Ficha técnica
Título – O
deslumbre de Cecilia Fluss
Autor – João Tordo
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 336
Datas de leitura – 16 a 21 de junho de 2018
Opinião
Tenho
sete livros de João Tordo nas estantes. O
deslumbre de Cecilia Fluss foi o último que li. Com ele encerrei a
trilogia à qual pertencem O luto de
Elias Gro e O paraíso segundo
Lars D. Desses sete que tenho e que já li, continuo a preferir de longe
A biografia involuntária dos amantes,
embora também recomende Três vidas
(o primeiro que li do autor e com o qual ele ganhou o Prémio José Saramago) e O luto de Elias Gro. Aos
restantes não pretendo voltar, porque não me satisfizeram e não me preencheram
como desejava que me preenchessem.
Após a
pequena desilusão que foi a leitura de O
paraíso segundo Lars D., compreendem que estivesse algo receosa ao
tirar da estante o seu sucessor e aquele que fecharia a trilogia. Tinha plena
consciência de que iria mergulhar numa narrativa desoladora, triste,
deprimente, com personagens desamparadas, desgarradas, carentes e talvez
incompreendidas pelos outros e por si mesmas. Tinha igualmente plena
consciência de que a escrita do autor não me defraudaria, porque João Tordo
escreve maravilhosamente bem, oferece-nos inúmeras passagens que apetece
sublinhar, destacar e assinalar, provas mais do que evidentes de que a sua
escrita está cada vez melhor, refinada e madura. Contudo, o receio e a
desconfiança não me largavam e senti que havia razões para a sua existência à
medida que penetrava na narrativa e bufava de algum descontentamento e
frustração perante páginas e páginas centradas em Matias, um adolescente
obcecado pelos prazeres carnais que vai descobrindo em sessões diárias de
masturbação e pelos ensinamentos budistas, aos quais tem acesso através do seu
professor de História.
Tenho
que admitir que nunca “engracei” com a filosofia nem com religião disfarçada de
filosofia. Se tropeço em passagens, em textos ou em obras onde abundem
referências filosóficas, religiosas ou dos chamados ensinamentos de vida começo
logo a revirar os olhos, a bufar e não perco muito tempo em partir para outra
leitura. No caso de O deslumbre de
Cecilia Fluss, obriguei-me a fazer um esforço, a controlar a ânsia de
passar páginas e de contar as que faltavam para terminar a primeira parte da
narrativa e iniciar a segunda que esperava e pedia que fosse diferente. E o
esforço resultou, pois as partes dois e três são incrivelmente melhores e
elevaram para fasquias bem mais apetitosas uma leitura que me estava a deixar
ainda mais deprimida que as personagens que a habitam.
Matias
Fluss vive com a mãe e a irmã mais velha, Cecilia Fluss. É sobrinho de Elias (o
mesmo do livro que inicia a trilogia) e toda a sua família é estranha. Ele é
introvertido e obcecado por coisas tão díspares como o sexo e a religião
budista, a mãe é uma mulher que, estando presente em casa, parece estar
ausente, pouco ou nada diz ou faz e comporta-se de forma displicente face às
escapadelas frequentes da filha e aos seus hábitos pouco saudáveis. Cecilia raramente
põe os pés na escola, bebe, fuma e passa horas e horas fora de casa com um
suposto namorado mais velho do que ela. Por sua vez, Elias vive no meio do
bosque, numa cabana decrépita e na companhia de dois cães, com os nomes
curiosíssimos de “Vivo” e “Morto” e é o único da família a quem está
diagnosticada demência. Tudo isto vamos sabendo na parte que arranca a obra,
narrada pelo próprio Matias e que se intercala com passagens menos assíduas da
sua vida enquanto adulto.
Nas
partes que se lhe seguem a narrativa salta para o presente e é aí que vamos começar
a ter respostas, os fios soltos ao longo desta obra e da trilogia começam a
juntar-se e a teia compõe-se nas páginas finais, onde tomamos conhecimento do
que, por exemplo, aconteceu a Cecilia, o que motivou o seu deslumbre e por que
razão Elias Gro, na obra homónima, se mudou para uma ilha e o que esteve por
detrás do seu luto. O círculo fecha-se e a leitura encerra, pelo menos para mim,
com mais claridade e menos “treta” religiosa (perdoem-me quem for admirador ou
professo do Budismo) que apenas emperrou um texto que, na minha opinião (e
reitero – na minha opinião), se tornaria menos enfadonho se fosse apenas
composto pelas partes dois e três.
Talvez
esteja a transmitir, com aquilo que escrevi até aqui, uma ideia algo exagerada
(vejam lá como fico quando tenho que “lidar” com assuntos filosóficos ou
religiosos que nada trazem para a minha vida…). A obra tem passagens
lindíssimas, as referidas partes dois e três são muito boas, adorei a versão
adulta, solitário, meditabunda e deprimida do Matias, senti-me muito pertinho
dele e nada espantada ou defraudada com as suas escolhas. Adorei a personagem
feminina que protagoniza a parte três e adorei regressar ao ponto de partida,
ao início da trilogia. Foram essas 130, 135 páginas que redimiram a leitura,
pois, apesar de constituírem menos de metade do livro, chegam, são suficientes
para sentir-me bem e realizada no final de uma trilogia que abre com um livro
muito bom, que segue com outro mediano e que fecha com outro ligeiramente
melhor do que o seu antecessor.
Neste
momento, falta-me apenas um livro de João Tordo na estante – Ensina-me a voar sobre os telhados.
Não estava com muita vontade de o comprar nos próximos tempos, mas, após ter
visto um vídeo da Dora no booktube (deixo aqui o link), já mudei de opinião e quero-o.
Muito.
NOTA –
08/10
Sinopse
No final desta «trilogia dos
lugares sem nome», iniciada com O luto de Elias Gro, João Tordo explora,
através de personagens únicas e universais, numa geografia singular, os temas
da memória e do afecto, do amor e da desolação, da vida terrena e espiritual,
procurando aquilo que com mais força nos liga aos outros e a nós próprios.





