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Uma questão de classe, de Joanne Harris


Ficha técnica
TítuloUma questão de classe
Autora – Joanne Harris
Editora – ASA
Páginas – 494
Data de leitura – de 30 de setembro a 09 de outubro de 2017

Opinião
Continuo a saga de deitar abaixo a pilha de livros que habitam as prateleiras dos não-lidos. Já estamos em outubro e ando ainda a ler aqueles que recebi em janeiro, aquando do meu aniversário! É claro que as leituras que trago da biblioteca da terrinha contribuem e muito para este mais do que significativo atraso, mas confesso-vos aqui, com um sorrisinho matreiro e uma piscadela de olho, que não me incomodo com o contínuo engordar da referida prateleira!... Aliás, poucas coisas me dão tanto prazer como olhar para ela, contar os livros que ainda tenho para ler e saborear com aquela antecipação gostosa a certeza de que eles estão ali, à minha espera J
Uma questão de classe, da minha querida “velha amiga”, Joanne Harris, foi a primeira obra que li daquelas que aterraram cá em casa em 2017. Todos os que me vão acompanhando aqui no blogue sabem que tenho um carinho especial por esta autora e a que muitas das suas obras atribuí a nota máxima. São exemplos disso Cinco quartos de laranja e Praia roubada. E, para grande alegria minha, a Uma questão de classe também não tive outro remédio que dar-lhe 10/10, porque, resumidamente, me agarrou e me surpreendeu do princípio ao fim!
Guiados por um professor e um antigo aluno, franqueamos os portões do Colégio de St. Oswald, um colégio exclusivamente masculino e algo avesso a ser contagiado pela modernidade. Num edifício histórico, proliferam os quadros a giz, os quadros de honra que remontam a muitos anos atrás, o cheiro a bafio, as poltronas deformadas, que encaixam que nem uma luva nas formas corporais de quem as usa para descansar após um dia esgotante de trabalho e professores, disciplinas e metodologias de ensino que assentam na tradição, na experiência e num formalismo que deixaria os alunos de hoje em dia estarrecidos.
Roy Straitley é professor de Latim há 34 anos em St. Oswald. Conhece as suas paredes, os seus recantos melhor do que os de sua casa, já que, para além de professor, foi ele próprio aluno do colégio. Está prestes a atingir a idade da reforma, mas essa perspetiva assusta-o, pois não concebe a sua vida fora de St. Oswald, sem transmitir os seus ensinamentos a miúdos que lhe alegram ou agitam os dias, que fazem com que a sua vida continue a fazer sentido. Prepara com afinco mais um ano letivo, apesar de saber que este será um ano de muitas mudanças, a começar pelo facto de o colégio vir a ser gerido por um novo diretor, que não é, nada mais, nada menos, do que Johnny Harrington, um ex-aluno seu, por quem sempre sentiu uma clara antipatia.
Estão assim lançados os dados para uma narrativa viva, pulsante, que nos cativa desde as suas páginas iniciais e que nos vai prendendo como dizem os amantes do xadrez que nos prende um jogo estrategicamente muito bem jogado. Vamos viajando de 1981 a 2005, através da perspetiva de Straitley e de um antigo aluno, conhecendo-os pouco a pouco, tentando saber com um crescente desespero o que esteve por detrás da condenação e consequente prisão de um antigo professor, tentando entender a animosidade que estala entre Straitley e Harrington e ficando assombrados com a mestria e a genialidade de Joanne Harris, que consegue, como muito poucos autores conseguem, agitar a trama com reviravoltas que nos fazem questionar tudo aquilo que tínhamos como garantido desde o início da leitura.
Como é percetível, adorei regressar ao mundo de Joanne Harris. Adorei voltar a ser surpreendida, adorei ler mais uma obra fantasticamente bem urdida, que puxou por mim desde a primeira página e sobretudo adorei Roy Straitley, com quem tenho o privilégio de partilhar a profissão. É uma personagem deliciosa, que nos arranca muitos sorrisos, por quem ganhamos um carinho que não para de crescer e a quem perdoamos todas as imperfeições. Ficará comigo por muito tempo, sem dúvida alguma.
Resta-me dizer-vos que esta obra é a “sequela” de outra que já li há mais de dez anos e da qual pouco ou nada me recordo. Falo-vos de Xeque ao rei. Fui ainda agora retirá-la da estante e prometi a mim mesma que a relerei muito em breve, porque quero regressar a St. Oswald, quero voltar a conviver com Roy Straitley e quero regressar ao mundo de Joanne Harris, que tanto me enche as medidas!
Termino rogando-vos que leiam Uma questão de classe! Não se arrependerão, prometo! A mestria de Joanne Harris não permite que haja arrependimentos!

NOTA – 10/10

Sinopse
O colégio de St. Oswald é antigo e cheio de tradição.
Mas nos seus imponentes salões e longos corredores, sopram agora ventos de mudança. A vaga de modernidade parece imparável e inclui a admissão de raparigas, novas tecnologias, uma possível "fusão" com um colégio feminino, e até um novo diretor. É por esse motivo que Roy Straitley, o excêntrico professor de Latim, decide adiar a sua reforma. Há mais de trinta anos que Straitley dá aulas em St. Oswald, onde ele próprio estudou.
Para ele, a escola é o seu lar e a sua vida. Enquanto faz os possíveis para manter a tradição, o professor descobre que o novo diretor é nada menos que um ex-aluno seu, um rapaz cuja memória nunca deixou de o atormentar. E que representa agora uma ameaça que apenas Straitley consegue antever. Pois o novo diretor é admirado por todos. Mas por entre o pó de giz que cintila sob o sol de outono e o ranger das tábuas do soalho ancestral, há sombras que se agitam… e alguém que aguarda o momento certo para ajustar contas com o passado. 

Uma história única de obsessão, vingança, devoção e amor.

Um gato, um chapéu e um pedaço de cordel, de Joanne Harris


Ficha técnica
Título – Um gato, um chapéu e um pedaço de cordel
Autora – Joanne Harris
Editora – ASA Editores
Páginas – 336
Datas de leitura – de 27 a 31 de dezembro de 2016


Opinião
Sou fã assumida de Joanne Harris, mas até hoje não tinha saboreado o seu lado de contista. Lembro-me de há uns anos atrás ter agarrado entusiasmadíssima a sua mais recente obra – Danças e Contradanças havia sido lançada há dias – e tê-la pousado de imediato quando me dei conta de que era uma compilação de contos. Contudo, hoje em dia, após ter lido e me ter deliciado com obras deste género injustamente considerado menos interessante, não tenho qualquer pejo em admitir essa minha falha (que durante tanto tempo prejudicou os meus hábitos de leitura) e em apostar na compra de obras como esta que acabei de ler estava 2016 a dar os últimos suspiros.
Quem, como eu, é uma acérrima seguidora de Joanne Harris, sabe que as suas histórias estão povoadas de personagens pouco ortodoxas, enigmáticas, que vão abrindo frechas a um passado e muitas vezes a um presente tortuoso, mas que nos conquistam e nos absorvem de forma inequívoca. Recordo-me de Vianne, a protagonista da trilogia de Chocolate, de Framboise, de Cinco Quartos de Laranja, ou de Madeleine, de A Praia Roubada. São personagens pouco sociáveis, páridas, desconfiadas, habituadas a ser pouco amadas e olhadas com indiferença, medo ou despeito pelos outros. São personagens que facilmente consideraríamos como anti-heróis ou anti-heroínas. Mas são personagens que prefiro mil vezes a personagens boazinhas, gentis e amadas por todos e todas.
Em Um gato, um chapéu e um pedaço de cordel encontrei mais um punhado dessas personagens. Em cenários mais diversificados, que saltam do continente africano, passam pelo europeu e ainda viajam até ao americano. E em tempos que correm como os rápidos do conto inicial ou que se espreguiçam como um gato gordo a apanhar banhos de sol. Mas com o cunho pessoal de Joanne Harris, sem réstias de dúvidas.
Não encontrei o mesmo sabor em todos os contos, como é óbvio. Engoli, sem lhes encontrar o correspondente travo, os contos “O Jogo” ou “Dríade”; enterneci-me com “Bedford Falls não existe”, “Faça você mesmo” ou “Os espíritos de Natal presentes”; contorci-me de compaixão perante dores maternais em “Gostaria de voltar a estabelecer contacto?” e “Cookie”; apoiei e regozijei-me com a vivacidade e motivação de sentirem-se vivas de Faith e Hope, duas anciãs despejadas num lar de terceira idade e saboreei, como se de um chocolatinho se tratasse, a história de amor de “Fantasmas na Máquina”. Contudo, nenhum dos dezasseis contos me arrebatou. Não como o fizeram as obras que mencionei no início desta opinião e que já me levaram a reler duas delas.
Por tudo isto, por tudo o que referi, não posso dizer que me tenha arrependido de ter, em julho, adquirido esta obra. Também não posso dizer que tenha sido uma das melhores aquisições de 2016. Senti-me de novo embrenhada no mundo muito peculiar de Joanne Harris. Criei empatia com a maioria das personagens que habita esta compilação de contos. Mas queria mais. Não narrativas mais longas, mas sim narrativas, contos que me deixassem torcida, com vontade de morder-me de entusiasmo, com o meu íntimo quentinho e fervilhante de emoções contraditórias. Como fiquei com a história de Framboise, por exemplo. Pode ser que encontre tudo isso na última obra que a autora editou por cá e que ainda não habita a prateleira da estante onde já habitam onze dos seus livros. Pode ser que o ano que já está aí me reserve essa surpresa. Ou pelo menos que se inaugure com uma leitura mais preenchida do que esta…

