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Numa mesma noite, de Leopoldo Brizuela

Segunda-feira, 23 de dezembro de 2013




Sinopse
Leonardo Bazán, escritor, regressa a casa dos pais numa madrugada de 2010 quando testemunha, por acidente, um assalto à casa vizinha. Não é um assalto vulgar, pois é perpetrado por um grupo de crime organizado de que fazem parte agentes das forças da autoridade. Mas o que mais perturba o escritor é a recordação de um assalto de contornos semelhantes, ocorrido naquela mesma casa trinta e seis anos antes, pouco tempo depois da instauração da ditadura militar que engolia a Argentina numa onda de terror galopante.

As memórias de Leonardo, à altura com 13 anos, recuperam a figura de Diana Kuperman, antiga ocupante da casa assaltada e vítima de tortura psicológica pelo poder vigente. Mais do que apenas recordar, Leonardo questiona qual terá sido o papel do pai nos acontecimentos que levaram à detenção da vizinha. Para poder entender, Leonardo começa a escrever um romance, com o objetivo de resgatar e exorcizar um passado que tudo fizera para esquecer. Talvez assim possa salvar-se da sua própria cobardia.
Pista atrás de pista, o escritor aproxima-se do mistério, ao mesmo tempo que faz uma viagem pessoal pelo medo, pela reação à brutalidade do poder e pela memória do terror e da cobardia. Um texto tão íntimo quanto político, tão confessional quanto misterioso.

Opinião
Prémio Alfaguara Romance 2012, Numa mesma noite é um thriller com muito boas críticas, mas cuja leitura, para mim, se revelou uma tortura e um desgosto… Detesto dedicar-me a ler uma obra que, pelas opiniões de nomes consagrados, é uma obra “a não perder” e, a meio da sua narrativa, ter consciência de que só o orgulho e a teimosia de não deixar a sua leitura a meio me farão levá-la até ao fim!... E infelizmente foi isso que aconteceu com este romance de Leopoldo Brizuela…
Tudo o que li na sinopse me cativou de imediato e por essa razão maior foi a deceção quando, à medida que a leitura se ia desenrolando, fui constatando que a narrativa nada tem do que esperamos de um thriller, que é muito confusa, que não nos dá respostas para o que se poderá ter passado tanto no momento presente (2010) como nos anos 70 e que, para piorar, não nos oferece uma conclusão, um desenlace, o que, na minha opinião, poderia ter como que bálsamo no meio de tanto tédio e frustração… 
Sendo assim, ou este não era para mim o momento adequado para ler esta obra, ou então considero que um prémio tão prestigiado como o da Alfaguara não foi devidamente atribuído, principalmente porque não sou a única a dizer (já li comentários em outros blogues e que vão ao encontro do meu) que Numa mesma noite não consegue cativar o leitor, não consegue que o interesse despoletado pela sinopse se mantenha ao longo da narrativa… Pelo contrário, torna-se algo penoso levar a sua leitura até ao fim L

O único aspeto positivo que retirei desta leitura foi o conhecimento que adquiri da ditadura que assolou a Argentina, como assolou muitos outros países latino-americanos… Mas, de resto, não posso dizer que recomendo a sua leitura…

Os Enamoramentos, de Javier Marías

Terça-feira, 03 de dezembro de 2013





Sinopse
O novo romance de um dos mais importantes e respeitados escritores espanhóis. Com obra publicada em mais de 50 países, e mais de 6 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo e distinguido com o Prémio Literário Europeu 2011.
Os Enamoramentos foi considerado o melhor romance do ano 2011 (eleito por um painel de 57 críticos literários espanhóis). O autor aborda o mistério em torno de uma morte acidental para refletir sobre o estado do "enamoramento", considerado quase universalmente como algo positivo, quase redentor, que tanto justifica as ações nobres e desinteressadas, como as maiores tragédias e catástrofes.
Críticas de imprensa
«O que interessa a Javier Marías é a narração enquanto mecanismo de incerteza, a essencial ambiguidade e obscuridade da narrativa. Vivemos em grande medida daquilo que nos contam, dos “factos” que resultam dessa “informação” e que estruturam o nosso conhecimento do mundo. Mas se esses factos forem uma maquinação? Com efeito, tudo aquilo que “sabemos” faz parte da nossa consciência, mesmo as falsidades e as ficções. […] O ceticismo de Marías, especulativo, inteligente, elegante, supõe uma teoria da ficção que é uma teoria da vida.
Pedro Mexia, Expresso

