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Homens imprudentemente poéticos, de Valter Hugo Mãe


Ficha técnica
TítuloHomens imprudentemente poéticos
Autor – Valter Hugo Mãe
Editora – Porto Editora
Páginas – 214
Datas de leitura – de 20 a 25 de agosto de 2017

Opinião
Tenho que ser sincera – Valter Hugo Mãe é um dos meus autores prediletos. Sigo a sua obra com muito fervor e abre-se-me um sorriso de orelha a orelha quando constato que publicou mais um livro. Foi o que aconteceu com Homens imprudentemente poéticos que marchou para a minha wishlist mal chegou às bancas. Não pairou por lá muito tempo, pois no último Natal alguém o pôs debaixo da árvore com o meu nome escrito na etiqueta natalícia. E agora que finalmente o li, sinto um misto de vergonha e defraudação, porque, após o encerro, tive que render-me àquilo que ainda hoje é inquestionável – a história de Itaro, Sabugo, Matsu, da criada Kame e da senhora Fuyu não me deslumbrou, será infelizmente mais uma… Aparte a genialidade da escrita do seu autor, que maneja a nossa língua como poucos e cria jogos linguísticos de uma pureza e beleza quase surreais, não criei empatia com as personagens, não fui capaz de vislumbrar a mensagem da narrativa nem de sentir nada exceto um ligeiro interesse e compaixão por Matsu e a criada Kame e alguma incredulidade e estupefação sobre o porquê de tanto ódio entre Itaro e Saburo.
Questiono-me se esta pouca ligação com a trama e correspondentes personagens poderá ter algo a ver com o pouco interesse que nutro pelas sociedades, costumes e tradições asiáticas. Questiono-me se terei lido a obra na altura certa. Questiono-me se a minha ânsia em ter nas mãos uma obra que me abalroe (até agora 2017 só me ofereceu três e uma delas foi uma releitura) prejudicou esta leitura em particular. Questiono-me e questiono-me, mas no final a dolorosa sensação mantém-se – Homens imprudentemente poéticos não me tocou, não me cativou, não mexeu como desejei que mexesse, como esperei que mexesse.
Por tudo isto, creio que não devo alongar-me mais… Dói...


NOTA – 06/10


Sinopse
Num Japão antigo o artesão Itaro e o oleiro Saburo vivem uma vizinhança inimiga que, em avanços e recuos, lhes muda as prioridades e, sobretudo, a capacidade de se manterem boa gente.
A inimizade, contudo, é coisa pequena diante da miséria comum e do destino.
Conscientes da exuberância da natureza e da falha da sorte, o homem que faz leques e o homem que faz taças medem a sensatez e, sobretudo, os modos incondicionais de amarem suas distintas mulheres.
Valter Hugo Mãe prossegue a sua poética ímpar. Uma humaníssima visão do mundo.

Contos de cães e maus lobos, de Valter Hugo Mãe


Ficha técnica
Título – Contos de cães e maus lobos
Autor – Valter Hugo Mãe
Editora – Porto Editora
Páginas – 159
Datas de leitura – de 26 a 28 de junho de 2016

