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O Homem duplicado, de José Saramago



Ficha técnica
TítuloO Homem duplicado
Autor – José Saramago
Editora – Editorial Caminho
Páginas – 318
Datas de leitura – de 22 a 27 de outubro de 2018

Opinião
Há vinte anos, em outubro de 1998, o mundo prestou a merecida homenagem ao génio das letras que era o meu Saramaguinho. Quis o destino que eu me juntasse a essa homenagem duas décadas depois.
Aos mais distraídos, relembro que, em setembro, dei início a um projeto que tinha guardado na manga há bastante tempo e que me está preencher e a aconchegar muitíssimo – falo-vos do projeto – Uma releitura por mês durante um ano (pelo menos). Ora, essa releitura é sempre uma surpresa que sai de uma caixinha onde moram (ou moravam) doze papéis com doze títulos e quis o destino que em outubro saísse o título O homem duplicado, do meu Saramago!
Recebi esta obra em 2002 e li-a muito provavelmente nesse ano (esqueci-me de anotar a data de leitura). Pouco ou nada me recordava dela, uns fragmentos que se vieram a revelar certeiros e pouco mais. Penetramos na narrativa pela mão de um narrador tipicamente saramaguiano, que intervém muito frequentemente, que tece comentários, que fala com o leitor e que é dono de um estilo que pode não agradar e não ser destrinçado com facilidade. Se observarmos as páginas, comprovamos que as mesmas são compostas de uma mancha densa e uniforme, sem qualquer tipo de quebra a não ser quando mudamos de capítulo. Só isso pode assustar e desmotivar o leitor que não conheça Saramago. Por outro lado, o comentário que se ouve inúmeras vezes, de que o autor não usa pontuação é, à partida, mais um entrave àqueles que estejam com receio de aventurar-se nos livros do nosso Nobel. Não me vou alongar sobre isso, vou apenas dizer que a pontuação existe, há pontos finais e vírgulas, só que estas têm uma função adicional àquela que é a sua principal, de fazer uma quebra curtinha no discurso.
Narrador e estilo apartes, que são dois dos motivos que mais me fazem amar e venerar Saramago, adentrámo-nos na narrativa e conhecemos de imediato o seu protagonista, Tertuliano Máximo Afonso, professor de história do ensino secundário, divorciado, solitário e que se encontra abatido, deprimido, num marasmo que parece não ter fim. Num breve diálogo que entabula com um colega de matemática, recebe deste um conselho que acaba por levar a cabo – distrair-se, alugando um filme de comédia, que não surtirá o efeito pretendido, pois deixará a sua vida enfadonha, rotineira completamente de pernas para o ar. Após ter visionado o filme, já no quentinho da caminha e nos braços do sono, Tertuliano acorda banhado em suor e com a nítida impressão de que há mais alguém em sua casa. Faz vistoria necessária, não encontra ninguém, mas algo no seu inconsciente o faz voltar a ver o filme. E é que se dará conta de algo que lhe passou despercebido no primeiro visionamento. Uma das personagens secundárias, quase figurante, é a sua cara chapada, é igualzinho a ele, sem tirar nem pôr.
Esta descoberta aterradora é o mote para o desenvolvimento da narrativa, para os próximos passos de Tertualiano que o levarão a querer descobrir quem é aquele ator que é um duplicado de si mesmo. Não quero desvendar mais da trama, apenas quero chamar à atenção para o facto de, tal como diz o Hugo (O aprendiz de leitor), a primeira parte da obra ser pausada, mais lenta e os últimos capítulos serem entusiasmantes, com um avanço significativo na ação e que culminam num final soberbo, magistral, de cortar-nos a respiração.
Foi uma releitura muitíssimo saborosa e saciante. Contudo, e porque sou uma admiradora confessa e ferrenha do "meu" Saramaguinho, consigo ter discernimento suficiente para comparar as suas obras, "classificá-las" segundo os meus gostos e exigências e compreender que a O homem duplicado lhe falta alguma coisa para ser dona do brilhantismo e da magistralidade de Memorial do Convento ou Ensaio sobre a cegueira. Termino fazendo uma brevíssima referência ao quanto gostei das personagens femininas (secundárias, é certo, mas donas de uma luz que as faz sobressair e mostrar, uma vez mais, o carinho e amor que o autor sempre pôs nas suas personagens femininas) e ao alerta que sai aos gritos da obra sobre o quão estamos a copiar comportamentos, atitudes, crenças e a perder lentamente aquilo que nos torna únicos, diferentes.

