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Conversa n'A Catedral, de Mario Vargas Llosa

Quinta-feira, 26 de junho de 2015





Opinião
Hoje terminei de ler a obra mais aclamada de Vargas Llosa, aquela que o próprio autor diz que seria a que salvaria de um incêndio se apenas pudesse salvar uma das suas obras.
Conversa n’A Catedral proporciona-nos uma leitura muito complexa e que pode desarmar-nos logo nas primeiras páginas, porque a ação não segue uma ordem cronológica, há “muitos saltos” no tempo (ao passado e ao futuro), não sabemos bem quem são as personagens e em meia página podemos ficar completamente desnorteados…
Contudo, tendo a conta a admiração que nutro por Mario Vargas Llosa, não desisti e a minha tenacidade foi recompensada porque consegui encontrar-me no ritmo da leitura e, à medida que a leitura avançava, tudo ia ficando mais claro, página após página, apesar de ser só no final que tomamos conhecimento do que aconteceu a todas as personagens.
A obra centra a sua trama no país natal do autor, mais propriamente no Peru dos anos cinquenta, uma época de muita corrupção e de repressão, e oferece-nos uma história recheada de personagens desencantadas e “jodidas”, que lamentam a sua vida e que, tendo tudo para serem bem-sucedidas, não o foram, convertendo-se em alguém mais de um país que, em um determinado momento da sua História (que nem o próprio autor sabe) “se había jodido”. Tal como muitas outras nações… tanto no século passado como nos dias de hoje L
Para quem nunca leu Vargas Llosa, esta obra poderá levar um possível leitor a odiá-lo ou a render-se ao seu talento. Eu sinceramente não consigo afirmar aqui que estou desejosa de ler outra obra sua, mas também estaria a mentir se dissesse que a leitura de Conversa n’A Catedral foi um desperdício de tempo. De maneira nenhuma. Considero sim que a complexidade da parte inicial pode desmoralizar um leitor que até nem seja um principiante nestas andanças da literatura…

Sinopse
Sentados a uma mesa da taberna A Catedral, o jornalista Santiago Zavala conversa com o seu amigo Ambrosio. Estamos em Lima, na época ditatorial do general Manuel A. Odría (1948-1956), e dessa conversa acompanhada de cerveja emerge um Peru cruel, corrupto, desesperançado, matéria-prima ideal, portanto, para um romance que só um grande jornalista e escritor como Vargas Llosa poderia ter produzido.

Uma história esplêndida que reúne muitos dos ingredientes que fizeram a fama do autor peruano - as críticas ácidas, a irreverência, a rebeldia e o humor sarcástico.

O Professor, de Charlotte Brontë

Sábado, 07 de junho de 2014




Opinião

O Professor narra-nos a história de William Crimsworth que, desde muito jovem, não teve uma vida muito fácil. Órfão, sem recursos financeiros, não conta com a ajuda de ninguém, nem mesmo com a do seu irmão que, apesar de lhe ter oferecido um emprego, o fez com segundas intenções e trata William com prepotência e desumanidade.
Numa segunda parte da obra (aquela que considero mais empolgante), encontramos o protagonista na Bélgica, trabalhando como professor em dois colégios e será num deles que viverá as suas primeiras experiências de amor, uma delas bela e serena e que fará com que William amadureça e obtenha aquilo que tanto queria.
Esta é a segunda obra que leio de Charlotte Brontë e mais uma vez, a personagem protagonista é o seu ponto forte, pois lidamos com alguém verdadeiramente humano, com as suas fraquezas e qualidades, que cresce como pessoa com as suas vivências e com a realidade que o rodeia.
Como obra dos princípios do século XIX, O Professor presenteia-nos com uma leitura simples, tranquila, mas com apontamentos muito interessantes e que cativam a nossa atenção. Posso dizer, então, que é sempre bom e refrescante voltar aos clássicos!

Sinopse


O Professor dá-nos a conhecer a história de William Crimsworth, professor num colégio interno para raparigas na Bélgica. Narrado na primeira pessoa, este romance convida-nos a acompanhar a "educação sentimental" do jovem Crimsworth, que sobrevive à orfandade e à penúria e viaja até à Bélgica à procura de uma oportunidade para fazer valer os seus conhecimentos e boas maneiras. 

Jerusalém, de Mia Couto

Segunda-feira, 26 de maio de 2014




Opinião
Com a leitura de Jerusalém, entrei no mundo de Mia Couto e dele já não saio mais!!!
É a história de quatro homens (um pai, dois filhos e um capataz), que se refugiam numa antiga coutada de caça, em fuga da cidade e de um passado demasiado presente. É ainda e sobretudo a história de Mwanito, o filho mais novo e narrador da obra, que apenas conhece o mundo de Jerusalém e que nada sabe do que se passa no mundo do “lado de lá” e que sofre por nunca ter conhecido a mãe. São dele as palavras que me conquistaram, logo no início da narrativa – “A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas.” (pág. 13)
Ora não preciso de dizer que, como mulher e como mãe, me rendi de imediato a esta declaração e nunca mais me deixei de sentir cativada pela beleza de tudo o que nos é contado por Mwanito, do princípio ao fim da obra.
O estilo de Mia Couto é belíssimo, poético e tão poderoso que nos faz identificar com tudo o que lemos, inclusive se a realidade da história nos parece um pouco louca e fora do que supostamente é normal!...
Agradeço do fundo do coração ao meu pai por me ter oferecido esta maravilhosa obra de Mia Couto e a possibilidade de assim conhecer uma das vozes mais arrebatadoras do panorama literário da língua portuguesa!
Aqui ficam algumas das passagens que sublinhei:
A escrita me devolvia o rosto perdido de minha mãe.” (pág. 46)
Mulheres são como ilhas: sempre longe, mas ofuscando todo o mar em redor.” (pág. 60)
Os mortos não morrem quando deixam de viver, mas quando os votamos ao esquecimento.” (pág. 63)
Cada dia é uma folha que tu rasgas, sou o papel que espera pela tua mão, sou a letra que aguarda pelo afago dos teus olhos.” (pág. 138)
Só agora entendi que a sedução mora em outro lugar. Talvez no olhar.” (pág. 144)
Cada um de nós foi uma mentira, mas nós os dois fomos verdade.” (pág. 194)

NOTA – 09/10

Sinopse
Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.

Jesusalém é seguramente a mais madura e mais conseguida obra de um escritor em plena posse das suas capacidades criativas. Aliando uma narrativa a um tempo complexa e aliciante ao seu estilo poético tão pessoal, Mia Couto confirma o lugar cimeiro de que goza nas literaturas de língua portuguesa. A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado, diz um dos protagonistas deste romance. A prosa mágica do escritor moçambicano ajuda, certamente, a reencantar este nosso mundo.

Madame Bovary, de Gustave Flaubert

Sábado, 10 de maio de 2014




Opinião
Com Madame Bovary, voltei aos clássicos, mas foi um regresso um pouco custoso!... Este romance (que se revelou um escândalo aquando da sua publicação em França) relata a história de Emma Bovary, casada com um médico campónio, e que busca em relações adúlteras a paixão, o prazer e os amores sensuais que conhece das suas leituras de romances de amor! Contudo, essas relações extraconjugais levá-la-ão a uma espiral de desgostos e dívidas e consequentemente à desgraça da sua família e à sua morte!
Ao ler esta obra, voltei ao mundo do Realismo e Naturalismo e não pude deixar de fazer paralelismos com as obras do grande Eça – personagens de várias classes sociais e repletas de defeitos, discussões “acesas” entre clérigos e defensores da ciência, bem como descrições de locais e ambientes levadas ao pormenor.
Como já há algum tempo não lia nenhuma obra do século XIX (exceto as de Jane Austen), não consegui sentir simpatia por Madame Bovary, apesar de ter consciência de que todas as suas fantasias, os seus sonhos de “amor e uma cabana” fizeram parte da minha vida quando era adolescente… Mas já estou bem mais madura J e, como tal, senti-me muito crítica em relação a tudo o que ela fazia… e igualmente pouco de acordo com aqueles leitores que dizem que quem não lê Madame Bovary não conhece as mulheres!... Isso está bem longe da verdade.

