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Patria, de Fernando Aramburu



Ficha técnica
TítuloPatria
Autor – Fernando Aramburu
Editora – Tusquets Editores
Páginas – 646
Datas de leitura – de 02 a 12 de abril de 2018

Opinião
Já terminei de ler esta obra há quase 10 dias e ainda não me sinto confiante o suficiente para falar sobre ela, para pôr em palavras e da forma mais completa e elucidativa o quanto as suas mais de seiscentas palavras me tocaram, me atropelaram e me fizeram viver (no verdadeiro sentido do verbo) durante precisamente dez dias no seio de duas famílias bascas.
Ontem, dia 20 de abril de 2018, a organização terrorista ETA emitiu um comunicado a pedir perdão pela dor e pelos danos causados às vítimas das suas ações. Compreendi que esse perdão é dirigido apenas a “cidadãos e cidadãs sem responsabilidade nenhuma no conflito.” Não vou sequer comentar este pedido de perdão “parcial e amputado”. Porém, vou aproveitar esta coincidência para tentar organizar o tumulto de ideias e sentimentos que me habitam desde que encerrei a leitura de Patria, estruturar a correspondente opinião e render assim a minha humilde homenagem a uma narrativa que recomendo encarecidamente que conheçam.
No dia 21 de outubro de 2011, a ETA declara o fim da luta armada e é exatamente nesse dia histórico para o País Basco (como me custa escrever “Basco” com “b”!...) que arranca a narrativa de Patria. É a partir desse dia de outono que nos adentramos na vida e nas casas de duas famílias simples, que poderiam ser perfeitamente meus vizinhos e que, após anos de uma amizade sólida, vivem há bastante tempo de costas voltadas porque a luta armada e as suas escolhas assim o determinaram.
Las pintadas contra el Txato le quitaron a Joxian el apetito. Y también le privaron de su mejor amigo. Porque en un ciudad, pase; pero en el pubelo, donde todos nos conocemos, tú no puedes tener trato con un señalado.” (pág. 332)

Porque soy tan cobarde como él y como tantos otros que a estas horas, en mi pueblo, estarán diciendo bajito para que no les oigan: esto es una salvajada, un derramamiento inútil de sangre, así no se construye una patria. Pero nadie moverá un dedo. A estas horas ya habrán limpiado la calle con una manguera para que no quede rastro del crimen. Y mañana habrá murmullos en el aire, pero en el fondo todo seguirá igual. La gente acudirá a la siguiente manifestación a favor de ETA, sabiendo que conviene dejarse ver en la manada. Es el tributo que se paga para vivir con tranquilidad en el país de los callados.” (pág. 462)