Opinião
Não sou uma entusiasta leitora de contos – terminam mal começam. E estes de Valter Hugo ainda mais. Contudo, que terramoto, que tsunami provocaram nas minhas emoções! É um livrinho perfeito, que nos sucumbe e que causa aquela mossa deleitosa que sempre busco nas leituras que me passam pelas mãos.
Não pretendo alongar-me muito neste texto, prefiro que as palavras do autor mostrem o quanto aquilo que saiu da sua mente romântica (“Sou muito romântico, quero melhorar o mundo.”) é fabuloso, é encantador, é encantatório, viaja diretamente ao nosso coração e o deixa pequenino, apertadinho e insuficiente para abraçar tantos sentimentos.
São doze contos. Abrem com um prefácio de Mia Couto (ele também um génio em forrar as palavras de encantamento e magia) e cada um deles é introduzido por ilustrações de doze artistas plásticos diferentes. A encadernação, as suas cores predominantes (cinzento escuro e vermelho) e o próprio título da obra iludem-nos, transmitindo-nos a ideia de que o seu conteúdo estará recheado de episódios tristes, negros, aterradores, com lobos e cães esfaimados de sangue, de dentes e garras afiadas, prontos para abocanhar vítimas indefesas. No entanto, são poucos os contos que apresentam canídeos como personagens em evidência. Apenas o que se intitula “O mau lobo” nos oferece uma versão deliciosamente enternecedora do conto infantil “Capuchinho vermelho”. Na generalidade, são textos com protagonistas humanos, desde mães, avós, netos, filhos, velhos, crianças que não querem crescer e outras que são obrigadas a fazê-lo demasiado depressa, rapazes e raparigas que compreendem a importância de afetos por gentes, coisas ou livros.
Para que compreendam melhor o quanto esta pequena obra é um exemplo daquelas que não queremos pôr de lado, daquelas que pintam o nosso mundo e o tornam melhor (nem que seja no curto espaço de tempo que habitamos nela) e um exemplo do quão genial é a arte de Valter Hugo Mãe de brincar com as palavras, de encaixá-las em frases, parágrafos, contos, histórias que nos penetram, nos encantam e nos fazem construir torrões docinhos de felicidade, deixo-vos alguns dos muitos excertos que sublinhei (e como trabalhou o lápis J):
Julgava ela que o filho se diluíra como um cubo de açúcar incapaz de adocicar o mar.”
“Nunca secava o corpo porque a água era agora o seu menino. Molhava-se, estendia as mãos em redor como radares aflitos por um abraço e imaginava que a criança fazia as ondas. Talvez as ondas fossem um modo de falar.” (conto “O menino de água”)
"Para mim, os poemas eram rendinhas de palavras, umas e outras escolhidas para tudo ficar bonito ou inusitado, como se fossem palavras de sair à rua para uma cerimónia. E as suas metáforas juntavam corpos e davam beijos e falavam em fidelidades eternas ou ansiedades. Falavam de uma vontade quase desnatural de ver alguém. Os poemas eram bordadinhos que se estendiam sobre os corpos de quem amava. Podiam ser uma roupa inteira, a única roupa." (conto “Querido monstro”)
Percebi que para dentro de nós há um longo caminho e muita distância. Não somos nada feitos do mais imediato que se vê à superfície. Somos feitos daquilo que chega à alma e a alma tem um tamanho muito diferente do corpo.” (conto “O rosto”)
Os livros não esquecem nada. Eles são para sempre a mesma memória admirável. Esquecer livros é uma agressão à própria natureza. Embora, na verdade, eles nem se devam importar, porque podem esperar eternamente.
Gostei de colocar a hipótese de os livros serem como bichos. Isso faz deles o que sempre suspeitei: os livros são objectos cardíacos. Pulsam, mudam, têm intenções, prestam atenção. Lidos profundamente, eles estão incrivelmente vivos. Escolhem leitores e entregam mais a uns do que a outros. Têm uma preferência. São inteligentes e reconhecem a inteligência.”
“Todos os livros são conversas que os escritores nos deixam. Podemos conversar com Camões, Shakespeare ou Machado de Assis, mesmo que tenham morrido há tantos anos.”
“Eu disse que ler é como caminhar dentro de mim mesmo. E é verdade. Quando lemos estamos a percorrer o nosso interior.” (conto “O rapaz que habitava os livros”)
"Eu entendi que o meu avô era como todas as mais belas coisas do mundo juntas numa só. E entendi que fazer-lhe justiça era acreditar que, um dia, alguém poderia reconhecer a sua influência em mim e, talvez, considerar de mim algo semelhante. Com maior erro ou virtude, eu prometi tentar."
À noite, deito-me como uma semente na almofada húmida do coração. Fico aninhado com a esperança de crescer esplendorosamente por dentro do amor. No verdadeiro amor tudo é sempre vivo.” (conto “As mais belas coisas do mundo”)
As pessoas que se tornam leitoras ficam logo mais espertas, até andam três centímetros mais altas, que é efeito de um orgulho de estarem a fazer a coisa certa. Ler livros é uma coisa muito certa.”
Todos os livros são infinitos. Começam no texto e estendem-se pela imaginação. (…) Mesmo os contos, de pequenos não têm nada.” (conto “Bibliotecas”)

Sinto-me mais esperta, mais inteligente, ando alguns centímetros mais alta, cheia de orgulho porque há mais de trinta anos que estou a fazer a coisa certa, a caminhar dentro de mim mesma e à conversa com escritores geniais como Valter Hugo Mãe, de quem sou uma profunda admiradora.

