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Jogos de Raiva, de Rodrigo Guedes de Carvalho



Ficha técnica
TítuloJogos de Raiva
Autora – Rodrigo Guedes de Carvalho
Editora – Publicações Dom Quixote
Páginas – 439
Datas de leitura – de 20 a 27 de março de 2019

Opinião
         Tenho todos os livros que Rodrigo Guedes de Carvalho publicou. Já os li todos. Alguns já foram, inclusive, relidos. Acho que, com estas três frases, dá para entender que este autor português é um dos meus favoritos e que, modéstia à parte, não sou nenhuma novata nas suas letras.
         Para os que não sabem, o Rodrigo esteve bastantes anos sem publicar qualquer obra literária. Lançou Canário em 2007 e só passados dez anos é que voltei a ter nas mãos mais uma obra sua (podem encontrar a correspondente opinião aqui). Foi um interregno que a nós, os dois leitores adultos cá de casa, nos deixou algo órfãos e que nos fez querer remediar essa orfandade comprando e devorando com sofreguidão as duas obras que o autor publicou quase de rajada entre 2017 e 2018.
         Recordo-me de comentar com o meu maridinho algo semelhante a isto – “Que bom que, após dez anos de silêncio, tenhamos agora duas obras com que nos podemos deliciar!” “Espero que este tempo, por um lado, o tenha levado a criar narrativas tão boas ou melhores do que as anteriores e que, por outro, não deixem de ter os ingredientes que nos fazem continuar a querer ler o “nosso” Rodriguinho!”
         Comprei Jogos de Raiva na FLL de 2018. A obra está autografada pelo próprio Rodrigo que, nesse dia, estava no stand da Leya a divulgá-la. Esteve na estante todos estes meses por causa da minha mania das leituras cronológicas e continuaria aí se eu não estivesse a tentar reverter essa mania e se não a tivesse escolhido para participar no projeto da Patrícia Rodrigues – Lusiteratura – para a categoria de Março 2019 – obra escrita por uma figura pública. Saltou da prateleira dos não-lidos no dia 20 e iniciei a sua leitura muito bem acompanhada por ti, Paulinha, que esperaste por mim para lê-la em conjunto.
         Tudo, como podem compreender, parecia muito promissor. Iria mergulhar na leitura do último livro de um dos meus autores favoritos, que muitos leitores que eu sigo e em que confio tinham classificado de muito boa ou excelente. E, para cúmulo, iria fazê-lo na companhia da minha bookbestie.
         As páginas iniciais são soberbas, magistrais, com tudo aquilo que me agrada de sobremaneira em RGC. Contudo, no dia em que recebi um mail (é através do mail que a Paulinha e eu fazemos as nossas leituras em conjunto) com o título “Houston, we have a problema”, tudo começou a descambar. Primeiro, para a Paula, depois para mim. Primeiro, para ela, que tem, sem dúvida, conhecimentos mais profundos de cultura geral do que eu, os quais a levaram a torcer o nariz a falhas incompreensíveis em alguém que, para além de escritor, é jornalista. Posteriormente, para mim, que me fui apercebendo de que, em Jogos de Raiva, as personagens têm pouco sumo, são muito planas, estereotipadas e pouco ou nada reveladoras da complexidade e densidade que habitam aquelas que dão um protagonismo ímpar às obras anteriores do autor. A tudo isto, que já era razão suficiente para que me apetecesse devolver a obra às prateleiras, juntou-se algo ainda pior – a sensação de que o autor apenas escreveu esta narrativa para poder abordar e espezinhar todo e qualquer tema que seja polémico e que esteja na berlinda nos dias de hoje – temos racismo, temos homossexualidade, temos as guerras sem sentido, temos as redes sociais e o seu lado de retrete da humanidade, temos a violência doméstica, temos as doenças mentais e até temos mortes de gente inocente às mãos de bárbaros que de humano não têm nada.
         Entendo que vivemos numa sociedade onde imperam todos estes temas e entendo (e assino por baixo) a vontade de espezinhá-los e aniquilá-los. Mas, como diria a Catarina (uma das personagens da obra), caramba, era preciso amontoá-los todos numa narrativa só??? Eu acho que não havia necessidade e que, ao fazê-lo, o autor demonstrou aquilo que nunca havia demonstrado antes – desleixo, pouco cuidado na criação de uma narrativa, onde as personagens, o lado ficcional se perde quase por completo e o que resta é, na minha humilde opinião, uma mistelada, uma salgalhada, uma mistangada (como diz a minha mãe) que me fez saltar algumas páginas e querer fechar a obra o mais rápido possível…
         Como leitora admiradora de Rodrigo Guedes Carvalho, dói-me muito partilhar esta opinião e não vos recomendar a leitura de Jogos de Raiva. Mas não me sentiria bem se não o fizesse, pois prezo a minha honestidade acima de tudo e nunca poderia enganar-vos. Agora, vocês são livres de seguir ou não a minha não-recomendação, pois só precisam de ir ao Goodreads para constatarem que eu e a Paula somos as “más da fita”, já que todos os restantes leitores deram, no mínimo, 4 estrelas a esta obra.
         Se houver alguém desse lado que já tenha lido a obra e queira deixar aqui a sua opinião, por favor, faça-o! E se essa opinião for contrária à minha, ainda melhor, não se acanhe!

