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O violoncelo de Sarajevo, de Steven Galloway

Sexta-feira, dia 16 de outubro de 2015





Opinião
Podes não ter interesse na Guerra,
mas a Guerra tem interesse em ti.”
                                                        Lev Trotski

Na página imediatamente antes do início da narrativa de O violoncelo de Sarajevo encontrei-me com esta citação e logo ali pressenti que a Guerra, mais uma vez, me iria envolver nas suas teias e não me iria deixar escapar…
E não me resta outro remédio senão dizer que assim foi. Eu tenho um interesse quase doentio pela Guerra, uma antitética e perfeita mistura de atração e repulsa e, tal como já o referi em outras opiniões de livros “bélicos”, não consigo (nem quero) opor-lhe qualquer resistência. Permito que a Guerra me procure, me encontre, me faça sua prisioneira, porque desse “encarceramento voluntário” saio alguém mais completo, mais frágil, mais emotivo, mas sobretudo mais entendedor da complexidade e tortuosidade que nos compõem como seres humanos.
É claro que quando decidi comprar esta obra (de um autor até agora desconhecido) o fiz porque a sua temática, a sua sinopse e as opiniões sobre a mesma me seduziram. Não poderia ser de outra forma. Contudo, tenho que bendizer de maneira muito especial a hora em que o fiz, porque O violoncelo de Sarajevo é uma obra sublime, de mestre, que seguramente figurará na lista das melhores leituras deste ano.
É uma obra sublime porque nos agarra com a simplicidade da sua narrativa, conduzida magistralmente por um autor que, à semelhança de um maestro, nos presenteia um relato feito a quatro mãos e que nos magoa, se entranha em nós pelo cenário onde se desenrola, por uma ação que privilegia o íntimo, o que se passa no interior de cada personagem e, não menos importante, pelo não cair no melodramático tão facilmente associado a histórias de guerra, pela contenção que se respira ao longo da toda a obra.
É igualmente uma obra sublime porque nos chega através de capítulos dedicados a três personagens anónimas e que demonstram, através da narração do seu dia-a-dia, o quanto o povo, a gente que habita uma cidade e não possui meios para fugir, sofre com os horrores de uma guerra ditada por governantes, generais ou afins e que sempre escapam à miséria, à fome, à perda dos direitos mais essenciais à vida de um ser humano.
É ainda uma obra sublime porque despertou em mim aquela vontade de saber mais, de compreender o que esteve por detrás de mais uma guerra despoletada por ódios ancestrais, por ambições inexplicáveis e por vontades de independências que têm que ser concretizadas a todo o custo. Uma das provas do quanto o autor foi genial está nas pistas que vai deixando cair ao longo da obra e que me “obrigaram” a ler frequentemente ao lado de um computador ligado para, num clicar rápido, poder conseguir (ou tentar) entender o Cerco de Sarajevo e a guerra dos Balcãs. Pouco ou nada na obra nos diz claramente quem são “os homens nas colinas”, o porquê de Sarajevo ter sido sitiada e bombardeada durante quase quatro anos e de o conflito nos Balcãs ter tido lugar sobretudo aí, na capital do estado da Bósnia-Herzegovina. São poucas as passagens da obra que a isso fazem referência, mas as que existem são maravilhosamente simples e certeiras e levaram-me a querer saber mais:
A Sarajevo pela qual lutava era uma cidade onde uma pessoa não era obrigada a odiar outra por causa daquilo que essa pessoa era. Não importava aquilo que se era, quem tinham sido os antepassados ou o que seriam os filhos.” (pág. 107)
A Sarajevo real é aquela onde as pessoas eram felizes, se tratavam bem umas às outras, viviam sem conflitos? Ou é a Sarajevo que vê hoje, onde as pessoas se tentam matar umas às outras, onde balas e bombas voam das colinas e os edifícios se desmoronam?” (pág. 164)
O violoncelo de Sarajevo é, por fim, uma obra sublime porque partiu de algo real:
Às quatro da tarde do dia 27 de maio de 1992, durante o Cerco de Sarajevo, diversas granadas de morteiro atingiram um grupo de pessoas que estava na fila para comprar pão, atrás do mercado da Rua Vase Miskina. Vinte e duas pessoas morreram e, pelo menos, setenta ficaram feridas. Durante os vinte e dois dias seguintes, Vedran Smailovic, um famoso violoncelista de Sarajevo, tocou no mesmo local o Adágio em Sol menor, de Albinoni, em honra dos mortos.” (pág. 171)
Partiu de algo real, de um gesto tão pungente de alguém que assim quis demonstrar que a vida humana vale, tem valor para a própria pessoa e para os outros, sejam próximos a essa pessoa ou que não a conheçam. Partiu de algo real, entrelaçou o verídico com o ficcional e narrou a rotina de uma cidade sitiada, constantemente aterrorizada com as mortes diárias de gente que, em gestos tão banais como os de atravessar uma rua, poderia perder a vida porque aos “homens nas colinas” assim lhes apetecia – apontavam a mira da espingarda, faziam pontaria e ceifavam, indiscriminadamente, a vida de homens, mulheres, crianças, animais, enfim de todos aqueles inocentes que, por azar do destino e por falta de outra alternativa, tinham que (sobre)viver numa cidade devastada por mais uma guerra inexplicável…
Termino dizendo que esta obra é sublime porque fez-me querer (e querer muito) visitar Sarajevo, percorrer as suas ruas e prestar-lhe a homenagem que penso que merece.
A esta leitura só posso assim dar-lhe nota máxima e desejar que o maior número possível de leitores a leia! Comprem a obra, peçam-na emprestada, requisitem-na numa biblioteca, mas, por favor, leiam-na!!!
Partilho ainda o maravilhoso, fantástico e dorido Adágio em Sol menor, de Albinoni, que tão importante foi para a criação desta obra e sobretudo para aqueles que assistiram a Vedran Smailovic a tocá-la nos 22 dias que se seguiram a (mais) um dia sangrento do Cerco de Sarajevo.


NOTA – 10/10 (nota merecidíssima)

Sinopse

O Violoncelo de Sarajevo é um relato ficcionado do cerco feito a Sarajevo entre Abril de 1992 e Fevereiro de 1996. Apoiado em factos reais, dá a conhecer o intenso drama vivido pela população de Sarajevo, onde foram mortas mais de dez mil pessoas e feridas mais de cinquenta e seis milhares. Por detrás da sua janela, um violoncelista não podia prever o que iria acontecer: 22 pessoas mortas à sua frente num tiroteio enquanto esperavam na fila para a ração de pão. Em sua homenagem o violoncelista toca sentado no meio da rua o Adágio de Albinoni durante 22 dias seguidos e sempre à mesma hora. Surge no entanto a notícia de que há um plano para assassinar o músico em plena atuação, quando faltam apenas dois dias para que complete as 22 sessões.

A rapariga das laranjas, de Jostein Gaarder

Sábado, 10 de outubro de 2015





Opinião
A rapariga das laranjas chegou cá a casa na companhia de O décimo terceiro conto, ou seja, com cinquenta por cento de desconto no preço J e com uma sinopse que prometia uma leitura curtinha, mas intensa. Intensa de emoções que nos tocam a todos daquela maneira tão significativa e poderosa. Falo das emoções que nos unem a todos, pois todos somos filhos de alguém e alguns de nós já fomos abençoados com o milagre da maternidade e da paternidade.
Até hoje nunca tinha lido nada escrito por Jostein Gaarder. Sempre me recusei a ler a sua obra mais conhecida – O mundo de Sofia – por teimosia e porque sempre fui e continuo a ser avessa às filosofias… Mas, ao deparar-me com a promessa de um diálogo entre um pai falecido há mais de dez anos e um filho a quem a doença lhe privou de ver crescer, baixei a guarda, pus de lado as reservas que tinha contra o seu autor e embrenhei-me na sua descoberta.
Foi uma descoberta que, em algumas passagens, me absorveu e que, em outras, nem tanto. Os contornos e essência da história são tocantes, é dolorosa a noção de que os protagonistas são pai e filho, que este se viu privado daquele quando apenas tinha quatro anos e que, como tal, apenas o conhece por aquilo que os outros lhe dizem e lhe mostram. Não pude deixar de me pôr no lugar do progenitor e partilhar a sua dor de saber que vai morrer e não vai poder estar mais ao lado da “sua namorada” e do “seu melhor amigo”. Contudo, a forma como esse conteúdo nos chega a nós, leitores, deixa, na minha opinião, algo a desejar… Gostei da estrutura epistolar, do legado em palavras que o pai deixa ao filho, mas senti que em geral a linguagem e em particular algumas passagens são rebuscadas, sem a simplicidade que considero ser a característica mais importante num diálogo entre seres unidos por laços estreitos de sangue. Posso não estar a explicar-me da melhor maneira, mas a belíssima história que pai conta a filho e consequentemente aos leitores seria ainda mais bela e chegaria a nós mais límpida e completa se as palavras que a compõem fossem singelas, naturais, simples e se cingissem ao que é ao fim e ao cabo a essência da existência de um pai, de um filho e de outras pessoas que os rodeiam e amam.
O meu lado maternal emocionou-se, mas o meu lado de leitora, mais pragmático, sentiu-se algo defraudado… Queria mais, ou melhor, menos… Menos “rococó” e mais sentimento, mais intimidade, mais simplicidade, mais rotina, enfim, mais vida, mais realidade…

NOTA – 07/10

Sinopse
O que fazer quando um pai, falecido demasiado cedo para nos lembrarmos dele, decide falar com o filho, através de uma carta escrita há onze anos? Esta é a experiência de Georg Roed, de quinze anos, quando a família descobre a carta do seu pai. Juntos, Georg e o pai vão dialogar e manter finalmente a conversa de adultos que não puderam ter em vida. Nessa carta, Jan Olav, o pai de Georg procura uma bela rapariga carregada com um saco de laranjas. Nada o demove, nem o facto de não saber nada dela, nem o nome. Procura-a com todo o entusiasmo da juventude, enquanto imagina qual a razão que a leva a atribuir um valor tão grande às laranjas que ele, desastradamente, fez rolar nesse primeiro encontro. Georg mergulha nesta aventura descrita com grande paixão pelo pai, falecido quando ele tinha apenas quatro anos.

Autor do bestseller internacional O Mundo de Sofia que em 1995 foi o romance que mais vendeu em todo o mundo, registando 25 milhões de cópias, Gaarder traz-nos em A Rapariga das Laranjas um romance mais direcionado ao público jovem. Através de uma belíssima carta de amor para um filho de quem o pai sabe que não poderá acompanhar o crescimento, esta obra é um hino à vida e ao mistério insondável que ela encerra.

O décimo terceiro conto, de Diane Setterfield

Terça-feira, 06 de outubro de 2015




Opinião
O título O décimo terceiro conto já figurava há bastante tempo no caderninho onde aponto os livros que quero trazer para casa. Mas por esta ou por outra razão, foi sendo “ultrapassado” por outros títulos que ia apontando… Foi assim remetido para um canto obscuro de minha wishlist e confesso que quase já não me lembrava que um dia a sua sinopse “se tinha metido comigo”.
Ora, redimi-me desta falta “imperdoável” em junho quando aproveitei uma deliciosa campanha da Editorial Presença e pude adquirir três livros a metade do preço J Enquanto cuscava todos os livros em promoção, tropecei no título de O décimo terceiro conto e tive logo a sensação de que me era familiar. Folheei o caderninho e lá estava ele, “perdido” entre títulos já com o visto de comprados. É claro que não hesitei e procedi à sua encomenda! E ainda bem que o fiz J
A ordem cronológica das minhas leituras ditou que só agora o pudesse saborear e há que dizer que os três meses que esta obra de Diane Setterfield esperou para que eu a retirasse da estante nada lhe retiraram de sabor. Aliás, para mim é esse o segredo da minha mania cronológica – sinto uma alegria especial, misturada com a compreensível expetativa de percorrer as lombadas dos livros que ainda não li e ter aquela noção de que eles estão ali, só à espera que eu lhes pegue e assim me possam fazer companhia durante o tempo que leve a lê-los… É um jogo de sedução que nunca me canso de jogar J
E assim foi com O décimo terceiro conto… Uma narrativa intensa, que narra encontros e vidas de gerações distintas, sobretudo de duas mulheres com um amor incondicional pelos livros e pela literatura. Biógrafa amadora, Margaret é filha de um alfarrabista e toda a sua existência gira à volta de livros que contam uma história, ficcional ou verídica, escrita por autores famosos ou desconhecidos, mas que têm o condão de lhe trazerem, de lhe oferecerem alguma coisa, por mais insignificante que seja. Sente uma particular predileção por obras do século XIX, como a Paixão de Jane Eyre, O Monte dos Vendavais ou A Mulher de Branco, e oferece bastante resistência quando o seu pai lhe propõe autores e obras mais contemporâneas. Contudo, essa resistência cairá por terra quando, surpreendentemente, é contactada por carta por uma autora famosa, Vida Winter, que lhe pede para escrever a sua biografia.
Este convite inesperado produzirá uma reviravolta nos interesses literários de Margaret e principalmente na sua pacata existência. Nos dias que passará a ouvir e a registar a história de vida de Vida, a jovem biógrafa será espetadora e personagem de acontecimentos extraordinários (alguns fantasmagóricos), carregados de dramatismo, de tensão, de nervos à flor da pele e de relações intensas, doentias, que nos fazem recuar no tempo e recordar as histórias e amores sofridos de Catherine e Heathcliff ou de Jane e Mr. Rochester. Tudo isto aliado a um ritmo vivo e a uma saborosa vontade de querer saber mais, que obviamente nunca deixam de prender a nossa atenção e nos “obrigam” a ler mais um pouco, mais uma página, mais um capítulo…
Por tudo isto, O décimo terceiro conto é uma obra a ler por todos que “se pelem” por uma boa e entusiasmante narrativa, pois, como já referi, possui os ingredientes suficientes para nos cativar. A história é suculenta, as personagens são redondas, complexas, surpreendentes e o fio condutor desenrola-se como, segundo Vida Winter, se deve desenrolar qualquer fio de uma boa história – começando pelo seu princípio, desenvolvendo-se, concluindo-se com o desenlace e rematando alguma ponta solta no indispensável “post-scriptum”. Para além disso, nesta obra não ficamos a matutar no que poderá ter acontecido a alguma personagem que não intervenha diretamente no desenlace ou seja secundária – Margaret, como boa biógrafa e narradora que é, não nos deixa na dúvida e informa-nos do que sucedeu a todas as personagens que intervieram na sua narrativa, por que “Todos temos uma história. É como a família. Podemos não saber quem ela é, podemos tê-la perdido, mas existe na mesma. Podemos distanciar-nos ou virar-lhe as costas, mas não podemos dizer que não a temos.” (pág. 269)
É um livro que vale a pena conhecer. Atrevam-se e não se irão arrepender J

NOTA – 09/10

Sinopse
O Décimo Terceiro Conto narra o encontro de duas mulheres: Margaret, jovem, filha de um alfarrabista, biógrafa amadora, e Vida Winter, escritora famosa, que, sentindo aproximar-se o final dos seus dias, convida a primeira para escrever a sua biografia.
Na sua casa de campo, a escritora decide contar a verdadeira história da sua vida, revelando um passado misterioso e cheio de segredos. As duas vão partilhar vivências profundas, resgatando velhas memórias e confrontando-se com fantasmas há muito adormecidos.


Sem que pudessem inicialmente prever, acabam por entrelaçar as suas vidas de forma tão intensa, que o resultado não poderia ser outro que não uma inesquecível história de amor, amizade e solidão.

Corações em silêncio, de Nicholas Sparks

Sexta-feira, 25 de setembro de 2015






Opinião
Tal como admiti na opinião que escrevi sobre Nada, de Carmen Laforet (ver aqui), a minha sanidade mental gritava por uma obra lamechinhas e bem previsível J
Depois de algumas horas cuscando em estantes e na blogosfera e de ouvir algumas sugestões de amigos, deparei-me com Corações em silêncio, de Nicholas Sparks e pensei: Por que não? Este autor norte-americano é sobejamente conhecido pelas suas histórias carregadas de sentimentalismo, de almas atormentadas pelo amor e de momentos bem propícios à lamechice e ao derramar de lágrimas. Ou seja, exatamente aquilo de que estava a precisar J
Corações em silêncio arranca com um dramático acidente de automóvel provocado por uma tempestade fortíssima, daquelas que assolam com frequência os estados sulistas dos Estados Unidos. No automóvel acidentado viajavam mãe e filho e, momentos após o embate contra uma árvore, a mãe, Denise, recupera de uma perda de consciência e apercebe-se de que o filho de quatro anos não se encontra no banco de trás e que se havia adentrado na floresta sem deixar rasto. Desesperada, pede ajuda a um homem que entretanto chegara junto a si e que, por sorte, é bombeiro e rapidamente aciona os meios possíveis para o resgate da criança.
Este é assim o ponto de partida de uma narrativa que reúne os ingredientes necessários para prender-nos a atenção e para querermos avançar página atrás de página e acompanharmos bem de pertinho as vidas dos protagonistas. É claro que, para os meus gostos, é uma narrativa previsível, isto é, não foi preciso muito esforço da minha parte para compreender que iria haver um envolvimento amoroso entre Denise e o bombeiro, Taylor, que esse envolvimento teria os seus altos e baixos e que um deles possuiria algum segredo relacionado com uma tragédia familiar e que esse mesmo segredo seria o grande obstáculo a ultrapassar para que houvesse o desejado final feliz. Contudo, por muito que essa previsibilidade estivesse presente, confesso que não prejudicou o prazer que senti ao longo da leitura nem o bem-estar que me proporcionou. Escolhi este género de obra com o propósito já conhecido – fazer um parêntesis nas leituras que mais me preenchem, distanciar-me por algumas horas do denso, do complexo e relaxar com o romântico, com o lamechas, com o cor-de-rosa, com os contos de fadas mais próprios da adolescência, mas que ainda conseguem mexer comigo passados vinte e tal anos J
Por tudo o que foi referido, tenho que agradecer a Nicholas Sparks e a Corações em silêncio porque cumpriram com as minhas “exigências” – foram a desejada lufada de ar que não só afastou a sensação de angústia e o peso na alma que a leitura das anteriores obras havia deixado em mim como também me pôs com a pica toda …
Agora toca a regressar à prateleira da estante onde estão à minha espera (por ordem cronológica J) as obras que ainda não li e dar início a um desafio muito poucas vezes experimentado – ler duas obras ao mesmo tempo!!!

NOTA – 08/10 (de acordo com os critérios que atribuo a este género de obras e não propriamente com os meus gostos pessoais)

Sinopse

Confrontado com situações de extremo perigo, Taylor McAden, bombeiro voluntário, expõe-se até ao limiar do perigo. Denise é uma jovem mãe solteira, cujo filho de cinco anos sofre de um inexplicável atraso de desenvolvimento e a quem ela devota a sua vida numa tentativa de o ajudar. Mas o caso vai aproximar estes seres. Numa noite de tremendo temporal, Denise sofre um acidente de automóvel e é Taylor quem vem socorrê-la. Embora muito ferida, a jovem depressa toma consciência de que o filho já não se encontra na sua cadeirinha do banco traseiro. Taylor irá até ao fim de uma angustiante noite de buscas para o encontrar. Foram tecidas as primeiras malhas que os irão unir, e o pequeno Kyle desabrocha ao calor da ternura daquele homem. Denise abandona-se à alegria de um amor nascente. Mas Taylor tem em si cicatrizes antigas, que o não deixam manter compromissos de longa duração. Nicholas Sparks, esse talentoso contador de histórias, intervém com a sua magia redentora e a sua inigualável capacidade de aprofundar a complexidade das relações e dos afectos.

Nada, Carmen Laforet

Quarta-feira, 23 de setembro de 2015




Opinião
Vinte e quatro horas depois de ter encerrado a leitura de Nada, ainda me sinto atordoada… Tão atordoada, mas tão atordoada que, pela primeira vez em muitos anos, não sei que livro ler a seguir… Só sei que o meu inconsciente me grita que tenho que escolher um livro que contenha uma historiazinha banal, levezinha, lamechitas, previsível e que não me faça pensar muito… Um livro de Nicholas Sparks, por exemplo!... E é neste momento que quem me conhece está de certeza a fazer caretas de espanto e a exclamar algo de género – “Caramba, ficaste mesmo abalada com essa última leitura para quereres algo previsível e lamechas como as obras de Nicholas Sparks!
Não tenho intenção de, com isto, desrespeitar este autor de bestsellers e seus admiradores. Pelo contrário, sempre afirmei que o importante é ler, ler muito, seja o que for, literário ou não, qualquer género e consequentemente qualquer autor. Mas a bagagem literária que carrego já não me permite apreciar tudo com o mesmo prazer, com a mesma sede. Como tal, os meus gostos atuais ditam que compre e leia obras mais complexas, mais densas, que não ocupam frequentemente os tops de vendas. Contudo, sobretudo depois de ter lido O luto de Elias Gro e este Nada, é realmente urgente que faça uma pausa em leituras densas, complexas, carregadas de tristeza e ambientes estranhos, doridos e quase psicopatas… Para bem da minha sanidade mental J
Adquiri Nada sem saber muito sobre a sua autora e sobre a própria obra. Tinha lido e ouvido muitos comentários favoráveis, sabia que havia ganho um importante prémio e que retratava a cidade de Barcelona do pós-guerra civil. A sinopse adiantava pouco mais, dando algumas informações sobre a protagonista e sobre a razão pela qual vem viver para a capital catalã. Por isso, tenho consciência de que entrei às escuras nas suas páginas e que só agora percebo por que motivo Vargas Llosa o caracteriza como um “belo e terrível romance”… Porque definitivamente o é. A sua história é soberba, mas demoniacamente soberba. As personagens estão maravilhosamente bem construídas, mas revelam comportamentos e personalidades doentias, perversas, violentas e que, como é óbvio, não deixam nenhum leitor indiferente, longe disso, intrometem-se no nosso pensamento e mexem connosco de uma maneira algo incomodativa. Para além disso, a sua protagonista, Andrea, uma jovem universitária que desejava ardentemente viver em Barcelona, revela, desde que “aterra” no inferno que é a casa dos seus familiares, atitudes de anti heroína, pois é contraditória no que faz, mostra-se apática perante o ambiente atroz que a rodeia e demonstra que “(…) de nada vale correr, se vamos sempre pelo mesmo caminho, fechado, da nossa personalidade. Alguns seres nascem para viver, outros para trabalhar, outros para ver a vida. Eu tinha um pequeno e mau papel de espectadora. Para mim, era impossível sair dele. Impossível libertar-se.” (pág. 190)
Sendo assim, Nada proporcionou-me uma leitura antitética, que atrai e repugna. Tal como me atraiu e repugnou a leitura de O meu irmão, de Afonso Cabral. Entre estas duas obras, há muitas semelhanças. Por um lado, estão extremamente bem escritas, com personagens densas, que não nos conquistam (excetuando a avó de Andrea, a quem me apeteceu apertar num abracinho ternurento) e que se movimentam em ambientes saturados de sordidez, desprezo, violência e ausência de afetos. Por outro, Carmen Laforet tinha 23 anos quando escreveu Nada e Afonso Cabral pouco mais velho é – ou seja, quase duas crianças, recém-saídas da adolescência e que foram capazes de criar duas obras com laivos de maturidade e genialidade que não estão ao alcance de muitos escritores bem mais entrados na idade e na experiência de vida.
Resumindo, Nada não deixará ninguém indiferente. Quem se atrever a lê-la, entrará numa viagem sem regresso, que bulirá com todas as nossas fibras e nos deixará atarantados… com uma vontade louca de fugir, esquecer tal narrativa tortuosa… Mas… é nessa tortuosidade que está patente a mestria de Carmen Laforet.
Agora que venha uma obra lamechitas e bem previsível… Eu bem preciso de uma leitura assim J

NOTA – 08/10

Sinopse

«Nada» é a história de Andrea. Chegada a Barcelona para seguir os seus sonhos, Andrea fica hospedada na rua Aribau, em casa de familiares. Aqui, descobrirá um mundo muito diferente do seu, feito de personagens ambíguas e conturbadas, que vivem numa humilhante pobreza os cruéis anos da ocupação franquista da cidade. Será neste ambiente psicótico que, ao longo de um ano, Andrea crescerá, ao mesmo tempo que descobre a cidade, ganha novas amizades, e traça o caminho para a vida adulta.

«Nada» é o romance que revolucionou a literatura e agitou a sociedade espanhola.

O luto de Elias Gro, de João Tordo

Quarta-feira, 16 de setembro de 2015





Opinião
Um homem subjugado pela dor deixa a sua vida para trás e parte. Parte para refugiar-se numa ilha no outro lado do Atlântico, onde não conhece ninguém. Aliás, esse é um dos objetivos da sua fuga – tudo que lhe é próximo, que lhe é conhecido fica e consigo apenas leva o essencial para sobreviver. Porque é disso que se trata – sobreviver a uma perda que nos tira o chão e a vontade de viver.
Este homem é o nosso narrador. Vai partilhando connosco a viagem que o transportou a essa ilha do outro lado do oceano, os dias afogados em álcool que vive num farol que arrenda e os encontros/desencontros com alguns dos poucos habitantes insulares, com quem vai esbarrando casualmente. Vai igualmente deixando que espreitemos as lutas que vai combatendo com os demónios que o atormentam a qualquer hora do dia, sobretudo à noite, quando já emborcou copos e copos de whisky na tentativa infrutífera de afundar-se numa inconsciência alcoólica que o impeça de pensar e de recordar.
Contudo, as recordações não desaparecem. Nem com litros e litros de whisky. Assombram-no, martirizam-no constantemente, mas para o leitor são benéficas, pois vão-nos permitindo entrar na vida passada do protagonista e perceber o que está por detrás de tanta dor e de tanta vontade de deixar de resistir, de viver.
Nas poucas horas que não está a afogar-se em álcool, o narrador vai, como já referi, entabulando conversas com alguns dos habitantes e a contragosto vai conhecendo os seus hábitos, as suas histórias, as suas rotinas. Desses habitantes destacam-se três – Elias Gro e a sua filha pré-adolescente, Cecília, e Alma. Serão eles que tentarão penetrar na carapaça que o narrador construiu à sua volta, serão eles que, por um lado, lhe darão o espaço que ele necessita para viver a sua dor e, por outro, lhe contarão as suas próprias experiências, lhe farão ganhar algum interesse pela ilha e pelos seus habitantes (vivos ou mortos), o alimentarão, o tratarão com compaixão e bulirão com os seus nervos com pedidos estranhos e atitudes que o obrigam a viver e a interagir.
Dessas personagens “mais secundárias” destaco Cecília e o seu pai.
É impossível não simpatizar com Cecília e a sua personalidade de menina perspicaz, com uma inteligência e sensibilidade aguçadas. Tem sempre uma pergunta pronta para ser feita, não se contenta com qualquer resposta, põe em causa muitas das afirmações que ouve da boca do narrador e não se apieda da sua dor, torcendo, por exemplo, o nariz ao seu aspeto desmazelado e malcheiroso. É uma menina precoce, que por tudo e por nada mostra o interesse e conhecimento que possui sobre os ossos do corpo humano (na parte final da obra saberemos o porquê desse interesse), que nos cativa por tudo isto e a quem me apeteceu, muitas vezes, embalar no colo…
Por sua vez, o seu pai, Elias Gro dá título à obra, apesar de, aparentemente, ser uma personagem secundária… Pode, à primeira vista, ser uma contradição, mas, à medida que a leitura avança e vamos sabendo mais deste pai e único padre da ilha, compreendemos que, por muito diferentes que sejam, entre o narrador e Elias Gro existe um profundo paralelismo e que ajudará o primeiro a regressar à vida.
O luto de Elias Gro é a quinta obra de João Tordo que leio. Confesso que não me arrebatou como a anterior, Biografia involuntária dos amantes, mas proporcionou-me momentos de intensa sintonia com o narrador e demais personagens. Senti as suas dores, vivi as suas tormentas e a personalidade de Cecília desarmou-me de tal forma que não quis abandoná-la, particularmente na última página da obra, onde num parágrafo algo longo, o autor, juntando palavras particularmente belas e a transbordar de sentimento, me fez chorar com a fórmula perfeita para encerrar uma história triste, dorida – como todas as que já li de João Tordo – mas com aquela pincelada de esperança e de redenção.
Não quero terminar esta opinião sem deixar aqui registado um paralelismo que só me ocorreu horas depois de ter chegado ao fim da leitura e ainda estar a sentir o sabor que a obra deixou e a despedir-me dela devagarinho. João Tordo foi o tradutor da versão inglesa de Rosa Candida, da autora islandesa com um nome impossível de lembrar. Ora, nesse romance o protagonista, tal como o de O Luto de Elias Gro, deixa a sua terra natal e parte para um destino longínquo, que nunca sabemos exatamente onde se localiza, para esquecer a sua vida passada… Coincidência? Ou será que não?... Talvez nunca saberemos…

NOTA – 09/10

Sinopse
Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais.
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar.
O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor.

O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.

As recordações, de David Foenkinos

Quinta-feira, 10 de setembro de 2015




Opinião
Descobrir um novo autor é sempre promissor. Os dias ou horas que passo na sua companhia têm sempre algo de detectivesco, pois ao prazer da leitura juntam-se a curiosidade, alguma desconfiança, a máxima atenção e uma vontade secreta (ou talvez não) de que esse autor novo nos conquiste irremediavelmente! J
David Foenkinos conseguiu-o com a sua obra As recordações. Conseguiu ir derrubando a desconfiança e alguma estranheza iniciais, foi-me conquistando à medida que a leitura avançava e no final, ainda com a recordação das últimas passagens da obra, ganhou uma leitora que quer a todo custo ler as suas outras obras!
Tropecei no nome deste autor francês numa das inúmeras deambulações que faço pelo mundo virtual à cata de novidades. Encontrei num site estrangeiro referências à sua última obra – Charlotte – e fiquei entusiasmadíssima com a sua sinopse. É óbvio que o passo seguinte foi saber se havia alguma obra sua traduzida. Sim, havia duas editadas pela Presença. Assim, aproveitando uma das frequentes promoções que felizmente editoras e livrarias nos vão oferecendo, comprei As recordações, publicada em 2014 e cuja sinopse me cativou por mencionar que a história se desenrolaria à volta das recordações que temos de nós mesmos, das outras pessoas e sobretudo do quanto os avós marcam as nossas vidas.
Narrada na primeira pessoa, por um jovem algo desencantado com a vida e consigo mesmo, a história de As recordações está dividida em pequenos capítulos que alternam episódios da vida do protagonista e de gente próxima a ele com outros (escritos em itálico) de personagens verídicas e de outras que fugazmente atravessam a rotina do nosso narrador.
Chovia tanto no dia em que o meu avô morreu que eu mal conseguia ver” (pág. 7)
É assim que tudo se inicia – a desilusão e a tristeza que o narrador sente por não ter dito ao avô o quanto o amava antes de ele partir são o ponto de partida para que se desfiem recordações, divagações, pensamentos e impulsionem de alguma forma o nosso narrador a passar mais tempo com a avó, a não cometer com ela a mesma falta que cometeu com o seu marido e a tentar aproveitar toda uma amálgama de sentimentos e situações para a concretização do objetivo que tem sido indefinidamente protelado e que daria um sentido à vida do protagonista (de quem não sabemos nunca o nome) – a criação de um livro, de um romance.
Toda a obra está maravilhosamente bem escrita, com uma linguagem poética, serena, intimista e que nos fala às emoções. Confesso que a princípio não me conquistou totalmente, talvez pela referida atitude detectivesca que adoto quando estou a conhecer um autor pela primeira vez. Contudo, conforme ia passando de página para página, tive que pôr de lado qualquer resistência que ainda sobrasse porque tudo na obra me arrebatou – as personagens tão próximas da realidade, as situações rotineiras e as emoções contraditórias que nos assolam mesmo quando estamos perante alguém que nos é tão querido, que sabemos que não estará connosco muito mais tempo e, ainda assim, agradecemos a chegada de uma mensagem de texto que interrompe os últimos e lentos minutos da vida desse alguém tão importante para nós:
 “Às tantas, o meu telemóvel anunciou uma nova mensagem. Fiquei em suspenso, mergulhado numa falsa hesitação, porque, lá no fundo, senti-me feliz com aquela mensagem, feliz por ter sido arrancado ao torpor, nem que fosse por um segundo, nem que fosse pela mais comezinha das razões. Já não sei ao certo qual era o conteúdo da mensagem, mas lembro-me que respondi de imediato. Assim, e para sempre, esses escassos segundos sem significado parasitam a memória deste momento crucial. Sinto uma culpa terrível por essas dez palavras enviadas a uma pessoa que não significa nada para mim. Nessa altura, acompanhava o meu avô no seu caminho para a morte e, por todos os meios, procurava forma de não estar presente.” (pág. 8)
Esta é apenas uma das muitas e muitas passagens com que identifiquei em absoluto e que gastaram o bico do lápis que me acompanha para os sublinhados de tudo o que me diz algo em cada leitura. E é por causa desta e das outras passagens que me sinto obrigada a acrescentar A delicadeza (a segunda obra do autor, anterior à que li, publicada pela Presença) à minha wishlist e pedir encarecidamente à referida editora ou a outra qualquer que publiquem Charlotte, o mais recente romance de David Foenkinos, que, por coincidência ou não, é sobre Charlotte Salomon, uma pintora judia e uma das muitas personagens verídicas que ocupam os episódios em itálico (neste caso o episódio retratado no capítulo 44) que se entrelaçam em As recordações com episódios ficcionais.
As recordações é assim uma leitura recomendadíssima e obrigatória para quem se quer perder dentro de uma narrativa deliciosamente poética e tão próxima do que preenche as nossas vidas! Vale mesma a pena! Não se arrependerão!

NOTA – 09/10

Sinopse
«”No seu lugar, eu refugiar-me-ia numa recordação.” Sim, foi isso que ele disse e, depois, acrescentou: “Iria para um lugar onde tivesse sido feliz. Na sua idade, era certamente o que eu faria.”»
Quando a avó do narrador foge do lar onde se encontra a viver, este sabe que não pode ficar de braços cruzados à espera de ver as autoridades agirem. Mas que sabemos nós das recordações das outras pessoas?...

Em As Recordações, David Foenkinos oferece-nos uma reflexão plena de sensibilidade sobre o tempo, a memória, a velhice, os conflitos de gerações, o amor conjugal, o desejo de criar e a beleza do acaso.

A amiga genial, de Elena Ferrante

Sábado, 05 de setembro de 2015




Opinião
Uma ida matinal ao cabeleireiro foi o pretexto ideal para devorar as páginas finais de A amiga genial, livro que me acompanhava desde o primeiro dia deste mês.
O nome de Elena Ferrante, a autora, está envolto numa onda de mistério. É o pseudónimo de uma escritora italiana, da qual pouco ou nada se sabe, já que a mesma expressamente deseja que assim seja – para ela, o importante, o essencial são os livros, que, uma vez escritos, para nada precisam dos seus criadores. Se tiverem uma mensagem, algo para dizer, com certeza encontrarão quem os leia e esses leitores, que encontram e são encontrados pelos livros, não necessitam dos supérfluos pormenores biográficos dos escritores.
Já troquei comentários com variadas pessoas sobre A amiga genial e todos foram carregados de opiniões mais do que positivas. Já é do conhecimento público que é o primeiro volume de uma tetralogia. Já foi inclusive lançado pela editora Relógio d’Água o segundo volume – História do novo nome. A minha querida amiga literária, Ana Sofia, acabou de lê-lo há pouquinho tempo e confidenciou-me que é avassalador. Tudo isto são motivos suficientes para aguçar a nossa curiosidade e para impelir-nos a entrar de bom gosto no mundo da misteriosa e talentosa Elena Ferrante.
Tal como referi, A amiga genial é o primeiro volume da apelidada tetralogia de Nápoles e traz-nos a história de duas amigas – Elena (Lenú) e Lila. Logo nas suas páginas iniciais (no prólogo que abre A amiga genial) nos apercebemos de que o mote para a criação desta tetralogia está centrado no momento presente, no qual Lila, já com a idade de sessenta e seis anos, desapareceu sem deixar absolutamente qualquer rasto. Este desaparecimento deixa Elena “deveras irritada” e é a perfeita desculpa para que esta se sente ao computador e comece a escrever “os pormenores da nossa história, tudo aquilo que me ficara na memória.” (pág. 16).
Assim, o volume que terminei de ler narra a infância e adolescência das duas amigas, sobretudo na perspetiva de Elena, a sua narradora. Acompanhamos o turbulento início da amizade, a cumplicidade das duas, o seu afastamento por causa dos dissabores da vida e um reaproximar que fica momentaneamente interrompido por um final intenso e que nos deixa em desespero, numa ansiedade louca pelo volume que se segue. Em linhas gerais este será o resumo (muito resumido) da trama da obra. Contudo, o que nos prende, o que nos agarra, o que nos verga perante o talento indiscutível desta autora italiana é muito mais do que isto…
Elena Ferrante é possuidora de uma escrita visceral, carnal, crua, sem paninhos quentes, mas que retrata magistralmente a realidade humana, plena de contradições, de sentimentos ambíguos, de egoísmos, de medos, de invejas, de ciúmes, de violência. É impossível não ficarmos rendidos às vivências do bairro suburbano e pobre onde coabitam as famílias de Elena, Lila e de outras personagens que estão presentes no seu dia-a-dia. Ao longo da obra, o espaço predominante é esse mesmo e página após página sentimo-nos lá, somos espetadores da rotina de um punhado de famílias, de tal forma bem construídas, com tradições e costumes muito enraizados, nas quais o patriarca distribui pouco afetos e muita pancada, a mulher reflete no rosto a submissão, o rancor por essa vida submissa e sem perspetivas e as crianças sabem desde tenra idade comportar-se como uma enguia para assim por vezes escapulir-se de situações de violência e por outros procurá-las, confrontá-las.
Podemos dizer que Lila e Elena são o espelho dessas crianças e ao mesmo tempo são o seu oposto. Elena é das pouquíssimas crianças que têm possibilidades de prosseguir estudos e Lila… bom, Lila é uma força da natureza, de uma natureza maléfica, contraditória, inteligentíssima, autodidata, que luta com todas suas forças para manter-se no seu bairro de sempre, mas realizando os seus sonhos – tornar-se rica, sair de uma vida pobre através da escrita, dos seus desenhos, da criação de sapatos ou de um casamento.
Elena e Lila são igualmente o oposto uma da outra – Elena é tímida, medrosa, procura o afeto e a aprovação dos outros, sabe que tem que estudar e dedicar-se horas e horas ao estudo para poder ser a primeira da classe e nunca, em momento algum, se sente completamente segura de si e do seu valor, nem mesmo quando Lila lhe chama de sua amiga genial. Por outro lado, Lila, desde tenra idade, mostra não ter medo de nada nem de ninguém, nunca foge a um desafio e se não fosse pelas circunstâncias de uma vida pobre, possuiria todos os atributos para ser genial, pois é dona de uma capacidade e de uma inteligência raras. Contudo, mesmo sendo assim tão distintas, estas duas raparigas têm uma amizade forte, que vai resistindo a muitos percalços e que as unirá, de uma forma ou de outra, para toda a vida.
Neste ponto de uma opinião que vai longa, tenho que refrear a minha vontade de seguir desvendando mais da narrativa e centrar a atenção no que está por detrás da sua criação e que me fez render ao estilo e escrita de Elena Ferrante. São magníficas a habilidade e competência da autora de oferecer-nos, como já disse, uma história que espelha a realidade de uma Nápoles pobre, patriarcal, de gente que passa de geração em geração superstições, medos, ódios e rumores e que dispara violência para tudo e para todos. É também magistral a construção das personagens, sobretudo a das duas protagonistas e dos sentimentos ambivalentes que as une. Desde o minuto em que vê pela primeira vez Lila até ao momento presente, até à altura em que esta desparece (“Vamos ver quem vence, desta vez, disse para mim” – pág. 16), Elena tem consciência de que sente atração e repulsão pela amiga, que se sente diminuída na sua presença, que ser a primeira da classe, obter classificações brilhantes e elogios pela parte dos professores é abafado, espezinhado pelo carácter, pela determinação, pela rebeldia e por fim pela beleza da sua amiga – “Portanto, eu era segunda em tudo” (pág. 39). É ainda irrepreensível o conhecimento que Ferrante demostra possuir de tudo que caracteriza e compõe as etapas da infância e da adolescência. Um dos exemplos que ainda se mantém comigo desse conhecimento está bem espelhado nos princípios da amizade de Elena e Lila, em que as duas, sobretudo a primeira, são possuídas dos habituais medos irracionais (mas que nos paralisam enquanto crianças) de papões, sítios habitados por monstros horrendos e seres terríveis dos quais temos que estar mais afastados possível.
A amiga genial (e o resto da tetralogia, arrisco-me a dizer) é assim uma leitura obrigatória e só posso agradecer à minha querida Ana Sofia pela dica preciosíssima J

Leiam Elena Ferrante. Leiam A amiga genial e A história do novo nome (já publicado pela Relógio d’Água). Leiam Crónicas do mal de amor, que reúne três imperdíveis pequenos romances desta autora. Não se irão arrepender!

NOTA – 09/10

Sinopse

"A Amiga Genial" é a história de um encontro entre duas crianças de um bairro popular nos arredores de Nápoles e da sua amizade adolescente. Elena conhece a sua amiga na primeira classe. Provêm ambas de famílias remediadas. O pai de Elena trabalha como porteiro na câmara municipal, o de Lila Cerullo é sapateiro. Lila é bravia, sagaz, corajosa nas palavras e nas ações. Tem resposta pronta para tudo e age com uma determinação que a pacata e estudiosa Elena inveja. Quando a desajeitada Lila se transforma numa adolescente que fascina os rapazes do bairro, Elena continua a procurar nela a sua inspiração. O percurso de ambas separa-se quando, ao contrário de Lila, Elena continua os estudos liceais e Lila tem de lutar por si e pela sua família no bairro onde vive. Mas a sua amizade prossegue. "A Amiga Genial" tem o andamento de uma grande narrativa popular, densa, veloz e desconcertante, ligeira e profunda, mostrando os conflitos familiares e amorosos numa sucessão de episódios que os leitores desejariam que nunca acabasse. «Elena Ferrante é uma das grandes escritoras contemporâneas.» The New York Times

Amanhã na batalha pensa em mim, de Javier Marías

Segunda-feira, 31 de agosto de 2015




Opinião
Despeço-me de agosto, das férias e teoricamente do verão com a leitura de outro livro poderoso de Javier Marías. Amanhã na batalha pensa em mim é a terceira obra que leio deste autor castelhano e depois de encerrá-la sinto-me obrigada a repetir o que afirmei nas opiniões que escrevi sobre Os enamoramentos e Coração tão branco – Javier Marías é um senhor autor, a sua escrita é densa, perturbadora, que nos impele a pensar, a parar a leitura e a refletir sobre o que acabámos de ler, a fazer paralelismos com nosso quotidiano, com os nossos sonhos, medos, terrores e acima de tudo ajuda-nos (com exemplos surreais mas surpreendentemente verosímeis) a compreender a complexidade e o multifacetismo do pensamento e dos comportamentos do ser humano.
Tal como é apanágio do autor (pelo menos nas obras que li dele), o início de Amanhã na batalha pensa em mim prende-nos irremediavelmente a atenção e deixa-nos em polvorosa para virar página atrás de página e acompanhar o drama do protagonista, a quem acontece algo de muito insólito – no primeiro jantar que partilha com quem poderá ser uma breve conquista, Víctor Francés termina a noite não com o previsível ato sexual mas sim com uma mulher morta nos braços.
Quais são os seus passos seguintes? Como reage a esta morte terrível e ao mesmo tempo embaraçosa? Que pode fazer ele, praticamente um desconhecido para aquela mulher, para remediar uma situação que já não tem remédio? Deverá telefonar, avisar alguém? Mas quem? O marido atraiçoado é o único que poderá contactar, mas que lhe dirá – que a sua mulher lhe morreu nos braços, momentos antes de consumar o adultério?
Todas estas questões abrem a narrativa de um livro que possui todos os ingredientes para cativar-nos e deixar-nos empolgados. Apresenta-nos uma ação que é entrelaçada com um desfiar contínuo de pensamentos, de divagações e de paralelismos que mexem connosco, que nos fazem vestir a pele das personagens, sobretudo a do protagonista e narrador, imaginar como reagiríamos se estivéssemos no seu lugar, concordar ou discordar com os seus passos e decisões e sobretudo refletir sobre as inúmeras questões que lhe vão povoando os dias e as noites de insónia.
A obra termina com um epílogo que consiste na transcrição do discurso que Marías proferiu aquando da entrega de um prémio que o galardoou pela criação desta obra. Desse discurso transcrevo aqui algumas passagens que considero importantíssimas para compreendermos o verdadeiro teor e mensagem de Amanhã na batalha pensa em mim:
As pessoas talvez consistam, em suma, tanto no que são como no que não foram, tanto no comprovável e quantificável e recordável como no mais incerto, indeciso e esfumado, talvez sejamos feitos em partes iguais do que foi e do que podia ter sido.” (pág. 377)
Recorda-se que todos vivemos parcial e permanentemente enganados ou então enganando, contando apenas uma parte, ocultando outra parte e nunca as mesmas partes às diferentes pessoas que nos rodeiam.” (pág. 377)
Estes fragmentos são, na minha opinião, perfeitos. Mostram em palavras, de forma nua e crua, sem subterfúgios, como somos. Como nós, seres humanos, por um lado, somos uma soma daquilo que fazemos, pomos em prática e daquilo que por isto ou por aquilo apenas ficou pela ideia, pela vontade, pelo sonho e não se realizou. Mostra por outro que nunca somos verdadeiramente transparentes para com os outros como também estes não o são connosco e que aquilo que deixamos transparecer ou saber não é o mesmo, não é igual consoante quem temos à nossa frente.
Estas são assim as ideias fundamentais que atravessam a obra, bem como a morte, principalmente aquela que é inesperada, ou na qual temos alguma participação, que nos atormenta e nos mantém “haunted”, ou seja, (e segundo o autor, um filólogo inglês), nos amaldiçoa e nos mantém debaixo do seu encantamento. Tudo isto aliado a um punhado de personagens muito bem desenhadas, que encaixam com primor numa narrativa, que volto a frisar, nos permite “viver dentro da cabeça” do protagonista, seguir-lhe o que lhe vai na alma à medida que os dias vão passando, desde o fatídico acontecimento que, tal como ele sabe, não permitirá que jamais se esqueça do nome de Marta Téllez – “Que pena saber o teu nome embora já não conheça o teu rosto amanhã…” (pág. 201)
Termino esta opinião referindo que o título da obra, bem como o de Coração tão branco provêm de obras de Shakespeare e que são mais uma evidência do quanto a língua e cultura inglesas são caras ao autor e do quanto influenciam a sua criação literária. Também não posso deixar de mencionar que as tiradas cómicas que ajudam a abrilhantar uma obra já de si representativa de literatura com letra maiúscula representam muito bem o característico humor britânico J
Só me resta dizer – Bravo, Javier Marías! E quero mais! Muito mais!

Nota – 09 /10

Sinopse

Victor Francés, um guionista frustrado, é convidado a jantar em casa de Marta Téllez, uma bela mulher casada que mal conhece e cujo marido está em viagem. Sem saber bem o que esperar, Victor apercebe-se, a dada altura, do carácter romântico deste convite… No entanto, antes de consumar o adultério, Marta sente-se mal e cai morta à sua frente. Numa Madrid invernosa e noturna, Víctor foge daquela casa para nunca mais ser o mesmo. Para trás, deixou sozinha uma criança de dois anos, filho de Marta, que dormia num dos quartos. Que fazer com o cadáver? Deverá avisar as autoridades? E a criança? E o marido? A sua reação e a infidelidade que não chega a cometer irão consumir-lhe os pensamentos e torná-lo numa sombra de um homem, alguém que se dissimula, e às suas intenções, a cada passo e se questiona sobre a diferença entre a vida e a morte. Ainda mais que nos seus livros anteriores, Javier Marías revela-nos uma narrativa imbrincada acerca das várias questões que a todos nos consomem: o segredo, as ações e as intenções, as vontades que ficam por cumprir, a rejeição, o esquecimento, a indecisão, a despedida e, acima de tudo, o engano que, quiçá, é «a nossa condição natural e, na realidade, não deveria magoar-nos tanto».

Te llamaré viernes, de Almudena Grandes

Sexta-feira, 21 de agosto de 2015




Opinião
Tal como no ano passado, a minha Almudena Grandes deixou a sua marca no meu mês de agosto, colorindo alguns dias das minhas férias com uma história poderosa e intensa. Não tão estupendamente fantástica como a de Las tres bodas de Manolita, mas, mesmo assim, uma narrativa que me proporcionou muito bons momentos, com personagens muito bem construídas (bem ao estilo da autora) e com um emaranhado de histórias dentro da história principal, que nos permite saltar repentinamente do presente para o passado e ir conhecendo a forma de pensar e todo o mundo interior das personagens principais.
Te llamaré viernes é uma das obras dos primórdios da carreira de Almudena e tem determinadas características que apontam para tal – oferece-nos uma história densa, de leitura nada fácil, com permanentes e recorrentes saltos no tempo, com uma escrita carregada, onde imperam uma linguagem de adjetivos, de divagações, de pensamentos, recordações, devaneios e, não menos importante, descrições pouco pudicas e, como já ouvi alguém dizer, algo pornográficas J Mas não se fica por aqui, pelo contrário. É, como qualquer obra desta magnífica autora espanhola, seja de anos mais passados ou mais recente, um romance que nos cativa, que nos derrete e que nos comove desde as suas páginas iniciais (onde, por exemplo, Benito, o protagonista, recorda uma passagem banal e ao mesmo tempo fundamental da sua infância e que nos faz compreender de imediato a ligação umbilical que existia entre ele e a mãe) até às que encerram a narrativa e nos abrem o coração e nos levam a estender uma mão carinhosa a Manuela.
Benito e Manuela são as personagens principais de uma história que se desenrola numa Madrid onde ainda circulam as pesetas. São duas almas solitárias que deambulam pelas ruas da capital espanhola, sem qualquer objetivo concreto, fechadas cada uma no seu mundo cinzento, cheio de inseguranças, desilusões constantes e sonhos patéticos. Nenhum dos dois foi tão pouco agraciado fisicamente. Ele é enfezado, feio e tem o osso do peito muito saliente. Ela é gorda, dona de um rosto com feições pouco atrativas e revela pouco gosto na forma de vestir-se. Encontram-se casualmente, mas a sua história nada terá de vulgar nem de bonito.
Benito, homem perto dos quarenta, que sempre sofreu com o amor que dedicou às mulheres da sua vida, que apenas conheceu o fracasso, a desilusão, o desengano, o desamor, continua no entanto em busca da sua princesa, da sua história de encantar, mas fá-lo de uma forma patética e desoladora, acreditando que pode ter o seu final feliz com uma adolescente, filha da porteira de um prédio vizinho, com mulheres anónimas que respondem a anúncios que põe em revistas cor-de-rosa ou com Teresa, uma antiga paixão. Quando tropeça em Manuela, sente crescer em si dois sentimentos antagónicos – por um lado, sente repulsa perante o seu aspeto físico, por outro não resiste à sua espontaneidade, à sua rudeza de jovem nascida num meio rural e sobretudo ao seu poder encantatório de contar fábulas e contos de fada. E será assim dividido que Benito inicia uma relação de amor-repulsa, de poder-servidão com a sua Manuela, a quem ocasionalmente chamará de “Viernes”, transformando-se ele em Robinson Crusoe, perdido numa Madrid habitada por milhões de habitantes, amo e senhor de alguém que parece não pertencer àquele mundo urbano e cosmopolita, que se submete às normas do seu senhor, que possui uma inocência que nos desarma e que devagarinho vai ganhando o seu espaço no coração empedernido e dorido de Benito.
Para além de Benito e Manuela, Te llamaré Viernes está povoado de outras personagens sofridas, nada abonadas fisicamente, pouco carismáticas, mas que, com as suas vidas tristes, patéticas, dececionantes, nos tocam e ganham a nossa ternura. É impossível ficar indiferente à mágoa, ressentimento e saudades de momentos mágicos que caracterizam a relação de Benito com a sua mãe, à simplicidade saloia de Manuela, à intelectualidade e inteligência que Polibio “desperdiça” atrás de um balcão de um bar decrépito ou à vida perdida de Paquita. Por tudo isto e porque Almudena é genial na construção de histórias densas, carregadas de sentimentos e de realidades, rotinas e sonhos que se acercam aos do nosso dia-a-dia, tenho que dizer que Te llamaré viernes é uma obra marcante e que deixará saudades. Pode não ser a obra de Almudena que mais me tenha agradado, mas vale a pena, ai isso vale J

NOTA – 08/10

Sinopse

¿Cómo condensar en pocas lí­neas toda la complejidad de esta difícil historia de amor, que genera a su vez tantas otras que nos hacen pensar y sentir la abrumadora soledad en la que intentan sobrevivir estos personajes feos y huraños, crecidos en el desamor, conmovedores en medio de tanta dureza y tanta ternura? En un Madrid sin alma, Benito ata los cabos de su accidentada existencia gris, hecha para estrellarse una y otra vez «con la miseria del héroe», hasta el dí­a en que, cual un nuevo y desesperado Robinson urbano, encuentra a su Viernes en Manuela, con quien la Naturaleza no fue benigna pero a quien sí­ dotó del extraordinario don de fabular. Consuelan su tortuoso y tenue deseo de vida y amor el recuerdo insistente de las chinelas azul celeste de una madre infiel y los delirios filosóficos de Polibio, intelectual venido a menos, dueño del bar más cutre de la ciudad. A su alrededor, los demás, el jodido mundo que es como una isla desierta cuando no hay un maldito Viernes que te cuente un cuento.

Retrato de un hombre inmaduro, de Luis Landero

Sexta-feira, 14 de agosto de 2015




Opinião
Um homem sabe que a morte ronda por perto, sabe que a sua vida está prestes a chegar ao fim e durante uma noite no hospital confidencia a alguém episódios que vai recordando arbitrariamente.
Resumidamente, isto é o que nos oferece a narrativa desta obra de Luis Landero, um autor espanhol que até agora apenas conhecia através de opiniões que vou lendo em sites e blogues literários que acompanho amiúde.
Como já devo ter referido anteriormente, adquiri esta obra numa viagem que fiz a Madrid e fi-lo por duas ou três razões – porque estava interessada em ler algo de Luis Landero; porque a sinopse desta obra deixava entrever uma leitura entusiasmante e finalmente porque foi a única obra deste autor que encontrei na FNAC da capital madrilena a um preço baratinho J
Finda a leitura, não sou capaz de afirmar que a sinopse cumpriu o que prometia… Ficou aquém das expetativas sobretudo porque o enredo não nos agarra, a não ser em momentos pontuais. O virar de página atrás de página torna-se um pouco entediante, já que nos leva a acompanhar recordações e histórias (que para cúmulo surgem sem razão aparente) de uma vida que o próprio protagonista define como “ridícula, insípida, trivial, una más entre tantas”. Contudo, uma existência trivial e igual a tantas outras poderia ter ingredientes suficientemente suculentos para dar azo a uma narrativa empolgante e que me levaria a lê-la num ápice. Para isso acontecer seria necessário que o autor usasse alguns mecanismos considerados infalíveis – personagens com densidade psicológica, com as quais criamos laços e que vamos conhecendo à medida que a ação avança, um enredo que nos envolva e um ritmo narrativo vivo, com as obrigatórias viagens ao passado, como se requer numa obra de memórias de uma vida. Infelizmente, Retrato de un hombre inmaduro não possui estes ingredientes e por essa mesma razão resulta numa leitura evitável, com a exceção de, como já disse, uns pensamentos e momentos ternurentos, cómicos ou muito assertivos que, no entanto, não chegam para que tenha vontade de, no futuro, voltar a ler Luis Landero. Lo siento…

NOTA – 05/10

Sinopse

En la habitación de un hospital, y en el curso de la que muy probablemente sea su última noche en este mundo, un hombre de unos 65 años le cuenta a alguien, y también a sí mismo, la historia de su vida. Dejándose llevar por el azar de la memoria y la fluidez de su propio relato, va y viene en el tiempo, rescatando, con no poco humor, las pequeñas y más significativas aventuras que vivió y que vio vivir. Porque a este hombre le ha gustado mirar siempre el espectáculo del mundo tanto o más que participar en él. Pero, como todos, conoció el amor, el sabor agridulce de la libertad, el poder, el horror, la belleza, la amistad, el absurdo, la doble conciencia y, en fin, todos los ingredientes de que está hecha la vida. Y no sólo cuenta, sino que al hilo de cada episodio busca algún sentido al viejo misterio de vivir, ahora que no hay tiempo ya de engañarse ni de rectificar. Como quien manipula las piezas para formar un puzzle, se enlazan el rápido curso vital y los remansos reflexivos, el bullir inagotable de personajes y peripecias casi siempre cómicas o kafkianas, para trazar el perfil de un hombre sesudo y a la vez infantil, responsable y a la vez arbitrario, bueno a la vez que inmoral: un retrato del hombre contemporáneo.

Blanca vuela mañana, de Dulce Chacón

Segunda-feira, 10 de agosto de 2015




Opinião
Vim de férias com a família para redescobrir mais uns cantinhos de Portugal e na bagagem trouxe quatro livros J, três em língua castelhana e um (de um autor castelhano – Javier Marías) mas que felizmente já vem sendo traduzido para português há algum tempo.
Os três livros castelhanos são de autores de língua também ela castelhana e o que acabei de ler há algumas horas é de tal forma precioso que tentei controlar a velocidade com que o li J Mesmo assim, não me refreei o suficiente porque saboreei as suas 144 páginas em apenas três dias!...
Blanca vuela mañana foi escrito por Dulce Chacón, uma autora que me foi apresentada pela minha querida Nancy, mas que a morte nos roubou demasiado cedo. Li-a pela primeira vez com a sua obra mais conhecida, La voz dormida, que aborda a apaixonante Guerra Civil espanhola na perspetiva de um punhado de mulheres destemidas, inesquecíveis e que deixam no leitor (e em mim em particular) uma marca profunda, que não se extingue facilmente.
A narrativa, as personagens de Blanca vuela mañana e o estilo intimista, sensível e intensamente conhecedor da alma feminina de Dulce Chacón também permanecerão comigo por muito tempo, tal como me fizeram companhia, há uns anos atrás, as valentes mulheres protagonistas de La voz dormida. São duas histórias distintas, duas épocas distintas e protagonistas com uma bagagem de vivências também elas distintas. Mas são duas obras que nos deliciam, que nos tocam daquela maneira muito especial e que, ao mesmo tempo, nos apetece partilhar e guardar só para nós como um tesouro precioso.
Hay amores que se mantienen de los réditos, de los intereses de un tiempo feliz que alimentan el deseo de recuperarlo. Es entonces cuando el amor no se vive: se padece, pensaba Blanca.” (pág. 69)
Este fragmento que aqui transcrevo reflete na perfeição o drama amoroso que assola a vida de Blanca – a sua relação com Peter sobrevive a duras penas, já que onde devia imperar o amor e a cumplicidade imperam momentos de um silêncio tenso e incómodo e discussões amargas. Blanca tem plena consciência de que é uma relação que não tem futuro, mas também sabe que, enquanto continuar a temer a solidão, irá agarrar-se a ela como um condenado à morte se agarra a qualquer réstia de esperança.
Em pleno contraste com esta relação temos a de Ulrike e de Heiner, dois alemães que tardiamente encontraram o amor. Mas que encontraram um tipo de amor que traz a ansiada plenitude e que ofusca os demais, sobretudo aqueles que sobrevivem através de recordações e do desejo de recuperar um tempo feliz que não voltará.
Contudo, Blanca vuela mañana não é apenas a história de duas histórias de amor. Oferece-nos igualmente momentos de cumplicidade e ternura entre mãe e filhos, entre irmãs, bem como passagens que demonstram o quanto a Segunda Guerra Mundial foi determinante para a vida e a moldagem da personalidade de algumas das personagens de nacionalidade alemã. É ainda uma obra com capítulos muito curtinhos, com uma linguagem pautada de frases também elas curtinhas e de apontamentos deliciosamente poéticos que me “obrigaram” a estar sempre com o lápis por perto para sublinhar inúmeras passagens que me conquistaram.
Sendo assim, só posso recomendar esta leitura e esperar com muita impaciência uma nova ida a Espanha para comprar as outras obras que compõem La trilogía de la huida da qual Blanca vuela mañana faz parte – Algún amor que no mate e Háblame musa, de aquel varón.
Por fim, refiro que não dou nota máxima a esta leitura porque 144 páginas são algo insuficientes (é como se nos tirassem o doce da boca quando estávamos a lambuzar-nos de deleite) e porque o seu final me deixou um pouquinho frustrada…

NOTA – 09/10

Sinopse

Blanca busca el amor, pero huye de él. Anhela encontrar en su relación con Peter algo que no la destruya, que no le obligue a renunciar a sí misma. Envidia el amor verdadero de Ulrike y Heiner, al que cree capaz de sobrevivir a la muerte, pero construye una pasión falsa en su propia pareja, dejándose engañar por los recuerdos. Blanca huye, luchando contra sus razones y deseos; teme la soledad, pero no hace sino caminar a su encuentro.