NOTA – 07/10

Sinopse
"As histórias são como bonecas russas: abrem-se e em cada uma encontra-se uma nova.
As histórias neste livro são um pouco assim. Embora ao princípio não pareçam estar relacionadas, os leitores descobrirão que elas estão ligadas de várias maneiras, umas com as outras e também com os meus romances.
Para mim, as histórias são como mapas de mundos ainda por descobrir. Espero que estas vos levem a avançar um pouco mais por esse território inexplorado."
Joanne Harris

Crianças de vida difícil e coração vibrante, fantasmas domésticos, velhas senhoras em busca de aventura, uma paixão impossível sob os céus de Nova Iorque, a improvável magia de uma sanduíche, as extravagâncias a que a saudade obriga…
O universo romântico, místico e sempre especial de Joanne Harris está de volta em dezasseis histórias que são como bombons: deliciosas, tentadoras e irresistíveis. 

A praia roubada, de Joanne Harris

Domingo, 19 de abril de 2015



RELEITURA

Opinião
Voltei ao mundo de Joanne Harris. Tive que fazê-lo. Não resisti e li mais um dos seus romances. E, mais uma vez, rendi-me de muito boa vontade ao talento desta escritora. Sim, A praia roubada voltou a conquistar-me, tal como o havia feito em 2002, quando o meu maridinho (ainda meu namorado) mo ofereceu como prendinha de Natal.
Tenho consciência de que a adoração que sinto pelas obras de Joanne Harris não é partilhada nem por livrólicos como eu, nem por aqueles que vão lendo com menos voracidade. Quando comento que estou a reler alguma das suas obras, as reações que obtenho são contraditórias. Há aqueles que se identificam de imediato com o meu entusiasmo e a minha “febre” e há aqueles que só com o olhar, com um trejeito, mostram que não entendem como posso “desperdiçar” o meu tempo a ler (e quanto mais a reler) Cinco quartos de laranja ou A praia roubada.
A minha estante é dona de 10 obras desta autora e estaria a mentir se dissesse que mal posso esperar para reler todas elas. Não morro de amores por obras como O rapaz de olhos azuis (o seu romance menos conseguido, na minha opinião), Valete de copas e dama de espadas ou Sapatos de Rebuçado (que fica muito aquém do seu antecessor – Chocolate). Mas o que nestes peca, sobressai em doses generosas de entusiasmo, originalidade e tramas emocionantes nas duas obras que reli este ano e que me provocam aquele frenesim de não querer parar as releituras, apesar de a minha estante me tentar com mais de duas mãos cheias de leituras novas!
Tal como em Chocolate e Cinco quartos de laranja, A praia roubada traz-nos uma protagonista feminina, jovem, dotada de talento (neste caso para a pintura) e que regressa às suas origens depois da morte da mãe. Mado, ou Madeleine Prasteau, viveu durante dez anos em Paris na companhia da sua progenitora, mas, mal esta falece, sente um irresistível chamamento que a faz regressar à sua ilha natal, Le Devin, onde deixou muitas recordações e o seu pai.
Desde que o ferry que a transporta atraca no porto de La Houssinière, Mado compreende que algumas mudanças se operaram naquele lado da ilha, que as condições de vida melhoraram, que as infraestruturas turísticas trouxeram desenvolvimentos consideráveis mas que infelizmente essas mudanças não se espalharam a Les Salants, ao “seu lado” da ilha, à aldeia natal da sua família. É assim recebida como já antevia, ou seja, por uma comunidade que vê com desconfiança o seu regresso, que se fecha a qualquer vestígio de renovação, que se resigna aos desígnios da natureza e que supersticiosamente aponta a culpa de qualquer desaire aos habitantes mais prósperos do outro lado da ilha.
Por muito que se sinta salanaise, Mado resiste a ser mais um e vai tentando navegar contra a maré, plantando teimosamente a semente da mudança, nem que seja aquela que poderia trazer a união e um sentimento de comunidade a uma aldeia de costas voltadas entre si e para o mundo. Ao mesmo tempo, luta outra batalha, aquela que lhe é mais próxima – reaproximar-se do pai, de um GrosJean mais silencioso, mais sorumbático, mais arredio, mais derrotado que nunca. Contará como aliado nestas duas batalhas com o misterioso Flynn, que, por incrível que lhe possa parecer, em pouco tempo conseguiu o que ninguém havia conseguido antes – ser “adotado” pelos habitantes de Les Salants e ser brindado com aquilo que é reservado apenas a quem é salanais de nascimento – uma alcunha – Ruivo.
Tudo isto que referi até agora é somente o ponto de partida de uma narrativa que prima por possuir aquilo que nos prende de tal forma que nos faz querer ir rapidamente de página em página para descobrir segredos do passado e do presente, o desenlace de projetos arriscados; conhecer cada vez melhor Mado, partilhar do seu sofrimento, das suas tentativas desajeitadas de reunir-se ao pai, sentir empatia por ela e desdém pela sua irmã, torcer para que deixe de carregar o mundo inteiro nos seus ombros e para que a sua sobrevivência, a sua vida não dependa de um estado de crise permanente. Eu fui, como já havia sido aquando da primeira leitura, “vítima” do poder desta narrativa empolgante e arrebatadora, pois não consegui largar o livro este fim de semana e “devorei” mais de 200 páginas entre umas horas de ontem e umas de hoje!
As obras que já reli de Joanne Harris têm assim este magnetismo, esta capacidade, esta mestria de me satisfazerem por completo e de me “obrigarem” a não parar de as ler. São fascinantes, de certa forma originais, com temas e cenários nada banais e com personagens fortes, marcantes, que ao carregarem uma bagagem sofrida, não nos deixam indiferentes, pelo contrário, levam-nos a querer ampará-las, a estender-lhes a mão e a fazer a caminhada necessária ao seu lado.
Aconselho vivamente a quem ainda não se deixou atrair pelo mundo literário de Joanne Harris a não esperar mais e àqueles que tiveram uma menos boa experiência com algum dos seus livros a dar-lhe mais uma oportunidade. Seguramente que não se arrependerão J