NOTA – 07/10

Sinopse
«Madame Bovary sou eu», disse uma vez Flaubert, a quem o êxito do seu romance publicado em 1856 acabou por irritar, de tal modo eclipsou os seus outros livros.

Ema Bovary persegue a imagem do mundo que lhe é dada por uma certa literatura desligada da realidade. Arrastada pelas suas ilusões, a mulher do prosaico Carlos Bovary imagina-se uma grande amorosa.

A desumanização, de Valter Hugo Mãe

Domingo, 27 de abril de 2014




Opinião
Com o fim de semana a chegar ao fim, cheguei ao fim de A desumanização, a obra mais recente de Valter Hugo Mãe.
Tal como nos é dito na contracapa, este romance passa-se nos recônditos fiordes islandeses e chega-nos através da voz de uma menina de onze anos, que nos conta o que sobra da sua vida depois de perder a sua irmã gémea.
Se compararmos A desumanização com outras obras de Valter Hugo Mãe que já li, há diferenças e semelhanças evidentes. Neste romance, o autor põe de lado o “não uso” das maiúsculas no início das frases, uma característica do seu estilo (à Saramago, talvez…), mas volta a escrever uma história tristíssima, aflitiva, angustiante, desconcertante, que nos ataranta e desarma. As personagens que a habitam são estranhas, diferentes, esquisitas. Contudo, mexem connosco, tocam-nos, pois, por muito diferentes ou esquisitas que se apresentem, são um retrato de seres humanos, que sofrem como qualquer um de nós sofre e querem o que todos nós queremos – que o dia de amanhã seja melhor do que o de hoje e, acima de tudo, querem ser amadas e merecedoras de alguma esperança e de alguma felicidade.
Não considero A desumanização um livro tão imperdível como O filho de mil homens. Neste caso, não há realmente amor como o primeiro… Contudo, é uma achega muito significativa para quem já se apaixonou pelo estilo peculiar e característica deste autor emergente ou para quem queira entrar pela primeira vez no seu mundo.
Algumas passagens:
“Quem não sabe perdoar, só sabe coisas pequenas.” 
“As pessoas que não liam não tinham sentidos. Andavam como sem ver, sem ouvir, sem falar.” 
“Quando for grande, quero ser de outra maneira. Quero ser longe. Eu respondia: ninguém é longe. As pessoas são sempre perto de alguma coisa e perto delas mesmas. A minha irmã dizia: são. Algumas pessoas são longe. Quando for grande quero ser longe.” 
“Queria proteger contra o esquecimento. A maior vulnerabilidade do humano, a contingência de não lembrar e de não ser lembrado.” 

NOTA – 08/10

Sinopse
«Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.»

Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza.

Os monstros também amam, de Clara Sánchez

Quinta-feira, 17 de abril de 2014




Opinião
Hoje, que estou a desfrutar de uma noite “home alone”, com a casa por minha conta J, acabei de ler Os monstros também amam já no conforto dos lençóis!
A obra é sobre uma jovem grávida – Sandra – que “foge” de Madrid, de uma vida que se estava a tornar claustrofóbica e se refugia numa localidade à beira-mar. Lá, conhece um casal octogenário, que se propõe “cuidar” dela.
Pouco tempo depois, Sandra trava também conhecimento com outro octogenário, Julián, que lhe confidencia que viajou desde Argentina até aquele local, para cumprir o último desejo de um amigo e que esse desejo está intimamente ligado ao casal que tem protegido Sandra, já que os mesmos são, nada mais nada menos que um casal de ex-nazis que nunca foram condenados pelos horrores que praticaram durante a Segunda Guerra Mundial.
Perante este resumo poderia dizer, sem margem para dúvidas, que este romance possui ingredientes fantásticos para uma leitura entusiasmante, sobretudo para alguém como eu, que já confessou vezes sem conta ser um nadinha “viciada” em histórias que girem à volta de um tema tão arrebatador como o é tudo o que se relacione com esse conflito mundial. Contudo, e para grande frustração minha, Os monstros também amam não me conquistou… O que poderia ser uma obra empolgante, repleta de momentos interessantes, de suspense e que assim nos agarraria até ao seu final, peca porque se torna previsível, com passagens pouco credíveis e com algo que, para mim, é quase imperdoável – falta-lhe intensidade psicológica. Como pode uma obra que se propõe abordar temas tão inquietantes (e que mexem com o mais profundo de nós) não explorar tudo isso, não apresentar-nos personagens mais densas, não aprofundar verdadeiramente o seu lado íntimo, as suas emoções, os seus pensamentos, os seus atos?...
Por tudo isto, reina alguma frustração, pois sinto que a leitura desta obra aguçou o meu apetite com o seu título (um pouco enganador e que nada tem a ver com o título original – Lo que esconde tu nombre), com a sua sinopse e inclusive com a sua capa (que, mais uma vez, não tem relação nenhuma com a protagonista) e que, infelizmente, a sua narrativa, ou seja, o seu “prato principal”, se revelou insosso e algo dececionante.
Essa deceção ainda dói mais, porque no dia em que a literatura mundial perde um dos seus grandes nomes, sentir-me-ia muito mais realizada se tivesse “honrado” o prazer e a importância que os livros têm na minha vida com uma daquelas leituras, que me preenchem e me trazem aquele sabor…
¡Hasta siempre, Gabo! Te echaré mucho de menos, a ti a todo que todavía podrías ofrecernos…

NOTA – 06/10

Sinopse

Sandra tem 30 anos, está grávida de um homem que não ama e decide ir viver para uma pequena aldeia costa leste espanhola. Num dos seus passeios pela praia conhece os Christensen, um casal de octogenários noruegueses e estabelece com eles uma relação de proximidade.
Nada faria supor que estas três vidas, unidas por acaso, pudessem ser a razão de viver de Julián, um homem recém-chegado da Argentina que segue, passo a passo, os noruegueses. Um dia Julián aborda Sandra e revela-lhe detalhes do seu passado e do dos seus novos amigos. E conta-lhes que os Christensen não são quem aparentam ser. Repleto de suspense e emoção, Os Monstros Também Amam é, acima de tudo, um romance sobre as ambiguidades do ser humano, entre a maldade e o amor, e sobre a forma como as aparências escondem o lado mais negro de cada um de nós.

