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O deslumbre de Cecilia Fluss, de João Tordo



Ficha técnica
TítuloO deslumbre de Cecilia Fluss
Autor – João Tordo
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 336
Datas de leitura – 16 a 21 de junho de 2018

Opinião
Tenho sete livros de João Tordo nas estantes. O deslumbre de Cecilia Fluss foi o último que li. Com ele encerrei a trilogia à qual pertencem O luto de Elias Gro e O paraíso segundo Lars D. Desses sete que tenho e que já li, continuo a preferir de longe A biografia involuntária dos amantes, embora também recomende Três vidas (o primeiro que li do autor e com o qual ele ganhou o Prémio José Saramago) e O luto de Elias Gro. Aos restantes não pretendo voltar, porque não me satisfizeram e não me preencheram como desejava que me preenchessem.
Após a pequena desilusão que foi a leitura de O paraíso segundo Lars D., compreendem que estivesse algo receosa ao tirar da estante o seu sucessor e aquele que fecharia a trilogia. Tinha plena consciência de que iria mergulhar numa narrativa desoladora, triste, deprimente, com personagens desamparadas, desgarradas, carentes e talvez incompreendidas pelos outros e por si mesmas. Tinha igualmente plena consciência de que a escrita do autor não me defraudaria, porque João Tordo escreve maravilhosamente bem, oferece-nos inúmeras passagens que apetece sublinhar, destacar e assinalar, provas mais do que evidentes de que a sua escrita está cada vez melhor, refinada e madura. Contudo, o receio e a desconfiança não me largavam e senti que havia razões para a sua existência à medida que penetrava na narrativa e bufava de algum descontentamento e frustração perante páginas e páginas centradas em Matias, um adolescente obcecado pelos prazeres carnais que vai descobrindo em sessões diárias de masturbação e pelos ensinamentos budistas, aos quais tem acesso através do seu professor de História.
Tenho que admitir que nunca “engracei” com a filosofia nem com religião disfarçada de filosofia. Se tropeço em passagens, em textos ou em obras onde abundem referências filosóficas, religiosas ou dos chamados ensinamentos de vida começo logo a revirar os olhos, a bufar e não perco muito tempo em partir para outra leitura. No caso de O deslumbre de Cecilia Fluss, obriguei-me a fazer um esforço, a controlar a ânsia de passar páginas e de contar as que faltavam para terminar a primeira parte da narrativa e iniciar a segunda que esperava e pedia que fosse diferente. E o esforço resultou, pois as partes dois e três são incrivelmente melhores e elevaram para fasquias bem mais apetitosas uma leitura que me estava a deixar ainda mais deprimida que as personagens que a habitam.
Matias Fluss vive com a mãe e a irmã mais velha, Cecilia Fluss. É sobrinho de Elias (o mesmo do livro que inicia a trilogia) e toda a sua família é estranha. Ele é introvertido e obcecado por coisas tão díspares como o sexo e a religião budista, a mãe é uma mulher que, estando presente em casa, parece estar ausente, pouco ou nada diz ou faz e comporta-se de forma displicente face às escapadelas frequentes da filha e aos seus hábitos pouco saudáveis. Cecilia raramente põe os pés na escola, bebe, fuma e passa horas e horas fora de casa com um suposto namorado mais velho do que ela. Por sua vez, Elias vive no meio do bosque, numa cabana decrépita e na companhia de dois cães, com os nomes curiosíssimos de “Vivo” e “Morto” e é o único da família a quem está diagnosticada demência. Tudo isto vamos sabendo na parte que arranca a obra, narrada pelo próprio Matias e que se intercala com passagens menos assíduas da sua vida enquanto adulto.
Nas partes que se lhe seguem a narrativa salta para o presente e é aí que vamos começar a ter respostas, os fios soltos ao longo desta obra e da trilogia começam a juntar-se e a teia compõe-se nas páginas finais, onde tomamos conhecimento do que, por exemplo, aconteceu a Cecilia, o que motivou o seu deslumbre e por que razão Elias Gro, na obra homónima, se mudou para uma ilha e o que esteve por detrás do seu luto. O círculo fecha-se e a leitura encerra, pelo menos para mim, com mais claridade e menos “treta” religiosa (perdoem-me quem for admirador ou professo do Budismo) que apenas emperrou um texto que, na minha opinião (e reitero – na minha opinião), se tornaria menos enfadonho se fosse apenas composto pelas partes dois e três.
Talvez esteja a transmitir, com aquilo que escrevi até aqui, uma ideia algo exagerada (vejam lá como fico quando tenho que “lidar” com assuntos filosóficos ou religiosos que nada trazem para a minha vida…). A obra tem passagens lindíssimas, as referidas partes dois e três são muito boas, adorei a versão adulta, solitário, meditabunda e deprimida do Matias, senti-me muito pertinho dele e nada espantada ou defraudada com as suas escolhas. Adorei a personagem feminina que protagoniza a parte três e adorei regressar ao ponto de partida, ao início da trilogia. Foram essas 130, 135 páginas que redimiram a leitura, pois, apesar de constituírem menos de metade do livro, chegam, são suficientes para sentir-me bem e realizada no final de uma trilogia que abre com um livro muito bom, que segue com outro mediano e que fecha com outro ligeiramente melhor do que o seu antecessor.
Neste momento, falta-me apenas um livro de João Tordo na estante – Ensina-me a voar sobre os telhados. Não estava com muita vontade de o comprar nos próximos tempos, mas, após ter visto um vídeo da Dora no booktube (deixo aqui o link), já mudei de opinião e quero-o. Muito.