Opinião
Hoje terminei de ler esta obra e só posso classificá-la de MAGNÍFICA!!! É, no meu ponto de vista, mais uma prova contundente de que a literatura que se faz em terras de “nuestros hermanos” é de muito boa qualidade e recomenda-se!
Até há bem pouco tempo a literatura espanhola contemporânea que “passava pelas minhas mãos” resumia-se basicamente às fenomenais obras de uma das minhas autoras favoritas de todos os tempos – Almudena Grandes. Contudo, através das opiniões que vou trocando com as minhas queridas compinchas apreciadoras do “bichinho da leitura” – sobretudo Lucinda, Nancy, Orlanda, Ana Luísa J – e das visitas que faço aos sítios da Alfaguara espanhola e das Tusquets, fui descobrindo que há outros nomes sonantes que podem e devem fazer companhia à “minha” Almudena na estante cá de casa. É o caso de Javier Marías cuja obra felizmente está a ser traduzida para português!
Deparei-me com Os Enamoramentos numa frutífera ida à Fnac – que começam a ser raras, já que são poucas as vezes que um livro me atrai ao ponto de anotar o seu título no meu caderninho… Contudo, essa ida foi a exceção, porque recordo-me que apontei este de Marías e pelo menos dois mais (Numa mesma noite, de Leopoldo Brizuela e Conversa n’ A Catedral, de Mario Vargas Llosa). Recordo-me ainda que o que me prendeu a atenção foi o resumo que nos é apresentado na contracapa e que tem todos os elementos que sempre me levam a querer comprar mais um exemplar para encher as já repletas prateleiras da minha estante J
A consequente leitura só veio confirmar essa impressão inicial deixada pelo referido resumo. Enamorei-me pela história, pelas personagens femininas, pela escrita de Marías e não posso deixar de mencionar que me apaixonei de imediato pela frase que dá arranque à narrativa - “A última vez que vi Miguel Desvern ou Deverne foi também a última vez que a mulher, Luísa, o viu, que não deixa de ser esquisito e porventura injusto, visto que ela era isso mesmo, sua mulher, e eu, em contrapartida, era uma desconhecida e nunca tinha trocado uma palavra com ele.”
O mote estava assim lançado – a condução da narrativa a cargo da protagonista María Dolz, o entrecruzar diário da sua vida com o casal Deverne, que personifica uma relação de amor perfeita, e a morte inesperada e brutal de Miguel Deverne que despoletará uma cadeia de acontecimentos imprevisíveis nas vidas de várias personagens. E é aqui que tenho então que avisar futuros leitores desta fantástica obra (que espero que venham a ser muitos) que não se deixem cair no engodo que podem produzir tanto a correspondente capa como o título. Os Enamoramentos não nos oferece uma clássica história de amor, mas é, tal como nos diz o próprio autor, um romance com carácter sombrio, pessimista e que nos faz questionar acerca do que são capazes as pessoas de levar a cabo por amor, “un sentimiento casi universalmente considerado deseable y positivo, "mejorador", incluso salvífico y "redentor"…
A felicidade que envolve o casal Deverne e que é “espiada” todas as manhãs por María é barbaramente interrompida com o assassinato de Miguel, que acontece sem que haja uma explicação convincente para o mesmo. Quando María toma conhecimento disso, inicia uma “viagem” que mudará para sempre a sua vida (que até aí apenas via a monotonia que a caracterizava quebrada pelos momentos que “partilhava” com o casal Deverne no café que frequentavam todas as manhãs) e que fará com que se torne alguém que passa a frequentar a casa da viúva – Luísa Deverne – e sobretudo em alguém que se torna íntima do melhor amigo de Miguel Deverne.
Essas mudanças na vida da narradora serão portanto o ponto de partida para o desenrolar de um emaranhado (muito bem engenhado e desfiado numa prosa que nos agarra e nos envolve) de pensamentos, de recordações, de momentos de dúvida, de citações de livros clássicos J, de divagações acerca do impensável choque que se abate nas vidas daqueles que perdem os seus entes mais queridos e sobretudo (e essa é a grande mensagem que o autor nos quer fazer chegar) acerca de que, hoje em dia, a sensação de impunidade impera nas nossas sociedades – “la sensación de que la impunidad domina es inevitable en nuestras sociedades”. Quantas vezes somos “bombardeados” pelos meios de comunicação social com exemplos de casos em que ditadores seguem as suas vidas, com os bolsos recheados, sem pagar pelo que fizeram, políticos que abusam do poder, provocam crises ou guerras e são condecorados e convidados para outros cargos importantes ou então anónimos que cometem crimes horrendos em nome desse sentimento redentor e magnânimo que é o amor?
Por tudo isto, estou plenamente convencida de que Os Enamoramentos tem tudo para que fiquemos rendidos à sua narrativa e consequentemente ao seu autor! Eu fiquei, sem dúvida nenhuma, e, por isso, recomendo a leitura desta e de outras obras de Javier Marías!!!

Não poderia terminar esta opinião sem fazer referência ao facto de que não quereria a vida de María Dolz por nada, a não ser talvez a sua profissão – trabalha numa editora em Madrid J J

Contracorpo, de Patrícia Reis

Quinta-feira, 31 de outubro de 2013




Sinopse
Uma mulher fica viúva com dois filhos. Alguns anos depois da morte do marido, a vida não se refez e o filho mais velho, agora adolescente, cresce contra a mãe, num silêncio obstinado que só quebra nas histórias que se conta para adormecer e nos desenhos que faz de forma compulsiva. Com o anúncio do chumbo escolar, a mãe decide, sem grandes reflexões, fazer uma viagem com este filho, deixando o pequeno com os avós. Não se trata de uma viagem com destino, mas antes uma procura.
Contracorpo é um livro contra o silêncio e sobre o silêncio. É uma história de procura de identidades distintas - da mulher e do quase homem - e ainda de descobertas. Uma mãe nunca é o que se espera. Um filho é sempre uma surpresa. O encontro dá-se enquanto procuram caminhos, de Lisboa a Roma, num jogo de claro escuro. Como se tudo fosse uma imagem.

Opinião
Não é novidade que sou fã incondicional de Patrícia Reis – tenho as suas obras todas! Identifico-me muito com a sua escrita, que à partida parece muito simples, com parágrafos e capítulos predominantemente curtos, mas que nos agarra, que nos toca e que nos faz refletir.
Em Contracorpo, deparei-me com a primeira história que tem como protagonista Maria, uma mãe viúva, que desde a morte do marido, vive para o trabalho e para os filhos. Contudo, enquanto a relação com o filho mais novo decorre tranquilamente, com ternura e mimos q.b. e os cuidados necessários para que as suas necessidades básicas sejam cumpridas, entre ela e a sua “cria” mais velha levantou-se um muro de silêncio (apenas quebrado por raros momentos monossilábicos) que parece não querer ceder… Então, num momento de desespero e que podemos descrever como sendo um daqueles de “ou vai ou racha”, Maria toma uma decisão – fazer uma viagem, aparentemente sem destino concreto ou regresso planeado, tendo apenas como companhia Pedro, o filho mais velho. E será nessa viagem que conheceremos mais intimamente estes dois, continuando a autora a dividir a narrativa em capítulos que alternam entre si os narradores – Maria e Pedro.
Não consigo imaginar a dor que sentirá um filho quando a morte lhe rouba um dos progenitores. Esse “roubo”, com toda a certeza, será traumatizante em qualquer fase da nossa vida, mas na adolescência, naquela fase que questionamos tudo e todos, que paradoxalmente testamos a autoridade dos pais e ao mesmo tempo necessitamos deles mais do que nunca, será como se nos tirassem o chão, nos deixassem desprotegidos, desamparados face à passagem dos dias, à passagem que, a partir daquele momento, passa a ser mais solitária e repleta de perguntas sem respostas, de muita revolta surda e muda…
Sem recorrer à lamechice (como nunca o faz), mas com passagens emotivas, serenas e que ficam connosco, Patrícia Reis convida-nos a entrar no carro de Maria e de Pedro, a sentar junto deles, a apreciar a paisagem que vai ficando para trás à medida que a viagem continua e a ser o espetador das mudanças subtis que vão ocorrendo enquanto o conta-quilómetros vai acumulando quilómetros. O silêncio deixa de ser incómodo como até aí havia sido, instala-se como muitas vezes se instala entre duas pessoas que compreendem que muitas vezes esse silêncio é de ouro e que as palavras podem ser desnecessárias… Os monossílabos vão sendo substituídos e mãe e filho conquistam passo a passo, quilómetro a quilómetro, uma relação, um entendimento que os faz ver um ao outro como alguém que sabe, que sofreu na pele a mesma dor que o outro sofreu e que está ali para dar a mão, uma palavra ou um olhar de conforto e alento.
Sendo assim, o risco que Maria tomou valeu a pena. Arriscou tudo para reconquistar o filho, não quis passar por mais uma perda e recuperou não só o seu lugar de mãe na vida de Pedro, como se recuperou a si mesma. Como mãe e como mulher.
Por fim, só me falta dizer que recomendo sem reserva este livrinho precioso e registar aqui algumas (das muitas) passagens que sublinhei J
As viagens preferidas (…) sempre foram curtas, de carro, sem destino. (…)
Hoje vamos dormir na paisagem.
E o carro levava-os para o Alentejo, para o Gerês, para a raia. Nessas viagens existia um silêncio reconfortante. Nada de conversas forçadas ou de constrangimentos. Deixavam a música correr a estrada e cantarolavam. Por vezes sorriam. Outras, as mãos tocavam-se por instantes.” (pág. 52)

