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Vir ao mundo, de Margaret Mazzantini


RELEITURA
Ficha técnica
TítuloVir ao mundo
Autora – Margaret Mazzantini
Editora – Bertrand Editora
Páginas – 532
Datas de leitura – de 28 de maio a 17 de junho de 2017


Opinião
Respiro fundo múltiplas vezes e acaricio a lombada, a capa. Da leitura que terminei há umas horas [No país da nuvem branca] já quase nada resta. Deixou a porta escancarada para esta releitura que será a primeira deste ano e sem dúvida a mais significativa, a mais ansiada, a mais premente.
Acompanhar-me-á um permanente nó na garganta.”

Isto foi o que registei no meu caderninho das leituras mal retirei da estante aquele que é um dos livros da minha vida. Até ao momento não havia feito nenhuma releitura em 2017, porque conscientemente ou não estava a preparar-me para receber de novo a história de Gemma e de Diego, a história de um amor dolorosamente belo que abalroou a vida de dois jovens italianos que casualmente se conhecem em Sarajevo, no ano em que aí se celebraram os Jogos Olímpicos de Inverno.
Comprei esta obra em 2012. Comprei-a após ter lido Não te movas e me ter completamente apaixonado pela escrita emocional e belíssima de Margaret Mazzantini. A primeira leitura de Vir ao Mundo demorou praticamente um mês, não por causa do número de páginas da obra, mas porque a avalanche de sensações e sentimentos que experimentei desde as suas palavras iniciais foi sufocante, cortou-me o fôlego vezes sem conta, trouxe à superfície angústias, medos e dores que senti como se fossem minhas, só minhas.
A releitura ocorreu quase cinco anos depois e, uma vez mais, foi impossível fazê-la à velocidade normal de uma qualquer leitura. Vir ao mundo acompanhou-me em casa, no trabalho, por todos os lados durante 21 dias e despoletou tudo de novo – o nó na garganta, o peso no estômago, os nós dos dedos brancos da força com que cerrava os punhos, o encostar e abalar do livro junto ao meu peito e as lágrimas que correram infindáveis vezes, de forma descontrolada, como correm agora que bato as teclas para escrever este texto. Um texto que tem que ser perfeito, que desesperadamente transpareça o quanto este livro é também ele soberbamente perfeito, o quanto a sua leitura dói, nos faz sofrer, uivar em silêncio de incompreensão, de injustiça, de compaixão, de tristeza, de mágoa e dor pelos protagonistas da sua narrativa, sejam eles pessoas ou espaços.
Como referi, Vir ao mundo conta-nos a história de Gemma e de Diego. Mas a sua narrativa não se centra apenas na sua história de amor. É isso e muito mais. É a história de um amor completo, doce, pleno, sofrido, mas que não termina. É a história de Gemma, de uma mulher que sabe que só se sentirá completa se for mãe, mãe de um filho de Diego – “ – Quero um filho com uns pés assim. (…) – O que têm de belo estes pés?  – São os dele…” É a história de uma maternidade desesperadamente buscada, de uma maternidade que só será realidade no corpo de uma outra mulher, de alguém que não seja “incompatível com a vidade alguém que não tenha “uma esterilidade de noventa e sete por cento… uma esterilidade total.” É a história dessa maternidade finalmente alcançada, de uma maternidade que já dura há dezasseis anos, mas que apenas Gemma sentiu como verdadeira, como concreta bem depois do nascimento de Pietro – “Terei de esperar pelo dia em que ele, na terceira classe, me há-de baptizar.” É a história de Gojko, de Aska, de Sebina e de Armando, personagens que nos invadem o coração. Um com a sua ironia, o seu sentido de humor, a sua amizade indestrutível e um sentido de lealdade comovente. Outra com a sua inocência atrevida, os seus sonhos, a sua rebeldia, a sua música e a sua juventude. Outra com a sua meninice, o seu temperamento forte, a sua aura de esperança e a sua vontade de lutar. Outro com a sua doçura, a sua timidez e a sua forma tão suave e delicada de trazer luz à vida de quem o rodeia.
Vir ao mundo reúne todas estas histórias – de crianças, adolescentes, jovens e menos jovens. Mas há um espaço, uma cidade que as protagoniza e que une na mais absoluta perfeição o que já por si seria uma narrativa com contornos perfeitos. Ao longo das 532 páginas da obra calcorreamos a cidade de Sarajevo. Calcorreámo-la em 1984, no apogeu dos Jogos Olímpicos de Inverno. Calcorreámo-la em 1991, 1992, em pleno cerco da guerra civil dos Balcãs e calcorreámo-la em 2008, como capital da recente e independente Bósnia-Herzegovina. E apaixonámo-nos por ela, rendemo-nos aos seus encantos. Uma cidade que era o espelho da tolerância, da pacífica e harmoniosa convivência entre povos de etnias e religiões diferentes, que em 1984 olhava com confiança para o futuro, que abria devagarinho as suas portas para o mundo e que em 1991, 1992 é devastada, arrasada por uma guerra de contornos brutais, que assiste incrédula e indefesa ao massacre que abate os seus habitantes como se fossem lebres – “… aquela cidade transformada num campo de lebres a dizimar.” “Sarajevo é um grande campo de tiro ao ar livre. Uma reserva de caça.” Uma cidade que em 2008 renasceu das cinzas, mas que ainda está em convalescença, que ainda mostra feridas por cicatrizar. A cidade de Gojko, a cidade de Aska, a cidade de Sebina, a cidade de sarajevitas que não esquecem, que ainda choram os seus mortos, mas que paulatinamente vão começando a viver de novo – “ _ Certo dia, passei junto de um prado vermelho de papoilas e, pela primeira vez, não pensei em sangue, fiquei encantado com aquela beleza tão frágil. Era suficiente menos de um machado, de um míssil maljutka, era suficiente um sopro de vento. Aquele prado estava ali parado para nós, estava à nossa espera a seguir à curva. Um campo imenso pontuado de línguas vermelhas, como corações caídos do céu sobre a erva. Ia de carro com a minha mulher. Parámos e começámos a chorar. Primeiro, eu; depois, ela também veio atrás de mim como um rio. Foi um pranto que lentamente nos esvaziou, nos ressarciu. E a partir dessa tarde começámos a respirar com o peito. Conseguíamos suportar a nossa respiração. Durante anos esteve retida na garganta, não conseguia parar… Dois meses mais tarde, a minha mulher estava grávida.”
Por tudo o que referi, é quase redundante dizer que a releitura de Vir ao mundo foi esmagadora. Foi esmagadora porque reavivou a vontade quase incontrolável que sinto de conhecer Sarajevo. Foi esmagadora porque me trouxe tudo o que busco numa leitura. Foi esmagadora porque, como mãe, senti as dores, o desespero, a loucura, o egoísmo, os medos e as angústias de Gemma como minhas. Foi esmagadora porque me voltei a render ao amor dos dois protagonistas da narrativa. Foi esmagadora porque criei laços inquebráveis com todas as personagens. Foi esmagadora porque a escrita de Mazzantini é magistral, dolorosamente bela. E foi ainda esmagadora por causa da banda sonora que nos vai acompanhando ao longo da história e da qual fazem parte canções como estas – I wanna marry you, de Bruce Springsteen; Where the streets have no name, dos “meus” U2; Losing my religion, dos REM.
Concluindo, repito o que já referi – este é um dos livros da minha vida e que adoraria que fosse lido por todos aqueles que ainda não o leram e não conhecem Margaret Mazzantini. É um verdadeiro crime que esta autora tenha deixado de ser traduzida para português, apenas porque a venda dos seus livros não foi economicamente rentável… Espero, para bem de todos, que essa situação seja revertida num futuro próximo. Eu continuo a lê-la – já li em espanhol mais três obras suas, mas seria maravilhoso que todos pudéssemos saborear os seus livros na nossa língua, apesar de a edição que reli ter algumas gralhas incompreensíveis…
Há uns meses a minha querida companheira do blogue “Jardim de Mil Histórias” pediu-me que participasse na rubrica “O livro da minha vida”. Ainda não lhe havia respondido… Talvez porque estava à espera desta releitura. Sendo assim, aqui o tens, Isa!
Leiam Vir ao Mundo! Por favor!

NOTA – 10/10 ou se preferirem 11/10

(Deixo-vos o link da opinião que escrevi para o blogue aquando da primeira vez que li esta obra que sempre me vai assombrar)

Sinopse

Gemma deixa para trás a sua vida e entra num avião com o filho de dezasseis anos, Pietro. Destino: Sarajevo, uma cidade entre o Ocidente e o Oriente, ainda cicatrizada pelas feridas de um passado recente. À sua espera no aeroporto está Gojko, um poeta bósnio, velho amigo, que durante os dias festivos das Olimpíadas de Inverno de 1984 apresentou Gemma ao amor da sua vida, Diego, um fotógrafo que captava cenas de beleza estonteante nos reflexos de poças de água.
Este romance conta a história do seu amor, de dois jovens em tempos frenéticos e envelhecidos pela guerra. Uma história de amor tão apaixonada e imperfeita como apenas o amor verdadeiro pode ser, num ambiente contemporâneo e devastador do mundo em guerra e em paz. 

Esplendor, de Margaret Mazzantini


Ficha técnica
TítuloEsplendor
Autora – Margareta Mazzantini
Editora – Editorial Planeta
Páginas – 384
Datas de leitura – de 24 de fevereiro a 07 de março de 2017

Opinião
Não é fácil escrever sobre Margaret Mazzantini. Não é fácil escrever sobre o impacto que as suas obras, o seu estilo, as suas histórias, as suas personagens têm em mim desde que a descobri há mais de sete anos, com a obra Não te movas (ver opinião aqui). E não é nada, mas nada fácil transmitir aos outros o quanto esse impacto é abalroador e o quão injusto que esta autora italiana seja desconhecida para tantos e tantos e o quanto esses tantos e tantos perdem por nunca terem lido nada do que ela já escreveu.
Margaret Mazzantini é, como se pode claramente deduzir, uma das autoras da minha vida. Ocupa por mérito próprio, ao lado de José Saramago e de Almudena Grandes, um lugar no selecto grupo de escritores que me definem como leitora, que alicerçaram e refinaram os meus gostos literários e que me fazem continuar a crer que, depois de carradas de anos e devorar livro atrás de livro, há quem possua “engenho e arte” para surpreender-me, para agarrar-me, para descabelar-me e para esmurrar-me as emoções.
Até hoje li cinco obras de Mazzantini. Além da referida Não te movas, está igualmente traduzida para português aquela que considero a sua obra maestra, aquela que felizmente ou não, tenha estabelecido a fasquia demasiado alto e tenha feito com que sinta que sou demasiado exigente quando leio qualquer outra obra sua. Vir ao mundo é, sem dúvida alguma, uma das obras da minha vida e é tão, mas tão perfeita que se torna praticamente impossível nivelá-la com as demais, mesmo as que tenham saído da genialidade da sua criadora. É por isso que sinto que posso ter sido parcial ou ter atribuído apenas nove em dez valores a obras como Nadie se salva solo ou Mar de mañana
Sendo assim, começo a opinião de Esplendor remediando essa “injustiça e parcialidade”. Estive indecisa até agora sobre que nota atribuir à sua leitura. Mas acabou-se neste momento a indecisão. A sua narrativa, as suas personagens e consequente amadurecimento, a explosão visceral de sentimentos e emoções, a banda sonora que os acompanha, tudo é merecedor de nota máxima. Sim, é verdade que não estamos a falar da mesma perfeição que saboreamos em Vir ao mundo, mas na próxima vez que ler esta obra (a releitura terá que ser feita obrigatoriamente este ano – os níveis de ansiedade por mergulhar de novo na sua história assim o exigem) terei que remendá-lo, atribuindo-lhe um onze numa escala cuja nota máxima é, como sabem, um dez!
Esplendor traz-nos algo que já não via desde Não te movas. Um protagonista e narrador masculinos. Mas nada que “manche” aquilo que é apologia desta sublime autora – uma narrativa prenhe de emoções, de sentimentos, de vida, de dores, de tristezas, de sonhos concretizados e desfeitos, de ninharias e de acontecimentos marcantes, de vida, de vidas que poderiam ser perfeitamente as nossas.
Guido e Constantino conhecem-se desde crianças. Um vive no quarto andar do prédio, o outro vive na cave. Um é filho único de um casal de burgueses endinheirados, o outro é filho do porteiro que, além das funções inerentes à sua função, trata da casa dos pais de Guido quando estes se ausentam de férias. Não têm praticamente quase contacto nenhum, mas sabem da existência um do outro. À medida que crescem, vão-se aproximando, sobretudo porque acabam por pertencer à mesma turma e por partilhar uma viagem de estudo que os vai marcar para sempre.
Estamos nos anos setenta. Estamos perante dois mundos distintos. Estamos perante dois produtos desses mundos.
Guido tem uma adoração doentia pela mãe, de quem venera a beleza, mas a quem quase não vê, com quem não partilha carícias, mimos, amor. Mal dirige a palavra ao pai e vai colmatando essa ausência dividindo o tempo livre e os conhecimentos com um excêntrico tio materno. É assim uma criança e futuramente um jovem isolado, sofrido e atormentado com os seus pensamentos e demónios pessoais.
Constantino é uma personagem que, à partida, se nos afigura como mais plana. Vive com os pais e a irmã, vai guardando como relíquias os brinquedos que Guido vai deitando fora e mostra, perante os outros, uma estudada indiferença que apenas se esvai quando pratica polo aquático e sente que a relação entre ele e Guido se vai tornando mais próxima.
Dois rapazes distintos, de mundos distintos, mas que se aproximam, se apaixonam e iniciam uma relação. Homossexualidade, Itália dos anos setenta e anos oitenta, mentalidades não preparadas para lidar com um amor condenado por tudo e por todos, olhares acusadores, desconfiança, busca de privacidade, medos, preconceitos, segredos, comportamentos ditados pelo disfarce. Tudo isto era matéria mais do que suficiente para criar um cativante romance. Mas Esplendor possui isto e muito mais. Porque não posso dizer que seja um romance que aborda apenas a homossexualidade e o preconceito inerente a esse tipo de amor. E é aí que reside a genialidade de Mazzantini.
Esplendor é, como é afirmado na sinopse, um relato hipnotizante que se serve da vida destes dois homens, principalmente da de Guido para não só sentirmos como o mundo e a vida avançaram desde os anos setenta até aos dias de hoje, como para, acima de tudo, compreendermos que qualquer amor transborda de beleza, como qualquer pessoa enamorada quer estar ao lado da pessoa que ama, quer dar-lhe a mão, quer olhá-la nos olhos e ver no olhar do outro o reflexo do profundo sentimento que os une, quer sentir que esse sentimento lhe providencia a audácia e a vertigem para prosseguir e ser feliz.
Sinto-me, após o que escrevi, esvaída. E feliz. Sempre me sinto assim quando leio, falo ou escrevo sobre Mazzantini. Não sei, mais uma vez, se consegui fazer-lhe justiça, se consegui que mais leitores queiram conhecer esta autora italiana. Se tiver que implorar, faço-o, porque a causa é mais do que boa. É sublime!
Recomendadíssima esta obra. Tal como qualquer outra desta autora que infelizmente deixou de ser traduzida em Portugal… Não deixem que a língua seja um entrave. Em português têm publicadas as obras Não te movas e Vir ao mundo. As restantes estão disponíveis em inglês e em espanhol.
Quanto a Esplendor… nota máxima! Merecidíssima!
Termino partilhando outra das marcas da sublimidade desta obra – a sua banda sonora:

Nota – 10/10

Sinopse

Una luminosa historia de amor entre dos hombres se abre paso en una sociedad marcada por el prejuicio. ¿Llegará el día en el que tengamos el coraje de ser nosotros mismos? Ésta es la pregunta que se plantean los dos inolvidables protagonistas de esta novela. Dos niños, dos hombres, dos increíbles destinos. Uno es intrépido e inquieto; el otro, sufrido y atormentado. Una identidad hecha pedazos que es necesario recomponer. Una conexión absoluta que se impone, la hoja de un cuchillo en el filo del precipicio de toda una existencia. Guido y Constantino se alejan, kilómetros de distancia los separan, establecen nuevas relaciones, pero la necesidad del otro se resiste en aquel primitivo abandono que los lleva a ellos mismos al lugar en el que descubrieron el amor. Un lugar frágil y viril, trágico como la negación, ambicioso como el deseo.

Nadie se salva solo, de Margaret Mazzantini

Domingo, 28 de junho de 2015




Opinião
Um casal que se separou. Dois filhos que ainda o une. Um emaranhado de recordações. Umas saborosas, outras dolorosas. Um jantar partilhado para tomar decisões sobre quem fica com as crianças nas férias de verão.
Uma narrativa crua, que põe a nu as fragilidades e o quão complexas são as relações humanas.
Gaetano e Delia são dois jovens cujas vidas casualmente se cruzam. Ele é aquele jovem que não sabe bem o que esperar, o que desejar do futuro. Escrevinha alguns textos e aspira que os mesmos lhe abram as portas desse futuro que se assemelha longínquo. Ela aproveita-se de uma adolescência carregada de transtornos alimentares para ganhar o seu sustento como nutricionista. Ambiciona viajar, saber mais para assim conhecer melhor os outros e a si mesma. Os dois são o oposto um do outro, mas o amor que cresce entre eles esbate essas diferenças, torna-as mais saborosas. A avalanche de emoções que lhes enche o peito faz com que o resto do mundo pouco importe. É essencial que se toquem, que se percam um no outro, que Gaetano se perca na boca de Delia, nos seus dentes roídos pelo ácido de anos e anos de anorexia e bulimia e que Delia se perca com o olhar nas feições assimétricas de Gaetano.
Rapidamente decidem viver juntos num apartamento minúsculo mas que não consegue aprisionar aquele amor infinito que os liga dessa forma tão especial, que permite a Gaetano olhar Delia e saber o que ela está a pensar, sentir-se orgulhoso e feliz por ela o ter escolhido a ele, a ele tão necessitado de afeto e de atenção.
         Como pôde então um amor destes terminar? Como consentiram eles que o seu casamento findasse em insultos, discussões por ninharias, críticas, indiferença e em olhares onde antes havia amor e agora há ódio, incredulidade e até asco?
         É aqui que Mazzantini revela, uma vez mais, a sua mestria, o seu perfeito conhecimento do carácter humano, daquilo que realmente nos define enquanto homem e mulher que estão em constante busca de afetos e que os perdem por egoísmo, por saturação e por outros motivos mais ou menos obscuros.
         É extremamente difícil manter um casamento feliz. Não um daqueles casamentos em que ele e ela se mantêm juntos por comodismo, pelos filhos, por razões religiosas ou por um número infinito de outras justificações. Refiro-me a um casamento em que olhamos para o nosso companheiro e continuamos a sentir vontade de afagar-lhe o rosto, de encostarmo-nos ao seu peito e receber aquele abraço reconfortante, partilhar risos, olhares de entendimento, angústias, pensamentos, emoções, enfim de partilhar com ele a nossa rotina, a nossa vida. Gaetano e Delia mostram-nos que, por muito que nos amemos, toda essa partilha, toda essa fusão podem dissipar-se sem que muitas vezes nos demos conta. Quando o fazemos já é demasiado tarde e o que resta é doloroso.
         Os restos, as obras do casamento de Gaetano e Delia amontoam-se como trapos dos quais nos queremos desfazer o mais rápido possível. Delia não suporta olhar para aquelas feições assimétricas de Gaetano que tanto amava sem agora sentir aquela sensação de asco que infalivelmente nos acomete quando já nenhum afeto (a não ser ódio ou indiferença) nos liga à outra pessoa. Gaetano faz aquilo que havia prometido nunca fazer – inicia uma relação adúltera que sabe não ter qualquer futuro mas que lhe dá aquilo que já não encontra em casa – a ser-se amado. Os filhos que têm são vistos como empecilhos, como culpados da quebra da tal união perfeita que havia entre os pais. A casa é uma amarga recordação de um passado que já não volta e de um presente onde impera a amargura e sobretudo a solidão. Ou seja, o conto de fadas não termina com o tradicional “Viveram felizes para sempre”. A realidade, o desfolhar do dia-a-dia não o permitem. Nós não o permitimos.
Como referi no início, a narrativa desta magnífica obra de Mazzantini desenrola-se numa noite, mais propriamente durante as horas em que Gaetano e Delia estão sentados frente a frente e tentam ter uma conversa civilizada sobretudo sobre como lidarão com a partilha dos filhos nas férias do verão. O diálogo que entabulam é então o suporte da obra, o que nos possibilita conhecê-los intimamente e compreender aquilo que na verdade os determina – estamos perante duas pessoas que se amaram muito e de cujo amor apenas sobrou ressentimento, dor e sobretudo solidão. Uma solidão que se agudiza perante recordações que lhes veem à memória, perante o exemplo de um casal mais velho que janta perto deles e que partilha gestos de carinho dos quais Gae e Delia já desconhecem o sabor, perante traços familiares do outro e que já não lhes pertencem. Uma solidão que dói e que, por muito magoados que estejamos, queremos que desapareça, nem que seja por um punhado de tempo. Porque a busca do amor, dos afetos teimosamente continua aí…
Nadie se salva solo é assim mais uma obra intensa, que me perturbou, que me deixou atarantada e ao mesmo tempo mais consciente do que nunca do quanto as emoções são a nossa vida. É mais do que óbvio que recomendo a sua leitura, mesmo avisando de antemão de que é um romance sofrido, difícil, doído. Como a vida o é frequentemente.
Não posso terminar esta opinião sem referir que esta música dos U2 (ainda gosto mais de ti, Mazzantini, por juntares as tuas palavras às de uma canção da maior banda do mundo) está muito presente na obra:



NOTA – 09/10



         Sinopse
         Delia y Gaetano eran pareja. Ya no lo son, y han de aprender a asumirlo. Desean vivir tranquilos pero, al mismo tiempo, les inquieta y seduce lo desconocido. ¿En qué se equivocaron? No lo saben. La pasión del comienzo y la rabia del final están todavía demasiado cercanas. En una época en la que parece que ya está todo dicho, sus palabras y silencios dejan al desnudo sus soledades, sus urgencias, sus recuerdos, y provocan brillos imprevistos al poner en escena, una noche de verano, el viaje del amor al desamor.

Aclamada por la crítica y los lectores, Nadie se salva solo es una de las grandes novelas de la literatura italiana actual: la conmovedora historia de una pareja contemporánea.

Não te movas/Não te mexas, de Margaret Mazzantini

Sábado, 29 de março de 2014



Opinião
Não resisti. Bom, para ser sincera, não opus qualquer resistência à vontade de reler a obra que me abriu as portas ao mundo literário da “minha” Margaret Mazzantini J
Li Não te movas há mais de cinco anos (publicado ainda com este título pela Dom Quixote – foi reeditado mais tarde pela Bertrand e inexplicadamente com o título Não te mexas), depois de o ter comprado porque a minha intuição me dizia que ia ser uma daquelas leituras. Sim, uma daquelas leituras que tomam conta de mim, que me seduzem por completo, que me envolvem de tal forma que sei de antemão que ficarão comigo para sempre… E esta ficou. Sem qualquer dúvida.
Foi com este romance que me apaixonei perdidamente pela escrita de Mazzantini, pelas suas histórias, pela maneira como põe em palavras os nossos sentimentos, sonhos, anseios, desilusões… É uma escritora fabulosa, não só por esse lirismo tão próximo da nossa realidade como também pela qualidade da sua escrita, dramática, tensa, onde predominam as frases curtas que, nessas poucas palavras, nos transmitem tudo de um modo perfeito e absoluto.
Não te movas é uma obra triste, tal como as outras que já li da autora. É dolorosa, comovente, machuca-nos, mas não podemos deixar de lê-la, é impossível. Chega-nos através de um monólogo doloroso de um pai que vê a sua vida virar do avesso quando toma conhecimento de que a sua filha de quinze anos está entre a vida e a morte, deitada numa cama dos Cuidados Intensivos do hospital onde ele trabalha. Este acontecimento terrível vai abalar a vida aparentemente estável deste prestigiado cirurgião e desencadear um sem número de perguntas, dúvidas e reflexões sobre a sua vida presente, passada e futura.
Para mitigar a dor de poder “ficar órfão” de filha, Timoteo inicia o referido monólogo (dirigido à filha e também a si próprio) no qual abre o seu coração, não de forma cirúrgica, como faria com qualquer um dos seus pacientes, mas recorrendo a “um bisturi que penetra a carne viva das recordações”. Somos assim levados a viajar até vários momentos do seu passado, que nos põem a nu a fragilidade e contradições deste cirurgião intocável. E tornámo-nos cúmplices do seu mais guardado e até aí não partilhado segredo – uma estranha, inusitada, algo sórdida, mas pungente história de amor, que me levou às lágrimas (tantas e tantas vezes) de tão bela e sofrida que é.
Não te movas é, por tudo o que foi dito e pelo tanto que ficou por dizer, uma obra lindíssima e que merece ser lida por todos aqueles que se pelam, que anseiam por uma história que os abane, que os toque no que têm de mais íntimo e os faça não querer largar o livro mesmo quando leem a sua última frase. É esse o poder que as obras desta magnífica escritora têm e que me faz lê-las, relê-las e esperar ansiosamente por novas obras!
Deixo-vos algumas passagens:
És a minha garra no mundo, Angelina, neste mundo que avança sem mudanças de estação.” (pág. 63)
Quando lhe caí em cima, fiquei dentro dela demoradamente sem me mexer, olhando-a nos olhos claros e desfeitos. Ficámos assim, parados naquele campo de fogo. Uma lágrima desceu-lhe pela têmpora, recolhi-a com os lábios. Já não tinha medo dela, pesava-lhe em cima como um homem, como um filho.
«Agora és minha, só minha»” (pág. 88)
Os amores novos são cheios de medo, Angela, não têm um lugar no mundo e não têm fim de linha” (pág. 89)
O que quer dizer amar, minha filha? Tu sabes? Amar para mim foi ter a respiração de Italia nos braços e aperceber-me de que qualquer outro ruído se tinha apagado. Sou médico, sei reconhecer as pulsações do meu coração sempre, mesmo quando não quero. Juro-te, Angela, era de Italia o coração que batia dentro de mim.” (pág. 104)

Sinopse

Não te movas é a história de muitas histórias de amor, um romance pungente, cheio de ritmo e suspense em que as palavras penetram fundo na alma dos protagonistas, arrastando o leitor da primeira à última página. Uma obra inesquecível que apresenta Margaret Mazzantini ao leitor português.

Mar de mañana, de Margaret Mazzantini

Terça-feira, 10 de fevereiro de 2015





RELEITURA

Sinopsis
Jamila tiene apenas veinte años y ya es viuda y madre. Su hijo Farid ha crecido rodeado del polvo rojo del desierto y nunca ha visto el mar. La guerra arrasa su país, Libia, y Jamila sueña con buscar refugio en Italia. Así, emprende con Farid un viaje en barcaza, prometiéndole que durará menos que una canción de cuna.
Desde la otra orilla, Angelina ve los navíos procedentes de Trípoli llegar a puerto. Hace cuarenta años emprendió el mismo viaje y ahora rememora la imagen del temible Gadafi, los amigos árabes que la recibieron y a Alí, su promesa de amor.
Los caminos de Angelina y Jamila nunca se cruzarán, pero ambas tejen distintas tramas de una misma historia.

Opinião
Li algures que Mazzantini vomita lirismo e não podia estar mais de acordo. Esta autora italiana é, sem dúvida alguma, uma das minhas favoritas e nunca consigo resistir a ler e a reler as suas obras. A prova do QUANTO eu sou viciada no que edita (e sou mesmo, mas mesmo viciada) é que já reli as três obras dela que moram na minha estante.
Li pela primeira vez Mar de mañana o ano passado (no início de março) e simplesmente não resisti a lê-lo outra vez, tão presa me sinto ao estilo de Mazzantini, ao quanto as suas histórias nos transmitem de lirismo, beleza, imagens densamente carregadas de sentimentos, sensações e da complexidade do que nos define como seres humanos.
Tal como nas suas outras obras (Vir ao mundo e Não te movas), a maternidade/paternidade é um dos temas principais. As protagonistas são duas mulheres, de idades distintas, que vivem nas margens opostas do Mar Mediterrâneo, mas que têm em comum o amor pelo seu filho único e por um país, uma pátria que lhes foi arrancada – Líbia – pelas atrocidades de uma guerra que não parece terminar e que tem como líder o ditador Kadafi. São duas mulheres de personalidade forte (como qualquer personagem feminina que habita as obras de Mazzantini), que conhecem bem de mais as adversidades da vida, mas que não vergam perante as mesmas. De maneira nenhuma.
Jamila é uma doçura de mãe-menina. Com apenas vinte anos, perde um dos homens da sua vida e tem que encontrar forças e ânimo para continuar a velar e a proteger o outro homem da sua vida – o pequeno Farid, que olha para a sua progenitora e vê nela muitas vezes uma irmã ou uma namorada, tal é a cumplicidade que os une e a curta diferença de idades que os separa.
Angelina aprendeu desde muito nova a não confiar na vida e nos outros, a depender de si mesma para sobreviver, pois a sua existência, desde que teve que deixar para trás a sua infância numa Trípoli que não tinha mais lugar para os italianos, não tem sido mais do que uma sobrevivência, um dia atrás do outro sempre lutando por um lugar num país que é apenas seu nos documentos de identificação.
Entre estas duas mulheres cujas vidas, tal como nos é dito na sinopse, nunca se cruzarão, encontra-se um mar que é visto ou como a única hipótese de salvação ou como um obstáculo intransponível entre uma época de felicidade, inocência, amor, vida e um presente estagnado, nublado e que não oferece perspetivas de futuro. Mas é também um mar que permite a Angelina e ao seu filho Vito um escape, horas e horas nadando contra as suas correntes, que culminam num esgotamento físico que conduz ao esquecimento, ao pôr de lado tudo o que os angustia.
As 129 páginas (tão pouquinhas L e com uma letra gordinha) desta obra oferecem-nos assim um retrato de vidas atormentadas e desfeitas, por um lado pelo poder aniquilador de uma guerra incompreensível (como todas, ao fim e ao cabo) e por outro o quanto uma existência feliz, serena pode ser arrasada por uma onda, que nos pode devolver à margem, à praia, ou que pode levar-nos consigo. De uma maneira ou de outra, nunca nada mais será igual. Se sobrevivermos, seremos apenas isso – sobreviventes. Aprenderemos a suportar o dia-a-dia mas, ao mesmo tempo, a esperar por algo, um momento, que nos faça parar de sentir estrangeiros dentro do nosso país. Dentro da nossa vida.
Não tenho muito mais para acrescentar. Apenas que tenho muita pena que as editoras portuguesas tenham deixado de publicar as obras desta magistral autora e que tenha que recorrer às editoras de “nuestros hermanos” para conseguir continuar a saborear os romances dela. Foi exatamente isso que fiz na última visita às livrarias de Vigo. Saí de lá com a minha gula saciada – um dos livros que “me compré” foi Nadie se salva solo, obviamente da autoria da minha querida Mazzantini!

Por último um apelo – se não conhecem esta autora, não hesitem em ler qualquer uma das suas obras – não se arrependerão!

NOTA – 9/10 (apenas porque é uma obra pequenina e porque queria mais…)

Vir ao mundo, de Margaret Mazzantini

Segunda-feira, 23 de julho de 2012




Sinopse
Gemma deixa para trás a sua vida e entra num avião com o filho de dezasseis anos, Pietro. Destino: Sarajevo, uma cidade entre o Ocidente e o Oriente, ainda cicatrizada pelas feridas de um passado recente. À sua espera no aeroporto está Gojko, um poeta bósnio, velho amigo, que durante os dias festivos das Olimpíadas de Inverno de 1984 apresentou Gemma ao amor da sua vida, Diego, um fotógrafo que captava cenas de beleza estonteante nos reflexos de poças de água. 
Este romance conta a história do seu amor, de dois jovens em tempos frenéticos e envelhecidos pela guerra. Uma história de amor tão apaixonada e imperfeita como apenas o amor verdadeiro pode ser, num ambiente contemporâneo e devastador do mundo em guerra e em paz.

Demorei quase um mês a ler Vir ao Mundo, não porque não tivesse tempo disponível, mas porque quis realmente saborear MUITO bem cada página deste livro tão comovedor, tão belo, tão triste, mas TÃO delicioso!!! Contive-me imenso (eu que possuo uma velocidade considerável de leitura) para poder conhecer o livro com calma, afagá-lo, cheirá-lo e, sobretudo, para apreciar com todo o meu ser a LINDÍSSIMA e TRÁGICA história de Gemma e Diego e conhecer um pouco melhor os pormenores que estiveram na origem da atroz Guerra que assolou e dividiu a Jugoslávia…
No meu ponto de vista, este segundo romance que leio da fabulosa, mas infelizmente pouco conhecida (pelo menos em Portugal) Mazzantini é, até ao momento, o melhor que li este ano e muito possivelmente um dos romances da minha vida! Contudo, sinto que não consigo encontrar as palavras necessárias e adequadas para expressar por escrito o quanto me impressionou e tocou este inesquecível livro! Para tal, deve contribuir, sem dúvida, os oito anos que a autora dedicou da sua vida a escrever Vir ao Mundo, uma obra que compreendemos ter sido escrita com muito detalhe, muita atenção, muita dedicação e onde há amor, paixão, aventura, retrato de uma época e de espaços e um verdadeiro amor à escrita! O livro está recheado de passagens que nos fazem parar a leitura, pensar no lido naquele momento, suspirar e inclusive deixar-nos com a respiração em suspenso!...

A narrativa tem o seu início com uma chamada telefónica, na qual é comunicado a Gemma que será inaugurada, em Sarajevo, uma exposição de fotos de Diego, o amor da sua vida e pai do seu filho. A partir daí desenrolar-se-á uma narrativa que nos remete para o presente, mas sobretudo para o passado, para o enfrentar dos fantasmas desse tempo e recordar a sua passagem por uma Sarajevo que ficará sempre presente na sua vida. A viagem que faz com o seu filho Pietro será também a oportunidade para que este conheça finalmente o local onde nasceu e talvez comece a dar valor à vida, ao que tem e deixe de a viver com a indiferença e despreocupação típica dos adolescentes. Será finalmente o momento ideal para que esta mãe se sinta ainda mais ligada a um filho que quis ter, a todo custo, do homem que mais amava na vida e que o conseguiu pagando um preço muito alto…


Por tudo o que foi dito e pelo muito que fica por dizer – a forma magistral como nos são, por exemplo, descritos os espaços nos quais se desenvolve a narrativa, a lenta agonia de Sarajevo e dos seus habitantes durante o sangrento e atroz conflito bélico e as personagens secundárias que pululam a trama – eu recomendo, ou melhor, eu rogo encarecidamente a todos que leiam esta obra de Mazzantini, porque seguramente que não se arrependerão!!!