NOTA – 08/10

Sinopse
No final desta «trilogia dos lugares sem nome», iniciada com O luto de Elias Gro, João Tordo explora, através de personagens únicas e universais, numa geografia singular, os temas da memória e do afecto, do amor e da desolação, da vida terrena e espiritual, procurando aquilo que com mais força nos liga aos outros e a nós próprios.

O paraíso segundo Lars D., de João Tordo


Ficha técnica
Título – O paraíso segundo Lars D.
Autor – João Tordo
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 207
Datas de leitura – de 23 a 26 de março de 2016


Opinião
Torna-se algo difícil escrever a opinião sobre uma leitura que já terminei há alguns dias. Apraz-me a sensação de encerramento que está por detrás do texto que se segue à leitura de um livro e, por isso, sempre que posso, escrevo esse texto pouco tempo depois do desfecho da última página. Contudo, a época pascoal, com os seus consequentes dias de descanso e evasão, não permitiu (e ainda bem que não J) que me sentasse ao computador e encerrasse com a correspondente opinião a leitura da segunda obra de uma trilogia que se iniciou com O luto de Elias Gro (ver opinião aqui).
Torna-se ainda mais difícil escrever esta opinião porque O paraíso segundo Lars D. não me entusiasmou como o havia feito o seu antecessor.
As linhas estruturantes repetem-se de uma obra para a outra, estamos perante duas narrativas prenhes de emoções, de dor, de solidão, de questionamentos múltiplos sobre a vida, a morte, a precaridade da existência, a perda de alguém e o impacto que essa perda tem no outro, enfim, duas narrativas onde predomina a densidade de um punhado de personagens e a multiplicidade dos seus eus. Contudo, por esta ou aquela razão que não consigo realmente definir, fui avançando na leitura e a empatia, a identificação que normalmente me atrai ou me repele ante personagens, ações ou ideais não aconteceu.
Sou uma apaixonada pela obra de Tordo. Tenho muitos dos romances que publicou e Biografia involuntária dos amantes foi uma das melhores leituras que fiz em 2015 e nos últimos anos. A beleza, a carga emocional e, por que não, a maturidade da escrita tordiana estão bem patentes em tudo o que publicou ultimamente e esta obra que dá seguimento à trilogia não é exceção. Mesmo assim, não me arrebatou. Talvez porque a carga filosófica inerente à busca de respostas para questões que atormentam a existência humana se sobrepôs. Talvez porque a apatia da mulher de Lars, a sua resignação me incomodou um pouco. Talvez porque a esta narrativa lhe falte a perspicácia e precocidade de uma menina como Cecília por quem me apaixonei com amor de mãe em O luto de Elias Gro. Talvez porque, como já referi, não consegui ligar-me às personagens, não consegui sentir as suas angústias, dores, medos e tormentos como se fossem meus.
Resta-me aguardar pelo terceiro volume que encerrará a trilogia e desejar que seja um encerramento perfeito, que me proporcione um mergulho repleto de sabor na escrita de Tordo e nas emoções que daí advêm.

