldia e por fim pela beleza da sua amiga – “Portanto, eu era segunda em tudo” (pág. 39). É ainda irrepreensível o conhecimento que Ferrante demostra possuir de tudo que caracteriza e compõe as etapas da infância e da adolescência. Um dos exemplos que ainda se mantém comigo desse conhecimento está bem espelhado nos princípios da amizade de Elena e Lila, em que as duas, sobretudo a primeira, são possuídas dos habituais medos irracionais (mas que nos paralisam enquanto crianças) de papões, sítios habitados por monstros horrendos e seres terríveis dos quais temos que estar mais afastados possível.
A amiga genial (e o resto da tetralogia, arrisco-me a dizer) é assim uma leitura obrigatória e só posso agradecer à minha querida Ana Sofia pela dica preciosíssima J

Leiam Elena Ferrante. Leiam A amiga genial e A história do novo nome (já publicado pela Relógio d’Água). Leiam Crónicas do mal de amor, que reúne três imperdíveis pequenos romances desta autora. Não se irão arrepender!

NOTA – 09/10

Sinopse

"A Amiga Genial" é a história de um encontro entre duas crianças de um bairro popular nos arredores de Nápoles e da sua amizade adolescente. Elena conhece a sua amiga na primeira classe. Provêm ambas de famílias remediadas. O pai de Elena trabalha como porteiro na câmara municipal, o de Lila Cerullo é sapateiro. Lila é bravia, sagaz, corajosa nas palavras e nas ações. Tem resposta pronta para tudo e age com uma determinação que a pacata e estudiosa Elena inveja. Quando a desajeitada Lila se transforma numa adolescente que fascina os rapazes do bairro, Elena continua a procurar nela a sua inspiração. O percurso de ambas separa-se quando, ao contrário de Lila, Elena continua os estudos liceais e Lila tem de lutar por si e pela sua família no bairro onde vive. Mas a sua amizade prossegue. "A Amiga Genial" tem o andamento de uma grande narrativa popular, densa, veloz e desconcertante, ligeira e profunda, mostrando os conflitos familiares e amorosos numa sucessão de episódios que os leitores desejariam que nunca acabasse. «Elena Ferrante é uma das grandes escritoras contemporâneas.» The New York Times