Não te movas/Não te mexas, de Margaret Mazzantini

Sábado, 29 de março de 2014



Opinião
Não resisti. Bom, para ser sincera, não opus qualquer resistência à vontade de reler a obra que me abriu as portas ao mundo literário da “minha” Margaret Mazzantini J
Li Não te movas há mais de cinco anos (publicado ainda com este título pela Dom Quixote – foi reeditado mais tarde pela Bertrand e inexplicadamente com o título Não te mexas), depois de o ter comprado porque a minha intuição me dizia que ia ser uma daquelas leituras. Sim, uma daquelas leituras que tomam conta de mim, que me seduzem por completo, que me envolvem de tal forma que sei de antemão que ficarão comigo para sempre… E esta ficou. Sem qualquer dúvida.
Foi com este romance que me apaixonei perdidamente pela escrita de Mazzantini, pelas suas histórias, pela maneira como põe em palavras os nossos sentimentos, sonhos, anseios, desilusões… É uma escritora fabulosa, não só por esse lirismo tão próximo da nossa realidade como também pela qualidade da sua escrita, dramática, tensa, onde predominam as frases curtas que, nessas poucas palavras, nos transmitem tudo de um modo perfeito e absoluto.
Não te movas é uma obra triste, tal como as outras que já li da autora. É dolorosa, comovente, machuca-nos, mas não podemos deixar de lê-la, é impossível. Chega-nos através de um monólogo doloroso de um pai que vê a sua vida virar do avesso quando toma conhecimento de que a sua filha de quinze anos está entre a vida e a morte, deitada numa cama dos Cuidados Intensivos do hospital onde ele trabalha. Este acontecimento terrível vai abalar a vida aparentemente estável deste prestigiado cirurgião e desencadear um sem número de perguntas, dúvidas e reflexões sobre a sua vida presente, passada e futura.
Para mitigar a dor de poder “ficar órfão” de filha, Timoteo inicia o referido monólogo (dirigido à filha e também a si próprio) no qual abre o seu coração, não de forma cirúrgica, como faria com qualquer um dos seus pacientes, mas recorrendo a “um bisturi que penetra a carne viva das recordações”. Somos assim levados a viajar até vários momentos do seu passado, que nos põem a nu a fragilidade e contradições deste cirurgião intocável. E tornámo-nos cúmplices do seu mais guardado e até aí não partilhado segredo – uma estranha, inusitada, algo sórdida, mas pungente história de amor, que me levou às lágrimas (tantas e tantas vezes) de tão bela e sofrida que é.
Não te movas é, por tudo o que foi dito e pelo tanto que ficou por dizer, uma obra lindíssima e que merece ser lida por todos aqueles que se pelam, que anseiam por uma história que os abane, que os toque no que têm de mais íntimo e os faça não querer largar o livro mesmo quando leem a sua última frase. É esse o poder que as obras desta magnífica escritora têm e que me faz lê-las, relê-las e esperar ansiosamente por novas obras!
Deixo-vos algumas passagens:
És a minha garra no mundo, Angelina, neste mundo que avança sem mudanças de estação.” (pág. 63)
Quando lhe caí em cima, fiquei dentro dela demoradamente sem me mexer, olhando-a nos olhos claros e desfeitos. Ficámos assim, parados naquele campo de fogo. Uma lágrima desceu-lhe pela têmpora, recolhi-a com os lábios. Já não tinha medo dela, pesava-lhe em cima como um homem, como um filho.
«Agora és minha, só minha»” (pág. 88)
Os amores novos são cheios de medo, Angela, não têm um lugar no mundo e não têm fim de linha” (pág. 89)
O que quer dizer amar, minha filha? Tu sabes? Amar para mim foi ter a respiração de Italia nos braços e aperceber-me de que qualquer outro ruído se tinha apagado. Sou médico, sei reconhecer as pulsações do meu coração sempre, mesmo quando não quero. Juro-te, Angela, era de Italia o coração que batia dentro de mim.” (pág. 104)

Sinopse

Não te movas é a história de muitas histórias de amor, um romance pungente, cheio de ritmo e suspense em que as palavras penetram fundo na alma dos protagonistas, arrastando o leitor da primeira à última página. Uma obra inesquecível que apresenta Margaret Mazzantini ao leitor português.

Mar de mañana, de Margaret Mazzantini

Terça-feira, 10 de fevereiro de 2015





RELEITURA

Sinopsis
Jamila tiene apenas veinte años y ya es viuda y madre. Su hijo Farid ha crecido rodeado del polvo rojo del desierto y nunca ha visto el mar. La guerra arrasa su país, Libia, y Jamila sueña con buscar refugio en Italia. Así, emprende con Farid un viaje en barcaza, prometiéndole que durará menos que una canción de cuna.
Desde la otra orilla, Angelina ve los navíos procedentes de Trípoli llegar a puerto. Hace cuarenta años emprendió el mismo viaje y ahora rememora la imagen del temible Gadafi, los amigos árabes que la recibieron y a Alí, su promesa de amor.
Los caminos de Angelina y Jamila nunca se cruzarán, pero ambas tejen distintas tramas de una misma historia.

Opinião
Li algures que Mazzantini vomita lirismo e não podia estar mais de acordo. Esta autora italiana é, sem dúvida alguma, uma das minhas favoritas e nunca consigo resistir a ler e a reler as suas obras. A prova do QUANTO eu sou viciada no que edita (e sou mesmo, mas mesmo viciada) é que já reli as três obras dela que moram na minha estante.
Li pela primeira vez Mar de mañana o ano passado (no início de março) e simplesmente não resisti a lê-lo outra vez, tão presa me sinto ao estilo de Mazzantini, ao quanto as suas histórias nos transmitem de lirismo, beleza, imagens densamente carregadas de sentimentos, sensações e da complexidade do que nos define como seres humanos.
Tal como nas suas outras obras (Vir ao mundo e Não te movas), a maternidade/paternidade é um dos temas principais. As protagonistas são duas mulheres, de idades distintas, que vivem nas margens opostas do Mar Mediterrâneo, mas que têm em comum o amor pelo seu filho único e por um país, uma pátria que lhes foi arrancada – Líbia – pelas atrocidades de uma guerra que não parece terminar e que tem como líder o ditador Kadafi. São duas mulheres de personalidade forte (como qualquer personagem feminina que habita as obras de Mazzantini), que conhecem bem de mais as adversidades da vida, mas que não vergam perante as mesmas. De maneira nenhuma.
Jamila é uma doçura de mãe-menina. Com apenas vinte anos, perde um dos homens da sua vida e tem que encontrar forças e ânimo para continuar a velar e a proteger o outro homem da sua vida – o pequeno Farid, que olha para a sua progenitora e vê nela muitas vezes uma irmã ou uma namorada, tal é a cumplicidade que os une e a curta diferença de idades que os separa.
Angelina aprendeu desde muito nova a não confiar na vida e nos outros, a depender de si mesma para sobreviver, pois a sua existência, desde que teve que deixar para trás a sua infância numa Trípoli que não tinha mais lugar para os italianos, não tem sido mais do que uma sobrevivência, um dia atrás do outro sempre lutando por um lugar num país que é apenas seu nos documentos de identificação.
Entre estas duas mulheres cujas vidas, tal como nos é dito na sinopse, nunca se cruzarão, encontra-se um mar que é visto ou como a única hipótese de salvação ou como um obstáculo intransponível entre uma época de felicidade, inocência, amor, vida e um presente estagnado, nublado e que não oferece perspetivas de futuro. Mas é também um mar que permite a Angelina e ao seu filho Vito um escape, horas e horas nadando contra as suas correntes, que culminam num esgotamento físico que conduz ao esquecimento, ao pôr de lado tudo o que os angustia.
As 129 páginas (tão pouquinhas L e com uma letra gordinha) desta obra oferecem-nos assim um retrato de vidas atormentadas e desfeitas, por um lado pelo poder aniquilador de uma guerra incompreensível (como todas, ao fim e ao cabo) e por outro o quanto uma existência feliz, serena pode ser arrasada por uma onda, que nos pode devolver à margem, à praia, ou que pode levar-nos consigo. De uma maneira ou de outra, nunca nada mais será igual. Se sobrevivermos, seremos apenas isso – sobreviventes. Aprenderemos a suportar o dia-a-dia mas, ao mesmo tempo, a esperar por algo, um momento, que nos faça parar de sentir estrangeiros dentro do nosso país. Dentro da nossa vida.
Não tenho muito mais para acrescentar. Apenas que tenho muita pena que as editoras portuguesas tenham deixado de publicar as obras desta magistral autora e que tenha que recorrer às editoras de “nuestros hermanos” para conseguir continuar a saborear os romances dela. Foi exatamente isso que fiz na última visita às livrarias de Vigo. Saí de lá com a minha gula saciada – um dos livros que “me compré” foi Nadie se salva solo, obviamente da autoria da minha querida Mazzantini!