NOTA – 07/10

Sinopse

Numa manhã de Inverno, Lars sai de casa e encontra uma jovem a dormir no seu carro. Ele é um escritor sexagenário e, poucas horas mais tarde, parte em viagem com a jovem deixando para trás um casamento de uma vida inteira e um romance inédito: O luto de Elias Gro.

O luto de Elias Gro, de João Tordo

Quarta-feira, 16 de setembro de 2015





Opinião
Um homem subjugado pela dor deixa a sua vida para trás e parte. Parte para refugiar-se numa ilha no outro lado do Atlântico, onde não conhece ninguém. Aliás, esse é um dos objetivos da sua fuga – tudo que lhe é próximo, que lhe é conhecido fica e consigo apenas leva o essencial para sobreviver. Porque é disso que se trata – sobreviver a uma perda que nos tira o chão e a vontade de viver.
Este homem é o nosso narrador. Vai partilhando connosco a viagem que o transportou a essa ilha do outro lado do oceano, os dias afogados em álcool que vive num farol que arrenda e os encontros/desencontros com alguns dos poucos habitantes insulares, com quem vai esbarrando casualmente. Vai igualmente deixando que espreitemos as lutas que vai combatendo com os demónios que o atormentam a qualquer hora do dia, sobretudo à noite, quando já emborcou copos e copos de whisky na tentativa infrutífera de afundar-se numa inconsciência alcoólica que o impeça de pensar e de recordar.
Contudo, as recordações não desaparecem. Nem com litros e litros de whisky. Assombram-no, martirizam-no constantemente, mas para o leitor são benéficas, pois vão-nos permitindo entrar na vida passada do protagonista e perceber o que está por detrás de tanta dor e de tanta vontade de deixar de resistir, de viver.
Nas poucas horas que não está a afogar-se em álcool, o narrador vai, como já referi, entabulando conversas com alguns dos habitantes e a contragosto vai conhecendo os seus hábitos, as suas histórias, as suas rotinas. Desses habitantes destacam-se três – Elias Gro e a sua filha pré-adolescente, Cecília, e Alma. Serão eles que tentarão penetrar na carapaça que o narrador construiu à sua volta, serão eles que, por um lado, lhe darão o espaço que ele necessita para viver a sua dor e, por outro, lhe contarão as suas próprias experiências, lhe farão ganhar algum interesse pela ilha e pelos seus habitantes (vivos ou mortos), o alimentarão, o tratarão com compaixão e bulirão com os seus nervos com pedidos estranhos e atitudes que o obrigam a viver e a interagir.
Dessas personagens “mais secundárias” destaco Cecília e o seu pai.
É impossível não simpatizar com Cecília e a sua personalidade de menina perspicaz, com uma inteligência e sensibilidade aguçadas. Tem sempre uma pergunta pronta para ser feita, não se contenta com qualquer resposta, põe em causa muitas das afirmações que ouve da boca do narrador e não se apieda da sua dor, torcendo, por exemplo, o nariz ao seu aspeto desmazelado e malcheiroso. É uma menina precoce, que por tudo e por nada mostra o interesse e conhecimento que possui sobre os ossos do corpo humano (na parte final da obra saberemos o porquê desse interesse), que nos cativa por tudo isto e a quem me apeteceu, muitas vezes, embalar no colo…
Por sua vez, o seu pai, Elias Gro dá título à obra, apesar de, aparentemente, ser uma personagem secundária… Pode, à primeira vista, ser uma contradição, mas, à medida que a leitura avança e vamos sabendo mais deste pai e único padre da ilha, compreendemos que, por muito diferentes que sejam, entre o narrador e Elias Gro existe um profundo paralelismo e que ajudará o primeiro a regressar à vida.
O luto de Elias Gro é a quinta obra de João Tordo que leio. Confesso que não me arrebatou como a anterior, Biografia involuntária dos amantes, mas proporcionou-me momentos de intensa sintonia com o narrador e demais personagens. Senti as suas dores, vivi as suas tormentas e a personalidade de Cecília desarmou-me de tal forma que não quis abandoná-la, particularmente na última página da obra, onde num parágrafo algo longo, o autor, juntando palavras particularmente belas e a transbordar de sentimento, me fez chorar com a fórmula perfeita para encerrar uma história triste, dorida – como todas as que já li de João Tordo – mas com aquela pincelada de esperança e de redenção.
Não quero terminar esta opinião sem deixar aqui registado um paralelismo que só me ocorreu horas depois de ter chegado ao fim da leitura e ainda estar a sentir o sabor que a obra deixou e a despedir-me dela devagarinho. João Tordo foi o tradutor da versão inglesa de Rosa Candida, da autora islandesa com um nome impossível de lembrar. Ora, nesse romance o protagonista, tal como o de O Luto de Elias Gro, deixa a sua terra natal e parte para um destino longínquo, que nunca sabemos exatamente onde se localiza, para esquecer a sua vida passada… Coincidência? Ou será que não?... Talvez nunca saberemos…