NOTA – 10/10

Sinopse

Encerradas numa pequena ilha na costa do Atlântico, duas comunidades vivem de costas voltadas entre si. Enquanto La Houssinière se transformou numa cidade próspera devido ao turismo que a única praia de toda a ilha lhe proporciona, Les Salants permaneceu esquecida no tempo, habitada apenas por pescadores e marinheiros que, tal como a vida que levam, são rudes e amargos. Mado nasceu em Les Salants, mas cedo partiu com a mãe para Paris. Após a morte desta, a jovem decide voltar à ilha da sua infância e reencontrar o pai. Mas o regresso ao passado não é fácil. A ilha, constantemente varrida por um vento inclemente, encerra em si todo um universo de mistérios e contradições, inacessíveis a uma "desconhecida". Mas, estranhamente, tal parece não ter acontecido com Flynn, um jovem irlandês que, embora recém-chegado, é alvo da afeição e da confiança de todos, até do pai de Mado, um homem cujo coração está fechado para o mundo e que se mantém teimosamente recolhido num silêncio sepulcral. Face a uma comunidade fechada, supersticiosa e apostada em manter acesos ódios ancestrais, Mado decide desafiar a sorte e as marés e consegue vencer o orgulho e as crenças dos habitantes de Les Salants. Juntos, vão tentar mudar o futuro da povoação e o seu próprio destino. Para Mado, esta vai ser uma incursão no amor e o (re)encontro com os valores familiares e comunitários. Poderá um castelo de areia sobreviver às marés? Inspirado na ilha onde Joanne Harris passou alguns momentos da sua infância, A Praia Roubada transporta-nos de imediato para a nossa própria infância e, especialmente, para os inesquecíveis dias ociosamente passados à beira-mar. 

Cinco quartos de laranja, de Joanne Harris

Quarta-feira, 07 de janeiro de 2015




RELEITURA

Sinopse
Framboise regressa à pequena cidade onde nasceu, na província francesa, e abre aí um restaurante que rapidamente se torna famoso, graças às receitas de um velho caderno que pertencera à sua mãe. Essa espécie de diário contém igualmente uns estranhos apontamentos cuja decifração lançará uma nova luz sobre os dramáticos acontecimentos que marcaram a infância da protagonista nos dias já longínquos da ocupação nazi. Framboise recorda os sabores e os sentimentos da sua infância, numa França marcada pela dor e pela penúria da guerra, e muito especialmente um episódio que marcou a vida da família e constitui, para ela, a perda definitiva da inocência. Agora, já no Outono da vida, chegou a hora de enfrentar a difícil verdade.