NOTA – 10/10

Sinopse

A escrita encantatória de Valter Hugo Mãe chega ao conto como uma delicadíssima forma de inclusão. Estes contos são para todas as idades e são feitos de uma esperança profunda. Entre a confiança e o receio, cães e lobos são apenas um símbolo para a ansiedade perante a vida e a fundamental aprendizagem de valores e da capacidade de amar. Entre a confiança e o receio estabelecemos as entregas e a prudência de que precisamos para construir a felicidade.

O remorso de Baltazar Serapião, de Valter Hugo Mãe


Ficha técnica
Título – O remorso de Baltazar Serapião
Autor – Valter Hugo Mãe
Editora – Porto Editora
Páginas – 278
Datas de leitura – de 05 a 09 de abril de 2016


Opinião
Se dúvidas ainda houvesse, esta obra deita-as por terra – é prova claríssima do indiscutível talento de Valter Hugo Mãe como criador de histórias. Afasta-se daquilo que atravessa obras já lidas e aconchegadas num cantinho especial, ou seja, de um pendor mais poético, carregado de sensibilidade, beleza e outras emoções que despoletam empatia para com as personagens (como O filho de mil homens ou A máquina de fazer espanhóis) e abalroa-nos, usando as palavras do meu Saramago, com um tsunami que sacode violentamente os alicerces de todo o livrólico e amante da língua lusa.
Começo por dizer que nenhuma mulher que se preze engole de bom grado a forma como o género feminino é retratado nesta obra – “uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada, explicava o meu pai, ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros. (…) o mundo que as mulheres imaginavam era torpe e falacioso, viam coisas e convenciam-se de estupidez por opção, a suspirarem em segredos inconfessáveis, cheias de vícios de sonho como delírios de gente acordada, como se bebessem de mais ou tivessem sido envenenadas por cobra má.” (págs. 25, 26) Não só a visão que os homens têm do sexo oposto e que está espelhada no excerto transcrito fere o nosso orgulho como também as personagens femininas, retratadas como fornicadoras que se “deixam furar” por dez homens por dia, como bruxas dotadas dos poderes mais maléficos ou como simplesmente feias, vingativas ou torpes, espezinham a nossa essência e desencadeiam uma revolta surda que quase me levou a fechar a obra e amaldiçoar dois dos meus autores preferidos – o que a escreveu e o que a premiou e consequentemente recomendou.
Contudo, essa revolta e sensação de orgulho ferido apenas se revelaram com mais veemência nas páginas iniciais da obra, já que a leitura de O remorso de Baltazar Serapião pressupõe que nunca esqueçamos a sua contextualização histórica – a ação desenrola-se em plena Idade Média, durante o reinado de Dom Dinis. Ora, valendo-me das sapientes palavras do meu Saramaguinho “… o que acontece é que aquilo cheirava mal, era feio”. O Portugal do século XIII era de famílias nobres, endinheiradas, exploradoras e do povo faminto, ignorante e dependente; de homens que apenas viam na mulher alguém em quem podiam libertar o fogo que lhes queimava entre as pernas, alguém que lhes devia total obediência, cujo lugar era dentro de paredes, cuidando do marido e da prole; de mulheres submissas, que encarnavam todas as tentações, pecados e outros lados demoníacos e que, como tal, nunca eram de fiar; de crenças, superstições, bruxarias, feitiços e de uma religiosidade que andava de mão dada com o paganismo.
 Valter Hugo Mãe cava assim um fosso entre uma Idade Média “… desinfectada, limpa como se houvesse detergentes de todo o tipo…”, recorrente em outras obras, criando uma narrativa onde nos sentimos verdadeiramente na Idade Média, onde tropeçamos em dom Afonso, o nobre da aldeia da família de Baltazar, a quem todos devem obediência e que abusa desse estatuto para deitar mão a toda a criada jovem e bonita que trabalhe em sua casa; onde convivemos com os “Sarga”, alcunha da família de Baltazar, amaldiçoamos os seus elementos masculinos por todos os horrores que praticam nas suas mulheres, encolhemo-nos de nojo por determinadas práticas que levam a cabo com animais e condoemo-nos da mãe Sarga e de Ermesinda; onde somos testemunhas da sujidade, da fealdade, do quão homens e mulheres pouco se diferem de bestas e de uma “comunhão perfeita” entre Deus, o céu, o inferno, superstições, feitiços e bruxarias.
O remorso de Baltazar Serapião conquista-nos por tudo isto. Não é, no meu ponto de vista, uma obra de personagens que nos arrebatam como, por exemplo, Crisóstomo, Camilo ou Isaura de O filho de mil homens. É uma obra de época e sobretudo um hino à genialidade criadora de Valter Hugo Mãe, que nada descura na sua composição, desde os nomes das personagens, a contextualização, o pensamento medieval à primazia total das ações e reflexões masculinas face às correspondentes femininas (nunca soube verdadeiramente o que pensava Ermesinda e porque agia da forma como agia). Recorrendo de novo a Saramago – “… este remorso tem de ser lido como algo que traz muito de novo e fertilizará a Literatura.” (págs. 8, 9).
Foi assim uma leitura que me conquistou mais pela sua forma que pelo seu conteúdo. Não tão "preenchedora" como as de O filho de mil homens ou a de A máquina de fazer espanhóis. Mas que recomendo, porque Valter Hugo Mãe assim o merece.