NOTA – 09/10

Sinopse
Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais.
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar.
O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor.

O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.

Biografia involuntária dos amantes, de João Tordo

sábado, 28 de fevereiro de 2015





Opinião
No último dia deste mês chuvoso acabei de ler aquele que considero o melhor romance de João Tordo. Sem dúvida nenhuma.
Comprei-o na última edição da Feira do Livro do Porto e tive a sorte de fazê-lo no dia em que lá estava o autor para uma sessão de autógrafos. Assim, Biografia involuntária dos amantes tornou-se no primeiro livro autografado que “aterrou” na minha estante J Por si só, esse autógrafo já faz desta obra uma obra especial. Mas, felizmente, a mesma possui muitas mais razões para que a classifique como notável e digna de este jovem e mais que promissor escritor nacional.
Mais uma vez e como acontece em outros romances de Tordo, Biografia involuntária dos amantes oferece-nos uma narrativa que se espalha por vários espaços, tempos e um protagonista que honra os seus “antepassados”, ou seja, os seus companheiros bibliográficos de passadas obras “tordianas”. Mas convém assinalar que há diferenças. Pela primeira vez, Tordo aventurou-se e pôs um dos narradores na pele de uma mulher. E há mais. O amor é o ingrediente principal, aquele à volta do qual tudo se passa, tudo avança e recua, tudo faz sentido.
Juntos matámos o javali”. É com esta frase curta e inesperada (mas que nos aguça a curiosidade) que a narrativa se inaugura. A partir dela, podemos apreender que o narrador será autodiegético (ou homodiegético) e que aquele incidente, a morte de um javali será um acontecimento significante, que funcionará como pretexto para o novelo de posteriores ações, reflexões e memórias. Muitas memórias.
Com o desenrolar da ação, constatei que o seu primeiro grande espaço é a belíssima região galega e que deambularia por duas das suas cidades – Santiago de Compostela, onde trabalha o narrador, e Pontevedra, onde reside. Bom, neste ponto tenho que abrir uma espécie de parêntesis e confessar que sou uma apaixonada pela cidade de residência do narrador – conheço Pontevedra relativamente bem (já lá estive três vezes) e não consigo impedir que o seu centro histórico, as suas ruelas estreitas, as suas deliciosas praças me conquistem, me seduzam uma vez e outra e outra. Sendo assim, é mais do que óbvio que segui (como se fosse a sua sombra) as deambulações que o narrador fez frequentemente pela sua cidade e que visualizei recantos, ruas, praças, estátuas, cruzeiros, cafés que me são familiares e que me agradam sobremaneira. As duas consequências imediatas que disso resultaram são fáceis de adivinhar – quando li essas passagens, essas descrições das caminhadas por Pontevedra, fartei-me de suspirar (em voz alta e verbalmente J) por uma nova visita ao seu centro histórico (e já agora às suas livrarias – duas pelo menos) e apercebi-me de que já me tinha rendido a Biografia involuntária dos amantes.