Opinião
Primeira leitura do novo ano. Ou melhor, primeira releitura do novo ano. E de uma autora que me é muito querida – Joanne Harris.
Cinco quartos de laranja é talvez a minha obra preferida desta autora. Não consigo explicar muito bem porquê, já que possui os mesmos ingredientes de tantas outras, como o famosíssimo Chocolate e correspondentes volumes da trilogia homónima ou mesmo A Praia Roubada – uma protagonista que foge de um passado conturbado, que se “refugia” na cozinha, na magia, conforto e prazer que retira da confeção de receitas passadas de geração em geração e que demonstra em tudo o que faz que está disposta a lutar contra o mundo, se tal for necessário. Framboise Dartigen é realmente o reflexo de tudo isto e, na minha opinião, de muito mais. É uma personagem complexa, sofredora, dorida, enraivecida, torturada por um passado carregado de lembranças pungentes e que condicionaram a sua vida até ao momento presente. E é uma personagem a quem, de imediato, estendi a mão. Para, mesmo perante a sua esquivez e olhar desconfiado, mostrar compreensão, solidariedade. Empatia.
Cinco quartos de laranja está dividido em cinco partes e os seus capítulos fazem-nos viajar do passado para o presente e vice-versa. Apresentam-nos, através de Framboise (protagonista e narradora), a família Dartigen, composta pela mãe Mirabelle e pelos seus três filhos – Cassis, o mais velho, Reine-Claude e Framboise, a mais nova. Nos dias da ocupação nazi, vivem numa quinta situada junto às margens do rio Loire e perto da aldeia de Les Laveuses. O pai Yannick havia sido morto pelos alemães na frente da guerra e a sua morte ditou uma transformação na vida da sua família, pois fez desaparecer o elemento pacificador, aquele que ainda ia conseguindo aplacar os ataques de fúria e desespero de Mirabelle.
Desde o início da obra somos confrontados com uma imagem que não deixa dúvidas – o ambiente vivido na quinta Dartigen é tenso, carregado de fúrias acumuladas, de medos, de silêncios cortados por ordens, ameaças e de sentimentos de desprezo, ódio, insegurança, … Contudo, tudo isto é contrabalançado pelos aromas e sabores deliciosos da comida que, com tanto amor, a seca, distante, fria e rígida Mirabelle confeciona para os seus e para vender no mercado das aldeias próximas. A sua cozinha está assim povoada de duas realidades opostas – por um lado, o aconchego que emana do fogão sempre aceso e da comida aí feita e, por outro, uma mesa onde se sentam uma adulta e três crianças que se agridem com palavras, com olhares, com gestos, que só sabem lidar dessa forma entre eles…
Perante o ambiente sufocante que vivem dentro das quatros paredes, as crianças procuram refúgio fora delas. E é o rio Loire que lhes providencia esse refúgio. É nas suas margens que Cassis, Reine e sobretudo Framboise passam o seu tempo livre, mergulhando, saltando dos ramos mais altos, pescando e criando jogos em que se desafiam e desafiam constantemente a força e os elementos mais traiçoeiros do rio. Será igualmente junto do Loire que a nossa protagonista viverá os melhores e os piores momentos da sua infância, aqueles que moldarão o seu carácter e marcarão definitivamente a perda da sua inocência… Aqueles que talvez tenham feito com que Framboise nunca mais se tenha dirigido ao rio desde que regressou, já com mais de sessenta anos, à sua aldeia natal, à sua casa, à sua quinta…
         Voltando ao que referi no início desta opinião, o que determinou a minha vontade de reler Cinco quartos de laranja foi a certeza de que uma sua segunda leitura não me defraudaria. E realmente não me defraudou. Tornei a estender a mão a Framboise; a estar a seu lado; a saborear a liberdade proporcionada pelo rio Loire; a maquinar com ela todos os estratagemas para que essa liberdade não lhe fosse tirada; a dar-lhe força e determinação para confrontar os irmãos e principalmente a mãe; a comungar com a sua desesperada busca por migalhas de amor, de atenção, de confiança, de afeto; a ampará-la nas descobertas que o presente e a herança da mãe lhe ofereceram para encerrar, de uma vez por todas, as portas do passado e, mais do que tudo, estendi-lhe a mão e sorri de contentamento por compreender que Framboise deixou de resistir (“Resistir é como nadar contra a corrente, é cansativo e inútil”) e deixou-se abrir os braços à esperança, aos dias vindouros, ao que aquele que penso que simboliza o quinto quarto de laranja lhe poderá trazer de sabor e deleite à sua vida J

         Por tudo isto, só posso concluir dizendo que vale a pena embrenharem-se na leitura deste saboroso livro, que, tal como as laranjas, nos mostra que a vida pode ter momentos ácidos, mas que estes sempre se misturarão e serão suplantados pela doçura do que nos faz feliz!

NOTA - 9/10

O aroma das especiarias, de Joanne Harris

Quarta-feira, 09 de janeiro de 2013




Sinopse
"Alguém me disse uma vez que, só em França. duzentas e cinquenta mil cartas são enviadas todos os anos aos mortos. O que ela não me disse foi que, por vezes, os mortos respondem..."
Quando Vianne Rocher recebe uma dessas cartas, ela sente que a mão do destino está a empurrá-la de volta a Lansquenet-sur-Tannes, a aldeia de Chocolate, onde decidira nunca mais voltar. Passaram já oito anos, mas as memórias da sua mágica chocolataria La Céleste Praline são ainda intensas. A viver tranquilamente em Paris com o seu grande amor, Roux, e as duas filhas, Vianne quebra a promessa que fizera a si própria e decide visitar a aldeia no sul de França.
À primeira vista, tudo parece igual. As ruas de calçada, as pequenas lojas e casinhas pitorescas... Mas Vianne pressente que algo se agita por detrás daquela aparente serenidade. O ar está impregnado dos aromas exóticos das especiarias e do chá de menta. Mulheres vestidas de negro passam fugazes nas vielas. Os ventos do Ramadão trouxeram consigo uma comunidade muçulmana e, com ela, a tão temida mudança. Mas é com a chegada de uma misteriosa mulher, velada e acompanhada pela filha que as tensões no seio da comunidade aumentam. E Vianne percebe que a sua estadia não vai ser tão curta quanto pensava. A sua magia é mais necessária do que nunca!"