         NOTA – 04/10

         Sinopse
         Um homem levanta a voz acima da algazarra de conversas. E pede que ponham mais alto o som do televisor do restaurante. É então que todos reparam no que ele vê. Não percebem ou não acreditam. E na rua, no bairro, na cidade, no país, homens, mulheres e crianças vão-se calando. Está por todo o lado, a imagem horrível e hipnotizante. O homem que pediu silêncio leva as mãos à cara e pensa: como chegámos aqui? A era da comunicação global trouxe inimagináveis maravilhas. Partilhas imediatas de ensinamentos, denúncias e solidariedades. Mas permitiu também que saísse das cavernas uma realidade abjecta. Insultos, ameaças, ironias maldosas. Nunca, como hoje, a semente do ódio foi tão espalhada. É sobre este pano de fundo que se conta a história de uma família. Três gerações a olhar para um futuro embriagado num estado de guerra. Uma família que esconde, enquanto puder, um segredo. Jogos de Raiva traça duros retratos sem filtro sobre medos e remorsos, sobre o racismo, a depressão, a sexualidade, o jornalismo, a adopção, a arte e a amizade. E o poder das histórias. É sobre a urgência da confiança, da identidade e do amor. É um livro sobre todos nós, à deriva num novo mundo.

Carta ao Pai, de Franz Kafka



Ficha técnica
TítuloCarta ao Pai
Autor – Franz Kafka
Editora – Hiena Editora
Páginas – 94
Datas de leitura – de 03 a 04 de fevereiro de 2019