NOTA – 09/10

Sinopse
Tertuliano Máximo Afonso, professor de História no ensino secundário, «vive só e aborrece-se», «esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou», à cadeira de História «vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um começo sem fim».
Uma noite, em casa, ao rever um filme na televisão, «levantou-se da cadeira, ajoelhou-se diante do televisor, a cara tão perto do ecrã quanto lhe permitia a visão, Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pêlos do corpo»...
Depois desta inesperada descoberta, de um homem exactamente igual a si, Tertuliano Máximo Afonso, o que vive só e se aborrece, parte à descoberta desse outro homem. A empolgante história dessa busca, as surpreendentes circunstâncias do encontro, o seu dramático desfecho, constituem o corpo deste romance de José Saramago.

Meio sol amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie



Ficha técnica
TítuloMeio sol amarelo
Autora – Chimamanda Ngozi Adichie
Editora – Edições ASA
Páginas – 538
Datas de leitura – de 14 a 21 de outubro de 2018

Opinião
Depois de uma visita literária a terras chilenas atravessei o oceano atlântico e entrei em terras nigerianas, as quais nunca havia visitado, nem presencialmente nem literariamente. Creio que não é novidade nenhuma o facto de eu sentir pouco apreço pelo continente africano. Não é nenhum preconceito, não são sentimentos racistas, são outro tipo de reticências, medos, incapacidades e fobias que me fazem pôr uma distância entre a minha pessoa e terras quentes, repletas de miséria e de animais rastejantes que ainda hoje me fazem gritar de medo quando os vejo em imagens de livros ou televisivas. Tenho consciência de que estes medos e sentimentos incapacitantes me fazem ter uma visão estreita, “narrow-minded” de um pedaço de terra sublime, com gente maravilhosa e paisagens de cortar a respiração, mas, mesmo com mais de 40 anos, ainda não consigo pensar de outra forma. Contudo e em meu apanágio, tento combater esses preconceitos lendo e conhecendo autores africanos. Já tinha tropeçado em obras da autora Chimamanda em livrarias, blogues, mas foi preciso ouvir uma booktuber que acompanho assiduamente (Ana The Phoenix flight) a recomendar sem reservas esta obra para tomar a decisão de trazer Meio sol amarelo da biblioteca da terrinha. E, caramba, ainda bem que o fiz!!! Sei que foi o início de uma ligação que continuará a alimentar-se de mais e mais leituras de livros publicados por esta grande escritora, que me deixou rendida ao seu talento e à sua visão deliciosamente pertinente do que são as histórias e do quanto uma única história, uma única visão são estereotipadas e incompletas.
Deixo-vos o correspondente vídeo de opinião que mora no canal de O sabor dos meus livros (a partir do minuto 08:45) e, já agora, o link para a TED talk que a autora deu e que é sublime, tão, tão, mas tão boa que me fez ainda gostar mais dela!
Se alguém já leu Chimamanda e me quiser recomendar alguma obra sua, por favor, não se acanhe! Eu agradeço muito!!!

NOTA – 09/10




Sinopse
Com uma elegância apenas ao alcance dos grandes escritores, Chimamanda Ngozi Adichie entrelaça as vidas de cinco personagens inesquecíveis: Ugwu, um humilde criado de treze anos a quem o mundo se desvendará pela mão do seu senhor, Odenigbo, que, na intimidade da sua casa, planeia uma revolução. Este jovem professor universitário mantém uma relação apaixonada e sensual com a bela e mágica Olanna, cuja irmã gémea, Kainene, é alvo do amor desesperado de Richard, um jovem inglês a braços com o seu papel de homem branco em África. Todos eles vão ser forçados a tomar decisões definitivas sobre amor e responsabilidade, passado e presente, nação e família, lealdade e traição. Todos eles vão assistir ao desmoronar da realidade tal como a conheciam devido a uma guerra que tudo transformará irremediavelmente.

A contadora de filmes, de Hernán Rivera Letelier



Ficha técnica
TítuloA contadora de filmes
Autor – Hernán Rivera Letelier
Editora – Editorial Presença
Páginas – 84
Data de leitura – 13 de outubro de 2018

Opinião
Regressei com muito prazer e um sorriso rasgado a terras e às letras chilenas. Depois de Isabel Allende, Luis Sepúlveda e Marcelo Serrano viajei para latitudes sul-americanas na companhia de mais um autor chileno que me conquistou e que me fez e faz querer ler mais daquilo que escreveu.
Não me vou alongar muito sobre esta pequenina/grande história, pois o vídeo que vos deixo a seguir cumpre esse papel, o de abrir-vos as páginas da narrativa, apresentar-vos as personagens e de partilhar convosco o quanto foi especial a sua correspondente leitura. Vou apenas acrescentar aquilo que não foi mencionado no vídeo – através de um comentário que deixaste no vídeo, Paula, descobri que a biblioteca da minha terrinha tem mais duas obras do autor, o que consequentemente me levou a anotar esses títulos e a prometer a mim mesma que os mesmos virão comigo um dia destes.
Termino aconselhando àqueles que, como eu, sentem um fraquinho e se derretem pela literatura sul-americana que arrisquem e conheçam este autor chileno. Não se arrependerão! Eu não me arrependi.