Joxian e el Txato (de quem nunca chegamos a saber o verdadeiro nome, só esta alcunha) são amigos de uma vida. Partilham segredos, ninharias do dia-a-dia e todos os domingos saem de passeio de bicicleta com outros vizinhos e chegam inclusive a fazer competições amadoras de ciclismo. As suas mulheres, Miren e Bittori também se conhecem há imenso tempo e partilham tudo uma com a outra. Joxian casa-se com Miren e Bittori com el Txato. Vivem os quatro a poucos metros uns dos outros numa vila pequena, não muito longe de San Sebastián. O primeiro casal são pais de três filhos, o segundo de dois. A normalidade e a rotina determinam as suas existências até que, por um lado, el Txato começa a receber cartas que lhe exigem que contribua monetariamente para a luta pela independência do País Basco e, por outro, um dos filhos de Joxian – Joxe Mari – se envolve cada vez mais com o braço armado dessa luta. El Txato acede a dar uma primeira contribuição, mas recusa-se a dar uma segunda. Esta recusa será o passo inicial para o que culmina no seu assassinato, em plena rua, a poucos passos de casa. De nada lhe valeu a mudança de hábitos, horários e uma atenção redobrada. De nada lhe valeu ignorar insultos escritos nas paredes da sua terra natal. De nada lhe valeu tentar manter-se íntegro, fiel aos seus princípios de homem e basco honrado. De nada lhe valeu ver-se privado de uma amizade toda a vida. Foi ostracizado por não querer contribuir para a independência da sua terra, foi ostracizado por querer viver tranquilamente e não seguir a manada numa terra em que, se não te mostras a favor da luta pela independência, és o pior dos inimigos e mereces morrer por tal.
Esta é a base de Patria, mas a obra é muito mais do que isto. É um retrato que considero muito fidedigno do quanto o medo, a violência e o radicalismo de um grupo armado levaram a extremos um desejo compreensível de um povo de ser independente de outro com quem não tem afinidades linguísticas, históricas e sociais. É o espelho do quanto um punhado de gente radicaliza a sua vontade e se assume como a voz totalitária de todos os que vivem para lá das fronteiras da terra que eles consideram ser Basca. E é sobretudo a representação literária de duas famílias que cortam totalmente relações, porque assim o exigem os outros, os vizinhos, a sociedade, a História. Metem numa gaveta anos e anos de convivência, de cumplicidade, porque ou se acham cobardes e deixam de partilhar passeios dominicais de bicicleta ou se mostram indignados com tal afronta à vontade independentista e rompem com os lanches de sábado na pastelaria do costume ou se transformam nos mais ávidos defensores da luta armada apenas porque é um orgulho ser progenitora de um jovem etarra. Nove vidas estreitamente ligadas pela amizade e companheirismo rompem esse laço umbilical porque, de um lado, está um traidor à pátria basca e, do outro, está um lutador acérrimo pela sua independência.
Ao longo das mais de seiscentas páginas seguimos de muito perto essas nove vidas, mesmo a de el Txato que sabemos, desde as linhas iniciais, ter sido assassinado entretanto. Saltamos do presente para o passado em capítulos muito curtos protagonizados por um ou mais das referidas nove personagens. Compreendemos que a narrativa está estruturada como se fosse um puzzle, cujas peças vamos encaixando à medida que a leitura avança. Porém, e por muito que seja viciada em quebra-cabeças, reconheço que este que arquitetou o autor está não só muito bem desenhado, como também não é de difícil montagem para nenhum leitor, mesmo para aqueles que torcem o nariz a calhamaços, já que a leitura flui maravilhosamente bem e quando damos por ela, já estamos a terminá-la.
A mestria de Fernando Aramburu também se revela na construção das personagens, nas suas atitudes, nos seus sentimentos, nas suas personalidades e nos diálogos que mantêm com outros e consigo mesmos. Estão de tal forma maravilhosamente construídas que as sentimos próximas, vivas, reais e nada, nada artificiais. É, como tal, óbvio que tenha criado laços com todas elas. Laços muito fortes e distintos. Laços caracterizados pela admiração, pela compaixão, pela simpatia, pela ternura, pela compreensão e pela revolta, pela aversão, pela antipatia, pela incompreensão e pela discordância. Absorvi-me tão absolutamente em todas elas que me apeteceu esbofetear inúmeras vezes Miren, abanar e acordar Joxian para a realidade e abraçar Xabier e recordar-lhe de que ele tem direito a ser feliz. Mas, como na vida, nem tudo pode ser visto de forma extrema, nem tudo é preto e branco e fui incapaz de sentir apenas um tipo de sentimentos por todas as nove personagens. Quem me diz a mim que, como mãe, não atuaria como Miren perante o seu filho Joxi Mari?
Para terminar esta opinião que já vai longa (e que longa… parece que, afinal, estou a ser capaz de pôr no papel tudo o que queria), quero partilhar convosco um paralelismo que me veio à cabeça muitíssimas vezes ao longo da leitura – não consigo conceber o porquê de uma luta armada e extremista. Simplesmente não consigo. Contudo, sempre me recordo que, por detrás, desse extremismo armado e terrorista está um sonho, uma vontade, um querer compreensível, como aquele que conheci quando vi pela primeira vez o filme Diarios de Motocicleta, que nos relata uma viagem que um jovem médico (mais tarde conhecido como Che Guevara) empreende por vários países sul-americanos e que o faz perceber o quanto todas aquelas terras e aqueles povos foram torturados e espezinhados por séculos e séculos de um colonialismo bárbaro. Do sonho de tornar todo aquele território num só, unido e determinado a ser dono de si mesmo, resultou aquilo que sabemos – derrame de sangue e perdas de muitas e muitas vidas.
Patria já foi publicada em português, sob a chancela da Dom Quixote. Assim sendo, posso recomendá-la a todos, já que não será a língua espanhola a impedir nenhum leitor de conhecê-la e de amá-la tanto como eu a amei!
Deixo-vos o link do vídeo onde poderão ver Fernando Aramburu e a apresentação do seu livro aos leitores portugueses:



NOTA – 10/10

Sinopse
Tras el anuncio de ETA del abandono de la lucha armada, Bittori visita la tumba de Txato, su marido, asesinado por terroristas, para anunciarle que regresará a la casa en la que vivieron.
¿Podrá convivir con quienes la acosaron antes y después del atentado que trastocó su vida y la de su familia? ¿Podrá saber quién fue el encapuchado que un día lluvioso mató a su marido, cuando volvía de su empresa de transportes? Por más que llegue a escondidas, la presencia de Bittori alterará la falsa tranquilidad del pueblo, sobre todo de su vecina Miren, amiga íntima en otro tiempo, y madre de Joxe Mari, un terrorista encarcelado y sospechoso de los peores temores de Bittori. ¿Qué pasó entre esas dos mujeres? ¿Qué ha envenenado la vida de sus hijos y sus maridos tan unidos en el pasado?

Tengo en mí todos los sueños del mundo, de Jorge Díaz


Ficha técnica
TítuloTengo en mí todos los sueños del mundo
Autor – Jorge Díaz
Editora – Debolsillo
Páginas – 528
Data de leitura – de 15 a 22 de novembro de 2017