Opinião
         Mais uma obra lida para o projeto da Silvéria - #24horas1livro. Com ela estreei-me nas letras do consagradíssimo Franz Kafka, mas digo já que foi uma das piores estreias de que me lembro nos últimos anos… Que me perdoem os admiradores de Kafka, mas, se o livro não fosse tão fino e se não o estivesse a ler em conjunto com a minha querida Cristina do canal e blogue Linked Books (visitem-na aqui), tê-lo-ia posto de lado sem qualquer tipo de remorso.
         A premissa é muito interessante – estamos, tal como o título indica, perante uma carta que o autor, já adulto, escreve ao seu pai com quem sempre teve uma relação conflituosa. Até ao momento em que trouxe este livro da biblioteca municipal pouco ou nada sabia sobre a vida de Kafka. Estive em Praga em 2003, visitei a famosa casa nº 22 da Travessa Dourada, onde o autor e a sua irmã estiveram hospedados, mas tirando isso, nada tentei saber sobre ele, porque, dos autores que leio, dificilmente procuro saber isto ou aquilo das suas vidas privadas. Assim sendo, entrei para a leitura às escuras, interessada em privar com o autor, em tentar encontrar vestígios da sua escrita neste registo epistolar e, por que não, tentar compreender se a relação animosa que tinha com o pai teria ou não influenciado os seus escritos.
         Desde as primeiras páginas fui assinalando passagens com post-its, fui transcrevendo algumas, mas a partir do meio da carta pus de lado post-its, lápis e caderno e comecei a revirar os olhos, a bufar de impaciência e, pior ainda, a criar na minha cabeça uma imagem nada abonatória do Sr. Kafka… Toda a carta, todinha, é um despejar de culpas ao pai por tudo, tudo de mau que aconteceu na vida do pobre filho – a autoridade, a rigidez, as exigências, as ideias e preconceitos foram sempre barreiras que o menino nunca foi capaz de ultrapassar e, se estivéssemos apenas a falar de Kafka enquanto criança e jovem, todas as suas queixas e ressentimentos seriam mais do que aceitáveis. Agora, por favor, tenham dó, que um Kafka já adulto ainda continue a queixar-se continuamente de que tem medo do pai, de que não casou por causa do pai, de que se tornou aquilo que é apenas por causa dele e por aí adiante, porque as queixas são intermináveis, ai, give me a break, é demais para qualquer pessoa que o está a ler e a aturar!
         Encerrei a leitura com uma vontade bem considerável de abanar o autor, mesmo ele já estando morto. A imagem que ainda se mantém comigo, mais de dez dias passados, é um de um Kakfa “júnior” mesquinho, cobarde, vingativo, que não teve estofo nem coragem de sair da barra paternal, que nutre, desde pequeno, medo, ressentimento e, por que não, ódio do pai, mas que nunca soube fazer-se alguém, que tem noção dos muitos defeitos do seu progenitor (e sim, são muitos – o senhor era bastante prepotente), mas que não encontra em sim “armas” e valentia para distanciar-se dele, para fazer-se homem e para deixar de detestar o pai e a si mesmo. Sim, porque, a determinado momento da carta, Kafka admite que nem ele gostaria de ter um filho como ele, com o seu carácter fraco e quezilento…
         Como podem calcular, não gostei de quase nada desta leitura e, no final, quando fechei o livro, estava algo aflita porque não sabia como partilhar com a Cristina que eu, estreante no mundo kafkiano, não tinha nada de positivo para contar-lhe da experiência. Contudo, para meu alívio, a opinião dela era muito semelhante à minha ou ainda menos positiva! Não sendo a primeira vez que lia Kafka e baseando-se nas pontuações do Goodreads e nas recomendações de outros bloggers/booktubers que não costumam falhar, a Cristina sofreu uma deceção bem maior do que a minha…
         Mas nem tudo foi negativo nesta leitura e será por isso que não darei à leitura uma pontuação inferior. A conversa que tivemos depois da leitura, na qual a Cristina partilhou os seus pontos de vista muito assertivos e me informou que esta carta, entre outros escritos, não deveria, segundo o próprio autor, ter sido publicada, mas “sim queimada” (foi um amigo que a disponibilizou aos leitores, após a morte de Kafka), foi muito elucidativa e provou o quanto as leituras feitas em conjunto têm um sabor diferente, bem mais suculento e que deverão acontecer com mais regularidade. Da minha parte, poderão estar certos, estarei sempre disponível para “infiltrar-me” numa 😊
         Resumindo, esta não é uma leitura que recomendo. Em absoluto. Mas não fecho a porta às letras do autor checo, apesar de não estar com vontade de pegar numa obra sua nos próximos tempos… E desse lado? Há alguém que já tenha lido esta carta e que tenha uma opinião diferente da minha? Adorava que mo dissessem!

         NOTA – 04/10

         Sinopse
         "Carta ao Pai" (1919), um texto que, tal como o título refere, Kafka dirige ao seu pai, homem severo e de temperamento dominador, com quem o autor foi incapaz de desenvolver uma convivência pacífica. Ao longo da carta, Kafka escreve-lhe sobre o efeito negativo e perverso da educação que recebeu e sobre o sentimento de culpa por não conseguir corresponder com as expectativas. Um livro comovente e de uma sinceridade sufocante, que, tal como os seus romances, conduz-nos para temas como o isolamento, o medo e a vulnerabilidade do homem.