NOTA – 09/10


Sinopse
Esta é a história de María Margarita, uma rapariga que revela um dom especial para narrar as histórias dos filmes a que assiste. Sempre que estreia um novo filme na cidade, toda a população contribui para pagar um bilhete de cinema a Margarita. Depois do filme, a jovem conta o que viu, de uma forma apaixonada, encarnando as personagens e transmitindo as imagens, a música e toda a emoção do cinema. É então que passa a ser conhecida como a Contadora de Filmes.
Hernán Rivera Letelier foi o vencedor do prémio Alfaguara 2010, com a obra El Arte de la Ressurrección, um dos mais prestigiados galardões literários de língua castelhana. No Chile, o seu país de origem, é um dos escritores com maior êxito.

Corações de Pedra, de Simon Scarrow



Ficha técnica
TítuloCorações de Pedra
Autor – Simon Scarrow
Editora – Saída de Emergência
Páginas – 410
Datas de leitura – de 06 a 12 de outubro de 2018

Opinião
Estou a escrever esta opinião praticamente dez dias depois de ter terminado a leitura de uma obra que comprei há mais de um ano atrás para o maridinho. Recordo-me da reação dele quando lhe perguntei, como sempre faço, se tinha gostado da leitura. É verdade que o que eu tenho a mais de expressividade, o maridinho tem a menos, mas já consigo compreender, mesmo que as suas reações sejam pouco expressivas, quando uma obra lhe agrada muito ou pouco. E recordo que fiquei com a sensação de que Corações de Pedra não o tinha deslumbrado. Agora que eu própria li a obra, percebo ainda melhor essa sensação.
Como já referi, terminei de ler este livro há quase dez dias, mas tenho que confessar que o intervalo que tempo que decorreu desde o dia doze pouco ou nada tem a ver com aquilo que será o teor desta opinião, isto é, que a obra arranca com uma premissa muito prometedora e termina arrastando-se e enovelando-se em momentos quase sem fim de descrições bélicas, estratégicas, em muitas e muitas páginas que, apenas no final, fazem a ponte (bastante rebuscada, no meu ponto de vista) com as personagens e a trama inicial.
Se consultarem a sinopse, constatam que a ação começa em 1938, na ilha grega de Lefkas. É lá que se encontra um professor alemão, o Doutor Karl Muller, responsável pelas escavações arqueológicas levadas a cabo a mando da Universidade de Berlim e o seu filho, Peter Muller, que entretanto travou amizade com dois jovens locais. A Europa está prestes a envolver-se noutro conflito bélico de proporções mundiais e o Dr. Muller é informado de que tem que regressar à Alemanha. No último dia que partilham juntos, Peter e os seus amigos gregos – Andreas e Eleni – prometem voltar a encontrar-se o mais rápido possível.
A guerra estala entretanto e os dois países – Alemanha e Grécia – estão em lados opostos. Andreas alista-se na Marinha grega e posteriormente envolver-se-á com as forças de resistência, às quais Eleni dará uma ajuda preciosa. Peter, agora um oficial nazi, regressa à Grécia e à ilha de Lefkas e o encontro entre os três é inevitável. Se juntarmos a tudo isto uma descoberta importantíssima que o Dr. Muller fez, em 1938, no último dia que passa na ilha grega, temos os ingredientes essenciais para uma narrativa muito prometedora. Contudo, e reitero que o que vou dizer a seguir é apenas a minha perspetiva, apenas a leitura que fiz desta obra, à medida que ia avançando nas páginas, fui perdendo o entusiasmo e sentindo que uma experiência que parecia ter tudo para ser empolgante, acabou tornando-se enfadonha e arrastada, levando a que eu sentisse, acima de tudo, alívio por tê-la terminado. Não fui capaz de criar grande empatia com as personagens, achei que não houve grande evolução nas mesmas, as relações que as unem são bastante mornas e a parte final, aquela que permite que os três amigos se reúnam novamente, poderia ser muito mais bem explorada. Para além disso, como já referi, considero que a narrativa se enovelou demasiado em descrições de conflitos, de armamentos e coisas similares e isso, pelo menos para mim, foi algo aborrecido, que me levou a ler algumas partes na diagonal.
Contudo, mesmo tendo em conta tudo o que de menos bom possui esta obra, acho que saí da sua leitura mais informada acerca da Segunda Grande Guerra, pois, apesar de já ter lido imensas obras relacionadas com este conflito, pouco ou nada sabia de como o mesmo havia afetado a Grécia e os seus habitantes. Sendo assim, não posso afirmar que ler esta obra tenha sido uma pura perda de tempo. Nada disso. Acho apenas que, com uma premissa tão entusiasmante, as minhas expectativas saíram muito goradas e não encontrei em Corações de Pedra aquilo que já encontrei em outras obras dedicadas à temática e que me maravilharam.
Assim sendo, não posso dar-lhe mais do que uma nota mediana e nem posso recomendá-la a quem queira mergulhar na Segunda Grande Guerra através de uma narrativa arrebatadora e recheada de emoção e de personagens inesquecíveis.