NOTA – 08/10


Sinopse

Numa Idade Média brutal e miserável, Baltazar Serapião casa com a mulher dos seus sonhos e - tal como o pai fizera antes com a mãe e com a vaca, fêmeas irmanadas em condição e estatuto familiar - leva muito a sério a administração da sua educação. Mas o senhor feudal, pondo os olhos na jovem esposa, não desiste de exercer sobre ela os seus direitos... Entregue aos desmandos do poder e do destino, Baltazar será então forçado a seguir por caminhos que o levarão ao encontro da bruxaria, da possessão e, finalmente, do remorso.Com um notável trabalho de linguagem que recria poeticamente a língua arcaica e rude do povo, O Remorso de Baltazar Serapião, de Valter Hugo Mãe - autor, entre outros, de O Nosso Reino, selecionado pelo Diário de Notícias como um dos melhores romances portugueses de 2004 -, é uma tenebrosa metáfora da violência doméstica e do poder sinistro do amor.

A desumanização, de Valter Hugo Mãe

Domingo, 27 de abril de 2014




Opinião
Com o fim de semana a chegar ao fim, cheguei ao fim de A desumanização, a obra mais recente de Valter Hugo Mãe.
Tal como nos é dito na contracapa, este romance passa-se nos recônditos fiordes islandeses e chega-nos através da voz de uma menina de onze anos, que nos conta o que sobra da sua vida depois de perder a sua irmã gémea.
Se compararmos A desumanização com outras obras de Valter Hugo Mãe que já li, há diferenças e semelhanças evidentes. Neste romance, o autor põe de lado o “não uso” das maiúsculas no início das frases, uma característica do seu estilo (à Saramago, talvez…), mas volta a escrever uma história tristíssima, aflitiva, angustiante, desconcertante, que nos ataranta e desarma. As personagens que a habitam são estranhas, diferentes, esquisitas. Contudo, mexem connosco, tocam-nos, pois, por muito diferentes ou esquisitas que se apresentem, são um retrato de seres humanos, que sofrem como qualquer um de nós sofre e querem o que todos nós queremos – que o dia de amanhã seja melhor do que o de hoje e, acima de tudo, querem ser amadas e merecedoras de alguma esperança e de alguma felicidade.
Não considero A desumanização um livro tão imperdível como O filho de mil homens. Neste caso, não há realmente amor como o primeiro… Contudo, é uma achega muito significativa para quem já se apaixonou pelo estilo peculiar e característica deste autor emergente ou para quem queira entrar pela primeira vez no seu mundo.
Algumas passagens:
“Quem não sabe perdoar, só sabe coisas pequenas.” 
“As pessoas que não liam não tinham sentidos. Andavam como sem ver, sem ouvir, sem falar.” 
“Quando for grande, quero ser de outra maneira. Quero ser longe. Eu respondia: ninguém é longe. As pessoas são sempre perto de alguma coisa e perto delas mesmas. A minha irmã dizia: são. Algumas pessoas são longe. Quando for grande quero ser longe.” 
“Queria proteger contra o esquecimento. A maior vulnerabilidade do humano, a contingência de não lembrar e de não ser lembrado.” 