Por último um apelo – se não conhecem esta autora, não hesitem em ler qualquer uma das suas obras – não se arrependerão!

NOTA – 9/10 (apenas porque é uma obra pequenina e porque queria mais…)

O apocalipse dos trabalhadores, de Valter Hugo Mãe

Domingo, 02 de março de 2014




Sinopse
A resistência de Maria da Graça e de Quitéria, duas mulheres-a-dias e carpideiras profissionais que, a braços com desilusões e desconfianças várias acerca dos homens, acabam por cair de amores quando menos esperam. Com isso, mudam radicalmente o que pensam e querem da vida.
Este é um romance sobre a força do amor e como ela se impõe igual a uma inteligência para salvar as personagens das suas condições de desfavor social e laboral.
Passado na recôndita cidade de Bragança, este livro é um elogio à força dos que sobrevivem, dos que trabalham no limiar da dignidade e, ainda assim, descobrem caminhos menos óbvios para a mais pura felicidade.

Opinião
Terminei de ler esta obra em frente à lareira e enroscada numa manta J Tão bom!!!
É o terceiro livro que leio de Valter Hugo Mãe. E, como seria de esperar, não me desiludiu. Não o considero tão bom como o meu favorito até agora, O Filho de mil homens. Mas, mesmo assim, muito recomendável, sobretudo para quem já se rendeu à escrita deste prometedor escritor ou para quem ainda não teve o prazer de o descobrir.
Em O apocalipse dos trabalhadores reina a realidade de gente comum, anónima, trabalhadora e sofredora. E reina a mestria da escrita do seu autor, que transforma a vida de duas mulheres-a-dias, nos faz entrar em suas casas, nas suas rotinas e sobretudo nos seus sonhos, nos seus medos, nos seus desafios, nas suas desilusões e na cumplicidade que as une e que as faz não soçobrar.
Maria da Graça e Quitéria são as personagens principais. Vivem das limpezas que fazem em casa de outras pessoas e ganham um dinheirinho extra como “carpideiras” de velórios onde faltam familiares e amigos que chorem pelo defunto. Apesar de a vida ter sido pouco solidária com estas mulheres, não deixam de sonhar com uma vida melhor e principalmente com a força de um amor que as faça sentir realizadas e completas. Maria da Graça está presa a um casamento e vai iludindo o coração com uma relação sexual pseudo-forçada que mantém com o Sr. Ferreira. Por sua vez, Quitéria encontra o amor num imigrante ucraniano, mais novo do que ela e que a princípio não sabe uma palavra da língua lusa.
São principalmente as duas personagens femininas e  a do ucraniano que nos acompanham, preenchem uma narrativa que nos faz tomar mais uma vez consciência da precariedade do trabalho, do quanto o interior de Portugal sofre com a pouquíssima oferta laboral e do quanto, paradoxalmente, ainda há quem imigre para o nosso país porque o seu próprio país está em piores condições.
Com tudo isto, poderíamos assumir que este romance é triste e amargurado. Sim, é-o, mas a tristeza e a amargura são muitas vezes camufladas, abafadas por momentos que provocam o riso, como aqueles que Maria da Graça e Quitéria protagonizam em noites que passam a velar defuntos desconhecidos em locais isolados ou em conversas cúmplices que aquecem as suas vidas sofridas e maltratadas.

É, por fim, um romance, tal como nos diz a sinopse, que elogia a força interior e exterior dos trabalhadores, dos que labutam sem descanso e que sonham com a força do amor, que pode aparecer quando menos se espera e de quem menos se espera. E é, por que não, um retrato do nosso Portugal mais genuíno e castiço.

Os Peixes da Amargura, de Fernando Aramburu

Quinta-feira, 30 de janeiro de 2014




Sinopse
Para lidar com o transtorno de uma filha hospitalizada e inválida, um pai atém-se às suas rotinas e passatempos, como cuidar dos peixes no seu aquário; um casamento acaba em enfado, ante o instigar dos fanáticos contra o vizinho, à espera que este se mude; um homem faz o possível para evitar que o ignorem e vive aterrorizado porque todos lhe voltam as costas; uma mulher decide partir com os filhos, sem perceber porque a acusam.
Em jeito de crónica ou reportagem, de testemunhos na primeira pessoa, de cartas ou relatos contados aos filhos, Os Peixes da Amargura reúne fragmentos de vidas nas quais, sem dramatismo aparente, só emerge a emoção - simultaneamente uma homenagem ou denúncia - de forma indireta ou inesperada, a que seja mais eficaz. 
Num estilo ilusoriamente simples, Os Peixes da Amargura transporta-nos para um quotidiano inquietante, onde o prosaico convive com o arrepiante, tendo por pano de fundo um País Basco e a sombra tenebrosa da ETA. 
Pela variedade e originalidade dos narradores e abordagens, a riqueza dos personagens e as suas diferentes experiências, Aramburu transforma uma imagem inesquecível dos anos de chumbo e sangue num romance de tremendo impacto.

Opinião
Numa das habituais conversas “literárias” com “a minha” Nancy confidenciei-lhe que estava deslumbrada com as descobertas que vinha fazendo da literatura castelhana e que muitas delas se deviam às páginas oficiais de editoras, bem como a outras a que estou associada em redes sociais. Mencionei ainda que, numa das últimas deambulações pela página da Alfaguara espanhola, “havia tropeçado” em livros de um autor basco e que os mesmos me haviam espicaçado a vontade de ler, pela primeira vez, algo escrito por um basco. Aqui, a Nancy disse-me o que estou sempre ansiosa por ouvir – que tinha uma obra de um autor dessa região autónoma, uma coletânea de contos, que abordava “um quotidiano inquietante, onde o prosaico convive com o arrepiante, tendo por pano de fundo um País Basco e a sombra tenebrosa da ETA”. É óbvio que fiquei de imediato em pulgas!!! Como poderia não ficar?...
Não sou grande admiradora de contos. Penso sempre que são como dar um docinho a uma criança e tirá-lo a meio, quando se está a lamber a boca, a saborear a doçura e já a salivar de prazer J Mas tenho que confessar que todos os contos de Os Peixes da Amargura conseguiram, apesar do seu título “amargo”, deixar-me um sabor pleno e muito aprazível na alma. Porque transmitem-nos emoções, convidam-nos a entrar na vida quotidiana da gente basca, de homens e mulheres que conviveram e convivem de perto com a luta fratricida por um objetivo, pelo nacionalismo e independência de uma região que se sente sufocada pelo poder central.
A obra é composta por dez contos e, no seu conjunto, através de uma linguagem simples, que não cai na lamechice, mas que nos comove e nos faz experimentar sentimentos distintos, agarrou-me, cativou-me e deixou-me com vontade não só de relê-lo muito brevemente como de adquirir a sua versão traduzida para português J!