Opinião
Voltei às leituras em espanhol. Voltei ao mundo de Jorge Díaz, um autor que experimentei pela primeira vez com Cartas a Palacio. Voltei a Madrid, à capital espanhola dos anos iniciais do século XX, mais propriamente aos últimos dias de 1915 e aos primeiros de 1916. Mas a minha viagem não se ficou pelas ruas madrilenas. Esta leitura levou-me a outras cidades espanholas, ao arquipélago das Baleares, à Ucrânia, a Itália, a Istambul, ao Brasil e à Argentina. Segui os passos de um leque variado de personagens, cada uma delas distinta das outras, com os seus anseios, os seus passados, os seus presentes e uma vontade única de querer concretizar os seus sonhos, mesmo quando estes parecem inalcançáveis ou postos já de lado porque a vida assim o quis.
Tengo en mí todos los sueños del mundo é a obra mais recente deste autor que até ao momento não foi traduzido para português. Ao compará-la com Cartas a Palacio, consigo encontrar muitas semelhanças e uma ou outra diferença que fazem com que a obra mais recente tenha motivos ainda mais suculentos para agradar uma vasta gama de leitores a quem lhes agrada uma boa história, com um contexto histórico muito bem documentado e com personagens que nos cativam, que nos apelam à compaixão, que nos fazem sentir vontade de esbofeteá-las ou a quem nos rendemos incondicionalmente. Encantei-me com Gabriela, com Raquel, torci para que Giulio encontrasse um porto seguro, admirei a força e a retidão do capitão Lotina, não fui capaz de odiar a Sara (apenas consegui sentir por ela uma imensa compaixão) e observei a minha mão a esticar-se para esbofetear os energúmenos que se aproveitaram das condições miseráveis em que viviam incontáveis jovens judias para fazer delas mulheres que eram obrigadas a prostituir-se e a receber nos seus quartos centenas de homens por semana.
O outro motivo que fez desta leitura uma leitura muito interessante foi o facto de a narrativa estar ancorada em factos verídicos. Sabemos logo nas suas páginas introdutórias que todas as personagens com quem iremos conviver irão embarcar no Príncipe de Asturias, um transatlântico luxuoso, moderno e seguro, mais luxuoso, moderno e seguro que o Titanic. Sabemos também que, apesar de estar mais apetrechado e preparado que o seu antecessor inglês, teve o mesmo funesto destino – naufragou junto à costa norte de São Paulo, Brasil. Contudo, apesar de termos nas mãos estes factos e de os mesmos nos desvendarem muito do desenlace da trama, não considero que isso manche e prejudique o nosso interesse enquanto leitores, pois a variedade de personagens, a alternância entre as suas histórias, os acontecimentos que conduzem à “colisão” de umas com outras e o pano de fundo histórico, a Primeira Grande Guerra que grassa por milhares de quilómetros europeus, a “suposta” neutralidade espanhola, a emigração avassaladora para terras argentinas de espanhóis e de muitos outros cujos países não lhes providenciam as elementares condições de vida e o nascimento de uma sociedade multicultural nas ruas de Buenos Aires apimentam uma narrativa vívida e muito bem conduzida por um autor que vai amadurecendo obra após obra.
Uma obra que, como se depreende pelo que referi até aqui, se recomenda e que espero que seja em breve traduzida para a nossa língua, pois teria garantidamente público e deixaria o povo português de sorriso orgulhoso na cara, pois abre a sua narrativa com a citação do nosso e universal Fernando Pessoa que explica o porquê do título do romance – “No soy nada. / Nunca seré nada. / No puedo querer ser nada. / Aparte de esto, tengo en mí todos los sueños del mundo.
        
NOTA – 09/10

Sinopse

Tengo en mí todos los sueños del mundo recrea con maestría diversos hechos históricos, como las vivencias de los desertores de la Primera Guerra Mundial, los matrimonios concertados entre jóvenes españolas y antiguos emigrados, la persecución de los judíos europeos o el tráfico ilegal de mujeres destinadas a vender sus cuerpos en burdeles de Latinoamérica, en una maravillosa novela sobre la esperanza de conseguir hacer realidad los sueños.

Los pasos que nos separan, de Marian Izaguirre


Ficha técnica
TítuloLos pasos que nos separan
Autora – Marian Izaguirre
Editora – Lumen (e-book)
Páginas – 290
Datas de leitura – de 12 a 20 de agosto de 2017

