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Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa

Terça-feira, 03 de setembro de 2013





Sinopse
Uma mulher cai do céu durante uma tempestade tropical. As únicas testemunhas do acontecimento são Bartolomeu Falcato, escritor e cineasta, e a sua amante, Kianda, cantora com uma carreira internacional de grande sucesso. Bartolomeu esforça-se por desvendar o mistério enquanto ao seu redor tudo parece ruir. Depressa compreende que ele será a próxima vítima. Um traficante de armas em busca do poder total, um curandeiro ambicioso, um antigo terrorista das Brigadas Vermelhas, um ex-sapador cego, que esconde a ausência de rosto atrás de uma máscara do Rato Mickey, um jovem pintor autista, um anjo negro (ou a sua sombra) e dezenas de outros personagens cruzam-se com Bartolomeu, entre um crepúsculo e o seguinte, nas ruas de uma cidade em convulsão: Luanda, 2020.


Opinião
Este é o segundo livro que leio de Agualusa, depois da estreia com Milagrário Pessoal e que me deixou rendida à escrita deste escritor angolano. Contudo, tenho que confessar que Barroco Tropical não teve o mesmo impacto que o seu antecessor… A trama é interessante, narra as “tragédias” que assombram a vida de Bartolomeu Falcato, escritor angolano que, em 2020, vive numa Luanda em convulsão e ainda muito afetada pelo seu passado de capital de um país colonial.
A par de Bartolomeu, conhecemos um leque de personagens como uma cantora angolana que se tornou o maior ícone da música mundial, um sujeito que cobre o rosto destruído por uma mina com uma máscara de Mickey, gémeos anões estilistas, um anjo negro, ou seja, personagens que são mais uma evidência do estilo imaginativo e fantástico do autor, que os faz povoar uma Luanda decadente e futurista, onde “convivem” prédios em ruína com arranha-céus que parecem não terminar nunca, com um manicómio no qual se testam técnicas para tratar os doentes mentais e com situações que realçam o quanto a sociedade angolana do futuro (ou do presente?) sofre com a já referida pesada herança colonial e com uma democracia que muito ainda tem que caminhar para provar a si mesma e ao outros que consegue sustentar-se e que se consegue afastar de um regime autoritário e corrupto.
É certo que África e obviamente os países que compõem este continente nunca me fascinaram. Não consigo entender o quanto as suas paisagens, os seus povos, as suas tradições, as suas religiões cativam tantas pessoas, sejam elas portuguesas ou não… Não consigo mesmo. E talvez por isso esta obra de Agualusa não me tenha tocado, não me tenha apaixonado por ela como pensei que me apaixonaria… No entanto, continuo a defender que Agualusa é um belo escritor, que o seu estilo é imaginativo, criativo e muito pessoal e que valerá a pena conhecer mais obras suas. Exemplo dessa minha convicção foi o prazer, o sorriso que me aflorou os lábios e aquele aceno de completo entendimento que senti e se produziram em mim quando li esta passagem:

Há quem confunda a alegria com a felicidade. A alegria não se parece com a felicidade, a não ser na medida em que um mar agitado se parece com um mar plácido. A água é a mesma, apenas isso. A alegria resulta de um entorpecimento do espírito, a felicidade de uma iluminação momentânea. O álcool pode levar-nos à alegria - ou um cigarro de liamba, ou um novo amor - porque nos obscurece temporariamente a inteligência. A alegria pode, pois, ser burra. A felicidade é outra coisa. Não ri às gargalhadas. Não se anuncia com fogo de artifício. Não faz estremecer estádios. Raras são as vezes em que nos apercebemos da felicidade no instante em que somos felizes.

Milagrário pessoal, de José Eduardo Agualusa

Quinta-feira, 07 de fevereiro de 2013




Sinopse
Iara, jovem linguista portuguesa, faz uma incrível descoberta: alguém, ou alguma coisa, está a subverter a nossa língua, a nível global, de forma insidiosa, porém avassaladora e irremediável. Maravilhada, perplexa e assustada, a jovem procura a ajuda de um professor, um velho anarquista angolano, com um passado sombrio, e os dois partem em busca de uma coleção de misteriosas palavras, que, a acreditar num documento do século XVII, teriam sido roubadas à "língua dos pássaros". Milagrário Pessoal é um romance de amor e, ao mesmo tempo, uma viagem através da história da língua portuguesa, das suas origens à atualidade, percorrendo os diferentes territórios aos quais a mesma se vem afeiçoando.

Opinião
Estou oficialmente, de corpo e alma, rendida à escrita de Agualusa! Adorei este romance, a forma como o narrador, um velho anarquista angolano, fala com paixão da nossa língua, da evolução que ela sofre todos os dias, dos livros, e nos dá a conhecer momentos da História de Angola, do Brasil e da vida de ilustres como Camilo Castelo Branco ou de personagens anónimas, fictícias, mas emocionantes e que deixaram rendida! AMEI!
Considero que o que mais me fascinou neste pequeno romance foi o facto de centrar a sua narrativa na história e na evolução que a nossa belíssima língua tem vindo a sofrer todos os dias, desde que se formou como tal. Como fervorosa defensora da nossa língua materna e entusiasta de aprender mais sobre ela, não poderia deixar passar ao lado esta obra (como é que a deixei “intacta” tanto tempo na estante?!), porque o seu apelo, as suas palavras, variadíssimas passagens que assinalei são fantásticos e deixam-me ainda mais orgulhosa de ser portuguesa e falante desta extraordinária língua!

Transcrevo aqui algumas dessas passagens que sublinhei:

Assim como criamos as línguas, também as línguas nos criam a nós. Mesmo que não o façamos de forma deliberada, todos tendemos a selecionar palavras que utilizamos com maior frequência, e esse uso forma-nos ou deforma-nos, no corpo e no espírito.”

“(...) não custa atribuir a obstinada melancolia dos portugueses ao uso desregrado da palavra saudade, no fado, na poesia, no discurso dos filósofos e dos políticos. Seria interessante estudar o quanto o culto à saudade contrariou, vem contrariando, o esforço para desenvolver Portugal. Já a famosa arrogância e optimismo dos angolanos poderia dever-se à insistência em termos como bué («Angola kuia bué!»), futuro, esperança ou vitória. No que respeita à alegria dos brasileiros, poderíamos talvez imputá-la a duas ou três palavras fortes que acompanham desde há muito a construção e o crescimento do país: mulato/mulata, bunda, carnaval.”

“Esta noite sonhei com um verso de Sophia. Sonhei que o tinha escrito eu. Fiquei tão feliz que continuei a sorrir mesmo depois de acordar. “O senhor professor parece que viu Deus em toda a sua glória”, disse-me Gina enquanto me servia o café. Ter sido Sophia durante alguns segundos não anda muito longe, parece-me, da glória de ver Deus.”


“Aprendi há muito tempo que uma mulher bonita não se distingue de uma bomba – no meu tempo, aliás, eram sinónimos – a não ser pela natureza do impacto.”