A história de um casamento, de Andrew Sean Greer



Ficha técnica
TítuloA história de um casamento
Autor – Andrew Sean Greer
Editora – Civilização
Páginas – 202
Datas de leitura – 11 a 15 de julho de 2018

Opinião

Julgamos conhecer aqueles que amamos e, apesar de não devermos ficar surpreendidos por descobrirmos que não conhecemos, isso não deixa de nos destroçar o coração. É o mais doloroso tipo de conhecimento, não só acerca do outro, mas também de nós mesmos. Vermos as nossas vidas como uma ficção que escrevemos e na qual acreditámos.” (pág. 47)

Esta leitura teve vários sabores, mas aquele que mais se destacou e que ficou comigo foi o de ter sido a primeira leitura em conjunto contigo, Paula, que estás sempre desse lado. A experiência foi mesmo muito boa e tem que ser repetida, por todas as razões, principalmente por causa dos nossos gostos em comum e do desafiador que é constatarmos que, apesar de sermos “bookbuddies”, há obras que nos tocam e agarram de forma diferente.
Esta obra abre com uma frase que nunca mais largará o leitor e que se repetirá com frequência – “Julgamos conhecer aqueles que amamos.” Em mim, teve o condão de acionar todos os sentidos e levou-me a vê-la como um convite para uma leitura introspetiva, daquelas que abriria portas para o lado mais íntimo, mais escondido e mais nebuloso do ser humano. Não me enganei.
Não vai ser fácil escrever esta opinião sem dar a conhecer demasiado da história que compõe esta “história de um casamento”. Estamos em 1953, na cidade de São Francisco, costa do Pacífico. Pearlie está casada com Holland, um homem mesmo muito bonito, têm um filho e vivem numa casinha junto ao mar. Ele trabalha, ela é dona de casa e todos os dias, sem exceção, ele dá-lhe um beijo antes de sair de casa e outro quando regressa do trabalho enquanto Pearlie tenta protegê-lo das amarguras e vicissitudes do mundo fazendo, com uma tesoura, censura às notícias menos boas do jornal. Porém, ninguém poderá fazer o mesmo por ela quando uma bomba, aparentemente inofensiva, aterra na soleira da sua porta.
Essa bomba não só ameaça destruir os alicerces que sustentavam a rotina e o equilíbrio da existência tranquila de Pearlie. Também traz consigo o elemento vital para que a narrativa agite e nos faça agarrar-nos ainda mais a ela. Aconteceu isso comigo, com a Paula e, calculo, com todos os leitores. Contudo, e falando da minha experiência de leitura, esse abanão que a referida bomba provocou no ritmo da narrativa não foi complementado com aquilo que sempre quero encontrar numa obra – personagens com as quais crio laços, personagens que mexem comigo, que me fazem adorá-las, detestá-las, sentir raiva, piedade, ternura, dor, enfim, personagens que são o suporte vital da trama, que a fazem avançar ou recuar, que lhe dão a cor necessária para que a leitura seja memorável.
Não fui capaz de criar laços significativos com nenhuma das personagens, nem mesmo com Pearlie, a protagonista. Achei que ela se rendeu demasiado cedo, que não lutou pelo que era seu, por tudo aquilo que sempre quis que fosse seu. Baixou os braços, permitiu-se acreditar nas palavras de um desconhecido e deixou que este a manobrasse a ela e aos outros a seu bel-prazer. É certo que Pearlie é uma mulher algo sofrida, muito consciente da sua “diminuta” importância numa sociedade envolvida numa caça às bruxas sem precedentes, onde impera a hipocrisia e uma busca implacável que recorda os tempos da Inquisição. Mas, mesmo assim, eu (e reitero, eu) precisava que ela tivesse mais amor-próprio, mais atitude, mais orgulho.
Lendo aquilo que escrevi até ao momento, pode parecer que ler A história de um casamento foi uma experiência algo dececionante. Mas não o foi. A escrita e o estilo do autor são francamente bons, fartei-me de sublinhar, destacar passagens com as quais me identifiquei e a contextualização histórica revela conhecimentos notáveis de uma época recém-saída de um conflito mundial e que pareceu nada retirar da loucura e megalomania que estiveram por detrás da Segunda Grande Guerra. O autor conseguiu ainda fazer-me sentir em São Francisco, visualizar os espaços desta cidade icónica e sentir muito de perto a segregação racial, política, social e ideológica. Todos estes elementos engrandeceram a narrativa, tornaram-na mais rica, mas não impediram que eu a sentisse algo incompleta, pois as personagens não estiveram à altura dessa riqueza estilística e epocal. Não me agradou a sensação que nunca me abandonou e que sempre me sussurrava que Pearlie, Holland, Buzz ou Alice eram um acessório ao enredo, que a sua presença no desenrolar da história serviu “apenas” para dar visibilidade aos temas que o autor queria abordar. Não sei se me estou a explicar da melhor forma, também não sei se concordas comigo, Paula, (talvez não), mas é essa primazia dada aos temas em detrimento das personagens que, ainda agora, ao escrever este texto, me impossibilita dar a esta leitura uma nota superior a um 8.
Remato a opinião regressando ao que disse no início. O sabor mais doce desta leitura foi o facto de ter sido feita em conjunto e de ter dado o tiro de partida para uma experiência que repetiremos com frequência, não é assim, Paula? Acrescento ainda que esta história, que, como diz o autor, não é apenas de um casamento, poderá não agradar da mesma forma a todos (basta ver o que aconteceu com a leitura em conjunto), mas merece que aqueles que gostam de uma escrita maravilhosamente apurada e de uma contextualização muito cuidada peguem nela e a conheçam.