Opinião
Regressei às leituras em espanhol guiada pela mão de Marian Izaguirre, uma autora que já conhecia de A vida quando era nossa, obra publicada no nosso país pela Bertrand e que me preencheu com uma intensidade quase perfeita alguns dias do verão de 2015.
Dois anos mais tarde, aproveitando mais uma oferta da Cristina Tista, descarreguei a edição digital de Los pasos que nos separan para o tablet e levei-a comigo em mais uma passeata por terras castelhanas. Durante uma semana, enquanto calcorreava espaços impregnados de História e respirava os ares de uma das antigas capitais do país vizinho, fui-me adentrando nas vidas de Salvador, de Edita, de Jana e de Marina e com eles calcorreando respirando outros espaços, outros tempos.
As páginas desta obra guiam os nossos passos por várias cidades europeias – iniciamos a viagem em Barcelona, a estada mais longa faz-se em Trieste e terminamos em terras da antiga Jugoslávia, mais propriamente em Liubliana e Zagreb. Percorremo-las em duas épocas distintas que se intercalam – vários anos da década de 1920 e fins dos anos setenta. O elo de ligação entre estes espaços e estas épocas é a vida de Salvador Frei, escultor idoso que sente a morte acercar-se e quer encerrar algumas portas que necessitam ser encerradas.
Através de uma escrita muito intimista, que nos chega polvilhada de frases curtas, adentramo-nos em duas épocas muito marcantes da vida do nosso protagonista – na primavera de 1920, com 21 anos, quando se apaixona perdidamente por Edita, uma mulher casada e nos finais de 1970, com 80 anos, quando sente a morte morder-lhe os calcanhares e sabe que há mais uma jornada a cumprir.
Para cumprir essa jornada, Salvador publica um anúncio num jornal em busca de alguém jovem que o acompanhe e esteja sempre ao seu dispor. A esse anúncio responde Marina, uma jovem de Bilbao, que estuda em Barcelona e que procura neste emprego a solução para os problemas que a assolam e que são consequência de “ser inconsciente y despreocupada por obligación.” Duas personagens de gerações díspares, mas que se juntarão porque uma necessita da outra e que, no breve tempo que desfrutarão na companhia uma do outra, terão a oportunidade de abrir o livro das suas vidas e compreender que nem tudo as separa, que há vivências e sentimentos que as acercam e as fazem passar de completos desconhecidos a cúmplices, a parceiros de uma jornada que está prestes a acabar para Salvador e a iniciar-se para Marina.
Los pasos que nos separan é assim uma obra sobre vidas, sobre sentimentos, sobre escolhas e sobre as consequências dessas escolhas.
Por um lado, temos a história de amor entre Salvador e Edita, dois estranhos que se esbarram e se apaixonam, caindo rapidamente nos braços um do outro. O desejo, a atração, a vontade de estarem juntos são incomensuráveis e com eles vêm a culpa, a traição, o ciúme. Edita é casada, tem uma filhota pequenina, mas põe tudo em causa a partir do momento em que o seu pensamento e o seu corpo lhe exigem que esteja sempre junto a Salvador. É uma mulher forte, decidida, determinada, mas sente-se dividida em duas – uma que lhe pede que não ceda ao desejo adúltero, outra que a obriga a mentir, a desleixar os seus deveres de mãe e a procurar o amante. É uma personagem imperfeita, mas humana, tão próxima de alguém que se possa sentar ao nosso lado e que apenas quer ser feliz. Por sua vez, Salvador revela-se um jovem imaturo, que se entrega a uma relação proibida, mas que não sabe muito bem lidar com esse lado clandestino. Em mais de que um momento, reconhecerá que não tem a coragem necessária para enfrentamentos – “Pasar de puntillas. Mirar para otro lado. Sabía hacerlo muy bien. Se había entrenado durante toda la vida para no tener que afrontar las cosas cara a cara.” Na reta final da sua existência, fazendo o inevitável balanço, tem a clara consciência de que viveu a vida como pôde, teve o seu quinhão de felicidade, mas que esta foi à custa da infelicidade de outros. Por isso, a culpa pesa, faz mossa e exige perdão, redenção.
Do outro lado da história está Marina, uma jovem que também sente na pele as consequências das suas escolhas, dos seus atos. Quis ser independente, dona do seu destino, mas não está minimamente preparada para o que este lhe reservou – “… recuerda esa sensación que le perseguirá para sempre. El desamparo. Algo parecido al frío de los amaneceres o al miedo de las noches sin luna.” A determinada altura, procurará o conforto da experiência de Salvador, partilhará os seus medos e estará atenta a tudo o que ele lhe conta. Aprenderá, amadurecerá e olhará de frente o que o futuro lhe reserva.
Esta obra de Marian Izaguirre é assim uma obra de personagens, de pessoas comuns que nos falam, que nos tocam. Tem um tom aconchegante que me cativou e que me faz querer continuar a ler esta autora, seja em português, seja em espanhol.
Obrigada, Cristina, por me teres oferecido esta leitura!

NOTA – 08/10

Sinopse
La bora, el viento que azota Trieste en ciertas épocas del año, es un aire apasionado que dura poco pero dobla el cuerpo y muda el ánimo. Salvador y Edita se conocieron en esta ciudad un día de primavera de 1920. Soplaba el viento, y todo cambió. Ella había nacido en Liubliana y él en Barcelona, y los dos rondaban los veinte años, una edad espléndida para permitirse cualquier locura, pero Edita, hermosa y discreta, estaba casada y tenía una hija. Salvador solo tenía su trabajo en el taller de un gran escultor y ganas de ser por fin un hombre y pisar fuerte en la vida.
Luego, en Barcelona, casi a finales de los años setenta...Un hombre ya mayor y viudo que busca ayuda para volver a Trieste y a todos los lugares donde un día creyó ser feliz, y una chica, Marina, que va a ir con él para buscar un futuro. Y entre Salvador y Marina, de repente, casi sin avisar, los recuerdos: un parque a orillas del mar, las sábanas revueltas de un amor a media tarde, un andén, una niña que se aleja, y una espléndida tabla renacentista con una Virgen que mira y duda.

Con esas voces que se cruzan en el tiempo y en el espacio, Marian Izaguirre ha escrito una novela donde la culpa y el perdón juegan el mejor de los partidos y cada paso importa.

Esplendor, de Margaret Mazzantini


Ficha técnica
TítuloEsplendor
Autora – Margareta Mazzantini
Editora – Editorial Planeta
Páginas – 384
Datas de leitura – de 24 de fevereiro a 07 de março de 2017

Opinião
Não é fácil escrever sobre Margaret Mazzantini. Não é fácil escrever sobre o impacto que as suas obras, o seu estilo, as suas histórias, as suas personagens têm em mim desde que a descobri há mais de sete anos, com a obra Não te movas (ver opinião aqui). E não é nada, mas nada fácil transmitir aos outros o quanto esse impacto é abalroador e o quão injusto que esta autora italiana seja desconhecida para tantos e tantos e o quanto esses tantos e tantos perdem por nunca terem lido nada do que ela já escreveu.
Margaret Mazzantini é, como se pode claramente deduzir, uma das autoras da minha vida. Ocupa por mérito próprio, ao lado de José Saramago e de Almudena Grandes, um lugar no selecto grupo de escritores que me definem como leitora, que alicerçaram e refinaram os meus gostos literários e que me fazem continuar a crer que, depois de carradas de anos e devorar livro atrás de livro, há quem possua “engenho e arte” para surpreender-me, para agarrar-me, para descabelar-me e para esmurrar-me as emoções.
Até hoje li cinco obras de Mazzantini. Além da referida Não te movas, está igualmente traduzida para português aquela que considero a sua obra maestra, aquela que felizmente ou não, tenha estabelecido a fasquia demasiado alto e tenha feito com que sinta que sou demasiado exigente quando leio qualquer outra obra sua. Vir ao mundo é, sem dúvida alguma, uma das obras da minha vida e é tão, mas tão perfeita que se torna praticamente impossível nivelá-la com as demais, mesmo as que tenham saído da genialidade da sua criadora. É por isso que sinto que posso ter sido parcial ou ter atribuído apenas nove em dez valores a obras como Nadie se salva solo ou Mar de mañana
Sendo assim, começo a opinião de Esplendor remediando essa “injustiça e parcialidade”. Estive indecisa até agora sobre que nota atribuir à sua leitura. Mas acabou-se neste momento a indecisão. A sua narrativa, as suas personagens e consequente amadurecimento, a explosão visceral de sentimentos e emoções, a banda sonora que os acompanha, tudo é merecedor de nota máxima. Sim, é verdade que não estamos a falar da mesma perfeição que saboreamos em Vir ao mundo, mas na próxima vez que ler esta obra (a releitura terá que ser feita obrigatoriamente este ano – os níveis de ansiedade por mergulhar de novo na sua história assim o exigem) terei que remendá-lo, atribuindo-lhe um onze numa escala cuja nota máxima é, como sabem, um dez!
Esplendor traz-nos algo que já não via desde Não te movas. Um protagonista e narrador masculinos. Mas nada que “manche” aquilo que é apologia desta sublime autora – uma narrativa prenhe de emoções, de sentimentos, de vida, de dores, de tristezas, de sonhos concretizados e desfeitos, de ninharias e de acontecimentos marcantes, de vida, de vidas que poderiam ser perfeitamente as nossas.
Guido e Constantino conhecem-se desde crianças. Um vive no quarto andar do prédio, o outro vive na cave. Um é filho único de um casal de burgueses endinheirados, o outro é filho do porteiro que, além das funções inerentes à sua função, trata da casa dos pais de Guido quando estes se ausentam de férias. Não têm praticamente quase contacto nenhum, mas sabem da existência um do outro. À medida que crescem, vão-se aproximando, sobretudo porque acabam por pertencer à mesma turma e por partilhar uma viagem de estudo que os vai marcar para sempre.
Estamos nos anos setenta. Estamos perante dois mundos distintos. Estamos perante dois produtos desses mundos.
Guido tem uma adoração doentia pela mãe, de quem venera a beleza, mas a quem quase não vê, com quem não partilha carícias, mimos, amor. Mal dirige a palavra ao pai e vai colmatando essa ausência dividindo o tempo livre e os conhecimentos com um excêntrico tio materno. É assim uma criança e futuramente um jovem isolado, sofrido e atormentado com os seus pensamentos e demónios pessoais.
Constantino é uma personagem que, à partida, se nos afigura como mais plana. Vive com os pais e a irmã, vai guardando como relíquias os brinquedos que Guido vai deitando fora e mostra, perante os outros, uma estudada indiferença que apenas se esvai quando pratica polo aquático e sente que a relação entre ele e Guido se vai tornando mais próxima.
Dois rapazes distintos, de mundos distintos, mas que se aproximam, se apaixonam e iniciam uma relação. Homossexualidade, Itália dos anos setenta e anos oitenta, mentalidades não preparadas para lidar com um amor condenado por tudo e por todos, olhares acusadores, desconfiança, busca de privacidade, medos, preconceitos, segredos, comportamentos ditados pelo disfarce. Tudo isto era matéria mais do que suficiente para criar um cativante romance. Mas Esplendor possui isto e muito mais. Porque não posso dizer que seja um romance que aborda apenas a homossexualidade e o preconceito inerente a esse tipo de amor. E é aí que reside a genialidade de Mazzantini.
Esplendor é, como é afirmado na sinopse, um relato hipnotizante que se serve da vida destes dois homens, principalmente da de Guido para não só sentirmos como o mundo e a vida avançaram desde os anos setenta até aos dias de hoje, como para, acima de tudo, compreendermos que qualquer amor transborda de beleza, como qualquer pessoa enamorada quer estar ao lado da pessoa que ama, quer dar-lhe a mão, quer olhá-la nos olhos e ver no olhar do outro o reflexo do profundo sentimento que os une, quer sentir que esse sentimento lhe providencia a audácia e a vertigem para prosseguir e ser feliz.
Sinto-me, após o que escrevi, esvaída. E feliz. Sempre me sinto assim quando leio, falo ou escrevo sobre Mazzantini. Não sei, mais uma vez, se consegui fazer-lhe justiça, se consegui que mais leitores queiram conhecer esta autora italiana. Se tiver que implorar, faço-o, porque a causa é mais do que boa. É sublime!
Recomendadíssima esta obra. Tal como qualquer outra desta autora que infelizmente deixou de ser traduzida em Portugal… Não deixem que a língua seja um entrave. Em português têm publicadas as obras Não te movas e Vir ao mundo. As restantes estão disponíveis em inglês e em espanhol.
Quanto a Esplendor… nota máxima! Merecidíssima!
Termino partilhando outra das marcas da sublimidade desta obra – a sua banda sonora:

Nota – 10/10

Sinopse

Una luminosa historia de amor entre dos hombres se abre paso en una sociedad marcada por el prejuicio. ¿Llegará el día en el que tengamos el coraje de ser nosotros mismos? Ésta es la pregunta que se plantean los dos inolvidables protagonistas de esta novela. Dos niños, dos hombres, dos increíbles destinos. Uno es intrépido e inquieto; el otro, sufrido y atormentado. Una identidad hecha pedazos que es necesario recomponer. Una conexión absoluta que se impone, la hoja de un cuchillo en el filo del precipicio de toda una existencia. Guido y Constantino se alejan, kilómetros de distancia los separan, establecen nuevas relaciones, pero la necesidad del otro se resiste en aquel primitivo abandono que los lleva a ellos mismos al lugar en el que descubrieron el amor. Un lugar frágil y viril, trágico como la negación, ambicioso como el deseo.

Cartas a Palacio, de Jorge Díaz


Ficha técnica
TítuloCartas a Palacio
Autor – Jorge Díaz
Editora – Debolsillo (Penguin)
Páginas – 560
Datas de leitura – de 30 de janeiro a 06 de fevereiro de 2017


Opinião
Não conhecia este autor, mas na última vez que estive em Espanha não resisti ao que li na sinopse desta obra e tive que trazê-la para casa. Agora que acabei de lê-la reconheço que foi uma boa aquisição, que me proporcionou uma leitura “entretenida”, como dizem os espanhóis, mas não uma leitura fogosa, viciante e daquelas que ficarão comigo por muito tempo. Pelos vistos terei que continuar a busca da história que me arrebatará e que será a primeira a que atribuirei nota máxima este ano…
Cartas a Palacio faz-nos recuar até ao princípio do século XX e ao longo das suas quase 600 páginas presenciamos o assassinato do Arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, e que despoletou o início da Primeira Grande Guerra, percorremos as ruas de Madrid e as dependências do seu Palácio Real e acompanhamos a carnificina que foram os quatro anos de Guerra mundial em cenários como as trincheiras, os campos de prisioneiros e cidades diretamente afetadas como Paris e Berlim. Tudo isto através de um considerável número de personagens que vão sentindo e vendo a sua vida ser afetada pela contenda que dizimou milhões de pessoas.
Desse considerável número de personagens faz parte o rei D. Afonso XIII de Espanha que tudo fez para que o seu país não se envolvesse no conflito que ia avançando fora das suas fronteiras. É uma das personagens principais da obra, é-nos caracterizado como sendo mulherengo, amante da caça e da boa vida, mas ao mesmo tempo como alguém detentor de um coração que não consegue ficar imune a uma carta escrita por uma menina francesa que lhe suplica que a ajude a saber o que aconteceu ao seu irmão, desaparecido em combate. Esta carta será o mote para que o monarca mostre o seu lado humano e decida criar um escritório no Palácio Real que se dedicará a fazer tudo o que esteja ao seu alcance para ajudar as famílias que tenham perdido alguém em combate e não saibam se o marido, filho, irmão, primo, tio estão mortos, feridos ou foram feitos prisioneiros.
Nesse escritório (la Oficina Pro-Cautivos), trabalharão mais três protagonistas da obra – Álvaro Giner, amigo íntimo do rei, Blanca Alerces que acaba de deixar o noivo plantado no altar, e Manuel Campos, um homem simples e que defende ideais anarquistas, entre os quais a abolição da monarquia. São três personagens que acompanharemos fielmente e por quem não será difícil sentir carinho e interesse. Através delas deambularemos por Madrid, conheceremos o seu lado abastado e aristocrático e também o seu lado miserável e repleto de sofrimento, fome e doenças. Serão igualmente elas, de forma direta ou não, que nos porão em contacto com um leque de personagens mais secundárias mas que ajudam a manter a trama viva e a vontade de prosseguir com uma leitura extensa.
Como referi no início desta opinião, não sinto que ler esta obra tenha sido uma perda de tempo. Pelo contrário. Saí dela mais enriquecida, com mais conhecimentos sobre a Primeira Grande Guerra e sobre a Espanha da época. Senti uma empatia imediata por muitas das personagens que dão um colorido deveras agradável à trama. Contudo não posso deixar de afirmar que o facto de ter ficado a saber que o autor, antes de dedicar-se à literatura, era guionista de séries de televisão, vem confirmar um pressentimento e uma sensação que sempre estiveram presentes ao longo da leitura – queria mais profundidade psicológica na caracterização, atitudes, pensamentos e amores das personagens, queria menos previsibilidade e, por que não, queria um desfecho melhor, menos evidente, “apressado” e menos cor-de-rosa.
Tenho na wishlist outra obra do autor, uma que, entretanto, já faz parte da minha biblioteca digital (obrigada, Cristina Tista) – Tengo en mí todos los sueños del mundo – e, por muito que Cartas a Palacio não tenha correspondido ao que almejava, não vou deixar de ler o seu sucessor, pois, quem sabe, pode oferecer momentos de muito entusiasmo e deleite! A ver vamos. Não vale a pena elevar demasiado as expectativas.

NOTA – 08/10

Sinopse
Una ambiciosa novela de amistad, amor y guerra en la Europa de principios del siglo XX, que cuenta la primera misión humanitaria de la historia.
Malos presagios se ciernen sobre el corazón de Europa. Se acerca el final del año más triste que se recuerda, la guerra finalmente ha estallado y avanza sin piedad sembrando el continente de muertos y heridos, cuando al Palacio Real llega una carta que remueve profundamente el ánimo del rey: una niña francesa suplica su ayuda para dar con el paradero de su hermano, desaparecido en el frente. Alfonso XIII, conmovido por tal petición, emplea la diplomacia española para saber de la suerte del hermano de la pequeña Sylvie, pero su acción navideña tiene consecuencias imprevistas y provoca la llegada de un alud de solicitudes a palacio. Impresionado por la magnitud de la tragedia, el monarca reúne a un excepcional grupo de colaboradores y pone en marcha la Oficina Pro- Cautivos, donde buscarán el modo de dar respuesta a esas familias rotas por la guerra, desesperadas por encontrar a sus seres queridos. Inspirada en un hecho real, Cartas a Palacio recrea un momento histórico fascinante.

Volver a Canfranc, de Rosario Raro


Ficha técnica
TítuloVolver a Canfranc
Autora – Rosario Raro
Editora – Planeta
Páginas – 504
Datas de leitura – de 09 a 18 de janeiro de 2017

Opinião
Canfranc é com certeza um nome desconhecido para imensas pessoas. Também o era para mim. Mas se fizermos uma pesquisa no Google, rapidamente descobrimos que Canfranc é o nome de uma estação ferroviária que uniu até 1970 Espanha e França através de um túnel escavado nos Pirenéus. E rapidamente nos deslumbramos com as imagens que ilustram a grandiosidade e majestosidade do seu edifício com porte e silhueta de um palácio real.
Mas Canfranc não é apenas sinónimo de tudo isso ou de uma degradação que dói de ver e que é consequência do encerramento da via ferroviária internacional. É também sinónimo de uma via de escape para centenas ou milhares de judeus que durante a Segunda Grande Guerra fugiram ao jugo nazi. Entre eles nomes célebres como o do pintor bielorrusso Marc Chagall, Alma Mahler, uma das mulheres mais fascinantes do século XX, o irmão mais velho de Thomas Mann e a sua família e ainda a controversa e famosíssima Josephine Baker e o seu marido judeu. Famosos e anónimos cruzaram os Pirenéus e quando chegavam a Canfranc sabiam que estavam um pouco mais perto da ansiada liberdade, pois aí apanhariam um comboio que os levaria a atravessar a Península Ibérica até alcançarem Lisboa, onde embarcariam rumo a uma vida livre.
“Para muchos perseguidos por el régimen nazi, la esperanza se llamó Canfranc.” (pág. 11)
Este é a premissa, o ponto de partida para Volver a Canfranc, um romance que parte dos referidos factos históricos e aos quais a sua autora habilmente mistura a ficção e assim cria uma história que nos prende desde as páginas iniciais.
A estação de Canfranc, apesar de estar situada em terras aragonesas, ou seja, em solo espanhol, era uma estação internacional. Todos os seus serviços eram em duplicado – havia, por exemplo, um chefe de estação espanhol e francês e serviços aduaneiros de ambas as nacionalidades. O seu piso superior estava ocupado pelo Hotel Internacional. E é nestes serviços e instalações que se movimentam dois dos protagonistas da obra – Laurent Juste é o chefe francês dos serviços aduaneiros e Jana Belerma é criada do hotel. Para além desses mesteres, dedicam-se clandestinamente a ajudar de todas as formas possíveis os refugiados judeus que chegam a Canfranc escondidos em vagões ou que descem das montanhas que rodeiam este enclave ferroviário onde, desde o inverno de 1942, uma bandeira com a cruz suástica “acolhe” todos aqueles que por lá passam.
Laurent e Jana não trabalham sozinhos. A eles se juntam outras personagens de ambos os lados da fronteira, como Montlum, o companheiro de outras guerras de Laurent, Valentina, uma miúda de treze anos que ajuda Jana com as lides do hotel, um médico, o doutor Mallén, que em Zaragoza acolhe os refugiados que necessitem de cuidados clínicos, Didier, um trabalhador da ferrovia e Esteve Durandarte, contrabandista, cavaleiro enigmático que vive nas encostas das montanhas e que desassossega os corações femininos. Este punhado de personagens, armados de valentia e de um intrínseco sentido do dever e da justiça, põe todos os dias as suas vidas em risco para que a guerra possa terminar um pouco mais cedo e para que a liberdade seja um direito que assiste a todos.
Não é novidade nenhuma para quem me conhece e segue as minhas leituras aqui no blogue que sou obcecada por obras que abordem períodos bélicos, sobretudo aqueles que foram longos e atrozes. Sendo assim porque a cronologia assim o ditava, porque em janeiro se comemora o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto e porque quis participar no projeto Leituras do Holocausto II no Goodreads, embarquei na leitura de Volver a Canfranc com algumas expectativas e aquele interesse que me percorre todinha quando tenho entre mãos um grande amontoado de páginas (504, para ser exata) que absorverá a minha atenção e mexerá comigo de uma forma inexplicavelmente boa.
Agora que já se passaram alguns dias desde que a terminei, posso afirmar que foi uma leitura muito saborosa, que ainda me habita e que por isso não desiludiu. Não foi uma leitura a que darei sem hesitar a pontuação máxima, talvez porque lhe falta alguma intensidade nos momentos mais dramáticos e na caracterização das personagens principais, mas foi uma leitura muito interessante, que me abriu caminho para confirmar que a Segunda Grande Guerra não se desenrolou apenas nos palcos principais e que me deixou com umas ganas tremendas de pisar in loco as vias e os espaços que compõem o soberbo espaço da estação de Canfranc, fechar os olhos e reconstruir na minha memória tudo o que de bom e vital para a humanidade se fez por lá há uns bons anos atrás.
Tenho muita pena que esta obra ainda não esteja traduzida e publicada no nosso país, pois sei que agradaria a muitos leitores e faria com que os mesmos soubessem onde fica Canfranc e por que razão esta estação foi sinónimo de esperança e liberdade para muitos judeus nos anos 40 e ainda continua a sê-lo para os seus descendentes.
Termino deixando-vos uma imagem que ilustra a grandiosidade do edifício da estação que dá nome à obra e que me faz tanto querer conhecê-la, senti-la – Hasta pronto, Canfranc.