“Maria hesita em continuar a falar. Cala-se. De repente sente medo. O filho despe a camisola, as calças, vai à casa de banho. Ouve-o, os tais gestos que adivinha, todos os detalhes, mesmo os mais pequenos, como se os estivesse a ver. Era tão pequeno. E agora? Quase um homem. Quando Pedro regressa ao quarto, deita-se a medo. A cama é curta. E estreita. Maria sorri e fecha o livro
Dorme bem.
Boa noite, mãe.
Na escuridão do quarto, Pedro continua de olhos abertos. Há uma luz que vem da janela, por vezes passa um carro e o barulho vem de longe, aproxima-se afasta-se. De repente pergunta
Tens medo do quê, mãe?
Ah, do escuro, de aranhas, que vos aconteça alguma coisa. Não sei. E tu, Pedro?
Às vezes acho que não tenho medo de nada, tento não pensar nisso. Outras vezes tenho medo dos dias a seguir. Do futuro.
Sabes, uma das coisas que aprendi é que não vale a pena pensar no futuro. A vida troca-nos as voltas.
Pois. Boa noite, mãe.
Boa noite.” (pág. 106)


O pai é um abraço enorme que me deu um dia. É essa a recordação que o mantém preso a mim. Aquele abraço apertado e depois um afago no meu cabelo, a mão do pai presa, por instantes, no cabelo. Sinto lágrimas nos olhos.” (pág. 153)

O ano sabático, de João Tordo

Domingo, 13 de outubro de 2013



Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.

Depois de treze anos de vida desregrada no Québec, Hugo, um contrabaixista de jazz, decide tirar um «ano sabático» e regressar a Lisboa, onde espera reencontrar o equilíbrio junto da família. Porém, logo numa das primeiras noites, assiste ao concerto de Luís Stockman - um pianista que se tornou recentemente famoso -, e a almejada paz transforma-se no pior dos pesadelos: Stockman toca um tema inédito que Hugo conhece bem demais, pois é o mesmo que vem escrevendo há anos na sua cabeça…
Quando o começam a confundir na rua com o pianista - e a própria mãe lança a dúvida sobre a sua identidade -, Hugo encetará uma busca obsessiva da verdade e do seu duplo, entrando num labirinto de memórias e contradições que o conduzirá a um destino muito mais funesto do que imaginara ao deixar Montreal. É nessa mesma cidade que Stockman desaparecerá, curiosamente, mais tarde, segundo nos conta o seu melhor amigo - o narrador deste romance - a quem cabe agora desmontar os acontecimentos, destrinçar fantasia e realidade e enfrentar as assustadoras e macabras coincidências que unem, como num espelho, a vida dos dois músicos.

Opinião
Acabadinho de ler, este livro de Tordo (o terceiro que leio) centra a sua ação (tal como nos informa a sinopse correspondente) na vida de um músico chamado Hugo. Presentemente, este músico, que regressa a Lisboa deixando uma vida de emigrante no Canadá, caracterizada (pelo menos nos últimos anos) pela desilusão, tristeza e bebida, não tem nada a seu favor, nem mesmo o que fora até aí o seu ganha-pão e razão para levantar-se da cama todos os dias – a música e o seu contrabaixo (que trata como se fosse um filho e ao qual trata carinhosamente de “Nutella”).
Contudo, como se tudo isto não bastasse, a sua vida piora quando, já em Lisboa, ouve um concerto de um pianista em ascensão e percebe que este toca uma música que ele, Hugo, estava a compor e que ninguém havia ouvido… A partir daí, Hugo inicia uma demanda “enlouquecida” para tentar descobrir tudo o que possa sobre esse músico que não só parece ter-lhe roubado a criação musical como também a identidade, já que é extremamente parecido consigo fisicamente, como se fosse o seu outro gémeo, para além da sua irmã.
Infelizmente não posso dizer que tenha gostado muito desta obra… Apesar de não ter ficado indiferente às linhas que ligam o protagonista Hugo ao autor João Tordo – ambos passaram pela experiência traumática de ter perdido o terceiro gémeo no momento do parto e os dois tocam contrabaixo – não me senti agarrada por esta narrativa como me senti, por exemplo, com a leitura de O Homem Duplicado, de Saramago. Em O Ano Sabático, há uma loucura desesperada que determina a busca de Hugo no que parece ser a tentativa de confirmar se o músico que ouviu em Lisboa poderá ser o seu terceiro gémeo, aquele que morreu no momento do parto. Há também uma deterioração física e psicológica em Hugo que nos toca, mas que nos deprime e que nos faz adivinhar o seu fim trágico. Nada na sua vida faz sentido, a relação que tem com a mãe, com o cunhado e inclusive com a irmã nada contribui para a sua tranquilidade e o contrabaixo deixa de ter utilidade, deixa de ser um prolongamento de Hugo como tinha sido até então…
Tenho, no entanto, que fazer uma ressalva à personagem que, pela sua inocência, comentários e traquinices próprios da sua idade, permitiu que, entre tantas linhas e páginas entranhadas de sentimentos depressivos e de desespero, eu sorrisse e me sentisse completamente rendida. Falo do pequeno Mateus, sobrinho de Hugo e que, apesar de surgir pontualmente, tem o encanto que só uma criança consegue ter ao chamar, por exemplo, “barco baixo” ao contrabaixo do tio e ao sujar-se todo com a comida, ao meter os dedos na boca e ao estar constantemente a perguntar algo, nem que seja a mesma coisa por mais de uma vez, como se a(s) resposta(s) anterior(es) não o satisfizessem J

Concluindo, muito provavelmente não relerei esta obra, mas não perdi a vontade de continuar a ler Tordo! Ai, isso é que não!