NOTA – 08/10

Sinopse
«Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.»

Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza.

O apocalipse dos trabalhadores, de Valter Hugo Mãe

Domingo, 02 de março de 2014




Sinopse
A resistência de Maria da Graça e de Quitéria, duas mulheres-a-dias e carpideiras profissionais que, a braços com desilusões e desconfianças várias acerca dos homens, acabam por cair de amores quando menos esperam. Com isso, mudam radicalmente o que pensam e querem da vida.
Este é um romance sobre a força do amor e como ela se impõe igual a uma inteligência para salvar as personagens das suas condições de desfavor social e laboral.
Passado na recôndita cidade de Bragança, este livro é um elogio à força dos que sobrevivem, dos que trabalham no limiar da dignidade e, ainda assim, descobrem caminhos menos óbvios para a mais pura felicidade.

Opinião
Terminei de ler esta obra em frente à lareira e enroscada numa manta J Tão bom!!!
É o terceiro livro que leio de Valter Hugo Mãe. E, como seria de esperar, não me desiludiu. Não o considero tão bom como o meu favorito até agora, O Filho de mil homens. Mas, mesmo assim, muito recomendável, sobretudo para quem já se rendeu à escrita deste prometedor escritor ou para quem ainda não teve o prazer de o descobrir.
Em O apocalipse dos trabalhadores reina a realidade de gente comum, anónima, trabalhadora e sofredora. E reina a mestria da escrita do seu autor, que transforma a vida de duas mulheres-a-dias, nos faz entrar em suas casas, nas suas rotinas e sobretudo nos seus sonhos, nos seus medos, nos seus desafios, nas suas desilusões e na cumplicidade que as une e que as faz não soçobrar.
Maria da Graça e Quitéria são as personagens principais. Vivem das limpezas que fazem em casa de outras pessoas e ganham um dinheirinho extra como “carpideiras” de velórios onde faltam familiares e amigos que chorem pelo defunto. Apesar de a vida ter sido pouco solidária com estas mulheres, não deixam de sonhar com uma vida melhor e principalmente com a força de um amor que as faça sentir realizadas e completas. Maria da Graça está presa a um casamento e vai iludindo o coração com uma relação sexual pseudo-forçada que mantém com o Sr. Ferreira. Por sua vez, Quitéria encontra o amor num imigrante ucraniano, mais novo do que ela e que a princípio não sabe uma palavra da língua lusa.
São principalmente as duas personagens femininas e  a do ucraniano que nos acompanham, preenchem uma narrativa que nos faz tomar mais uma vez consciência da precariedade do trabalho, do quanto o interior de Portugal sofre com a pouquíssima oferta laboral e do quanto, paradoxalmente, ainda há quem imigre para o nosso país porque o seu próprio país está em piores condições.
Com tudo isto, poderíamos assumir que este romance é triste e amargurado. Sim, é-o, mas a tristeza e a amargura são muitas vezes camufladas, abafadas por momentos que provocam o riso, como aqueles que Maria da Graça e Quitéria protagonizam em noites que passam a velar defuntos desconhecidos em locais isolados ou em conversas cúmplices que aquecem as suas vidas sofridas e maltratadas.

É, por fim, um romance, tal como nos diz a sinopse, que elogia a força interior e exterior dos trabalhadores, dos que labutam sem descanso e que sonham com a força do amor, que pode aparecer quando menos se espera e de quem menos se espera. E é, por que não, um retrato do nosso Portugal mais genuíno e castiço.

A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe

Domingo, 14 de abril de 2013




Sinopse
Esta é a história de quem, no momento mais árido da vida, se surpreende com a manifestação ainda de uma alegria. Uma alegria complexa, até difícil de aceitar, mas que comprova a validade do ser humano até ao seu último segundo. A máquina de fazer espanhóis é uma aventura irónica, trágica e divertida, pela madura idade, que será uma maturidade diferente, um estádio de conhecimento outro no qual o indivíduo se repensa para reincidir ou mudar. O que mudará na vida de antónio silva, com oitenta e quatro anos, no dia em que violentamente o seu mundo se transforma?