NOTA – 09/10

Sinopse

Marzo de 1943. Agazapados dentro de una habitación secreta, varias personas contienen la respiración mientras aguardan a que el sonido de las botas reforzadas con metal de los soldados alemanes se aleje. En la estación internacional de Canfranc, en el Pirineo, la esvástica ondea sobre la playa de vías. En medio de la oscuridad, Laurent Juste, jefe de la aduana, Jana Belerma, camarera del hotel, y el bandolero Esteve Durandarte arriesgan sus vidas para devolverles la libertad. Volver a Canfranc es su historia. Jana y Esteve, armados tan solo con la valentía que da el amor, lucharon porque miles de ciudadanos judíos consiguieran atravesar esta estación mítica. Además de ellos, otras personas guiadas por la generosidad decidieron enfrentar el terror y ayudarlos. Para miles de perseguidos por el régimen nazi la esperanza se llamó Canfranc.

Lo que no tiene nombre, de Piedad Bonnett


         
Ficha técnica
TítuloLo que no tiene nombre
Autora – Piedad Bonnett
Editora – Alfaguara (edição Kindle)
Páginas – 112
Datas de leitura – de 1 a 3 de janeiro de 2017

         Opinião
         A dor de perder um filho não tem nome, não consegue ser nomeada. Quando fico a par de notícias de pais que perdem um filho, que lhes é arrancado dos braços pela morte, de imediato uma couraça se levanta e protege-me. Não dou tempo à razão ou a sentimento de assimilar semelhante dor, reajo expulsando-a e afugentando-a para lugares muito remotos e inacessíveis.
         Contudo, tenho um comportamento completamente distinto quando se trata de literatura, de ler obras que abordam a morte, inclusive a morte de um filho. Li há muitos anos Paula, de Isabel Allende e pretendo relê-lo em breve. Não hesitei quando tropecei em referências a esta obra de uma escritora colombiana que não conhecia, mas que, tal como a sua congénere chilena, havia experienciado essa dor sem nome, essa dor que nenhuma mãe ou pai quer experienciar.
         Em pouco mais de cem páginas, Piedad Bonnett deixa-nos entrar no que tem de mais íntimo e partilha com o leitor o suicídio do seu filho Daniel, que contava com apenas 28 anos, mas cuja vida e demónios internos o levaram a desistir de viver e a buscar a paz na morte. A obra relata-nos como, quando e onde foi o seu suicídio, permite que conheçamos um pouco a sua vida, como era Daniel e aquilo que lhe amargou a existência de tal forma que só a morte se lhe apresentou como solução para tudo. Mas, sendo escrita na primeira pessoa, sendo a narradora a própria Piedad, faz com que compreendamos que a escrita foi um dos refúgios da autora, a companhia e veículo ideais para expor a dor, o desconcerto, o estupor e as dúvidas, incertezas e perguntas que a assolaram após a perda abrupta de um filho amado.
         Sendo assim, a obra revela-se uma ode a Daniel e ao mesmo tempo um tributo a todos os tabus que rodeiam a morte, sobretudo aquela que alguém busca por iniciativa própria. Revela ainda a amálgama de sentimentos contraditórios que assolam um progenitor cujo filho se mata –compreensão seguida de aturdimento, de incompreensão, de procura de respostas, de aceitação seguida de recusa, de rejeição, de dor seguida de dormência, de transtorno seguido de serenidade.
         Não é uma obra que puxa pela lágrima fácil. Se fosse, eu teria chorado baba e ranho e nem uma lágrima verti. Mas é um texto muito dorido e ao mesmo tempo que tenta buscar respostas racionais, “objetivas” para algo que será sempre inenarrável, inexprimível. Um espelho de uma dor muito sua, muito desta mãe, mas que eu, como progenitora posso tentar (embora a repila de imediato se a associo à minha vida) imaginar.
         Fica agora ao vosso critério se a querem conhecer.

         NOTA – 08/10

         Sinopse

         ¿Hasta dónde puede llegar la literatura? En este libro dedicado a la vida y la muerte de su hijo Daniel, Piedad Bonnett alcanza con las palabras los lugares más extremos de la existencia.