El lector de Julio Verne, de Almudena Grandes

Sábado, 28 de setembro de 2013



Sinopse
Nino, hijo de guardia civil, tiene nueve años, vive en la casa cuartel de un pueblo de la Sierra Sur de Jaén, y nunca podrá olvidar el verano de 1947. Pepe el Portugués, el forastero misterioso, fascinante, que acaba de instalarse en un molino apartado, se convierte en su amigo y su modelo, el hombre en el que le gustaría convertirse alguna vez. Mientras pasan juntos las tardes a la orilla del río, Nino se jurará a sí mismo que nunca será guardia civil como su padre, y comenzará a recibir clases de mecanografía en el cortijo de las Rubias, donde una familia de mujeres solas, viudas y huérfanas, resiste en la frontera entre el monte y el llano. Mientras descubre un mundo nuevo gracias a las novelas de aventuras que le convertirán en otra persona, Nino comprende una verdad que nadie había querido contarle. En la Sierra Sur se está librando una guerra, pero los enemigos de su padre no son los suyos. Tras ese verano, empezará a mirar con otros ojos a los guerrilleros liderados por Cencerro, y a entender por qué su padre quiere que aprenda mecanografía.

Opinião
Que alegria poder dizer que li mais um livro da “minha” Almudena! E que livro!!! Tal como havia dito no post/comentário que escrevi sobre o primeiro volume de “Episodios de una Guerra interminable” – Inés y la alegría –, a ansiedade, as expetativas que sentia por ler este segundo volume eram imensas e agora posso afirmar que, como sempre acontece com um livro desta fantástica autora espanhola, as expetativas foram amplamente superadas!!! Só posso exclamar, como qualquer espanhol exclamaria, que “es precioso” J
        É incontestável que “devorei” El Lector de Julio Verne porque em primeiro lugar, é mais uma obra de Almudena Grandes, em segundo porque é o volume número dois do projeto iniciado com Inés y la alegría e por fim, mas não menos importante, porque sei que um romance com um título como esse não me passaria despercebido!... É certo que não me considero a maior fã de Júlio Verne, mas sei o impacto que as suas obras tiveram e ainda têm na vida de adolescentes que, como eu, não conseguem/conseguiram passar sem a companhia de uma bela aventura literária, repleta de emoção e momentos entusiasmantes, que não nos deixam/deixaram “largar” o livro até que lemos a sua última página!
        Tal como nos informa a sinopse, a ação de El lector de Julio Verne passa-se em Jaén (Andalucía), mais propriamente numa pequena povoação chamada Fuentesanta de Martos e tem como narrador e protagonista Nino, um miúdo de nove anos, filho de um guarda civil, que vive com a família no quartel, numa pequena casa com quartos que dividem paredes finíssimas com o referido quartel e que, como tal, são incapazes de abafar os horríveis sons do sofrimento dos presos que são torturados… As noites de Nino são assim muitas vezes povoadas por essa dor que ele ou confunde com pesadelos ou com ruídos próprios de um filme… É isso que diz a si mesmo e à sua irmã mais nova quando esta acorda e o procura com medo.
        Numa vida que é assim uma mistura de mentiras e de verdades veladas, Nino tem plena consciência de uma coisa – quando for adulto não quer ser guarda como o seu pai, não quer ser tratado como é o seu progenitor e os outros guardas pelos habitantes da aldeia que os veem como os inimigos, os detentores de uma lei castradora e que obriga a inúmeros homens e jovens a procurarem refúgio nas montanhas, a tornarem-se guerrilheiros, a fugirem para o exílio ou a perderem a vida só porque não concordam com o regime que a lei defende tão acirradamente. Nino vive então do lado da defesa da lei, mas esse lado faz com que seja uma criança que não tem com quem jogar futebol ou brincar… Contudo, no verão de 1947 a sua vida mudará por completo quando conhecer Pepe, el portugués (J), um forasteiro que vem viver para um moinho afastado da povoação e que será a partir desse momento o seu grande amigo, o seu confidente e aquele que o apresentará ao maravilhoso mundo dos livros, dos livros de Júlio Verne.
        Para além de Pepe, também as Rubias, que compõem uma família de apenas mulheres e Elena, que é hóspede delas, terão uma presença preponderante na vida de Nino. Com Elena aprenderá mecanografia para poder ter, segundo o pai, um bom emprego no futuro (já que a sua pequena estatura compromete a possível entrada na Guarda Civil) e conhecerá outros livros de Verne e outros autores (como o amado Galdós de Almudena) que mudarão de uma forma irreversível a visão que Nino tem do mundo. Por sua vez, com as temíveis Rubias entrará no universo feminino, um universo de mulheres de coragem, de “pelo na venta” e que lhe abrirão também as portas do misterioso e proibido mundo dos guerrilheiros…
        Num dos livros mais pequenos que já escreveu, Almudena mostra-nos assim outro episódio pouco conhecido de uma guerra interminável – um episódio que nos faz viajar para uma pequena povoação do sul de Espanha, com habitantes pouco afortunados, que vivem em duras condições, mas que continuam a combater uma guerra que supostamente já terminou há bastante tempo. E combatem-na tanto os guerrilheiros como as suas famílias que vivem no povoado, longe da montanha, mostrando sem piedade o quanto odeiam e desprezam aqueles que estão contra eles, sejam eles os guardas-civis ou mesmo os seus filhos, como Nino. Um desses guerrilheiros é o lendário e mítico Cencerro, cuja história (contada a Almudena por um habitante natural de Fuentesanta de Martos e ponto de partida para a consequente escrita de El Lector de Julio Verne), quase setenta anos mais tarde (Cencerro morreu em 1947) foi relembrada como se a sua lenda, o seu mito ainda estivessem frescos na memória de alguém que nasceu 2 anos após a sua morte!...
        É sobejamente sabido de que lado a autora se coloca e se colocaria nesta guerra interminável, mas, neste romance não há uma fronteira que separa radicalmente os guerrilheiros dos guardas, ou seja, nem os guerrilheiros e suas famílias são caracterizados como os “bons” nem os guardas como os “maus”. Para além do que já referi sobre o ódio que os familiares dos foragidos sentem sem distinção por todos os que “pertencem” aos defensores da lei, também estes últimos são personagens realistas, com qualidades e defeitos, como por exemplo o pai de Nino, que está deste lado da fronteira porque combateu, por coincidência, neste regimento e aí se manteve por uma questão de sobrevivência, sua e dos seus.