1.   “Os Peixes da Amargura” – o conto que abre a obra é também aquele que lhe dá o nome. Debruça-se sobre uma família cuja filha foi uma vítima inocente de um ataque bombista. Todos os seus parágrafos acabam intencionalmente com a palavra “triste”. Porque esse é o sentimento que nos domina ao lê-lo…

2.   “Mães” – a dor de uma mãe que perde o filho, morto por um guarda civil, em contraste gritante com a dor de uma mulher e mãe de outro guarda civil que, como represália, é barbaramente assassinado. “… uma mistura de desânimo e de compaixão ao ver que existem pessoas convencidas de que, para criar o país dos seus sonhos, têm de causar forçosamente dor ao próximo.” (pág. 45)

3.   “Maritxu” – uma mãe viúva. Um filho “gudari” (soldado da causa basca) preso por ter estado envolvido num ataque bombista. Uma mãe que faz visitas assíduas à prisão, mas que se sente dividida – “Que matem guardas e bufos, vá lá. Mas crianças, não”. (pág. 57)

4.   “O melhor eram os pássaros” – um dos meus favoritos. Relato doloroso de uma mulher, que está prestes a ser mãe e que se dirige a esse filho ainda por nascer, para contar-lhe como foi o dia em que perdeu para sempre o seu pai. “Tiraram-vos o avô, filho. Tiraram-vos um dia numa terra distante, vai fazer vinte anos”. (pág. 72) “Roubaram-me o pai, mas sou eu quem decide a lembrança que guardo dele” (pág. 77)

5.   “A colcha queimada” – a noite de um casal de meia-idade é de novo abalada pelo ataque a um vizinho vereador, o qual desencadeia uma desavença mais num matrimónio já desgastado pela vida em comum.

6.   “Relatório de Creta” – o meu conto favorito. O poder do verdadeiro amor que tudo consegue, até mesmo “curar” um filho, já adulto, que presenciou o assassinato do seu “aitá”, do seu pai. “À noite, depois do beijo de despedida, perguntei-lhe se queria que lhes trouxesse alguma coisa de San Sebastián. «Traz-me o meu pai.»” (pág. 121)

7.   “O inimigo do povo” – Como um rumor, um mal-entendido, algo que apenas presenciámos pode desencadear uma onda de ódio e de desprezo por alguém até aí nosso amigo, compincha habitual de tardes passados num bar. “… da próxima vez há de ser pior, amigos asquerosos dos fascistas, não vamos parar de malhar até se porem ao piro.” (pág. 145)

8.   “Pancadas na porta” – narração do dia-a-dia de um “gudari” preso numa solitária. É mais uma prova do quanto o estilo e a escrita de Aramburu são inteligentes e sedutores porque conseguem que o leitor até sinta compaixão por um assassino.

9.   “O filho de todos os mortos” – outro dos meus favoritos. Mais um adolescente a quem roubaram o direito de nascer e crescer na companhia do pai. “– Ouve, amá, porque me dás sempre dois beijos e os contas? – Um é meu, o outro de quem nunca te pôde beijar.” (pág. 185). Ao terminar este conto, de novo me questionei – como é possível que alguém que assassina outro seja aclamado e homenageado publicamente como um herói?...

10.        “Depois das chamas” – escrito como um texto dramático, é um exemplo de como se pode fazer comédia através da tragédia.

Resumindo, Aramburu conquistou-me, sem dúvida. A sua escrita é realmente ilusoriamente simples, mas que nos chega ao coração, nos faz derramar algumas lágrimas (eu que o diga), indignar-nos com a crueldade e cegueira de alguns e compadecer-nos com o sofrimento e tristeza de outros. E, não menos importante, ensinou-me algumas palavras de basco, uma das línguas europeias mais difíceis, mas que não importava nada de aprender J

Recomendadíssimo!!! Gracias, Nancy J

Coração tão Branco, de Javier Marías

Domingo, 12 de janeiro de 2014



Sinopse
Durante um almoço de família, Teresa, acabada de regressar de lua-de-mel, vai à casa de banho, olha-se ao espelho, desabotoa a blusa e mata-se com um tiro no coração. Muitos anos depois, este segredo continua a fascinar Juan, cujo pai foi casado com Teresa antes de casar com a sua mãe. Jovem e recém-casado, e ainda pouco adaptado à mudança de estado civil, Juan procura descobrir o motivo por trás do suicídio de Teresa. Só uma pessoa sabe porque Teresa o fez e guardou para si esse segredo obscuro durante muitos anos. À medida que procura saber mais, Juan sentirá um mal-estar crescente, uma sensação de «desastre iminente» em relação ao seu próprio casamento. A chave desse mal-estar, porém, pode estar no passado, uma vez que o pai haveria de se casar três vezes antes de ele poder nascer… Um romance hipnótico sobre o segredo, o dito e o não-dito, o casamento, a suspeita e a tentação. Uma história de corações brancos, que se vão tingindo e acabam por ser o que nunca quiseram ser.

Opinião
Este é o segundo livro de Javier Marías que leio e cada vez estou mais empolgada com este escritor castelhano!!! Tal como Os Enamoramentos, Coração tão Branco é um livro que nos prende a atenção desde o seu início – a tragédia que ocorre no seio da família do protagonista ainda este não era nascido possui todos os ingredientes para cativar-nos, para deixar-nos em polvorosa porque queremos saber o que esteve por detrás do suicídio de alguém recém-casado e supostamente feliz. Contudo, tenho que confessar que, por muito intrigante e emocionante que seja o início da obra, o que mais me arrebatou foi o que caracteriza o estilo deste fantástico autor, a estrutura complexa da obra, com um desfiar, do princípio ao fim, dos pensamentos do narrador sobre variadíssimos assuntos – casamento, relações humanas, segredos, suspeitas, o poder das palavras. Enfim, é um romance (como o é Os Enamoramentos e espero que sejam as outras obras do autor que ainda tenho que descobrir J) denso, intricado, onde o pensamento e a divagação se sobrepõem à ação, mas sem a prejudicar. Um romance que me estimula, que puxa por mim, que me faz crescer enquanto leitora e enquanto pessoa!
Tal como referi antes, o capítulo inicial reporta-se a um acontecimento trágico na família do narrador e que sempre o deixou intrigado, sobretudo porque envolveu diretamente o seu pai, que era o marido de Teresa, a mulher que se matou com um tiro no coração. A reconstrução dos factos através de testemunhos fará assim parte do desenvolvimento da narrativa, bem como a descrição dos primeiros tempos de outro casamento, do casamento do protagonista que parte com a sua mulher, Luisa, em viagem de lua-de-mel para La Habana. Será principalmente aí, na ilha cubana, que penetraremos no íntimo do nosso narrador/protagonista e desfrutaremos dos seus pensamentos e divagações sobre, por exemplo, o casamento, sobre o que se segue na vida de alguém casado, de alguém que poderá dessa forma perder a sua individualidade e/ou começar a ver a vida de outro prisma, do prisma de quem já não será uno, mas sim a metade de uma parte… Compreenderemos igualmente o quanto o casamento pode ser uma prisão, um grilhão que nos torna escravos, com tal uma falta de liberdade que poderá motivar alguém a cometer um crime…
O matrimónio do narrador servirá ainda como o exemplo perfeito do comportamento que cada um dos seus componentes toma. Amando profundamente o outro, temos consciência da plena importância do que partilhamos, do que dizemos, do que fazemos, mas também do que calamos, do que escondemos, do que esquecemos, do que fazemos por ignorar e para manipular, consciente ou inconscientemente, quem está ao nosso lado e prometemos amor, fidelidade e sinceridade.
Sendo assim, quando, no final da leitura, descobri o que na verdade provocou o suicídio de Teresa, senti que o propósito desta obra magistral de Marías não foi essa descoberta, que a mesma foi apenas algo mais que se adicionou ao que considero a essência de Coração tão Branco – entrar na nossa alma, perturbar (de forma positiva) a nossa forma de pensar, de ver as coisas, fazer-nos refletir e compreender o quão complexo é o comportamento do ser humano.
Concluo afirmando que, sem dúvida, as obras de Javier Marías me conquistaram por completo e que anseio, que QUERO ler os seus outros romances, os já publicados e os que sei que irá publicar!