 Contudo, ainda havia muito na sua narrativa que me iria seduzir, prender, agarrar, conquistar. O seu narrador e protagonista, por exemplo. Dele não sabemos o nome. Sabemos apenas que é professor universitário, que é o animador de um programa de rádio noturno, que está divorciado e que tem uma filha adolescente, com quem mantém uma relação conflituosa e distante. Sabemos ainda que é um homem na casa dos cinquenta e que se sente preso a uma vida sem sabor, a uma vida insossa, desencantada, cinzenta e previsível como o é o tempo atmosférico na Galiza. É um homem cobarde, que tem consciência dessa cobardia, mas que nada faz para combatê-la, nem quando essa falta de coragem de iniciativa o afunda mais. Contudo, tudo sofre uma reviravolta com o acontecimento que inaugura a narrativa da obra – um desastre na AP-9 que provoca uma vítima mortal – um javali que se atravessou no caminho do narrador e do seu amigo e poeta mexicano Saldaña Paris.
Esse acidente será o momento desencadeador de um rol de memórias partilhadas entre os dois homens, tendo como elemento principal o casamento desfeito entre Saldaña Paris e Teresa, uma portuguesa que entretanto havia falecido de cancro e lhe havia deixado uma espécie de diário dos seus últimos dias de vida. Este documento autobiográfico não só transtornará de forma quase irreversível a existência do poeta mexicano, como também fará tremer os alicerces da vidinha sensaborona e frustrada do narrador, já que será a desculpa ideal para que este deixe tudo e todos para trás e parta numa espécie de demanda para descobrir quem é na verdade Saldaña Paris, quem foi a sua falecida esposa e, finalmente, para descobrir-se a si mesmo.
O desenlace da obra permitir-nos-á saborear o gozo de uma curiosidade (que vai crescendo e crescendo à medida que avançamos página a página) finalmente satisfeita e acreditar que nunca nada está perdido, que devemos não baixar os braços e que devemos lutar por nós, pelos nossos e que temos que aceitar as lições que o dia-a-dia nos traz.
Concluindo, o que fui expondo até ao momento reflete o porquê de tanto ter sido conquistada e de tanto ter gostado de Biografia involuntária dos amantes. Não dececiona, de maneira nenhuma, os leitores habituais de João Tordo e possui ingredientes mais do que suficientes para atrair novos “amantes” da sua escrita. Vale realmente a pena!
Não resisto a deixar ainda três notas finais:
- para quem já leu O ano sabático, Biografia involuntária dos amantes reserva uma “pequenina” surpresa!
- por muito que odeie e não suporte dias chuvosos (sobretudo aqueles cuja chuva é miudinha, constante e acompanhada de nevoeiro e MUITA humidade), não consegui deixar de sentir que esses dias são algo mais que nos une à Galiza, que a fronteira política que separa “o meu” Norte dessa comunidade autónoma espanhola não passa disso mesmo, de uma fronteira política…
- a “Dica” desta semana revelou-me que João Tordo está prestes a lançar uma nova obra e que promete – O luto de Elias Gro J
         
        NOTA – 10/10

Sinopse

Numa estrada adormecida da Galiza, dois homens atropelam um javali. A visão do animal morto na estrada levará um deles — Saldaña Paris, um jovem poeta mexicano de olhos azuis inquietos — a puxar o primeiro fio do novelo da sua vida. Instigado pelas confissões desconjuntadas do poeta, o seu companheiro de viagem — um professor universitário divorciado — irá tentar descobrir o que está por trás da persistente melancolia de Saldaña Paris.

O ano sabático, de João Tordo

Domingo, 13 de outubro de 2013



Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.