        Não posso terminar este comentário sem fazer alusão ao elemento de ligação entre Inés y la alegría e El Lector de Julio Verne, ou seja, ao restaurante La cocina de Inés, que aparece na foto que um guerrilheiro que foge para terras francesas manda à sua família. Sendo assim, é um elemento tão frágil que pode passar perfeitamente despercebido e não impedir que a leitura destas duas obras seja feita de um modo não cronológico e independente.

        Concluindo, não posso fazer outra coisa que não seja afirmar com todas as letras que ADOREI e RECOMENDAR que leiam este estupendo livro!!!


As pontes de Madison County, de Robert James Waller

Segunda-feira, 09 de setembro de 2013




RELEITURA



Sinopse
As Pontes de Madison County é a história de Robert Kincaid, famoso fotógrafo, e de Francesca Johnson, mulher de um agricultor do Iowa. Kincaid, de 52 anos, é fotógrafo da National Geographic - um estranho e quase místico viajante dos desertos asiáticos, dos rios longínquos, das cidades antigas, um homem que se sente em desarmonia com o seu tempo. Francesca, 45 anos, noiva italiana do pós-guerra, vive nas colinas do Iowa com as memórias ainda vivas dos seus sonhos de juventude. Qualquer deles tem uma vida estável, e no entanto, quando Robert Kincaid atravessa o calor e o pó de um Verão do Iowa e chega à quinta dela em busca de informações, essa estabilidade desaba e as suas vidas entrelaçam-se numa experiência de invulgar e estonteante beleza, que os marcará para todo o centro.
O resultado é uma história apaixonante e profundamente comovedora, que coloca Robert James Waller na vanguarda dos novos romancistas norte-americanos.

Opinião
Na sexta-feira dei comigo a rever o filme baseado nesta obra. Sim, não foi a primeira vez que o vi, nem a primeira que o revi, mas o impacto é sempre o mesmo – a extraordinária cumplicidade da fantástica Meryl Streep e do ex “Dirty Harry” apanha-me sempre desprevenida e o resultado é o esperado – não descolo do ecrã e sofro com uma intensidade brutal, de tal forma que choro, choro baba e ranho, como choro!!!
O filme é realmente arrebatador e como consequência tive que ir à estante, retirar de lá o livro homónimo e relê-lo.
A releitura levou-me de novo a Iowa, a acompanhar a chegada de Robert a casa de Francesca, a perceber o que nesse preciso momento começou a mudar nas suas vidas e a viver intensamente aqueles quatro dias em que os dois saborearam a história de amor das vidas deles. O livro narra tudo isto numa linguagem simples, despretensiosa, mas, e para minha surpresa (porque será das pouquíssimas vezes que direi isto), falta-lhe algo quando comparado com o filme: os gestos, os silêncios, os olhares trocados, os movimentos que sobretudo o IMENSO talento de Meryl Streep nos oferece em cada cena – o arrebatamento típico de uma adolescente que se enamora pela primeira vez, a sensualidade que ela emana nas cenas que divide com Clint Eastwood, o sofrimento que reflete o seu olhar nas cenas finais, o desespero que a faz quase abrir a porta da carrinha e abandonar o marido – todo essa magia e carga de sentimentos que só esta atriz sabe pôr em cada cena fazem com que a leitura do livro resulte um pouquinho defraudada, já que é impossível não fazer comparações!...

Comparações aparte, As Pontes de Madison County contam-nos uma belíssima história de amor, que se torna impossível porque aparece no momento errado na vida das duas personagens principais. Mas, apesar de aparecer nesse momento errado e de durar apenas 4 dias, não nos consegue de forma alguma deixar indiferente, porque quem não gostaria de viver uma história assim, uma história em que “(…) tínhamos cessado de ser dois seres distintos e que nos tínhamos tornado num terceiro ser formado por nós os dois. Nenhum de nós existia independente desse ser.”?...



Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa

Terça-feira, 03 de setembro de 2013





Sinopse
Uma mulher cai do céu durante uma tempestade tropical. As únicas testemunhas do acontecimento são Bartolomeu Falcato, escritor e cineasta, e a sua amante, Kianda, cantora com uma carreira internacional de grande sucesso. Bartolomeu esforça-se por desvendar o mistério enquanto ao seu redor tudo parece ruir. Depressa compreende que ele será a próxima vítima. Um traficante de armas em busca do poder total, um curandeiro ambicioso, um antigo terrorista das Brigadas Vermelhas, um ex-sapador cego, que esconde a ausência de rosto atrás de uma máscara do Rato Mickey, um jovem pintor autista, um anjo negro (ou a sua sombra) e dezenas de outros personagens cruzam-se com Bartolomeu, entre um crepúsculo e o seguinte, nas ruas de uma cidade em convulsão: Luanda, 2020.


Opinião
Este é o segundo livro que leio de Agualusa, depois da estreia com Milagrário Pessoal e que me deixou rendida à escrita deste escritor angolano. Contudo, tenho que confessar que Barroco Tropical não teve o mesmo impacto que o seu antecessor… A trama é interessante, narra as “tragédias” que assombram a vida de Bartolomeu Falcato, escritor angolano que, em 2020, vive numa Luanda em convulsão e ainda muito afetada pelo seu passado de capital de um país colonial.
A par de Bartolomeu, conhecemos um leque de personagens como uma cantora angolana que se tornou o maior ícone da música mundial, um sujeito que cobre o rosto destruído por uma mina com uma máscara de Mickey, gémeos anões estilistas, um anjo negro, ou seja, personagens que são mais uma evidência do estilo imaginativo e fantástico do autor, que os faz povoar uma Luanda decadente e futurista, onde “convivem” prédios em ruína com arranha-céus que parecem não terminar nunca, com um manicómio no qual se testam técnicas para tratar os doentes mentais e com situações que realçam o quanto a sociedade angolana do futuro (ou do presente?) sofre com a já referida pesada herança colonial e com uma democracia que muito ainda tem que caminhar para provar a si mesma e ao outros que consegue sustentar-se e que se consegue afastar de um regime autoritário e corrupto.
É certo que África e obviamente os países que compõem este continente nunca me fascinaram. Não consigo entender o quanto as suas paisagens, os seus povos, as suas tradições, as suas religiões cativam tantas pessoas, sejam elas portuguesas ou não… Não consigo mesmo. E talvez por isso esta obra de Agualusa não me tenha tocado, não me tenha apaixonado por ela como pensei que me apaixonaria… No entanto, continuo a defender que Agualusa é um belo escritor, que o seu estilo é imaginativo, criativo e muito pessoal e que valerá a pena conhecer mais obras suas. Exemplo dessa minha convicção foi o prazer, o sorriso que me aflorou os lábios e aquele aceno de completo entendimento que senti e se produziram em mim quando li esta passagem:

Há quem confunda a alegria com a felicidade. A alegria não se parece com a felicidade, a não ser na medida em que um mar agitado se parece com um mar plácido. A água é a mesma, apenas isso. A alegria resulta de um entorpecimento do espírito, a felicidade de uma iluminação momentânea. O álcool pode levar-nos à alegria - ou um cigarro de liamba, ou um novo amor - porque nos obscurece temporariamente a inteligência. A alegria pode, pois, ser burra. A felicidade é outra coisa. Não ri às gargalhadas. Não se anuncia com fogo de artifício. Não faz estremecer estádios. Raras são as vezes em que nos apercebemos da felicidade no instante em que somos felizes.

Inés y la Alegría, de Almudena Grandes

Sábado, 24 de agosto de 2013





Sinopse:
Toulouse, verano de 1939. Carmen de Pedro, responsable en Francia de los diezmados comunistas españoles, se cruza con Jesús Monzón, un cargo menor del partido que, sin ella intuirlo, alberga un ambicioso plan. Unos años después, en 1944, Monzón, convertido en su pareja, ha organizado el grupo más disciplinado de la Resistencia contra la ocupación alemana, prepara la plataforma de la Unión Nacional Española y cuenta con un ejército de hombres dispuestos a invadir España. Entre ellos está Galán, que ha combatido en la Agrupación de Guerrilleros Españoles y que cree, como muchos otros en el otoño de 1944, que tras el desembarco aliado y la retirada de los alemanes, es posible establecer un gobierno republicano en Viella. No muy lejos de allí, Inés vive recluida y vigilada en casa de su hermano, delegado provincial de Falange en Lérida. Ha sufrido todas las calamidades desde que, sola en Madrid, apoyó la causa republicana durante la guerra, pero ahora, cuando oye a escondidas el anuncio de la operación Reconquista de España en Radio Pirenaica, Inés se arma de valor, y de secreta alegría, para dejar atrás los peores años de su vida.

Opinião
"La Historia inmortal hace cosas raras cuando se cruza con el amor de los cuerpos mortales".
Este é o mote/a frase que nos acompanha durante as 715 páginas da obra e que, sem dúvida alguma, é a inspiração de todo o seu desenrolar. E quanta verdade encerra esta frase tão inspirada e inspiradora!...
Almudena inicia com esta obra um projeto constituído por seis livros (que se poderão ler de uma forma independente, embora tenham determinados elementos e passagens que fazem a ligação entre todo o projeto, mas que não prejudicam uma leitura não cronológica), ao qual chama de "Episodios de una Guerra Interminable" e que nos levará a conhecer acontecimentos, situações e momentos pouco conhecidos da recente História de Espanha.
Estes Episodios, segundo a própria autora, são uma homenagem y um ato público de amor a um dos seus escritores de eleição e à sua obra-prima -  "Episodios Nacionales" de don Benito Pérez Galdós. Abarcarão, nas seis obras que os integram, quase 40 anos de luta ininterrupta de personalidades reais e de personagens fictícias e anónimas que, com coragem, determinação, raiva e convicção, não desistirão de tentar pôr fim a uma ditadura e repressão ferozes que dominaram Espanha desde 1939 até 1975.
Inês é uma dessas personagens anónimas que, apesar de descender de uma família rica e burguesa, aliada do regime de Franco, sente na pele a falta de liberdade e luta contra a mesma primeiro alojando republicanos em sua casa durante a Guerra Civil, o que resulta no seu encarceramento após a vitória de Franco. Posteriormente, já do outro lado das grades mas ainda assim presa dentro das paredes da casa do seu irmão, Inés não resiste a seguir o chamamento dos seus camaradas e foge quando ouve clandestinamente o anúncio de uma invasão que será levada a cabo pelos republicanos exilados em França e que sonham regressar ao seu país - Habíamos luchado en Francia, pero no por Francia. En Francia, pero no para Francia. En Francia o donde fuera, pero sólo para volver, para volver a casa. (pág. 333).
Esta fuga de Inés e consequente reunião com os seus camaradas será o ponto de partida para uma história como só Almudena nos pode oferecer - tendo como pano de fundo a invasão fracassada do "Valle de Arán", um episódio da História espanhola muito pouco conhecido e convenientemente esquecido pelas duas frações - franquistas e comunistas - esta narrativa que combina personagens fictícias e verídicas convida-nos a juntar-nos a um grupo de militares e um punhado de corajosas mulheres que serão aqueles que mais sofrerão e mais sentirão na pele e no seu íntimo o fracasso da invasão cuidadosamente planeada mas que acaba em redondo fracasso, não pela oposição oferecida pelo exército do regime (apanhado de surpresa), mas consequência das lutas e desavenças internas no partido comunista...
Aliada a este pano de fundo histórico temos o amor de Inés y de Galán (bem como o amor de outros compatriotas) que serão o motor para que nunca desistam, para que lutem sempre pelos seus ideais, pelo sonho de voltar a viver numa Espanha livre. E é esta junção de "la Historia inmortal y del amor de los cuerpos mortales" que me fez apaixonar-me irremediavelmente por mais uma obra da minha Almudena J
Inés é uma mulher que desde o início cativa qualquer leitor, a sua força, as suas ganas de liberdade, a paixão que põe em tudo o que faz, principalmente na cozinha (local que a relaxa, que a faz sentir-se útil e bem consigo mesma) e o amor arrebatador que a une a Galán, são características que fazem dela uma personagem inesquecível! Uma personagem que conquista ainda mais afeto e admiração por nos dar a conhecer uma visão mais feminina de uma luta e de uma guerra intermináveis, de alguém que não perde o ardor revolucionário que a sempre guiou, mesmo fazendo parte do que podemos chamar a retaguarda, ser um exemplo de todas as mulheres que nunca baixaram os braços, que sempre apoiaram os seus amados, inclusive quando estes punham em risco as suas vidas.
Para finalizar esta opinião que já vai longa, uma referência à forma como está estruturada a obra - podemos dizer que está dividida em duas grandes partes - temos 4 capítulos "ficcionais", ou seja, que remetem para a história de Inés e dos seus camaradas e, intercalados com estes, 3 capítulos cujo título aparece entre parêntesis e que são dedicados às personagens verídicas, como a lendária "Pasionaria", ao partido comunista e suas ações no pós Guerra Civil. Como leitora, apesar de entender o porquê da inclusão destes "parêntesis", considero que, numa futura (re)leitura, irei optar por ler todos os 4 capítulos de ficção seguidos e só depois lerei os dedicados à História, aos factos verídicos, porque, assim, não sentirei tanto a quebra no ritmo da narrativa e de certeza que ficarei a ganhar com o desenrolar sem interrupções "del amor de los cuerpos mortales de Inés y de Galán" J

Agora só me resta esperar pelo segundo volume destes "Episodios" - El Lector de Julio Verne!!!

José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes

Quinta-feira, 18 de julho de 2013



Sinopse
Durante quatro anos, Miguel Gonçalves Mendes filmou José Saramago e Pilar del Río, na intimidade de Lanzarote, em viagens de trabalho por todo o mundo, em festas com os amigos e a família. Desse intenso registo resultaram, primeiro, o filme, José e Pilar, e agora, o livro que se compõe, essencialmente, de material inédito: centenas de horas de conversa que exploram os grandes temas - da política ao amor, passando pelo trabalho, a literatura e a morte.

Aclamado pela crítica e pelo público nacional e internacional, o filme teve estreia comercial em Portugal, Espanha, Itália, México e Brasil, onde recebeu o Prémio do Público da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Foi ainda nomeado nas categorias de Melhor Documentário, Melhor Banda Sonora Original e Melhor Montagem pela Academia Brasileira de Cinema, como também na categoria de Melhor Filme pela SPA.

Opinião
As conversas inéditas com “o meu” José e a sua Pilar chegaram até mim primeiro através do filme exibido na televisão e, posteriormente, como “regalito de cumpleaños” das minhas queridas amigas pitufinas. Quando desembrulhei o livro, dois sentimentos antagónicos assaltaram-me simultaneamente – por um lado, fiquei deliciada com a perspetiva de voltar a entrar na vida familiar e rotineira do meu maior génio literário e por outro, não pude deixar de sentir muita nostalgia, melancolia e tristeza, porque já cá não estás…
Contudo, à medida que a leitura avançava, esses sentimentos de carga negativa foram-se evaporando e voltei a sentir o meu Saramago, vivo, pertinho, pertinho de mim!... (Re)descobri igualmente Pilar del Río, às vezes demasiado crua nas suas afirmações, mas, mesmo assim, com muita razão naquilo que diz!
Registo aqui opiniões dos dois que não resisti a sublinhar porque obviamente me tocaram pela sua força, pela sua energia e pela sua verdade:

"(...) aquilo que escapa, aquilo que é indizível, aquilo que pertence à categoria do inefável, aquilo que não se pode expressar por palavras, é aí, é aí que está o amor." (Saramago)


"Es que no quiero que me queden cosas sin hacer hoy, porque no sé si mañana voy a estar. Y quiero vivir con toda la ilusión del mundo, como si fuera el primero... Que lo importante de la vida es cumplir cada día, vivirlo, llenarlo." (Pilar) 

O miúdo que pregava pregos numa tábua, de Manuel Alegre

Segunda, 08 de julho de 2013





Sinopse
Entretanto o miúdo cresceu, quer seja o que pregava pregos muito direitos numa tábua, quer o que engoliu os comprimidos do avô, quer o que se rebelou contra a humilhação das mangas curtas, quer os outros todos ou eu próprio, que não sei se fui cada um deles menos um, este que conta e tem tendência ora a efabular ora a querer ser tão verdadeiro que põe em dúvida o que de facto foi e até de si mesmo suspeita. Seja ele quem for, o certo é que o miúdo cresceu. E agora está aqui (mas ainda será ele?) a ver se consegue escrever um livro, sem saber o quê nem como. Pois que outro livro pode escrever-se? Vida de tantas vidas na tão curta vida.

Opinião
Li num ápice este livrinho de Manuel Alegre que me encantou – o estilo efabulatório, a simplicidade e o permitir-me saber um pouco mais da vida do autor, já que o livro tem todos os rasgos de uma autobiografia.

Transcrevo algumas passagens que sublinhei:
À noite, no cinema, é ele que passa a mão pela mão de Ela. Os dedos entrelaçam-se, Ela faz-lhe uma festa na cara. Apetece ficar assim para sempre, mas o miúdo que gosta de caçar narcejas ainda não sabe que não há outra eternidade senão esse instante a escorregar-lhe por entre os dedos.” (pág. 57)

Mas ainda falta acrescentar que o miúdo que tocava piano sobre a mesa viu Miguel Torga no hospital segurando o caderno e a caneta como quem, no campo de batalha, ferido de morte, não larga as suas armas. Eram já poucas as forças, mas a mão mantinha-se firme na caneta e no caderno. Não queria ser apanhado desprevenido (ou desarmado) se uma vez mais lhe aparecesse aquele primeiro verso, que sempre nos é dado, como costumava dizer.” (pág. 85)

O miúdo aperta a mão do pai, dá-lhe um beijo na testa e sente a terra ferida a respirar pela boca dele.” (pág. 106)

Estou aqui a esconder-me e a mostrar-me, como o neto no armário e o outro atrás da porta. O melhor é contar até vinte enquanto eles correm a esconder-se, ansiosos por serem descobertos. Como eu.” (pág. 111)


Ummm, fiquei com aquela vontade de ler mais Manuel Alegre, mais propriamente de reler Cão como nós!...

Extremamente alto e incrivelmente perto, de Jonathan Safran Foer

Segunda, 01 de julho de 2013




Sinopse
Oskar Schell tem nove anos e é inventor, francófilo, tocador de tamborim, ator shakesperiano, joalheiro, pacifista. Além disso, está a empreender uma busca urgente e secreta através das cinco zonas de Nova Iorque a fim de encontrar a fechadura onde entra uma chave misteriosa que pertencera ao pai, morto no atentado contra o World Trade Center. Oskar, uma inspirada criação do autor, é encantador, exasperante e inesquecível.

Opinião
Estaria a mentir se afirmasse que comprei este livro baseando-me apenas na sua sinopse. O que realmente determinou a sua compra foi a capa que faz alusão ao filme protagonizado por bons atores, o trailer desse mesmo filme e sobretudo o momento em que desfolhei o livro pela primeira vez e constatei que, para além de estar “povoado” de fotos, apresenta uma mancha gráfica muito diferente do que é habitual – páginas repletas de texto, outras quase em branco, palavras ou parte delas rodeadas a vermelho, caixas de texto que se assemelham a cartões que vendedores, empresários, etc. trazem sempre consigo com os seus dados pessoais… e no final um grupo de fotografias quase iguais que retrata a queda de uma pessoa que se atirou de uma das torres do World Trade Center no fatídico dia do ataque. Esse grupo de fotos tem a particularidade de, se passarmos as fotos rapidamente (como em banda desenhada, para vermos a personagem a mexer-se), vermos a queda ao contrário, ou seja, na última foto a pessoa deixa de cair, parece que não se atirou, que tudo não passou de uma ilusão, de um pesadelo, enfim…
Considerando agora a história de Extremamente alto, incrivelmente perto, esta narra as comoventes peripécias de Oskar Schell, que está a passar por um período de grande dor e sofrimento, pois perdeu o pai no atentado às torres gémeas. Tenta preencher esse vazio e uma óbvia confusão de sentimentos com invenções estrambólicas, cartas para cientistas e estudiosos e outros passatempos pouco típicos de um miúdo de nove anos. A sua vida sofre, contudo, uma mudança quando descobre num vaso um misterioso envelope com uma chave e um nome – Black. A partir daí, inicia uma cruzada para encontrar o tal Black e a fechadura para a chave, já que pensa que, se os encontrar, irá descobrir algo que o pai lhe queria dizer antes de morrer.
Para além de Oskar, o livro possui outros dois narradores – os seus avós paternos – que contam a sua história, marcada por muita tristeza.
Esta obra é assim muito complexa e ao mesmo tempo mexe com as nossas emoções – sofri bastante com a dor de Oskar e com tudo o que ele faz para saber mais sobre o pai, para conseguir conviver com uma perda insuperável.

É uma leitura que recomendo!

O inverno do mundo, de Ken Follett

Sábado, 15 de junho de 2013




Sinopse
Depois do extraordinário êxito de repercussão internacional alcançado pelo primeiro livro desta trilogia, A Queda dos Gigantes, retomamos a história no ponto onde a deixámos. A segunda geração das cinco famílias cujas vidas acompanhámos no primeiro volume assume pouco a pouco o protagonismo, a par de figuras históricas e no contexto das situações reais, desde a ascensão do Terceiro Reich, através da Guerra Civil de Espanha, durante a luta feroz entre os Aliados e as potências do Eixo, o Holocausto, o começo da era atómica inaugurada em Hiroxima e Nagasáqui, até ao início da Guerra Fria. Como no volume anterior, a totalidade do quadro é-nos oferecido como um vasto fresco que evolui a um ritmo de complexidade sempre crescente.

Opinião
De volta à trilogia O século. Este livro é a continuação de A Queda dos Gigantes e, como tal, acompanhamos as famílias já apresentadas no volume I da trilogia, mais propriamente os seus descendentes durante o flagelo da Guerra Civil de Espanha, a Segunda Grande Guerra e início da Guerra Fria.
O contexto não poderia ser mais empolgante (já confessei mais de uma vez que adoro estes anos apaixonantes da História Mundial), aprendi e fiquei a saber coisas novas, mas… comparando com outras obras que se detiveram a explorar conflitos fascinantes do século XX, através de histórias de famílias fictícias que se viram envolvidas neles (El corazón helado, de Almudena Grandes, Ventos de Guerra, de Herman Wouk, No coração da Guerra, de Alice Ferney, entre outros), considero que este volume II da trilogia de Follett não possui os ingredientes necessários para me encher as medidas… O ritmo é vivo, as personagens são as que já conhecemos, ou melhor, são descendentes daquelas que já conhecemos, há notoriamente uma apurada pesquisa histórica, mas acho que é um pouco do mesmo que o autor nos ofereceu no primeiro volume - a construção das personagens segue o mesmo caminho da dos seus progenitores e continuo a sentir-me algo incomodada com o facto de voltarmos a encontrar personagens verídicas a conviverem “intimamente” com personagens fictícias, o que cria, a meu ver, situações artificiais e pouco credíveis.
Outro aspeto que também não me agradou foi o facto de Follett abusar de cenas de sexo bastante apimentadas e que, na minha opinião, são bastante “cliché” e puxam para algo mais que possa aumentar as vendas do livro…

Contudo, apesar de tudo isto, não vou deixar de comprar o terceiro volume da trilogia, pois agora que comecei quero terminá-la!

O Mundo, de Juan José Millás

Quarta-feira, 15 de maio de 2013





Sinopse
Ao princípio era o frio. Quem teve frio em pequeno, terá frio o resto da vida, porque o frio da infância não desaparece nunca.

Juan José Millás deslocou-se de Valência para Madrid com seis anos. Uma mudança que significou abandonar a luz e o calor do Mediterrâneo, para se instalar numa zona suburbana e obscura da capital, marco fundamental da sua vida. 
A rua Canillas, naqueles tempos de casas baixas e escombros, é o cenário da infância e da adolescência de Millás, um cenário que transporta o leitor para o ambiente do pós-guerra, desvendando-se os segredos, as aventuras, os desejos e as esperanças do protagonista. Um amigo condenado a morrer, O primeiro amor, Um vizinho espião, O pai e a mãe, naquela rua tudo ganha uma dimensão diferente, as coisas adquirem uma qualidade mágica.
Onde acaba a memória e começa a ficção? Esta é a realidade de um mundo, transformada em universo literário, uma autobiografia ficcionada - um livro imprescindível, belo e assombroso sobre o inevitável ofício de crescer.

Opinião
A altura não foi a melhor… Foram mais de duas semanas de sufoco, embrulhada à volta dos malditos testes… E talvez por isso acompanha-me a sensação de que não dei o devido valor e não prestei a devida atenção a este Mundo de Millás. Não estou a dizer que não gostei, pelo contrário, gostei e muito, mas algo no meu inconsciente me continua a sussurrar que as expetativas que criei foram de alguma forma goradas… Queria mais infância e menos técnica de escrita…

Perdoa-me, Juanjo, por não ter apreciado a teu Mundo como sei que deveria tê-lo feito…