NOTA – 05/10

Sinopse
1938: Três jovens vivem um verão perfeito na ilha grega de Lefkas, isolados dos problemas políticos que fervilham na Europa. Peter, de visita da Alemanha enquanto o pai lidera uma expedição arqueológica, desenvolveu uma forte amizade com Andreas e Eleni.
À medida que o mundo resvala para a tragédia e Peter é forçado a partir, os amigos juram encontrar-se de novo.
1943: Andreas e Eleni juntaram-se às forças da resistência contra a invasão alemã. Peter regressa - agora um oficial inimigo e espião perigoso. Uma amizade formada em paz irá transformar-se numa batalha desesperada entre inimigos dispostos a sacrificar tudo pelos países que amam…

Malena es un nombre de tango, de Almudena Grandes



Ficha técnica
TítuloMalena es un nombre de tango
Autora – Almudena Grandes
Editora – Tusquets Editora
Páginas – 761
Datas de leitura – de 24 de setembro a 04 de outubro de 2018

RELEITURA

Opinião
Em setembro quis desafiar-me e pôr em prática um projeto que já me aliciava há bastante tempo. Como sabem, adoro fazer releituras de obras que me conquistaram num determinado momento e que merecem que as retire de novo da estante e lhes dê, uma vez mais, atenção, tempo e mimo. Por tudo isso, desafiei-me a criar o projeto – Uma releitura por mês. Escrevi doze títulos em doze post-its – nove amarelos (correspondentes a obras publicadas em Portugal) e três cor-de-rosa com títulos de obras de Almudena Grandes. Coloquei-os numa caixinha e todos os meses – de setembro de 2018 a agosto de 2019 faço um sorteio (podem ver o sorteio de setembro aqui e o de outubro aqui) e releio a obra que me caia em sorte.
No mês passado, decidi apenas sortear uma obra em espanhol, porque seria a única que iria ler em língua castelhana durante esse período. Tive a felicidade de retirar o papelinho que continha o título que queria reler em primeiro lugar – Malena es un nombre de tango, da minha Almudena.
Todos que me conhecem e me seguem por estas bandas estão carecas de saber que Almudena Grandes é uma das referências incontornáveis da minha vida de leitora adulta. Nas minhas estantes moram quase todas as suas obras e não há nenhuma que não me tenha tocado de uma forma muito particular e muito especial. Malena es un nombre de tango não foi obviamente exceção, muito pelo contrário. Na primeira leitura que fiz da mesma, fiquei tão arrebatada com a sua protagonista, com a sua história, com os estereótipos que carrega, com a luta que luta consigo própria e com os outros para libertar-se dessas ideias e tradições que a amarram e não a deixam ser feliz e sentir-se realizada, que soube de imediato que teria que lê-la de novo, um dia mais tarde. E esse dia chegou, oito anos e um mês depois.
Malena é a menina má de um par de gémeas. É a filha desajeitada, é a filha menos perfeita, é a aluna pouco brilhante e é a irmã que, ainda na placenta, roubou alimento à sua gémea, fazendo com que esta nascesse com aspeto de prematura, precisasse de ir para a incubadora e passasse os primeiros anos debaixo do olho clínico de médicos especialistas. É a miúda que sempre se sentiu culpada, sempre se sentiu deslocada e a ovelha negra de um família tradicional, burguesa e endinheirada. Cresce sem ter a proteção de ninguém, ouvindo e sabendo das coisas através de falas veladas, de críticas face ao perfeccionismo da irmã (que até o nome lhe roubou quando nasceu) e dos ensinamentos que mãe, avó e a própria gémea lhe tentam impor.
Malena nasce na década de 60, em plena ditadura franquista. Não passou por necessidades económicas, porque a sua família é endinheirada, mas desenvolve-se num ambiente que dita que o papel de uma menina é ser obediente, dar suma importância à família, crescer para ser uma boa filha, uma boa neta e futuramente uma boa mulher, submissa, religiosa, doméstica e uma boa mãe. Quando se dá conta de que, por muito que se esforce, nunca será como Reina, a sua mãe e a sua irmã, e que, pelo contrário, é portadora do sangue impuro que está presente em alguns elementos da sua família, tem consciência de que terá que expiar essa culpa. E fá-lo-á eternamente, diminuindo-se face à irmã, tentando calcar o amor que professa pelo seu avó e pela sua tia Magda (as outras ovelhas negras da família) e sentindo-se um pouco culpada sempre que dá ouvidos ao que ela quer, ao que o seu coração e o seu corpo lhe pedem.
É humanamente impossível não nos apaixonarmos por Malena. É uma miúda e mais tarde uma mulher vibrante, dona de um corpo que destila sensualidade, que apenas quer ser ela mesma, amar e ser amada numa época que está, aos pouquinhos, deixando que as mulheres desabrochem. A sua tórrida história de amor enquanto adolescente, a dor física que a assola quando é abandonada, as escolhas imperfeitas que faz em adulta, a diferença abismal entre ela, como progenitora, e a sua mãe e irmã, a vontade que tem de querer conciliar todos os papéis que a fazem mulher, tudo a torna numa protagonista inesquecível. E isso deve-se exclusivamente à genialidade de Almudena Grandes que nos entende, a nós mulheres, como muitíssimo poucas escritoras.
Numa obra de quase oitocentas páginas há muito mais do que Malena. Há histórias igualmente inesquecíveis de outros elementos da sua família, há um travo das dificuldades que caracterizaram a vida do espanhol anónimo durante a ditadura, há mais uma ou outra memorável história de amor e há, acima de tudo, o quebrar de tabus associados ao papel da mulher. Malena vai quebrando-os, tal como o fizeram a sua tia e a sua avó paterna. Leva muitas bofetadas enquanto o faz, mas no final compreende que valeu a pena e que se encontrou finalmente como ser humano e como mulher.
Quem já leu ou venha a ler esta obra, pode afirmar que poderia ser menos extensa, que a autora poderia cortar-lhe um bom punhado de páginas. Pode igualmente referir-se ao estilo de Almudena como algo rebuscado ou rendilhado. Não deixo de estar de acordo, sobretudo quando o comparo àquele que a própria autora depurou em obras seguintes. Contudo, mesmo assim, dou nota máxima a Malena, porque voltei a apaixonar-me por ela, perdidamente, como me apaixonei há oito anos e um mês.
Termino (e ainda havia tanto para dizer), informando que esta obra foi, há muitos anos, publicada em português. Infelizmente, só a conseguirão encontrar em alguma biblioteca ou alfarrabista. Mas se tropeçarem nela, deem-lhe uma oportunidade, sobretudo aqueles que não se assustam com o seu tamanho e com um estilo denso, que corre, com muita frequência, do passado para o presente e que parece ter saído, de rajada, da cabeça da autora para o papel.

NOTA – 10/10

Deixo-vos também o vídeo de opinião que publiquei entretanto no canal. Neste mesmo vídeo faço também referência a outra leitura que, infelizmente, não terminei.


Sinopse
Malena tiene doce años cuando recibe, sin razón, y sin derecho alguno, de manos de su abuelo el último tesoro que conserva la familia: una esmeralda antigua, sin tallar, de la que ella nunca podrá hablar porque algún día le salvará la vida. A partir de entonces, esa niña desorientada y perpleja, que reza en silencio para volverse niño porque presiente que jamás conseguirá parecerse a su hermana melliza, Reina, la mujer perfecta, empieza a sospechar que no es la primera Fernández de Alcántara incapaz de encontrar el lugar adecuado en el mundo. Se propone entonces desenmarañar el laberinto de secretos que late bajo la apacible piel de su familia, una ejemplar familia burguesa madrileña. A la sombra de una vieja maldición, Malena aprende a mirarse, como en un espejo, en la memoria de quienes se creyeron malditos antes que ella y descubre, mientras alcanza la madurez, un reflejo de sus miedos y de su amor en la sucesión de mujeres imperfectas que la han precedido.