Depois de treze anos de vida desregrada no Québec, Hugo, um contrabaixista de jazz, decide tirar um «ano sabático» e regressar a Lisboa, onde espera reencontrar o equilíbrio junto da família. Porém, logo numa das primeiras noites, assiste ao concerto de Luís Stockman - um pianista que se tornou recentemente famoso -, e a almejada paz transforma-se no pior dos pesadelos: Stockman toca um tema inédito que Hugo conhece bem demais, pois é o mesmo que vem escrevendo há anos na sua cabeça…
Quando o começam a confundir na rua com o pianista - e a própria mãe lança a dúvida sobre a sua identidade -, Hugo encetará uma busca obsessiva da verdade e do seu duplo, entrando num labirinto de memórias e contradições que o conduzirá a um destino muito mais funesto do que imaginara ao deixar Montreal. É nessa mesma cidade que Stockman desaparecerá, curiosamente, mais tarde, segundo nos conta o seu melhor amigo - o narrador deste romance - a quem cabe agora desmontar os acontecimentos, destrinçar fantasia e realidade e enfrentar as assustadoras e macabras coincidências que unem, como num espelho, a vida dos dois músicos.

Opinião
Acabadinho de ler, este livro de Tordo (o terceiro que leio) centra a sua ação (tal como nos informa a sinopse correspondente) na vida de um músico chamado Hugo. Presentemente, este músico, que regressa a Lisboa deixando uma vida de emigrante no Canadá, caracterizada (pelo menos nos últimos anos) pela desilusão, tristeza e bebida, não tem nada a seu favor, nem mesmo o que fora até aí o seu ganha-pão e razão para levantar-se da cama todos os dias – a música e o seu contrabaixo (que trata como se fosse um filho e ao qual trata carinhosamente de “Nutella”).
Contudo, como se tudo isto não bastasse, a sua vida piora quando, já em Lisboa, ouve um concerto de um pianista em ascensão e percebe que este toca uma música que ele, Hugo, estava a compor e que ninguém havia ouvido… A partir daí, Hugo inicia uma demanda “enlouquecida” para tentar descobrir tudo o que possa sobre esse músico que não só parece ter-lhe roubado a criação musical como também a identidade, já que é extremamente parecido consigo fisicamente, como se fosse o seu outro gémeo, para além da sua irmã.
Infelizmente não posso dizer que tenha gostado muito desta obra… Apesar de não ter ficado indiferente às linhas que ligam o protagonista Hugo ao autor João Tordo – ambos passaram pela experiência traumática de ter perdido o terceiro gémeo no momento do parto e os dois tocam contrabaixo – não me senti agarrada por esta narrativa como me senti, por exemplo, com a leitura de O Homem Duplicado, de Saramago. Em O Ano Sabático, há uma loucura desesperada que determina a busca de Hugo no que parece ser a tentativa de confirmar se o músico que ouviu em Lisboa poderá ser o seu terceiro gémeo, aquele que morreu no momento do parto. Há também uma deterioração física e psicológica em Hugo que nos toca, mas que nos deprime e que nos faz adivinhar o seu fim trágico. Nada na sua vida faz sentido, a relação que tem com a mãe, com o cunhado e inclusive com a irmã nada contribui para a sua tranquilidade e o contrabaixo deixa de ter utilidade, deixa de ser um prolongamento de Hugo como tinha sido até então…
Tenho, no entanto, que fazer uma ressalva à personagem que, pela sua inocência, comentários e traquinices próprios da sua idade, permitiu que, entre tantas linhas e páginas entranhadas de sentimentos depressivos e de desespero, eu sorrisse e me sentisse completamente rendida. Falo do pequeno Mateus, sobrinho de Hugo e que, apesar de surgir pontualmente, tem o encanto que só uma criança consegue ter ao chamar, por exemplo, “barco baixo” ao contrabaixo do tio e ao sujar-se todo com a comida, ao meter os dedos na boca e ao estar constantemente a perguntar algo, nem que seja a mesma coisa por mais de uma vez, como se a(s) resposta(s) anterior(es) não o satisfizessem J

Concluindo, muito provavelmente não relerei esta obra, mas não perdi a vontade de continuar a ler Tordo! Ai, isso é que não!