Esta foi a quinta leitura para a maratona literária – Bookbingo – Leituras ao sol 2 – e encaixa na categoria – Livro cujo título tenha as letras que componham a palavra MAR.

NOTA – 08/10

Sinopse
“Julgamos conhecer aqueles que amamos.”
É assim que Pearlie Cook inicia a sua exploração indirecta e devastadora do mistério que está no centro de todos os relacionamentos: como é que alguma vez poderemos conhecer verdadeiramente outra pessoa?
Estamos em 1953 e Pearlie, uma dona de casa dedicada, vive no Sunset District, em São Francisco, tratando não apenas do marido de saúde frágil, mas também do filho, que sofre de poliomielite. Então, num sábado de manhã, um estranho aparece à sua porta e tudo muda. Todas as certezas com as quais Pearlie sempre viveu são postas em causa enquanto luta por compreender o mundo à sua volta, especialmente o marido, Holland.
A História de Um Casamento retrata três pessoas encurraladas nas limitações da sua época, bem como as medidas desesperadas que estão prontas a tomar para escaparem.

A música da fome, de J. M. G. Le Clézio


Ficha técnica
TítuloA música da fome
Autor – J. M. G. Le Clézio
Editora – Publicações Dom Quixote
Páginas – 188
Datas de leitura – de 09 a 14 de julho de 2017