Não resisto a deixar aqui algumas passagens que ilustram na perfeição a densidade e riqueza da prosa de Marías:
“(…) pensar no futuro, que é um dos maiores prazeres concebíveis para qualquer pessoa, se não mesmo a salvação diária de todos nós: pensar vagamente, errar com o pensamento direcionado para o que há de vir ou poderá vir, perguntarmo-nos sem excessiva precisão ou interesse o que será de nós já amanhã ou daqui a cinco anos, por aquilo que não prevemos.” (pág. 22)

Assim dorme (…) a maioria dos casais e namorados, os dois voltam-se para o mesmo lado quando se dão as boas-noites, de modo que um passa a noite inteira de costas voltadas para o outro e sabe que está amparado por ele ou por ela, por esse outro, e, a meio da noite, ao acordar sobressaltado por um pesadelo ou sentindo-se incapaz de conciliar o sono (…) basta-lhe dar meia-volta e ver então, à sua frente, o rosto daquele que o resguarda, que se deixará beijar em tudo o que no rosto for beijável (…)” (pág. 88)

A língua ao ouvido é também o beijo que melhor convence a quem se mostra avesso a ser beijado, às vezes não são os olhos, nem os dedos, nem os lábios a vencer a resistência, mas apenas a língua que indaga e desarma, a que sussurra e beija, a que quase obriga.” (pág. 90)

Rosa Candida, de Audur Ava Ólafsdóttir

Sexta-feira, 26 de dezembro de 2014




Sinopse
Um jovem decide deixar a casa da sua infância, o irmão autista, o pai octogenário e as paisagens familiares de campos de lava cobertos de musgo, em busca de um futuro desconhecido.
Pouco antes da sua partida recebe um terrível telefonema: a mãe falecera num acidente de carro. As suas últimas palavras tinham sido de doce conselho ao filho, incitando-o a continuar o trabalho que partilhavam na estufa, mais especificamente o cultivo de uma variedade de rosa rara, a Rosa Candida.
Antes da morte da mãe, naquela mesma estufa, vivera um breve encontro de amor. Foi quando já preparava a sua partida que soube que, nessa noite, concebera inocentemente uma criança. Atordoado com todos estes súbitos acontecimentos, procura refúgio, recolhendo-se num majestoso jardim abandonado de um antigo mosteiro europeu. É aí que se vai dedicar a fazer florescer aquela rosa rara de oito pétalas. Ao concentrar a sua energia no seu cultivo, aprende também, sem dar por isso, a cultivar o amor.
Rosa Candida é a história de um jovem que assume o papel de pai ao mesmo tempo que se torna homem. Uma história de amadurecimento, sobre a beleza da vida e a forma como pequenas e simples experiências podem muitas vezes transformar a realidade numa extraordinária e incomum vida. Um livro impressionante que nos faz perceber que mudar, por vezes, é tudo o que precisamos...

Opinião
         Rosa Candida não foi o primeiro livro desta autora (de nome “impossível” de dizer – e de escrever!) que me “piscou o olho”! Uma vez mais, numa das muito frequentes visitas que faço aos sítios das “minhas editoras”, “tropecei” na sinopse da última obra publicada pela autora – La excepción, considerada o seu melhor romance até à data. Contudo, como podem perceber pelo título, o referido romance ainda não está traduzido para português… Sendo assim, prossegui as minhas nada penosas deambulações pelos habituais sítios e felizmente descobri que a editora Marcador havia publicado outro romance desta autora islandesa, que não só me seduziu pela sua capa lindíssima como também pela sinopse e pelo facto de haver sido traduzido e recomendado por João Tordo!
Aproveitei uma das recorrentes promoções da Betrand (que são sempre bem-vindasJ) como desculpa para adquirir Rosa Candida, mas a ordem cronológica que “ordena” as minhas leituras apenas me permitiu que o lesse nesta época natalícia.
A viagem que nos oferece a narrativa deste livro começa na ilha natal da autora, onde conhecemos o protagonista (também ele dono de um nome impronunciável, mas tratado carinhosamente pelo pai de Lobbi), o qual nos põe a par da sua história, passada, presente e do único projeto que quer concretizar – sair de casa dos pais para ir viver durante uma temporada numa povoação, perdida num país que não sabemos qual é, e assim poder pôr em prática o sonho que partilhava com a mãe – cultivar uma variedade de rosa rara, a Rosa Candida, no considerado mais belo jardim de rosas do mundo.
Não é de forma inconsciente que afirmo que a obra nos dá a possibilidade de acompanhar a viagem de Lobbi, a viagem da sua vida, uma viagem física, que o leva para longe do seu país, da sua casa, do seu ninho (onde já não mora a sua mãe, o coração daquele lar, a quem Lobbi era mais chegado), mas também uma viagem espiritual e de crescimento, que transformará o nosso protagonista, que o fará deixar de ser uma criança grande para tornar-se um adulto capaz de tomar decisões por si mesmo, de tomar conta de si, de ser independente e de responsabilizar-se pelas suas ações.
Como leitora, fui compreendendo que, através de uma linguagem muito simples, sem artifícios, aliada a um rol de acontecimentos que sacodem inesperadamente as vidas de Lobbi e dos que o rodeiam, este romance parece querer mostrar-nos que não devemos fugir, que não devemos desistir, que devemos retirar uma lição de tudo o que de bom e mau nos acontece, que a vida é tão delicada e rara como uma rosa de oito pétalas, que pode não florescer numa terra vulcânica e agreste como a Islândia, mas que, se for transportada com carinho e amor, pode sobreviver aos tumultos de uma viagem e encontrar o seu jardim, o seu futuro, a sua razão de existir longe de tudo o que nos é familiar, num terreno abandonado e maltratado, mas que ainda possui no seu âmago o que necessita para renascer.
Ainda como leitora, posso acrescentar que gostei de ler este livro. Gostei, tal como já referi, da evolução que se vai dando, ao longo da narrativa, na vida de Lobbi; da relação especial que ele teve com a mãe, de como ela influencia e guia as suas ações e pensamentos, mesmo já não estando viva; da forma paternalista como trata o pai; da delicadeza com que ele trata os pés de rosa que transporta consigo durante a viagem; e do tumulto de emoções que sente aquando do nascimento da sua filha, Flóra Sól. Gostei sobretudo da maneira atabalhoada (e posteriormente quase perfeita) como Lobbi trata de Flóra Sol e da mãe desta e como a ideia de família começa a encaixar-se na sua vida de até há bem pouco tempo filho da mamã e do papá, sem mais preocupações que as de um amante de rosas.
Rosa Candida é assim um livro que se lê com gosto, que nos entretém, que nos faz espreitar (como se fosse pelo buraco de uma fechadura) para um país que, pelo menos para mim, é quase desconhecido e que nos envolve como um ternurento e delicado conto de fadas. Tem alguns aspetos de que não gostei tanto, principalmente aqueles associados a alguma irrealidade que mexe com o meu lado cético – por exemplo, a ausência de referências que localizem geograficamente os locais da viagem de Lobbi. No entanto, consigo entender que essa irrealidade talvez seja propositada, que queira combater, como nos diz João Tordo, o realismo demasiado cru da literatura a que estou mais acostumada…
Por fim, e tal como já é habitual, deixo aqui algumas das passagens que fui sublinhando:
“Sempre que queria estar sozinho com a minha mãe, ia ter com ela à estufa ou ao jardim. Era aí que podíamos falar. Por vezes ela parecia distraída e eu perguntava-lhe em que estava a pensar, ela dizia: Sim, sim, gosto do que dizes. E depois oferecia-me um sorriso encorajante de aprovação.” (Pág. 20)
Ter um filho dá-te a certeza de que um dia irás morrer”. (pág. 126)

Os nossos corpos tocam-se, mas, por mais próximos que estejamos na cama, há um mar imenso que nos separa na solidão de cada. Sinto que a estou a perder, como perdi a minha mãe ao telefone (…)” (pág. 335)

O amor nos tempos de cólera, de Gabriel García Márquez

Domingo, 21 de dezembro de 2014




RELEITURA

Sinopse
O Amor nos Tempos de Cólera constitui na obra de Gabriel García Márquez um marco equiparável ao do célebre Cem Anos de Solidão, considerado até hoje, a sua obra-prima.