Opinião
ADOREI ler A máquina de fazer espanhóis!!!
O seu primeiro capítulo apresenta-nos António Silva, um homem de 84 anos, que perde inesperadamente o amor da sua vida, com quem esteve casado 48 anos, e se vê “enfiado” num lar de terceira idade que ironicamente se chama “Feliz Idade”. Apesar de a princípio acreditar que não lhe resta mais nada na vida a não ser esperar pela morte, António começa de novo a dar algum valor aos seus dias especialmente com as amizades que desenvolve com os seus companheiros do “Feliz Idade” – o silva “da europa”, o anísio, o medeiros e o esteves “sem metafísica” (supostamente o mesmo que protagoniza o poema A Tabacaria do heterónimo Álvaro de Campos.
É um livro maravilhosamente bem escrito, recheado de momentos trágicos, tristes, alegres, divertidos e que nos mostra, através da vida de António Silva, a banalidade das nossas vidas e o quanto a velhice pode e é muitas vezes encarada como um empecilho, o princípio da noite sem fim e não o fim de um produtivo dia.
Valter Hugo também aproveita para usar o presente e o passado da vida de António como exemplo do trajeto do nosso país nos últimos anos, da mentalidade do portuguesinho que continua agarrado a um passado salazarista, a mesquinhices e beatices e a queixar-se do presente e a pouco ou nada fazer para alterá-lo…

Por tudo isto, esta obra é tão boa que só posso recomendá-la!

O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe

Domingo, 18 de novembro de 2012



Sinopse
Esta é a história de Crisóstomo que, chegando aos quarenta anos, lida com a tristeza de não ter tido um filho. Do sonho de encontrar uma criança que o prolongue e de outros inesperados encontros, nasce uma família inventada, mas tão pura e fundamental como qualquer outra.
As histórias do Crisóstomo e do Camilo, da Isaura do Antonino e da Matilde mostram que para se ser feliz é preciso aceitar ser o que se pode, nunca deixando contudo de acreditar que é possível estar e ser sempre melhor. As suas vidas ilustram igualmente que o amor, sendo uma pacificação com a nossa natureza, tem o poder de a transformar.
Tocando em temas tão basilares à vida humana como o amor, a paternidade e a família, O filho de mil homens exibe, como sempre, a apurada sensibilidade e o esplendor criativo de Valter Hugo Mãe.

Opinião
Esta foi a minha estreia no mundo literário de Valter Hugo Mãe! E que estreia! Adorei O filho de mil homens! É um livro muito afetivo, que vive das emoções de várias personagens (como por exemplo o quarentão que queria um filho, o filho da anã que fica órfão, a mulher enjeitada, o maricas, a mãe do maricas), cujas vidas se entrecruzam e os levam a concluir que a felicidade está ao alcance de nós e que, se quisermos, conseguimos estar e fazer melhor.
O livro está recheado de momentos e passagens de uma beleza e sensibilidades às quais não conseguimos, de maneira nenhuma, ficar indiferentes. Registo aqui trechos que são disso exemplo e que me ficaram e ficarão na memória:
"Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. Então o médico acrescentava: ah, fique pois sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. O caixão fechava-se como um livro. (...)
Quando percebeu o jogo, o Camilo disse ao avô que havia de se notar na casa, a quem não lesse livros caía-lhe o tecto em cima de podre. O velho Alfredo riu-se muito e respondeu: um bom livro, tem de ser um bom livro. Um bom livro em favor de um corpo sem problemas de colesterol e de uma casa com o tecto seguro. Parecia uma ideia com muita justiça." 

O toque de alguém, dizia ele, é o verdadeiro lado de cá da pele. Quem não é tocado não se cobre nunca, anda como nu. De ossos à mostra.”
 “E amar uma pessoa é o destino do mundo”.


Bom, é oficial… Estou sem livros novos para ler… Este magnífico romance de Valter Hugo Mãe era o último que tinha e, como diz uma colega minha, “já o mamei”! Sendo assim, encontro-me numa situação que já não me era familiar há muito… Contudo, tenho que ver o lado positivo disto – tenho “montones” de livros para reler (desde os juvenis aos ditos adultos) e, além disso, sendo agora sócia da Biblioteca Municipal cá da terra, posso sempre requisitar os livros que lá existam J