Opinião
Quase quatro meses depois, as leituras em conjunto com a Isa e a Márcia regressaram aqui ao blogue, desta vez com uma sugestão minha. Descobri Le Clézio o ano passado, com Estrela Errante (ver opinião aqui) e nunca mais consegui esquecer o turbilhão de emoções que senti ao ler a história de Esther e Nejma e o quanto me deixei embalar pelo lirismo e a magistralidade do estilo de Le Clézio. Por isso, não hesitei em sugerir que a segunda leitura que faço com as minhas queridas colegas destas andanças blogueiras fosse de uma obra deste autor francês galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 2008.
A escolha recaiu em A música da fome, também ela protagonizada por uma menina que vai crescendo ao longo da narrativa. Ethel é a única filha de Alexandre e Justine, mas é com o seu tio-avô – Monsieur Soliman – que dá longos passeios e é dele que ouve histórias que a fazem conhecer o mundo. “Ethel sente-se orgulhosa junto de Monsieur Soliman. Tem a impressão de estar na companhia de um gigante, de um homem capaz de abrir caminho em qualquer desordem do mundo.” Contudo, o seu tio-avô é um senhor idoso que adoece e morre antes de Ethel completar treze anos. Só no mundo, apesar de frequentemente ter a sua casa “atolada” de convidados dos pais, a jovem protagonista busca companhia e afetos em Xénia, companheira de escola, filha de uma refugiada russa – uma “mancha loura, um clarão” em “todo aquele cinzento”. “Finalmente encontrei uma amiga”. Será na sua companhia que Ethel desabrochará. Tudo fará para agradar à sua nova amiga e simultaneamente perderá qualquer resquício de inocência que ainda pudesse habitar em si. Compreenderá que na vida não há nada linear, que é apenas mais um peão no correspondente jogo manipulado por quem deveria ser a sua melhor amiga e por quem deveria amá-la e protegê-la incondicionalmente.
Nas páginas iniciais travamos conhecimento com uma Ethel de apenas dez anos, que segue de mão dada com Monsieur Soliman e se maravilha com tudo o que descobre ao seu lado. É uma criança que se sente acarinhada, apoiada e amparada. Porém, a morte deste tio, deste avô, deste gigante que vence tudo e todos, deixa-a só, carente, privada de afeto, de cumplicidade. Passará a ser um alvo fácil daqueles que sentem prazer em dominar, daqueles que não olham a meios para atingir os seus fins. Crescerá como pode. Verá a sua família ser despojada de praticamente todos os seus bens materiais e a ter que sobreviver à falência económica e a uma guerra que os obrigará a ser refugiados dentro do seu próprio país. Passará fome. Aceitará o amor que um jovem lhe oferecerá. Mas nunca mais recuperará a inocência, a confiança. Nunca se abrirá totalmente a ninguém, porque ninguém lhe saciará a fome, nunca ninguém lhe restituirá esses momentos mágicos e completos que experienciou nos longos passeios que dava com o seu tio-avô, nos momentos em que descobria o mundo através das histórias de Monsieur Soliman.
Quando se lê um autor pela segunda vez (ou pela terceira, quarta…), é impossível não estabelecer comparações. Como é óbvio, estabeleci-as entre Estrela Errante e A música da fome e as conclusões são evidentes – a escrita continua sublime, introspetiva, contida e digna de ser conhecida e admirada por todos. Tanto uma narrativa como a outra estão muito bem construídas, com pinceladas de História que nos tornam mais instruídos, mais conhecedores. Mas se comparo as protagonistas, afirmo sem nenhuma dúvida que o meu coração, as minhas emoções pendem para Esther e Nejma de Estrela Errante, porque não perderam totalmente a candura, a esperança, a vontade de viver, porque sofreram horrores indescritíveis e ainda mostram vida no olhar. O mesmo não se pode dizer de Ethel. É muito mais difícil criar laços com a protagonista de A música da fome. Talvez porque está seca, porque se deixa levar pela vida quase sem reagir, sem esbracejar. Talvez porque deixou há muito de sentir que pertence verdadeiramente a alguém.
Poderia assim, após o que referi até ao momento, afirmar que esta leitura fora a terceira do mês a ficar aquém das expetativas. Mas não estaria a ser completamente sincera, pois, por um lado, há algo que me prende a Ethel – compaixão, vontade de a abanar – e, por outro, o final da narrativa, o desenlace da história de Ethel que coincide com os primeiros dias do pós Segunda Guerra Mundial deixaram-me com lágrimas nos olhos, sobretudo aqueles fragmentos que remetem para a rusga e aprisionamento de judeus no Velódromo de Inverno em 1942 e consequente deportação para os campos de extermínio. Recordei outras leituras (sobretudo a da obra Chamava-se Sara) e constatei a ironia que está por detrás da proximidade entre as datas da Tomada da Bastilha – 14 de julho – e a desse episódio negro na História francesa – 16 de julho. Resumindo, uma leitura não tão poderosa como a de Estrela Errante, mas uma leitura que ainda se mantém comigo e que me levará a ler de novo Le Clézio.
Para terminar, tenho que referir que esta leitura a três foi tão saborosa como a sua antecessora, pois conduziu a uma nova partilha de ideias, apontamentos e opiniões. Todas somos unânimes em afirmar que há que repetir a experiência muito em breve, pois ler com companhia tem um gostinho bem melhor!

Deixo aqui o link para poderem aceder à opinião da Márcia e da Isaura – cliquem no nome de cada uma (para já ainda não estão disponíveis).

NOTA – 07/10

Sinopse

Ethel Brun é filha de um casal de exilados, formado por Justine e Alexandre, um homem afável e irrequieto que muito jovem deixou a ilha Maurícia e que, na alegre Paris dos anos 20 e 30, se dedica a delapidar a herança em negócios pouco recomendáveis. Na infância, o único prazer de Ethel é passear pela cidade com o seu tio-avô, o excêntrico Samuel Soliman, que sonha ir viver para o pavilhão da Índia Francesa construído para a Exposição Colonial. E, na adolescência, Ethel conhecerá algo parecido com a amizade pela mão de Xenia, uma colega de escola, vítima da Revolução Russa e que vive quase na miséria. O bem-estar de Ethel começa a resvalar quando, nas refeições que o seu pai oferece a parentes e conhecidos, se repete cada vez mais o nome de Hitler. Serão os primeiros sinais do que ameaça a família Brun: a ruína, a guerra, mas, sobretudo, a fome. Ela marcará o despertar da jovem Ethel para a dor e o vazio, mas também para o amor, num romance em torno das origens perdidas, durante uma época que culminou com um apocalipse anunciado. 

