Ficha técnica
Título – Carta
ao Pai
Autor – Franz Kafka
Editora – Hiena Editora
Páginas – 94
Datas de leitura – de 03 a 04 de fevereiro de 2019
Opinião
Mais uma obra lida para o projeto da
Silvéria - #24horas1livro. Com ela estreei-me nas letras do consagradíssimo
Franz Kafka, mas digo já que foi uma das piores estreias de que me lembro nos
últimos anos… Que me perdoem os admiradores de Kafka, mas, se o livro não fosse
tão fino e se não o estivesse a ler em conjunto com a minha querida Cristina do
canal e blogue Linked Books (visitem-na aqui), tê-lo-ia posto de lado sem
qualquer tipo de remorso.
A premissa é muito interessante –
estamos, tal como o título indica, perante uma carta que o autor, já adulto,
escreve ao seu pai com quem sempre teve uma relação conflituosa. Até ao momento
em que trouxe este livro da biblioteca municipal pouco ou nada sabia sobre a
vida de Kafka. Estive em Praga em 2003, visitei a famosa casa nº 22 da Travessa
Dourada, onde o autor e a sua irmã estiveram hospedados, mas tirando isso, nada
tentei saber sobre ele, porque, dos autores que leio, dificilmente procuro
saber isto ou aquilo das suas vidas privadas. Assim sendo, entrei para a
leitura às escuras, interessada em privar com o autor, em tentar encontrar vestígios
da sua escrita neste registo epistolar e, por que não, tentar compreender se a
relação animosa que tinha com o pai teria ou não influenciado os seus escritos.
Desde as primeiras páginas fui
assinalando passagens com post-its, fui transcrevendo algumas, mas a partir do
meio da carta pus de lado post-its, lápis e caderno e comecei a revirar os
olhos, a bufar de impaciência e, pior ainda, a criar na minha cabeça uma imagem
nada abonatória do Sr. Kafka… Toda a carta, todinha, é um despejar de culpas ao
pai por tudo, tudo de mau que aconteceu na vida do pobre filho – a autoridade,
a rigidez, as exigências, as ideias e preconceitos foram sempre barreiras que o
menino nunca foi capaz de ultrapassar e, se estivéssemos apenas a falar de
Kafka enquanto criança e jovem, todas as suas queixas e ressentimentos seriam
mais do que aceitáveis. Agora, por favor, tenham dó, que um Kafka já adulto
ainda continue a queixar-se continuamente de que tem medo do pai, de que não
casou por causa do pai, de que se tornou aquilo que é apenas por causa dele e
por aí adiante, porque as queixas são intermináveis, ai, give me a break, é
demais para qualquer pessoa que o está a ler e a aturar!
Encerrei a leitura com uma vontade bem
considerável de abanar o autor, mesmo ele já estando morto. A imagem que ainda
se mantém comigo, mais de dez dias passados, é um de um Kakfa “júnior”
mesquinho, cobarde, vingativo, que não teve estofo nem coragem de sair da barra
paternal, que nutre, desde pequeno, medo, ressentimento e, por que não, ódio do
pai, mas que nunca soube fazer-se alguém, que tem noção dos muitos defeitos do
seu progenitor (e sim, são muitos – o senhor era bastante prepotente), mas que não
encontra em sim “armas” e valentia para distanciar-se dele, para fazer-se homem
e para deixar de detestar o pai e a si mesmo. Sim, porque, a determinado
momento da carta, Kafka admite que nem ele gostaria de ter um filho como ele,
com o seu carácter fraco e quezilento…
Como podem calcular, não gostei de
quase nada desta leitura e, no final, quando fechei o livro, estava algo aflita
porque não sabia como partilhar com a Cristina que eu, estreante no mundo
kafkiano, não tinha nada de positivo para contar-lhe da experiência. Contudo,
para meu alívio, a opinião dela era muito semelhante à minha ou ainda menos
positiva! Não sendo a primeira vez que lia Kafka e baseando-se nas pontuações
do Goodreads e nas recomendações de outros bloggers/booktubers que não costumam
falhar, a Cristina sofreu uma deceção bem maior do que a minha…
Mas nem tudo foi negativo nesta leitura
e será por isso que não darei à leitura uma pontuação inferior. A conversa que
tivemos depois da leitura, na qual a Cristina partilhou os seus pontos de vista
muito assertivos e me informou que esta carta, entre outros escritos, não
deveria, segundo o próprio autor, ter sido publicada, mas “sim queimada” (foi
um amigo que a disponibilizou aos leitores, após a morte de Kafka), foi muito
elucidativa e provou o quanto as leituras feitas em conjunto têm um sabor
diferente, bem mais suculento e que deverão acontecer com mais regularidade. Da
minha parte, poderão estar certos, estarei sempre disponível para “infiltrar-me”
numa 😊
Resumindo, esta não é uma leitura que
recomendo. Em absoluto. Mas não fecho a porta às letras do autor checo, apesar
de não estar com vontade de pegar numa obra sua nos próximos tempos… E desse
lado? Há alguém que já tenha lido esta carta e que tenha uma opinião diferente
da minha? Adorava que mo dissessem!
NOTA – 04/10
Sinopse
"Carta
ao Pai" (1919), um texto que, tal como o título refere, Kafka dirige ao
seu pai, homem severo e de temperamento dominador, com quem o autor foi incapaz
de desenvolver uma convivência pacífica. Ao longo da carta, Kafka escreve-lhe
sobre o efeito negativo e perverso da educação que recebeu e sobre o sentimento
de culpa por não conseguir corresponder com as expectativas. Um livro comovente
e de uma sinceridade sufocante, que, tal como os seus romances, conduz-nos para
temas como o isolamento, o medo e a vulnerabilidade do homem.