Opinião
Tenho que discordar do que é referido na sinopse. Para mim, e que me desculpem todos os que não concordam comigo, Gabriel García Márquez atingiu a perfeição com a narração de amores, misturada com uma crónica social da região caribenha, nos tempos de cólera.
Li pela primeira vez Cem anos de solidão há mais de quinze anos e já estive com a obra nas mãos para fazer-lhe a releitura que sinto que merece, mas confesso que não passei daí… Desfolhei-a, mantive-a na mesinha de cabeceira por umas horas, mas, por fim, tive que voltar a pô-la na estante, porque sei que reler uma obra que está repleta de um número quase infinito de personagens, com o correspondente número de nomes (que ainda por cima são muito parecidos), de situações confusas, escrita com um estilo que vive do realismo mágico levado ao extremo (e que, para uma cética como eu, é demasiado para “poder ser engolido” como crível) seria uma pequena tortura, tal como foi quando a li pela primeira vez… Por todas estas razões, ao mesmo tempo que devolvia Cem anos de solidão ao lugar que ocupa na estante, decidi que seria bem mais saboroso recordar os amores de Florentino Ariza e da sua “deusa coroada”, Fermina Daza J
É certo que García Márquez deleita-nos com uma história recheada de sensualidade e poesia, que centra a sua ação nos cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias que Florentino vive à espera de que Fermina lhe abra a sua intimidade, se entregue a ele e possam assim gozar os prazeres de um amor recíproco. Mas O amor nos tempos de cólera é muito mais que uma história de amor. É uma porta que se abre e que nos dá a oportunidade de embrenharmo-nos na vida (dos finais do século XIX e princípios do século XX) de uma cidade portuária, dos seus habitantes, desde os aristocratas falidos, os comerciantes que vão ganhando a vida de forma mais ou menos legal até aos que vivem na miséria e tentam sobreviver em condições tão desumanas, que estão praticamente condenados a morrer de doenças como a cólera, que assolam a cidade demasiadas vezes. Oferece-nos igualmente uma paleta de costumes, mitos e tradições enraizados (de índole católica e pagã), de como o telégrafo revoluciona as comunicações e da importância que a navegação fluvial tem para a economia da cidade onde coabitam os nossos protagonistas. Já na última parte, o autor narra-nos a viagem “de núpcias” de Florentino e Fermina e em simultâneo vai-nos mostrando, sobretudo através das conversas que eles mantêm com o comandante do navio, o quanto a prosperidade das companhias de navegação fluvial estava diretamente relacionada com a destruição da fauna e flora das margens do rio Magdalena… Há então, nas páginas finais da obra (como acontece ao longo de toda a obra), um entrecruzar da belíssima história dos amores dos nossos protagonistas que conhece o seu desenlace feliz com a realidade económica da companhia dirigida por Florentino e também do seu país, uma realidade que não se restringiu à Colômbia, mas que infelizmente assolou outros países vizinhos – a sobre-exploração da natureza que levou à extinção de milhares de espécies…
Mas deixemos de lado estes factos menos positivos e centremos agora a nossa atenção na já tão conhecida e comentada demanda (de mais de cinquenta e um anos) de Florentino para entrar no coração e na vida da altiva e felina Fermina Daza. Centremo-nos na demanda que faz com que João Melo, no Posfácio que escreve sobre García Márquez e a sua obra, se refira a O Amor nos tempos de cólera como “um livro para viver” J. É óbvio que não posso deixar de concordar (e em absoluto), porque, num cenário onde impera a cólera que devasta populações, onde a morte ronda muito de perto as vidas dos dois protagonistas, Florentino não desiste de viver para conseguir que o seu amor seja correspondido, e, mesmo que só o tenha alcançado aos setenta e seis anos, consegue com isso dar-nos a melhor lição de todas – o amor não tem verdadeiramente idade, podemos ser tão ou mais felizes quando somos jovens ou menos jovens, que não devemos deixar que os anos que carregamos sejam um impedimento para a nossa felicidade, que somos donos do nosso destino, que somos nós que o escrevemos e o determinamos J! Perante tudo isto, como é possível não ficar rendida de corpo e alma a esta obra genial?...
Finalizo transcrevendo algumas das muitas passagens que sublinhei  e que são o exemplo perfeito (pelo menos para mim) do estilo poético, humorístico e cheio de pinceladas realistas e mágicas do autor. Aproveito ainda para assinalar que a edição que li (a 14ª edição das publicações Dom Quixote) está pontuada de gralhas que mostram que falhou o cuidado que deveria haver de uma editora tão reconhecida L
A sanita deve ter sido inventada por alguém que não sabia nada de homensJ (pág. 40)
A leitura converteu-se para ele num vício insaciável. J J(pág. 86)
O coração tem mais quartos do que uma pensão de putas.” (pág. 290)
Por outro lado, quando uma mulher decide ir para a cama com um homem não há muralha que não trema nem fortaleza que não caia, nem nenhuma consideração moral que esteja disposta a ser o seu fundamento; não há Deus que lhe valha”. (pág. 351)

Pois tinham vivido juntos o suficiente para se darem conta de que o amor era amor em qualquer tempo e em qualquer lugar, mas tanto mais denso quanto mais próximo da morte. (pág. 368)

Anna Karénina, de Lev Tolstói

Quarta-feira, 03 de dezembro de 2014



Sinopse
«Embora seja uma das maiores histórias de amor da literatura mundial, Anna Karénina não é apenas um romance de aventura. Verdadeiramente interessado por temas morais, Tolstoi era um eterno preocupado com questões que são importantes para a humanidade em todas as épocas. Bom, há uma questão moral em Anna Karénina, embora não aquela que o leitor habitual possa crer que seja. Esta moral não é certamente o ter cometido adultério, Anna pagou por isso (num sentido vago pode dizer-se que é esta a moral do final de Madame Bovary). Não é isto, seguramente, por razões óbvias: se Anna ficasse com Karenin e escondesse do mundo o seu affair, não pagaria por isso primeiro com a felicidade e depois com a própria vida. Anna não foi castigada pelo seu pecado (podia muito bem ter-se safado deste) nem por violar as convenções da sociedade, muito temporais como aliás são todas as convenções e sem ter nada a ver com as eternas exigências da moralidade. Qual era então a «mensagem» moral que Tolstoi queria passar neste romance? Entendemo-la melhor se olharmos o resto do livro e compararmos a história de Lévin e Kiti com a de Vronski e Anna. O casamento de Lévin é baseado num conceito metafísico, não apenas físico, do amor, na boa vontade e no sacrifício, no respeito mútuo. A aliança Anna-Vronski é fundada apenas no amor carnal e é aqui que reside a sua ruína.»
Do Posfácio, de Vladimir Nabokov