Anatomia dos mártires, de João Tordo

Domingo, 04 de novembro de 2012



Sinopse
Anatomia dos Mártires é a história de uma obsessão verdadeira transformada em ficção - a de uma investigação contemporânea (e original) sobre o mito de Catarina Eufémia - e também a tentativa de reconciliação de um escritor nascido imediatamente após a Revolução de Abril com o passado. Um jornalista insensato e ambicioso quer provar ao seu editor - um comunista irascível, alcoólico e com bastante desprezo pelos jovens - que não é só mais um na redacção. Escolhido para ir a Berlim entrevistar o biógrafo de um mártir religioso, aproveita a deixa para fazer, no seu artigo, uma analogia com a história de Catarina Eufémia, a camponesa que se tornou um ícone do Partido Comunista, mas de quem, na verdade, pouco ou nada sabe. Quando, porém, o artigo é publicado, as reacções de indignação por parte dos leitores não se fazem esperar, algumas das quais bastante ameaçadoras; e, na noite em que o editor é encontrado na rua em coma, aparentemente brutalizado, o jornalista pergunta-se se não terá sido por defender publicamente o seu artigo e começa a suspeitar de que existe muito mais em jogo do que a simples memória de uma camponesa assassinada pela GNR durante a ditadura. É então que decide investigar obsessivamente a vida de Catarina, desbravando por entre o nevoeiro que paira sobre os mártires e os transforma em mitos de que sempre alguém se apodera. E encontra realidades bem distintas - e mais tenebrosas - do que podia esperar.

Opinião
A leitura do segundo romance de João Tordo que "mora" na minha biblioteca caseira não foi tão arrebatadora como foi a de As 3 vidas. Tudo o que me conquistou neste autor mantém-se em Anatomia dos Mártires – a sua rica escrita, a boa construção das personagens, sobretudo a do protagonista (a quem curiosamente o autor não dá nome) e um final que não gora as expetativas. Contudo, o ritmo da narrativa não é o mais desejado e há momentos que se caracterizam pela estagnação e pela repetição…
Abordando os aspetos que considerei mais positivos tenho que referir o protagonista, o cuidado que o autor demonstra ter posto na sua construção, um homem desalentado, que está nos antípodas de um jovem crente em ideologias (como acreditamos terem sido os jovens do antes 25 de abril) e que põe na obcecada procura de respostas sobre Catarina Eufémia um sentido para a sua vida estagnada e sem rumo. Essa obsessão sobre esta camponesa alentejana assassinada foi também importante para mim, pois espicaçou a minha curiosidade em saber mais sobre alguém de quem já tinha ouvido falar, mas muito vagamente.

Mesmo com estes aspetos positivos, não posso considerar este romance tão interessante e tão recomendável como As 3 vidas… 

As 3 vidas, de João Tordo

Sábado, 27 de novembro de 2011




Estreei-me no mundo literário de João Tordo com este romance que ganhou o Prémio Literário José Saramago. E que prémio bem entregue!
As 3 vidas é um romance repleto de mistério que nos impele a ler mais e mais e a ficar cada vez mais surpreendido com a imaginação do autor e com o seu estilo de belo “contador de histórias”.
João Tordo é mais um exemplo da nova geração de escritores que se deve seguir com toda a atenção!

Aqui fica a sinopse do primeiro de muitos romances que espero saborear de João Tordo:
Quem é António Augusto Millhouse Pascal? Que segredos rodeiam a vida deste homem de idade, que se esconde do mundo num casarão de província, acompanhado de três netos insolentes, um jardineiro soturno e uma lista de clientes tão abastados e vividos, como perigosos e loucos? São estes os mistérios que o narrador, um rapaz de uma família modesta, vai procurar desvendar não podendo adivinhar que o emprego que lhe é oferecido por Millhouse Pascal se irá transformar numa obsessão que acabará por consumir a sua própria vida.

Passando pelo Alentejo, por Lisboa e por Nova Iorque em plenos anos oitenta - época de todas as ganâncias - e, desvendando o passado turbulento do seu patrão - na Guerra Civil Espanhola e na Segunda Guerra Mundial -, As Três Vidas é uma viagem de autodescoberta através do «outro». Cruzando a história sangrenta do século XX com a história destas personagens, este romance é também sobre a paixão do narrador por Camila, a neta mais velha de Millhouse Pascal, e sobre a procura pelo destino secreto que a aguarda; que estará, tal como o do seu avô, inexoravelmente ligado ao destino de um mundo que ameaça, a qualquer momento, resvalar da estreita corda bamba sobre a qual ela se sustém.