Messias, de Boris Starling



Ficha técnica
TítuloMessias
Autor – Boris Starling
Editora – Bertrand Editora
Páginas – 534
Datas de leitura – de 16 a 21 de setembro de 2018

Opinião
Como sabem, os thrillers não abundam nas minhas leituras, mas estes últimos meses tenho lido alguns e têm sido leituras bastante produtivas e saborosas. Em setembro, por causa do desafio literário organizado por duas booktubers que sigo com carinho (Dora e Cristina), chamado #septemberthrills, li este thriller, que trouxe da biblioteca da terrinha, e que me agradou sobremaneira! Deixo-vos o vídeo que publiquei no canal do youtube e que espero vos influencie e vos leve a dar-lhe uma oportunidade, porque é mesmo muito bom!


NOTA – 09/10

Sinopse
A primeira vítima foi encontrada pendurada numa corda. A segunda, espancada até à morte, jazendo numa poça de sangue. A terceira, decapitada. Os seus antecedentes são tão diferentes como os métodos do seu assassinato. Mas um pormenor arrepiante liga os três crimes: as suas línguas foram cortadas e substituídas por uma colher de prata. A polícia tinha provas suficientes para acreditar que estava perante um raro e perturbador fenómeno: o aparecimento de um serial Killer... E ele vai matar outra vez.

Soledad, de Raffaello Bergonse



Ficha técnica
TítuloSoledad
Autor – Raffaelo Bergonse
Editora – Ambar
Páginas – 175
Datas de leitura – de 11 a 15 de setembro de 2018

Opinião
Sou uma mulher do Norte, mais propriamente do litoral, mas, a partir do momento em que comecei a calcorrear o nosso lindo país, não fui capaz de resistir aos encantos de paragens mais interiores, mais agrestes e menos verdes. Concordo plenamente com Miguel Torga, que afirmou um dia que o Minho é demasiado verde. Prefiro de longe as paisagens mais nuas, semeadas de pedregulhos, fragas ou então que se espraiam por quilómetros que parecem infinitos, como as transmontanas, as beirãs e as alentejanas.
Soledad, do autor que até agora me era desconhecido – Raffaelo Bergonse – levou-me de novo a uma vila alentejana que me fascina desde que a visitei pela primeira vez, há cerca de quinze anos. Refiro-me a Castelo de Vide, aninhada numa encosta e protegida pelo seu castelo e pela sua imponente torre de menagem. Já percorri as suas ruazinhas sinuosas pelo menos três vezes e a última ocorreu em 2012, durante uma semana inesquecível de férias de verão. Aqui ficam duas fotografias que testemunham a beleza e o encanto da vila:



Aconchegada por esse amor e fascínio, parti para a leitura com todos os sentidos em alerta e derreti-me com as descrições dos espaços urbanos que rapidamente recordei – ruas, praças, monumentos, portas em ogiva –, com a infinitude das paisagens e sobretudo com a sua quietude, a sua paz e o seu chamamento milenar, que sempre atraiu o Homem, como se pode depreender dos achados arqueológicos que abundam por lá. É por demais evidente que toda a magia e a precisão que o autor colocou nestas partes descritivas, nos pormenores, nas sensações e nos recantinhos mais recônditos provêm de alguém que conhece o espaço do nordeste alentejano como poucos e esse conhecimento, essa vivência (atestada pela pequena biografia numa das abas do livro) são o melhor, a parte mais positiva de uma narrativa que, no resto, não deixa de ser mediana.
A trama tem o seu início em Lisboa, onde vive e trabalha o nosso protagonista, José Diamantino. Contudo, irá deixar a capital muito em breve, porque atenderá ao pedido do seu patrão, pedido esse que o levará a Castelo de Vide para gerir uma livraria que está a precisar de carinho e uma boa gestão para poder sobreviver. A mudança é vista com muito bons olhos por José Diamantino, já que lhe permitirá deixar para trás um ambiente familiar repleto de rancor por um pai violento. Vai viver numa casa rodeada de natureza e sossego, vai saborear uma solidão que não lhe pesa no coração e vai entabular conversas com gente simples e franca. Vai criar amizades e vai amar desesperadamente. Vai finalmente viver. Mas será que vai conseguir de verdade romper com todas as amarras que o tinham aprisionado a um passado de submissão a um pai violento?
Termino dizendo que Soledad é uma obra de fácil leitura e que pode cativar o leitor que busca uma narrativa simples, com uma trama não muito densa, com poucas personagens e temas associados à desilusão, ao rancor, à vontade de escapar a doridas ligações familiares e a escolhas que se fazem irrefletidamente. Na minha opinião (que é algo parcial, por aquilo que já referi), ganha brilho e magia com a escolha do espaço onde se desenrola – a lindíssima vila de Castelo de Vide, o espaço natural fabuloso onde está situada e o encantamento que se respira naquelas paisagens que me enfeitiçaram para todo o sempre. Sinto que se a trama se desenrolasse noutro espaço, noutro local, não me diria muito… Atrevo-me a dizer que me diria muito pouco…

NOTA – 07/10 (por tua causa, Alentejo, por tua causa, Castelo de Vide)

Sinopse
Um livreiro que arrasta velhos fantasmas.
Uma mulher deslocada. 
Um estranho aguarelista solitário.
SOLEDAD é a surpreendente narrativa do encontro improvável de três vidas muito diferentes, e das suas consequências irreversíveis.
Uma fábula de amor e destino, que tem como testemunhas as imensidões rochosas do Nordeste Alentejano.

Meridiano 28, de Joel Neto



Ficha técnica
TítuloMeridiano 28
Autor – Joel Neto
Editora – Cultura Editora
Páginas – 420
Datas de leitura – de 03 a 10 de setembro de 2018

Opinião
Apaixonei-me por Joel Neto quando li Arquipélago. Foi uma leitura sublime, onde tudo está magistralmente orquestrado e que continuo a recomendar muitíssimo. A Arquipélago seguiu-se-lhe A vida no campo, num registo distinto, de não-ficção e que me fez aumentar ainda mais a vontade, já de si tremenda, de conhecer a ilha Terceira e de continuar a ler Joel Neto.
Quase dois anos depois dessas duas leituras, voltei a ter Joel Neto nas minhas mãos. Fui seguindo as pistas e indicações que o autor foi deixando nas redes sociais e na imprensa sobre a publicação de Meridiano 28 e nem imaginam o meu contentamento e euforia quando, por fim, em maio deste ano, comprei a obra (autografada e tudo) e a coloquei na minha estante. Aqueles que estão a par da minha mania das leituras cronológicas devem estar agora mesmo a questionar-se sobre como foi possível eu ter lido em setembro uma obra que apenas havia comprado 3 meses antes. A culpa é de uma das categorias da maratona Bookbingo, que “me obrigou” a retirar da estante um livro que tivesse um número no título. Meridiano 28 era a mais antiga que morava cá em casa e que encaixava nessa categoria, por isso não tive outro remédio que não lê-la antes da sua vez ;)
Meridiano 28 é o meridiano que atravessa o arquipélago dos Açores. Contudo, em termos literários é isso e muito, muito mais. Centra-se, como é óbvio, nesses torrõezinhos de terra que pertencem ao nosso país, sobretudo na ilha do Faial e faz-nos viajar a uma época que, como sabem, me fascina desde sempre – a Segunda Grande Guerra. Contudo, estaria a ser injusta se apenas dissesse isso sobre esta obra que, confesso já, me arrebatou.
A narrativa arranca em 2107. José Filemom Abke Marques (que nome maravilhosamente sui generis) enterrou o seu tio há poucos dias e recebe uma estranha visita na sua loja de informática. Não é a primeira vez que se encontra com aquele velhote que parece ser gémeo do ator Morgan Freeman, mas tudo faz para não dar a entender que o reconheceu. Tão-pouco se deixa tentar (pelo menos naquele dia) pela caixa que o misterioso homem lhe entrega e que, segundo ele, contém material relevante para que José termine o que prometeu fazer há mais de vinte anos, na biblioteca de uma luxuosa mansão dos arredores de Nova Iorque.
Este é o preâmbulo para uma trama que se molda com uma brilhante mistura de mistério, suspense, momentos históricos, viagens entre vários pontos do mundo, um equilíbrio perfeito entre presente e passado, dois homens protagonistas e provenientes da mesma família, deliciosas personagens secundárias e os Açores, esse arquipélago místico, mágico e que me atrai cada vez mais e mais.
Desengane-se quem pega em Meridiano 28 e espera encontrar nas suas 420 páginas uma narrativa de ritmo vertiginoso típica de um thriller ou romance de ação. Desengane-se igualmente quem crê, perante a lista gigantesca de personagens presente nas primeiras páginas, que se vai baralhar e perder-se no meio de tanta gente. Por fim, desengane-se quem acha que vai encontrar apenas uma narrativa de mistério ou apenas uma narrativa histórica. Meridiano 28 é uma amálgama brilhantemente urdida pelo autor e não defraudará nenhum leitor que busca o imprevisível, que procura narrativas que vão deixando cair, pouco a pouco, o pano e que são habitadas por personagens redondas, imperfeitas, algo banais, mas que nos agarram e se mantêm connosco durante muito tempo.
Para além de tudo isto que já referi, a obra agradou-me e conquistou-me pelo seu lado histórico e geográfico. Tenho, como já mencionei vezes se conta, um fascínio enorme pela Segunda Grande Guerra, mas até ter lido Meridiano 28, não tinha a mais pálida ideia de como este conflito tinha chegado às ilhas açorianos e de que forma tinha marcado as suas terras e os seus habitantes. Foi, assim, maravilhoso descobrir que na pequena ilha do Faial ingleses e alemães conviveram em paz durante os primeiros três anos da Guerra e que na Horta estavam instaladas importantes bases de uma das mais importantes redes de comunicação da época – a da telegrafia. Para além disso, através das deambulações dos dois protagonistas da obra – o já referido José Filemom e o seu tio, Hansi – pude conhecer a baía, ruas e outros locais da cidade da Horta e pude percorrer espaços da ilha como o Porto Pim, o Capelo e apreciar a beleza estonteante de um torrãozinho plantado em pleno Atlântico, sempre de olhos postos no Pico e na sua majestosidade. Por fim, pude experimentar o lado vulcânico da ilha, os seus tremores de terra e as suas erupções de grandes proporções.
Não quero terminar esta opinião (que já está gigante) sem abordar aquilo que acho ser o ponto fulcral de uma boa narrativa. Falo das suas personagens e nesta, na de Meridiano 28, as personagens, todas elas, estão muito bem construídas e é impossível ficar indiferente a José Filemom, à sua orfandade de emoções, à sua demanda de saber quem foi na verdade o seu tio Hansi (e saber igualmente quem é ele próprio) e ao desfecho que lhe reserva o autor. Aliás, o epílogo da obra é brutal e quando digo brutal não significa que nos deixe estarrecidos. É brutal, porque traz respostas, traz apaziguamento e fecha muitas portas que precisavam de ser fechadas. Gostei muito da personagem do José, comunguei da sua satisfação quando deu aquelas bofetadas (de luva branca) nas derradeiras páginas da obra, gostei imenso da Alice, do Fernando/Carlos Ponta-Garça e nutri um carinho que foi gradualmente crescendo por Hansi, pelo jovem e não menos jovem Hansi.
Termino (agora sim) dizendo que valeu a pena esperar dois anos por esta nova obra de Joel Neto. Está madura, consistente e muito bem conseguida. Recomendo-a vivamente, tal como o faço para as outras obras que já li do autor!

Esta foi a décima quinta leitura que fiz para a maratona literária Bookbingo – Leituras ao sol 2 – e foi para a categoria Livro com um número no título.

NOTA – 9,5/10 (apenas porque continuo a gostar um bocadinho mais de Arquipélago)

Sinopse
Em 1939, o mundo entrou em guerra. Foi o conflito mais mortífero da história da humanidade. Mas, na pequena ilha açoriana do Faial, ingleses e alemães conviveram em paz durante mais três anos. Eram os loucos dos cabos telegráficos.
Do mar em frente emergiam os periscópios de Hitler. Dezenas de navios britânicos eram afundados todos os meses. Já em terra, as crianças inglesas continuavam a aprender na escola alemã, dividindo as carteiras com meninos adornados de suásticas. As famílias juntavam-se para bailes e piqueniques.
Os hidroaviões da Pan American faziam desembarcar estrelas do cinema e da música, estadistas e campeões de boxe. Recolhiam-se autógrafos. Jogava-se ao ténis e ao croquet. Dançava-se o jazz. Viviam-se as mais arrebatadoras histórias de amor.
Poderia um agente nazi ter-se escondido nos Açores, consumada a derrota de Hitler? Quem foi Hansi Abke? Que sombra lança hoje sobre o destino de José Filemom Marques, o sobrinho criado no Brasil?
Um romance que vai de Lisboa a Nova Iorque, de Friburgo a Praga, de Bristol a Porto Alegre e às ilhas açorianas, onde todos são descobertos e ninguém pode ser apanhado. Um reencontro entre dois homens de tempos distintos e que talvez tenham mais em comum do que aquilo em que gostariam de acreditar. Uma memória das mulheres que amaram e talvez não tenham sabido fazê-lo.