Opinião
Há muito tempo que sentia o bichinho de aventurar-me na leitura dos clássicos russos, mais propriamente nas obras aclamadíssimas de Lev Tolstói, como Guerra e Paz e Anna Karénina. Mas também é verdade que essa vontade arrefecia um pouco sempre que pegava numa dessas obras e via o quanto custavam L
Contudo, no passado dia da mãe, os homens da minha vida resolveram esse pequeno problema ao presentearem-me com o pesadíssimo (e ainda caríssimo – mas com as prendas há que pôr de lado esses pormenores materiais…) volume da Relógio D’água de Anna Karénina! Só o comecei a ler no início de novembro por questões que já expliquei em publicações anteriores (leituras sempre por ordem cronológica de chegada à minha estante J) e demorei praticamente um mês a terminá-lo, não só porque é um volume com muitas páginas, com uma letrinha miúda, mas também porque o trabalho não permitiu que a leitura avançasse a um ritmo mais célere!...
É óbvio que já tinha muitas “luzes” acerca da trama desta obra, nem que fosse apenas pelas variadíssimas adaptações cinematográficas já feitas. Sabia que a narrativa se centrava nos amores escaldantes e impossíveis que revolucionam a vida de uma aristocrata casada com um homem que não ama. Mas esses conhecimentos “spoilers” não retiraram o prazer inerente a qualquer livro que passa pelas minhas mãos, nem que seja pelo facto de ter absoluta consciência de que um filme é sempre redutor quando comparado à obra à qual foi “roubar” o seu argumento. Sendo assim, inaugurei a minha “entrada” no mundo de Karénina com o costumado entusiasmo e digo, desde já, que esse entusiasmo nunca arrefeceu, apesar de ter sentido alguma resistência nas partes mais descritivas e que abordam temas que nunca me interessaram, como a agricultura ou a política.
Bom, tal como já disse e como se pode confirmar pela sinopse/comentário de Nabokov, a protagonista que dá título ao romance é-nos caracterizada no início da narrativa como sendo uma mulher extremamente bela, que faz qualquer homem e mulher segui-la com o olhar (por razões obviamente opostas) mal entra numa sala. Também ficamos a saber que está casada com um homem mais velho, a quem devota sentimentos de respeito e cordialidade e com quem tem um filho que adora. Vive uma existência pacata, que se rege pelas tradições e normas típicas de alguém que pertence à aristocracia – festas, jantares, visitas sociais a amigos ou a conhecidos, participações em eventos, etc. Será, contudo, num desses eventos que a vida de Anna experimentará um momento de viragem irreversível ao travar conhecimento com aquele que, até ao momento, era o prometido da cunhada mais nova do seu irmão. Desde que vê Anna entrar na festa, com um simples vestido preto, mas que realça de forma estonteante a sua beleza, Vronski fica enfeitiçado e tudo faz para que ela repare nele e compartilhe do seu entusiasmo. Segue os seus passos, “tropeça” nela e sente que a sua insistência começa a produzir frutos sempre que vê nos olhos de Anna uma centelha de alegria e prazer.
Como leitores, entendemos perfeitamente que Vronski e a atenção que lhe dedica não são indiferentes a Anna, mas como mulher ainda me apercebi melhor disso quando, após o regresso a San Petersburgo (feito na companhia da mãe de Vronski), a nossa protagonista repara, como se fosse a primeira vez, no quanto lhe são desagradáveis as orelhas grandes do marido… Para mim, esta é prova chave de que, para Anna, já não há retorno à sua vida de antes, àquela que vivia tranquilamente, antes da aparição de Vronski. Por muito que a sua consciência e moralidade lhe digam que esse sentimento que sente desenvolver por esse belo jovem está errado, Anna não lhe resiste e começará assim a viver uma existência dupla e adúltera. Primeiro fá-lo-á às escondidas de todos, mas posteriormente desafiará o mundo russo ao sair de casa, acompanhada do fruto do seu amor e pronta para enfrentar tudo e todos!
Contudo, este desafio sair-lhe-á muito caro, sobretudo porque, enquanto mulher adúltera, será ostracizada, quase todos lhe virarão costas e Anna nunca mais terá a vida que sonhou que poderia ter com Vronski. E o sofrimento é ainda mais doloroso por ter noção de que, ao escolher viver o seu amor, perderá para sempre Serioja, o seu filho querido, aquele que eternamente será o seu menino, aquele a quem devota uma adoração tal que a impede de sentir o mesmo pela filha que teve com Vronski.
         É em tudo o referido até agora que reside a mestria de Tolstói, a utilização de uma linguagem simples, objetiva, realista, pormenorizada, para comunicar com o leitor, para dar-lhe a conhecer toda a história trágica de Karénina, o quanto ela sofreu (talvez, segundo depreendemos pela voz do autor, por culpa própria…), mas também o quanto fez sofrer o seu marido, Vronski e sobretudo o seu filho Serioja. Aliás, tomamos verdadeiramente conhecimento desse sofrimento numa pequena passagem da obra, mas que me enterneceu e tocou muito, pois Tolstói, em poucas páginas, põe em cena um Serioja mais crescido, mas que continua a sonhar com a mãe, a vê-la em todas as mulheres de cabelo negro que passam na rua e a ansiar pelo seu toque, pelos seus mimos, pelos seus beijos…
         Esta minha opinião (que já vai um pouco longa J) não ficaria completa se não fizesse referência a outros aspetos não menos importantes – a inevitável comparação dos amores de Anna e Vronski com os de Lévin e Kiti, a evidente identificação de Tolstói com a personagem de Lévin e a permanente sensação que experimentei em toda a leitura e que me fez recordar o realismo de Eça e associar Anna Karénina a Os Maias. Começando pelas duas intrigas amorosas paralelas, acho que é fácil de adivinhar (com a ajuda da sinopse) que o que, à partida, indicava que a relação adúltera de Anna iria acabar de modo trágico, indicava igualmente que os amores de Lévin e Kiti teriam o merecido final feliz. Já no que diz respeito à identificação do autor com a personagem de Lévin, posso dizer que não precisaria de ler o posfácio de Nabokov para compreendê-la! Lévin é-nos descrito, desde o início, como um homem de princípios, que se rege pela sua consciência e não para satisfazer os seus impulsos e que “sabe que é seu dever assimilar o mundo à sua volta de forma inteligente e trabalhar para ocupar nele o seu lugar”. Na última parte da obra, encontramos mais uma prova dessa identificação autor-personagem, já que Lévin (que sempre questionou a fé) sente crescer no seu íntimo (tal como Tolstói na altura sentia) a importância da religião vista como a ferramenta para acreditar e espalhar o Bem. Por fim, foi impossível não fazer associações entre o autor russo e o nosso mestre do Realismo, pois, para além das descrições pormenorizadas da vida política e económica do país (algumas chatinhas, mas que me mostraram um pouco como era a Rússia dos finais do século XIX), faz-nos um retrato fidedigno de todas as personagens, que nos expõe o seu carácter, com defeitos, qualidades, opiniões, sentimentos e aquela perceção de que o que vem de fora é que é bom, é mais avançado, mais moderno, enfim, melhor do que é nosso, tradicional, genuíno…
         Concluindo, Anna Karénina proporcionou-me (nos quase 30 dias que esteve nas minhas mãos) uma leitura muito agradável e cumpriu o seu principal objetivo – fazer-me entrar no mundo dos clássicos russos e conhecer a fundo uma das maiores histórias de amor da literatura mundial.

         Agora num tom mais cómico/irónico, não posso deixar de partilhar esta imagem, que apesar de estar em espanhol, espelha na perfeição o meu dilema face ao preço exorbitante de alguns livros como o de Anna Karénina: