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Deixarás a Terra, de Renato Cisneros



Ficha técnica
TítuloDeixarás a Terra
Autor – Renato Cisneros
Editora – Planeta
Páginas – 280
Datas de leitura – de 10 a 16 de fevereiro de 2019

  Opinião
         Entre o final de 2018 e o princípio de 2019, deambulando pelo Youtube, descobri uma booktuber mexicana (El librero de Valentina) e fiquei rendida ao seu entusiasmo, à sua vivacidade e ao amor que transpira pelos livros. O primeiro vídeo que vi seu foi, por casualidade, aquele onde ela partilhava com os seus subscritores as melhores leituras do ano que estava ou havia terminado há pouquinho tempo. Vários livros me chamaram a atenção, mas houve um escritor peruano que se destacou e que vim a saber estar traduzido no nosso país. Falo-vos, como é óbvio, de Renato Cisneros que é autor de La distancia que nos separa e deste livro que terminei de ler há dias.
         Quando me dei conta de que a editora Planeta tinha publicado, em dezembro de 2017, Deixarás a Terra, decidi arriscar e enviei-lhes um e-mail a pedir um exemplar da obra. Fiquei muito feliz quando eles acederam ao meu pedido e planeei ler muito em breve a história que envolve um segredo que selou durante duzentos anos o mistério de uma família.
         Recebi o livro em meados de janeiro e um mês depois li-o. Da correspondente leitura tenho que dizer, em primeiro lugar, que pouco ou nada sabia da trama, a não ser que a mesmo se iria espraiar até ao passado e que abordaria a história de uma família e um segredo que poderia (ou não) ditar essa mesma história. Gosto muito de entrar às cegas nas narrativas e com esta não foi exceção.
         A trama está dividida em três partes e vai saltitando do presente para vários momentos do passado que vão chegando até nós cronologicamente. Recuamos até 1828 e de imediato entendemos qual o segredo que “mancha” o destino da família Cisneros. Nos saltos que vamos dando ao presente percebemos que o recuo nos leva até aos tetravós do narrador e que este pretende finalizar aquilo que o seu tio Gustavo começou – pôr a nu esse mesmo segredo e o quanto ele moldou, influenciou, aprisionou e embotou as ações e carácter de todas as gerações seguintes.
         Confesso-vos que a primeira parte da obra estava a ser agradável, mas não mais do que isso. Foi necessário chegar mais perto do presente, sair da anos iniciais do século XIX, entrar na parte dois da narrativa para sentir o meu entusiasmo a crescer e para perguntar-me algo que, até ao momento, não me tinha passado pela cabeça – será que esta família Cisneros tem alguma coisa a ver com o autor, Renato Cisneros? E será que estas pessoas, estas personagens masculinas existiram na realidade ou o autor está a inventar uma família que, por coincidência, tem o mesmo apelido que ele? Fiz estas mesmas perguntas ao “tio” Google e, para meu espanto, as respostas foram afirmativas.
         Ora, perante isto, entendem que a minha perspetiva de leitura mudou, teve que mudar, pois estava a ler a obra como se ela fosse inteiramente de ficção e, ao dar-me conta de que ela é, apesar de romanceada (creio eu), não-ficção, a abordagem teria que ser diferente. Para além disso, à medida que nos aproximávamos do presente, as histórias, as vidas dos antepassados de Renato Cisneros foram tornando-se mais empolgantes e as alternâncias com o presente muito mais complexas, com o narrador a abrir-se mais e a explicar-nos no fundo o porquê de ter decidido partilhar com o mundo os segredos e o lado menos bonito de uma família que sempre esteve associada à História do Peru como país independente, às suas relações diplomáticas e sobretudo às suas letras e literatura.
         Renato Cisneros quis saber quem ele é de verdade, de que forma o peso do passado, dos segredos familiares, de um apelido ilustre moldam alguém e essa demanda foi aquilo que mais me prendeu e agradou nesta leitura. “Acabou-se o mistério”; “Invadiu-me então um sentimento estéril. De triunfo e derrota simultâneos.”; “(…) senti ou soube que aquela seria a última fronteira que teria que transpor em muito tempo.” (págs. 275, 276)
         Não sou a leitora mais adequada ou mais habilitada para livros de não-ficção simplesmente porque não são os meus preferidos e porque não os leio com muita frequência. Porém, gostei muito de ler este livro, gostei muito de percorrer alguns espaços do Peru, de saber mais sobre a sua História, de conhecer algumas das suas personalidades influentes e sobretudo de passagens onde o autor/narrador expõe aquilo que o levou a escrever este livro e a querer conhecer-se através dos seus. Assim sendo tenho que recomendar este livro aos amantes do género e àqueles que, como eu, sentem aquele lado do mundo – América Latina – como um espaço que nos toca de forma especial. Não se vão arrepender se derem uma oportunidade a esta obra e poderão apreciá-la ainda mais do que eu.
         Termino agradecendo – e muito – à editora Planeta que gentilmente me enviou a obra em troca de uma opinião sincera.

         NOTA – 09/10

         Sinopse
         Um silêncio antigo selou durante 200 anos, o mistério de uma família muito semelhante às tragédias e ambições do Peru. Este romance recorda-nos que as famílias estão feitas de tudo o que escondem e que só uma prosa capaz de atravessar o visível e o soterrado pode rastear o caudal a que chamamos identidade. «As nossas famílias, como em qualquer sociedade conservadora e tradicional, querem calar certos assuntos que não convém trazer à luz e fi-lo [este livro] através de um romance como forma de não pôr em evidência a família, mas de pôr em evidência todas as famílias.»

Livros novos + outros regalitos - Janeiro de 2019


Olá! Partilho convosco e em vídeo quais foram os livros novos que chegaram às estantes em Janeiro, mês de aniversários dos dois adultos cá de casa. No total, são 10 os novos habitantes, 6 dos quais foram prendinhas, 3 foram comprados e um foi o resultado de mais uma colaboração conseguida com a editora Planeta, a quem volto a a agradecer a gentileza de terem respondido, com muita rapidez, ao meu pedido.
No vídeo vêem também o quão feliz fiquei com outros regalitos que nos ofereceram aqueles que nos querem bem. Irão perceber ainda por que razão eu sou a mãe mais babada deste mundo 💗💗💗
Espreitem e comentem! Ficarei encantada com os vossos comentários, como sempre!
Até já!


Então, boa noite, de Mário Zambujal



Ficha técnica
TítuloEntão, boa noite
Autor – Mário Zambujal
Editora – Clube do Autor
Páginas – 150
Datas de leitura – de 08 a 09 de janeiro de 2019

Opinião
         Digo-vos que há já algum tempo que queria ler alguma obra de Mário Zambujal. É um autor sobejamente conhecido e “rodado” na nossa literatura, mas nunca havia sentido vontade de experimentá-lo. Tudo isso mudou quando comecei a seguir o canal de uma menina, muito mais novinha do que eu, (sim, estou a falar do canal da Vanessa – The bookish deer) e a deliciar-me com as opiniões que ela ia tecendo sobre o quão maravilhoso havia sido descobrir Mário Zambujal.
         Por tudo isso, assim que me dei conta de que o autor havia lançado, em novembro do ano passado, a sua mais recente obra, entrei em contacto com a editora Clube do Autor e pedi-lhes que ma solicitassem para leitura e correspondente opinião. Agradeço, desde já, a rápida resposta que me deram, pois, passados poucos dias, a obra Então, boa noite morava nas minhas estantes.
         Da minha parte, não houve, e peço desculpa por isso, uma leitura tão célere como normalmente faço quando faço pedidos às editoras. Mas redimi-me dessa falta em janeiro, lendo-o em pouco mais de vinte e quatro horas. Dessa leitura rápida, rápida, destaca-se uma palavra que não me sai da memória sempre que penso na trama e sobretudo no protagonista – lábia.
         Afonso Júlio é um sedutor nato, com características algo “baratas” e muita, muita lábia. E eu tenho que confessar que caí na lábia dele e fui lendo com um sorriso nos lábios as suas peripécias, os seus desarranjos amorosos, perdoando-lhe a sua suposta valentia e fazendo força para que ele conseguisse o seu final feliz. Não me incomodou, como poderá incomodar a algumas leitoras, essa lábia e todos os truques e malabarismos que faz com as suas conquistas femininas, não senti a minha feminilidade ofendida e compreendi, creio eu, aquilo que agrada e atrai do estilo de Mário Zambujal a outros e outras leitoras, como a Vanessa. Gostei do seu humor, da sua boa disposição com uma pitada de ironia e acima de tudo da forma como brinca com as palavras para, a partir delas, espalhar sedução e charme.
         Foi, no cômputo geral, uma leitura agradável que pecou, no entanto, pelo seu final, que considero forçado, previsível e que manchou uma experiência que, até às suas páginas finais, estava a ser divertida e bem-disposta. Achei que o desenlace que o autor deu às peripécias e “demandas” de Afonso Júlio poderia ter sido melhor, mais original e mais adequado a tudo aquilo que me manteve agarrada à trama e desejosa de saber que reviravoltas e estratagemas mais iria usar o protagonista para levar a bom porto um pedido de um familiar falecido e para simultaneamente dar um rumo à sua vida de sedutor inveterado.
         Para finalizar, quero agradecer, uma vez mais, à editora o envio da obra, dizer que gostei deste primeiro contacto com as letras de Mário Zambujal e que não ponho de parte a ideia de ler mais obras suas.
         E vocês, já leram Mário Zambujal? Recomendam-me algum dos seus títulos?
             
          NOTA – 07/10

         Deixo-vos ainda o vídeo de opinião – sobre esta mesma obra – que mora no canal de O sabor dos meus livros. No mesmo poderão também ouvir a opinião acerca de outra obra que li em janeiro – Os da minha rua, de Ondjaki.



        Sinopse

         "Gostei de muitas mulheres mas de nenhuma o suficiente para ser a última."
Fiel ao registo a que já habituou os seus leitores, Mário Zambujal regressa às livrarias nacionais com mais um romance pleno de humor e peripécias, aventuras protagonizadas por um sedutor que só consegue estar acordado durante a noite. Além dos inconvenientes de tal desordem, a vida deste rapaz vê-se ainda mais complicada quando inesperadamente recebe uma herança especial.
Então, Boa Noite relata as aventuras de Afonso Júlio, quase sempre fora de horas, na tentativa de cumprir o último desejo do seu padrinho: encontrar uma mulher, de quem só sabe o nome, e casar-se com ela. Nada impossível, pensarão alguns, mas Afonso Júlio vive com uma mulher e, como se isso fosse pouco, está enamorado por outra mulher. O que lhe vale é o destino.
"Cumpre-me respeitar a sua vontade (...) Pena que não me tivesse fornecido um único contacto para chegar à fala com essa menina. (...) Penosa investigação me espera mas sossegue, padrinho Josué, hei-de enfiar uma aliança no dedinho da Renata Jacinta. Embora pensando noutra."


Chama-me pelo teu nome, de André Aciman



Ficha técnica
TítuloChama-me pelo teu nome
Autor – André Aciman
Editora – Clube do Autor
Páginas – 284
Datas de leitura – 16 a 20 de julho de 2018

Opinião
Este livro chegou cá a casa em junho, mais uma vez consequência da gentileza da Berta, do Clube do Autor. Tinha planeado lê-lo brevemente, mas, na minha lufa-lufa de “despachar” leituras por ordem cronológica de entrada, nem sequer pus a hipótese de inseri-lo na maratona literária que tem ocupado os meus dias “literários” desde o início do verão. Porém, por culpa do Booktube, de uma leitura conjunta que fizeram três booktubers que sigo e dos correspondentes vídeos de opinião (a que se juntou uma “live”), não consegui esperar mais, saquei a obra do cantinho da estante dos “por ler” e obriguei-a a fazer-me companhia durante 5 dias.

“… e queria que eu soubesse que ele era mais eu do que alguma vez eu fora, porque, quando ele se tornava eu, e eu me tornava ele, todos aqueles anos antes, ele era, e seria para sempre, muito depois de todas as encruzilhadas da vida, o meu irmão, o meu amigo, o meu pai, o meu filho, o meu marido, o meu amante, eu mesmo. Nas semanas que passámos juntos naquele verão, as nossas vidas mal se tocaram, mas atravessámos para a outra margem, onde o tempo para, o paraíso desce à terra e nos oferece a porção que é nosso direito divino desde o nascimento. Olhámos para o outro lado. Falámos de tudo, mas. Mas sempre soubemos, e não dizer nada, agora, só confirmava que sabíamos. Descobrimos as estrelas, tu e eu. E isso só nos é proporcionado uma vez na vida.” (pág. 278)

Estamos na década de 80. Como acontece em todos os verões, os pais de Elio recebe um jovem académico na sua casa de férias localizada à beira-mar de uma localidade italiana. Desta vez, esse jovem é Oliver, norte-americano, de 24 anos e que vai agitar a suave rotina daqueles dias estivais com a sua boa-disposição, o seu à-vontade e alguma sobranceria. Contudo, o efeito que a chegada deste hóspede produz em Elio é abalroador e fará com que o jovem de 17 anos descubra o desejo intenso, animal e lhe apeteça, com um apetite visceral, que não o deixa pensar em mais nada, conhecer, tocar e penetrar o corpo daquele homem que o tenta desde que pôs os pés em sua casa.
A obra está dividida em quatro partes e uma segue a outra num crescendo que me fez não querer largá-la enquanto não a acabasse. Confesso que a primeira parte foi a que menos gostei, mas compreendo a sua existência e a sua pertinência. É nela que entramos nos pensamentos, gostos e prazeres de Elio, é nela que entendemos o quanto este miúdo é diferente dos demais da sua idade, sobretudo por causa dos seus gostos literários e musicais, que fazem dele alguém com quem se pode falar e discutir praticamente sobre tudo relacionado com as duas artes. Mas é também nessa primeira parte (as outras – a segunda e a terceira – corroborá-lo-ão) que nos enterneceremos e sorriremos perante as inseguranças de Elio, a intensidade dos seus sentimentos e a sensação de premência em ter o que quer, tão típicas da adolescência/juventude de todos nós. A primeira parte é ainda uma porta que se vai abrindo e permitindo que o leitor vislumbre o que irá desenrolar-se nas partes que se lhe seguem e que se resume a isto – serão ou não os desejos de Elio satisfeitos? E qual será a sua reação face a essa realização (ou não) daquilo que o atormenta e que não o deixa pensar ou respirar mais nada?
Deixando o resumo da obra por aqui, para que não desvende mais do que pretendo desvendar, regresso ao que mencionei no parágrafo inicial desta opinião e digo, sem qualquer espécie de dúvida, que as expectativas que levava comigo, quando retirei a obra da estante, não foram defraudadas e que esta leitura está nas melhores deste ano. Sabia de antemão que a reação de outros leitores à mesma não era consensual (houve quem a tivesse adorado e quem nem sequer a tivesse terminado), e entendo-a perfeitamente, pois o tema pode ser constrangedor e as descrições de alguns atos são muito cruas e gráficas. Contudo, nada disso poderia nunca manchar uma experiência avassaladora como acabou por ser aquela que a obra me ofereceu, já que estamos perante uma lindíssima, única e mágica história de amor que me prendeu do início ao fim, que me fez sofrer, sorrir, recordar e chorar. Sim, chorar compulsivamente, como já não chorava há tempos. Chorar com passagens magistralmente bem conseguidas como aquela que aqui transcrevi e que, na minha opinião, capta na perfeição tudo o que deve ficar connosco após o término da leitura – uma história de um amor mais do que completo, que extravasa a parte física e a união de dois seres e que todos nós queremos sentir ou possuir uma vez na vida. Não faço tenção de explicar aquilo que, para mim, está por detrás do título da obra, mas abro ligeiramente o pano e sussurro que é mais um exemplo dessa completude de um amor que “só nos é proporcionado uma vez na vida”.
É com um pequenino aperto no coração que devolvo a obra à estante, porque tenho uma plena e fria consciência de que aquilo que ela me deu é raro e que afetará as leituras que se lhe seguirão. Não é fácil a busca pelo que é especial e mágico, mas também não é fácil (nem justo) desligarmo-nos da felicidade que sentimos quando essa busca finalmente atinge o seu propósito e temos que seguir caminho.
É mais do que óbvio que recomendo encarecidamente que leia esta obra, mas que apenas o faça quem se sente preparada para ela. Tenciono ver a correspondente adaptação cinematográfica que ganhou inclusive o Óscar de melhor argumento adaptado e comprovar aquilo que já li/ouvi várias vezes – que, ao contrário do que é habitual, se deve ver primeiro o filme e só depois ler o livro. Já não seguirei esse conselho, mas estou muitíssimo curiosa por ver o filme e comprovar se ele é tão bom como o livro.
Termino agradecendo novamente à editora Clube do Autor o generoso envio da obra.

Esta foi a sexta leitura que fiz para a maratona literária – Bookbingo – Leituras ao sol 2. Não era a obra que inicialmente tinha previsto para a categoria – Livro que se passe no verão – mas a urgência em lê-la tratou de me fazer trocar as voltas à lista.

NOTA – 10/10

Sinopse
Chama-me pelo Teu Nome é um romance arrebatador sobre o desejo e a experiência da atração. Uma das grandes histórias de amor do nosso tempo, narrada de forma inteligente e imprevisível.
Na idílica Riviera italiana nasce um romance intenso entre um rapaz de dezassete anos e o convidado dos pais, um estudante universitário que irá passar com eles umas semanas no verão.
Divididos entre o receio das consequências e o fascínio que não conseguem esconder, avançam e recuam movidos pela curiosidade, o desejo, a obsessão e o medo, até se deixarem levar por uma paixão arrebatadora e descobrirem uma intimidade rara que temem nunca mais encontrar.

Elmet, de Fiona Mozley



Ficha técnica
TítuloElmet
Autora – Fiona Mozley
Editora – Clube do Autor
Páginas – 286
Datas de leitura – 01 a 04 de junho de 2018

Opinião
A primeira coisa que me apetece dizer é que Elmet é um livro estranho, enigmático. Durante toda a leitura tive que constantemente recordar-me de que a sua trama ocorre num passado muito recente e não há séculos atrás, pois as paisagens, o ambiente, os costumes e o modo de vida dos protagonistas parecem sair de um romance dos séculos XVIII ou XIX. Outro paralelismo que se me ocorreu prendeu-se com o facto de que tudo o que mencionei, ou seja, tudo o que compõe a narrativa parecer igualmente sair de uma fábula ou de um conto de fadas, com uma clara e preponderante dicotomia entre o bem e o mal e uma família de três protagonistas unida contra o mundo.
Us against the world – John, Cathy e Daniel são respetivamente pai e filhos e desde muito cedo que aprenderam a depender apenas uns dos outros. John é um homenzarrão, a quem ninguém consegue vencer numa luta física. Ganha o seu sustento com os punhos e, após a morte da avó materna dos seus filhos, decide construir uma casa num bosque que está num terreno que supostamente teria pertencido à sua mulher. Com a ajuda dos seus filhos adolescentes, pouco a pouco, tronco a tronco, vai erguendo as paredes da cabana que será o lar dos três, um lar que permitirá a John distanciar-se de um mundo que já não lhe diz nada e continuar a estreitar os laços que umbilicalmente o une ao que de mais precioso tem na vida – os seus filhos.
A relação entre John Cathy e Daniel é ao mesmo tempo estranha e mágica. Não falam muito entre si, mas as palavras são supérfluas quando existem um laço (a bound – uma das palavras de que mais gosto da língua inglesa) tão visceral entre os três. Poucas páginas depois de ter iniciado a leitura, compreendi algo que o resto da obra apenas veio confirmar – a rotina dos três estava matematicamente pré-estabelecida, cada um sabia ao mínimo pormenor o que teria de fazer e sobretudo o quanto os outros estariam ali para o que fosse preciso. Apesar do seu aspecto intimidante e sorumbático, John consegue, com raros gestos e ainda mais raras palavras, passar para o leitor o quanto ama os filhos e o quanto está disposto a fazer para protegê-los. Cathy é uma esquiva “gata selvagem”, uma autêntica maria-rapaz, sem noção da beleza que vai tomando conta dela à medida que cresce e com uma adoração ilimitada pelo pai. Já Daniel é mais frágil, mais inseguro, esquivo e simultaneamente carente. Juntos, os três compõem a parte mais bela, mágica, triste e dorida da obra e aquela que ficará comigo por muito tempo.
Poderia adiantar um pouco mais sobre a trama, mas prefiro não fazê-lo. Refiro apenas que a mesma se divide em partes escritas em letras diferentes, narradas em primeira pessoa por Daniel e que uma delas se passa num tempo posterior ao da outra e nos vai dando dicas do que poderá ter acontecido à família. Essa parte associada às prolepses coloca a semente da curiosidade e angústia no leitor ao mesmo tempo que o faz conhecer melhor Daniel e o seu apego àquilo que comanda os seus atos e a sua vida. Também confirma aquilo que se suspeita (pelo menos eu suspeitei) desde o início sobre o filho de John, mas, na minha opinião, é a única passagem desnecessária da obra, aquela que a autora poderia perfeitamente ter deixado na gaveta.
Não posso terminar esta opinião sem fazer referência ao título da obra e ao quanto este vai ao encontro da sensação que mencionei no início, isto é, de que, propositadamente ou não, Fiona Mozley escreveu o seu romance de estreia ambientado no presente/passado muito recente, mas utilizando uma panóplia de elementos que me fizeram recordar romances de séculos passados e inclusive fábulas e contos de fada. Elmet, segundo uma citação que abre a obra, foi o último reino celta independente em Inglaterra e, no século XVII, o território que lhe correspondia continuava a ser considerado as badlands, um refúgio para quem vivia à margem da lei. Ora, uma informação que, mal pegamos no livro, nos pode passar despercebida, encaixa direitinho, milimetricamente com tudo o que lemos ao longo da obra e com o seu teor, o seu tom e, por que não, com o estilo que denota muita maturidade da autora.
Creio que, por tudo o que fui dizendo, é evidente que esta leitura não é simples, nem muito menos corriqueira. É, como já afirmei, estranha, enigmática (a capa não engana e assim o confirma), poderá não ser para todo o género de leitor e poderá deixar-vos, como me deixou a mim, “coxos”, incompletos e incrédulos. Porém, é merecedora da vossa atenção e, sem dúvida, merecedora de estar entre os finalistas do Man Booker Prize. Arrisquem e digam depois se valeu a pena tomar esse risco.

Agradeço muito à editora Clube do Autor o envio desta obra em troca de uma opinião sincera.

NOTA – 09/10

Sinopse
Daniel está a ir para Norte e procura alguém. A vida simples que levava com a irmã Cathy e o pai desapareceu; tornou-se ameaçadora e sinistra. Viviam os três à margem da sociedade, numa casa que o pai construíra no bosque, caçando e procurando comida. O pai dissera-lhes que a pequena casa em Elmet era deles, mas afinal isso não era verdade. E alguns homens daquela terra, gananciosos e vorazes, começaram a vigiá-los de perto.
Esta é uma história sobre família, amor e violência; uma análise dura e implacável à sociedade contemporânea, ao indivíduo e à realidade, aos conceitos de classe e às discrepâncias entre quem somos e quem somos capazes de ser.

Deixa-me odiar-te, de Anna Premoli



Ficha técnica
TítuloDeixa-me odiar-te
Autora – Anna Premoli
Editora – Noites Brancas, uma marca do Clube do Autor
Páginas – 310
Datas de leitura – 29 de abril a 01 de maio de 2018

Opinião
Há uns tempos atrás descobri finalmente o que significa chicklit. Pois é, shame on me, que não fazia ideia do que queria dizer esse termo “estrangeiiiro” e a que tipo de leituras se referia, mas, após algumas visitas muito instrutivas a canais do Booktube que, hoje em dia, vou seguindo com regularidade, fui capaz de compreender que a obra que o Clube do Autor gentilmente me ofereceu há uns dois meses encaixava na perfeição nessa categoria.
Quem me conhece e me segue neste cantinho, sabe que este género de leituras não é aquele que mais recorro. Pondo preconceitos de lado, porque não é deles que se trata – defendo acerrimamente que cada um deve ler aquilo que lhe proporcione mais prazer – costumo dar pouca atenção a narrativas mais leves e descontraídas e preferir aquelas habitadas por personagens, situações e sentimentos densos, complexos e que me magoam e me arrebatam. Porém, não digo que não a uma leitura descontraída, sobretudo em momentos em que, ou ando mais cansada ou quero fazer uma pausa nas referidas leituras “difíceis e pesadas”.
Após um mês quase ele todo dedicadinho a temáticas relacionadas com conflitos armados, quis entrar em maio com um sorriso nos lábios, relaxada e prontinha para seguir o jogo “do rato e do gato” de dois jovens que, trabalhando juntos há bastantes anos, não conseguem estar no mesmo espaço sem discussões, acusações e comentários maldosos. Jennifer e Ian ocupam posições de destaque num banco e, depois de anos do referido confronto aberto e declarado, veem-se obrigados a trabalhar em conjunto. Esse será o ponto de partida para uma narrativa muito divertida, que me obrigou a não largar a obra até chegar à sua página final.
Não estou a cometer nenhum crime nem a ser preconceituosa quando afirmo que Deixa-me odiar-te está cheiinha de clichés. Não se pode esperar outra coisa de uma comédia romântica ou, como agora já sei, de um chicklit. Mas caramba, eu, uma leitora assumidamente “mais séria” e “mais exigente”, embarquei sem dificuldade nenhuma (pelo contrário, com doses generosas de vontade) nesse mundo de clichés e adorei a experiência. Gostei tanto, mas tanto que até já trouxe da biblioteca da terrinha outro exemplar de chicklit. Não é da mesma autora, mas espero que encha as medidas como o fez o de Anna Premoli.
Não me vou alongar muito mais. Não vos vou contar muito mais da narrativa de Deixa-me odiar-te. O título, o género a que pertence a obra e a própria sinopse tratam disso. Acrescento apenas aquilo que é visível no que já escrevi – gostei mesmo muito da leitura e quero mais! Por isso, de vez em quando, no meio de opiniões de obras densas, dolorosas, históricas e complexas irão encontrar por aqui algo mais levezinho, descontraído, muito cliché, mas muito bom para o meu estado de espírito!
Termino recomendando (e muito) esta obra a quem queira relaxar e desfrutar de uma narrativa compulsiva e divertida e agradecendo o envio da mesma à editora Clube do Autor.

NOTA – 09/10

Sinopse
Jennifer e Ian conhecem-se há sete anos e nos últimos cinco só têm discutido. Chefes de duas equipas no mesmo banco, entre eles sempre houve um confronto aberto e declarado. Detestam-se e dificultam a vida um ao outro. Até que um dia são obrigados a cooperar na gestão da conta de um cliente aristocrata e abastado.
Na vida e no amor há sempre uma segunda oportunidade?
Um romance moderno, divertido e terno, uma história atual e muito cinematográfica com todos os ingredientes de uma bela comédia romântica. 

A herdeira dos olhos tristes, de Karen Swan



Ficha técnica
TítuloA herdeira dos olhos tristes
Autora – Karen Swan
Editora – Clube do Autor
Páginas – 460
Datas de leitura – de 15 a 18 de março de 2018

Opinião
Em quatro dias engoli e devorei esta obra que me foi gentilmente oferecida pela editora Clube do Autor. Numa altura em que o trabalho domina os meus dias e quase não me deixa respirar, é extremamente saboroso aproveitar as migalhinhas de tempo que me sobram para mergulhar numa leitura fácil, que nos prende e que nos obriga a “papá-la” com sofreguidão. Foi o que aconteceu com este romance de Karen Swan, uma autora que até agora desconhecia.
A narrativa, partida entre presente e passado e entre duas protagonistas de idades muito diferentes, entrelaça tão bem tempos e as histórias das duas mulheres que, sem que me desse conta, me levou a ler páginas atrás de páginas, absorvida nas vidas de Cesca e Elena e desejosa de saber que segredos escondiam, que reviravoltas o presente lhes reservava e sobretudo qual o verdeiro motivo que havia levado Elena a contratar Cesca para que esta escrevesse as suas memórias de menina milionária e de mulher detentora de um título aristocrático.
A ação centra-se, como é óbvio, nestas duas mulheres e nas suas vidas tão díspares. As duas conhecem-se em Roma, cidade milenar e carregada de perfumes fortes e inesquecíveis. Cesca é uma jovem inglesa que decidiu refugiar-se na capital italiana após ter deixado para trás uma vida de advogada de sucesso. Vive a poucos metros do palácio sumptuoso de Elena Damiani e o acaso permite que as duas travem conhecimento e uma acabe trabalhando para a outra. Enquanto Cesca se debruça sobre uma pilha interminável de fotos que retratam a vida de Elena, nós, leitores, vamos saltitando do presente para o passado e percebendo que há muito mais por detrás da vida glamorosa de Elena do que as referidas fotos contam. Vamos percebendo igualmente que há algo no passado de Cesca que não lhe permite relaxar e viver a vida que tem pela frente. Tudo isto nos chega através de uma narrativa fresca, cativante e com todos os ingredientes para querermos devorar o mais rápido possível os seus capítulos curtinhos e bem enredados entre si.
Admito que esta obra nada tem de espetacular nem é dona de nenhuma fórmula inovadora. Mas isso não é motivo para que a não recomende, sobretudo àqueles que queiram mergulhar numa leitura mais leve, entusiasmante e que lhes sairá das mãos em pouco tempo, tal será a vontade de avançarem na sua narrativa e chegarem ao seu desenlace satisfeitos e saciados. Por isso, se andarem à procura de uma leitura deste género, arrisquem com este romance, pois as vossas expectativas não sairão defraudadas.
Termino fazendo referência à única coisa que verdadeiramente me desagradou. Falo da tradução e/ou adaptação do título ao português, pois acho um disparate completo darem o título de Herdeira dos olhos tristes a uma obra protagonizada por alguém como Elena. É certo que ela não teve uma vida fácil, mas herdou um título e uma vida aristocráticas que não se podem reduzir e caracterizar como apenas “tristes”. Elena é uma personagem complexa, contraditória e que não ganha facilmente a simpatia da parte dos leitores. Viveu uma existência pautada por desamores, alguma violência e perdas, mas conseguiu sempre superar tudo isso, muitas vezes de formas pouco ortodoxas e corretas. Como tal, considero que é muito redutor aquilo que se retira do título e que este não espelha nem se ajusta àquilo que que foi e é Elena Damiani. Mas, e digo-o com alguma frustração, este não é nem será o último exemplo de um título traduzido/adaptado de forma completamente despropositada.
Agradeço, uma vez mais, à editora Clube do Autor que me enviou esta obra em troca de uma opinião sincera.

NOTA – 08/10

Sinopse
1974. Elena Damiani é uma herdeira rica e bela, com tudo para ser feliz. Contudo, aos vinte e seis anos já vai no terceiro casamento e uma juventude repleta de cicatrizes. Quando conhece o homem que parece ser o seu par perfeito, percebe que ele é precisamente o único homem que ela não pode ter, e nem todo o dinheiro do mundo é capaz de mudar essa circunstância.
Mais de 40 anos depois, a jovem Francesca vive la dolce vita. Antiga advogada, foi para Roma em busca de uma nova vida. Um acaso fortuito leva-a ao Palazzo Mirandola, onde conhece a famosa Viscondessa Elena dei Damiani. A empatia entre ambas é imediata e Francesca fica fascinada pelo mundo de Elena, pelo seu passada e pelas suas incríveis histórias.
Quando a Viscondessa a incumbe de narrar a sua extraordinária vida, Francesca entra num mundo de privilégios, aparências e excessos. Mas só quando um valioso anel de diamantes é encontrado num túnel antigo da cidade, mesmo por baixo do Palazzo, é que Francesca percebe a rede de mentiras que envolve Elena. A braços com o seu próprio passado tortuoso, Francesca é incapaz de ignorar a verdade, revelando um segredo antigo que pode mudar muitas vidas…

Marcada para morrer, de Peter James



Ficha técnica
TítuloMarcada para morrer
Autor – Peter James
Editora – Clube do Autor
Páginas – 472
Datas de leitura – de 19 a 25 de fevereiro de 2018

Opinião
Segunda leitura de um romance policial em menos de quatro meses. Feito considerável para alguém que não é a maior apreciadora do género. E tudo por causa da extrema generosidade da editora Clube do Autor, que me vai enviando este género de romances e assim me vai espicaçando e levando à sua leitura.
Após ter lido O bibliotecário de Paris e este Marcada para morrer tenho que afirmar que continuo a não ser a maior apreciadora de policiais e thrillers. Mas também tenho que afirmar que começo a constatar que ler este tipo de romances permite-me fazer um parêntesis em leituras mais densas, complexas, pesadas e dessa forma continuar a alimentar o meu vício com narrativas mais leves, mais diretas e que me entretêm sem se tornarem enfadonhas.
Já conhecia este autor através do que vou “cuscando” nos blogues que vou seguindo com dedicação. Sabia que Marcada para morrer faz parte de uma saga protagonizada por Roy Grace, detetive principal da polícia de Sussex e que, por muito que os casos que o mesmo investiga sejam diferentes, o facto de estar apenas a conhecê-lo no volume onze da saga não me iria permitir saber muito da sua vida. E comprovei-o à medida que ia lendo a obra, pois fiquei ao corrente de que Roy está casado pela segunda vez, tem um filho bebé, mas ainda sente que está acorrentado ao seu primeiro casamento, à sua primeira mulher, Sandy, que desapareceu sem deixar rasto. Ora, como devem compreender, fiquei algo desapontada por não ter como saber o que aconteceu a Sandy, por que razão desapareceu ou como Roy refez a sua vida, se apaixonou por Cleo e quer pôr para trás uma vida que crê estar completamente terminada com o desaparecimento de anos da sua primeira mulher.
É óbvio que, sendo como sou, não fui capaz de pôr de parte esse pequenino descontentamento. No entanto, tentei que o mesmo não prejudicasse o que de verdade compõe a narrativa de Marcada para morrer – o caso de um assassino em série, que rapta mulheres jovens, as marca com a expressão “Quero-te morta”, as mata e as vai largando em vários locais. E acho que o consegui, porque fui seguindo com bastante interesse os passos da polícia e do próprio assassino, acumulando dados e tentando, eu própria, descobrir quem seria na verdade o homem que estava por detrás do rapto, tortura e morte de um leque de jovens bonitas. E sim, acho que fui mais rápida que Roy Grace, pois as minhas desconfianças iniciais revelaram-se certeiras. Para quem é inexperiente nestas andanças policiais, até que não me estou a sair nada mal!
Sem querer revelar muito mais, digo que, no geral, gostei bastante desta leitura, sobretudo de Roy Grace, do seu passado (que adoraria conhecer melhor), da sua personalidade cativante e do interesse e empenho que coloca na resolução dos casos. Acho, porém, que a narrativa seria mais fluída e captaria ainda melhor a atenção do leitor se o seu ritmo não fosse, como é, prejudicado pela minuciosidade na descrição dos procedimentos policiais e pela quantidade algo exagerada de personagens que a povoam. São realmente muitas, sobretudo as secundárias, e é muito difícil conseguirmos recordar-nos de todas e saber quem é quem.
Remato esta opinião dizendo que gostaria muito de ler o próximo volume (que seguramente será escrito), já que fiquei curiosa sobre como será o futuro de Roy Grace face aos acontecimentos e revelações que encerram esta obra.
Agradeço, uma vez mais, à editora Clube do Autor que me enviou esta obra em troca de uma opinião sincera.

NOTA – 07/10

Sinopse
Escutou-a a gritar. Um grito aterrador. Depois instalou-se o silêncio.
Primeiro, há uma mulher raptada. Depois, surgem os corpos assassinados, uns no passado e outros no presente. No final, a perversidade por trás destes crimes vai surpreendê-lo e arrepiá-lo.
Até que ponto um passado tortuoso é capaz de gerar uma mente monstruosa e vingativa? O que fazer quando o pior mal existe naqueles em quem mais confiamos?