A breve e assombrosa vida de Oscar Wao, de Junot Díaz


Ficha técnica
TítuloA breve e assombrosa vida de Oscar Wao
Autor – Junot Díaz
Editora – Porto Editora
Páginas – 296
Datas de leitura – de 13 a 21 de março de 2017


Opinião
Esta coisa dos blogues adoça realmente os meus dias! Não só partilho com gente conhecida e anónima algo que faço com deleite, como vou cuscando blogues de outros leitores compulsivos como eu. Resultado – além da compulsividade elevada a bem mais do que ao quadrado, tenho o privilégio de travar conhecimento (maioritariamente através de comentários e mensagens) com alguns desses leitores e leitoras que não conseguem passar os seus dias sem embrenhar-se num livro.
Não é novidade, acima de tudo para os mais atentos e fieis ao blogue, que sigo com muita assiduidade os blogues da Márcia (Planeta Márcia) e da Isaura (Jardim de Mil Histórias). Há uns meses atrás decidimos arriscar numa leitura conjunta – ler o mesmo livro ao mesmo tempo. Por sugestão da Márcia, que havia acabado de ficar encantada com a leitura de uns contos de Junot Díaz, escolhemos fazê-lo com outra obra do autor dominicano – A breve e assombrosa vida de Oscar Wao.
Parti cheiinha de expectativas para este desafio. Senti-me como me sinto quando viajo e sei que vou alargar os meus horizontes. Senti-me a ganhar asas, pois estava a iniciar um projeto que, tivesse o resultado que tivesse, me encheria, seria o prenúncio de algo que quero muito que se repita. Saber que do lado de lá estariam duas pessoas que entenderiam na perfeição o quanto é “preenchedor” o ato de ler, de viajar dentro das mesmas centenas de páginas – pouquíssimas coisas se lhe podem comparar.
A breve e assombrosa vida de Oscar Wao é uma leitura impactante. Desde o seu início. Ninguém consegue, em primeiro lugar, ficar indiferente à sua linguagem oralizante, repleta de expressões vernáculas (muitas em espanhol, mas que para mim não são nada difíceis de entender) e que nos transportam para a região do Caribe, mesmo que os protagonistas vivam em Nova Iorque. Estamos constantemente a ser “atacados” por descrições cruas e satíricas e nas primeiras 52 páginas mais não fazemos do que sentir uma mistura de sentimentos que vão rapidamente da repulsa à compaixão, da simpatia à vontade de dar vazão às risadas que se acumulam na garganta. Tudo por causa do pobre Oscar, um jovem dominicano, “nerd”, “geek”, balofo, cada vez mais gordo e que não consegue de maneira nenhuma engatar uma miúda, nem sentir o seu corpo juntinho ao de uma menina. Pobrecito… Nunca se verá nem os outros o verão como um verdadeiro macho dominicano pois “O., é contra as leis da Natureza que um dominicano morra sem foder [os mais sensíveis que me perdoem, mas estou a transcrever uma citação] pelo menos uma vez.” (pág. 157)
Em segundo lugar, esta obra abre-nos a porta para uma realidade que assolou muitos dos países latino-americanos – ditaduras sangrentas e paralisantes. Na República Dominicana reinou durante anos sem fim Rafael Leónidas Trujillo Molina, uma besta como o foram outras bestas como Chávez ou ainda o é o seu doido descendente Maduro. Uma besta que aterrorizou o seu povo e que eliminou sem um pingo de remorso todos aqueles que se atreveram a murmurar algo que ele considerava ser contra si. “Era como estar no fundo de um oceano, afirmava. Não havia luz nenhuma e um oceano inteiro esmagava-vos. Mas muitas pessoas tinham-se habituado de tal modo a isso que o achavam normal, esqueciam-se que existia um mundo por cima delas.” (pág. 78) “… difícil seria exagerar o poder que o Trujillo exerceu sobre o povo dominicano e a sombra do medo que lançou sobre toda a região.” (pág. 200)
Os dominicanos, a sua religiosidade em completa simbiose com o lado pagão, carregadinho de superstições, o lado gingão dos seus homens, dos seus machos que cheiram as fêmeas à distância, os ares quentes do Caribe, tudo isto me convence cada vez mais de que a mistura explosiva de sangues europeus, latinos, africanos, indígenas resulta em comportamentos, atitudes e sentimentos levados ao extremo, à exacerbação. Gritos, cenas de pancadaria, violência gratuita, sensualidade à flor da pele e terrores que advêm de uma crença absoluta no sobrenatural – são exemplos que abundam nesta obra e que retratam o que há de mais genuíno num típico latino-americano, na sua forma de amar, estar, na sua forma de viver a vida. “Em Santo Domingo, uma história não é uma história a não ser que liberte uma sombra do sobrenatural.” (pág. 218)
Um bom livro (e este é um muito bom livro) está, além de tudo o que já mencionei, composto por personagens que se mantêm na nossa memória por mais do que o tempo que levamos a ler as suas peripécias. Oscar Wao (como os dominicanos dizem “Oscar Wilde”) provoca, como já disse, reações adversas no leitor e nos que o rodeiam. Não é fácil criar empatia com este jovem gorducho (apelidei-o de quase tudo – probrecito, desgraçado, triste…) mas o seu final, para o qual aponta o título da narrativa, é em grande e apoteótico e deixa-nos com um sorriso de triunfo nos lábios.
Em contraste com Oscar e com o seu futuro cunhado, dois homens fracos, débeis e volúveis, deparámo-nos com a sua irmã Lola (de longe a minha personagem favorita) e a sua mãe. Duas mulheres “con cojones” (perdoem-me de novo os mais sensíveis), fortes, determinadas e que, por muito que as suas vidas tenham sido madrastas, não abandonam a luta, nem que para isso se vejam obrigadas a fechar o coração ao carinho, ao amor, ao seu lado doce e quente. “É assim a vida. Toda a felicidade que juntamos para nós mesmos será varrida como se nada fosse. Se querem saber, não acredito que haja tais coisas como maldições. Acho que o que há é apenas vida. E isso basta.” (pág. 183)
Resumindo, esta experiência foi deliciosa – pela partilha de opiniões, fragmentos e outros apontamentos com a Márcia e a Isaura – e culminou com a cereja no topo do bolo, com a leitura de uma obra que nos conquistou a todas. Não lhe reservo a nota máxima apenas porque demorou um pouquinho a entranhar, ou seja, senti que as páginas iniciais e a coitadice de Oscar se estendeu mais do que devia. Mas, aparte disso, tudo o resto roça a perfeição e é impossível não nos extasiarmos com a linguagem, o ambiente, o presente e o passado da República Dominicana, o carácter dos seus habitantes e a Lola, que por si só merecia o protagonismo de uma obra.
Recomendadíssimo!

Deixo aqui o link para poderem aceder à opinião da Márcia e da Isaura – cliquem no nome de cada uma (para já ainda não está disponível a da Isaura)

NOTA – 09/10

Sinopse
Oscar Wao é enorme. E dominicano.
Gozado pelos colegas e isolado do mundo, sonha com raparigas e aventuras extraordinárias, sente vergonha por não estar à altura da reputação viril dos machos dominicanos, mas não consegue mais do que uma vida de desilusões.
Para Oscar, o drama é um fado demasiado familiar. A sua breve e assombrosa vida está marcada a ferro e fogo por uma maldição ancestral, o fukú, que, nascido em Santo Domingo, é transmitido de geração em geração, como uma semente ruim.
Alimentada pela sorte dos seus antepassados, quebrados pela tortura, pela prisão, pelo exílio e pelo amor impossível, a história de Oscar escreve-se fulgurante e catastrófica, e integra a grande História, a da ditadura de Trujillo, a da diáspora dominicana nos Estados Unidos e a das promessas incumpridas do Sonho Americano.