Opinião
Já aqui confessei que sou uma admiradora da obra de Joanne Harris, que Chocolate, Cinco quartos de laranja ou A praia roubada foram romances que me conquistaram plenamente. Contudo, também é verdade que houve outros que me dececionaram. Um deles foi o segundo da série Chocolate - Sapatos de Rebuçado - talvez porque Vianne Rocher não é a mesma personagem alegre, confiante, destemida, aventureira que me encantou em Chocolate.
Sendo assim, foi com um pouco de reserva que retirei O Aroma das Especiarias da estante, o abri e iniciei a sua leitura... Contudo, à medida que a leitura prosseguia, tive que deitar essa reserva para trás das costas, porque voltei a deleitar-me com os ingredientes que tanto me agradaram em Chocolate - a aldeia de Lansquenet-sur-Tannes, o tonto do cura Reynaud e, sobretudo, a "boa e velha" Vianne Rocher de volta!
Tal como nos informa a sinopse, Vianne regressa Lansquenet-sur-Tannes oito anos depois. Tudo parece estar exatamente igual, mas há aromas distintos no ar e uma tensão palpável entre quem vive nas duas margens do rio. Como não podia deixar de ser, a curiosa Vianne intromete-se e será através dela, das suas tentativas de se aproximar, uma vez mais, do cura Reynaud e da nova população islâmica instalada em Les Marauds que entraremos nas suas vidas, nas razões que os levam a estar de costas voltadas e compreenderemos que, mesmo numa pequenina e pacata aldeia do sul de França, as diferenças entre credos e culturas, a violência que se comete contra as mulheres são um espelho do que se passa em França e não só.
Resumindo, Joanne Harris voltou a fascinar-me, a conquistar-me com o poder dos sentidos, os aromas, os ventos e, ao mesmo tempo, abriu-me as portas de uma dura e atual realidade. Valeu a pena abandonar as reservas que sentia desde a leitura de Sapatos de Rebuçado e deleitar-me com o volume que encerra(?) a série Chocolate!

Gostei muito e recomendo!

O rapaz de olhos azuis, de Joanne Harris

Sábado, 29 de outubro de 2011





É sempre com muita expetativa que começo a ler uma obra de Joanne Harris! Desde que li Chocolate, Cinco Quartos de Laranja ou A Praia Roubada, estou sempre à espera de ser arrebatada por histórias e personagens nada banais, com enredos surpreendentes e que nos prendem irremediavelmente até ao final, deixando-nos com um sorriso de satisfação nos lábios e a sensação de que lemos um BOM livro!

Contudo, para grande tristeza minha, O Rapaz de Olhos Azuis não teve em mim o mesmo efeito que os “seus romances irmãos”… Conta-nos a história de Benjamin, filho de uma viúva e irmão de Nigel e Brendan. Os três foram associados pela mãe a três cores – Benjamin ao azul, Nigel ao preto e Brendan ao castanho. Para além destas personagens, vamos travando conhecimento com outras, não só através do webjournal de Benjamin, como também através das suas recordações, e deparamo-nos com o que é típico dos romances de Joanne Harris – personagens diferentes, muitas vezes inadaptadas e, neste caso, vivendo relações baseadas em sentimentos de ódio, rejeição e medo.

Mas… mesmo tendo consciência desses pormenores típicos da autora e que me fazem uma sua admiradora, não consegui sentir-me “agarrada” pela narrativa nem pelas personagens… não me deu aquela satisfação ler página após página e confesso que me senti algo aliviada quando terminei a obra… que sensação agridoce…