Jogos de Raiva, de Rodrigo Guedes de Carvalho



Ficha técnica
TítuloJogos de Raiva
Autora – Rodrigo Guedes de Carvalho
Editora – Publicações Dom Quixote
Páginas – 439
Datas de leitura – de 20 a 27 de março de 2019

Opinião
         Tenho todos os livros que Rodrigo Guedes de Carvalho publicou. Já os li todos. Alguns já foram, inclusive, relidos. Acho que, com estas três frases, dá para entender que este autor português é um dos meus favoritos e que, modéstia à parte, não sou nenhuma novata nas suas letras.
         Para os que não sabem, o Rodrigo esteve bastantes anos sem publicar qualquer obra literária. Lançou Canário em 2007 e só passados dez anos é que voltei a ter nas mãos mais uma obra sua (podem encontrar a correspondente opinião aqui). Foi um interregno que a nós, os dois leitores adultos cá de casa, nos deixou algo órfãos e que nos fez querer remediar essa orfandade comprando e devorando com sofreguidão as duas obras que o autor publicou quase de rajada entre 2017 e 2018.
         Recordo-me de comentar com o meu maridinho algo semelhante a isto – “Que bom que, após dez anos de silêncio, tenhamos agora duas obras com que nos podemos deliciar!” “Espero que este tempo, por um lado, o tenha levado a criar narrativas tão boas ou melhores do que as anteriores e que, por outro, não deixem de ter os ingredientes que nos fazem continuar a querer ler o “nosso” Rodriguinho!”
         Comprei Jogos de Raiva na FLL de 2018. A obra está autografada pelo próprio Rodrigo que, nesse dia, estava no stand da Leya a divulgá-la. Esteve na estante todos estes meses por causa da minha mania das leituras cronológicas e continuaria aí se eu não estivesse a tentar reverter essa mania e se não a tivesse escolhido para participar no projeto da Patrícia Rodrigues – Lusiteratura – para a categoria de Março 2019 – obra escrita por uma figura pública. Saltou da prateleira dos não-lidos no dia 20 e iniciei a sua leitura muito bem acompanhada por ti, Paulinha, que esperaste por mim para lê-la em conjunto.
         Tudo, como podem compreender, parecia muito promissor. Iria mergulhar na leitura do último livro de um dos meus autores favoritos, que muitos leitores que eu sigo e em que confio tinham classificado de muito boa ou excelente. E, para cúmulo, iria fazê-lo na companhia da minha bookbestie.
         As páginas iniciais são soberbas, magistrais, com tudo aquilo que me agrada de sobremaneira em RGC. Contudo, no dia em que recebi um mail (é através do mail que a Paulinha e eu fazemos as nossas leituras em conjunto) com o título “Houston, we have a problema”, tudo começou a descambar. Primeiro, para a Paula, depois para mim. Primeiro, para ela, que tem, sem dúvida, conhecimentos mais profundos de cultura geral do que eu, os quais a levaram a torcer o nariz a falhas incompreensíveis em alguém que, para além de escritor, é jornalista. Posteriormente, para mim, que me fui apercebendo de que, em Jogos de Raiva, as personagens têm pouco sumo, são muito planas, estereotipadas e pouco ou nada reveladoras da complexidade e densidade que habitam aquelas que dão um protagonismo ímpar às obras anteriores do autor. A tudo isto, que já era razão suficiente para que me apetecesse devolver a obra às prateleiras, juntou-se algo ainda pior – a sensação de que o autor apenas escreveu esta narrativa para poder abordar e espezinhar todo e qualquer tema que seja polémico e que esteja na berlinda nos dias de hoje – temos racismo, temos homossexualidade, temos as guerras sem sentido, temos as redes sociais e o seu lado de retrete da humanidade, temos a violência doméstica, temos as doenças mentais e até temos mortes de gente inocente às mãos de bárbaros que de humano não têm nada.
         Entendo que vivemos numa sociedade onde imperam todos estes temas e entendo (e assino por baixo) a vontade de espezinhá-los e aniquilá-los. Mas, como diria a Catarina (uma das personagens da obra), caramba, era preciso amontoá-los todos numa narrativa só??? Eu acho que não havia necessidade e que, ao fazê-lo, o autor demonstrou aquilo que nunca havia demonstrado antes – desleixo, pouco cuidado na criação de uma narrativa, onde as personagens, o lado ficcional se perde quase por completo e o que resta é, na minha humilde opinião, uma mistelada, uma salgalhada, uma mistangada (como diz a minha mãe) que me fez saltar algumas páginas e querer fechar a obra o mais rápido possível…
         Como leitora admiradora de Rodrigo Guedes Carvalho, dói-me muito partilhar esta opinião e não vos recomendar a leitura de Jogos de Raiva. Mas não me sentiria bem se não o fizesse, pois prezo a minha honestidade acima de tudo e nunca poderia enganar-vos. Agora, vocês são livres de seguir ou não a minha não-recomendação, pois só precisam de ir ao Goodreads para constatarem que eu e a Paula somos as “más da fita”, já que todos os restantes leitores deram, no mínimo, 4 estrelas a esta obra.
         Se houver alguém desse lado que já tenha lido a obra e queira deixar aqui a sua opinião, por favor, faça-o! E se essa opinião for contrária à minha, ainda melhor, não se acanhe!

         NOTA – 04/10

         Sinopse
         Um homem levanta a voz acima da algazarra de conversas. E pede que ponham mais alto o som do televisor do restaurante. É então que todos reparam no que ele vê. Não percebem ou não acreditam. E na rua, no bairro, na cidade, no país, homens, mulheres e crianças vão-se calando. Está por todo o lado, a imagem horrível e hipnotizante. O homem que pediu silêncio leva as mãos à cara e pensa: como chegámos aqui? A era da comunicação global trouxe inimagináveis maravilhas. Partilhas imediatas de ensinamentos, denúncias e solidariedades. Mas permitiu também que saísse das cavernas uma realidade abjecta. Insultos, ameaças, ironias maldosas. Nunca, como hoje, a semente do ódio foi tão espalhada. É sobre este pano de fundo que se conta a história de uma família. Três gerações a olhar para um futuro embriagado num estado de guerra. Uma família que esconde, enquanto puder, um segredo. Jogos de Raiva traça duros retratos sem filtro sobre medos e remorsos, sobre o racismo, a depressão, a sexualidade, o jornalismo, a adopção, a arte e a amizade. E o poder das histórias. É sobre a urgência da confiança, da identidade e do amor. É um livro sobre todos nós, à deriva num novo mundo.

O meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout



Ficha técnica
TítuloO meu nome é Lucy Barton
Autora – Elizabeth Strout
Editora – Alfaguara
Páginas – 176
Datas de leitura – de 08 a 10 de março de 2019

Opinião
        
         – “Olha para a tua vida, hoje em dia. Tu seguiste em frente e… conseguiste.” (pág. 155)
        
         Há opiniões que funcionam melhor por escrito e esta, sem dúvida, é uma delas.
         O meu nome é Lucy Barton é uma obra pequenina, não chega às 200 páginas e parece estar composta de ninharias, de banalidades relacionadas com a infância, juventude e sobretudo vida adulta de Lucy Barton, uma jovem que deixou para trás uma família algo disfuncional para ser a única filha a prosseguir estudos e mudar de uma terreola perdida do Illinois para a Big Apple. Ela apresenta-se, recordando uma temporada que passou no hospital e que possibilitou estar frente a frente com a mãe, depois de muito tempo sem que se visitassem. Esse período de mais de um mês que passou hospitalizada, vendo todos os dias o edifício Chrysler iluminar-se quando a noite chegava, é o ponto de partida para uma narrativa que, como já referi, vai saltitando do presente para o passado e nos vai dando a conhecer a Lucy e a sua vida banal, sem nada que a destaque duma pessoa anónima. Mas é igualmente o ponto de partida para uma narrativa repleta de ninharias e paradoxalmente complexa, com muitas pontas soltas e, acima de tudo, com muito que não é dito, com muito que se vai percebendo nas entrelinhas.
         Na minha opinião, um livro destes só chega e mexe com o leitor quando é escrito por alguém que domina a escrita com mestria. Elizabeth Strout, vencedora do Prémio Pulitzer, escreve deliciosamente bem, transpira talento que nos prende a uma história que se alimenta de uma mulher simples, “plain”, que se apaixona platonicamente por todo o homem que trata bem e que lhe devota um bocadinho de carinho, que não despega os olhos nem a atenção da mãe nos dias “hospitalares” que as duas partilham à “sombra” do edifício Chrysler, que espera desesperadamente dela umas migalhas de ternura e que nos vai deixando, ela própria, migalhas daquilo que foi a sua infância de menina pobre, da sua mudança para a grande cidade, do seu casamento, da sua maternidade, das amizades e encontros que vai entabulando com um punhado de pessoas e de um sonho que vai conseguir concretizar.
         Desengane-se quem pegar neste livro e estiver à espera de algo à primeira vista grandioso. Irá, pelo contrário, conhecer uma realidade que nada parece ter de americano, faustoso, de exagerado. A história de Lucy, as conversas corriqueiras que partilham com a mãe, o foco nos outros, as pinceladas incompletas da sua vida, tudo parece compor uma história nada extraordinária. Contudo, a genialidade da narrativa e da escrita da autora está nisso mesmo – em ser capaz de pegar no ordinário, no banal, no normal e elevá-los ao patamar do extraordinário. Fá-lo de uma forma simples, contida, “incompleta” até, mas proporciona-nos momentos de leitura inesquecíveis, com passagens de uma beleza suprema, como a que encerra a obra e que nem em verso teria essa beleza.
         E acho que me vou ficar por aqui, porque creio que o essencial está dito. Gostei mesmo muito de ter lido este livro e é óbvio que o recomendo e muito a quem quiser ler algo maravilhosamente bem escrito. Acrescento, para finalizar, que trouxe este livro da biblioteca da terrinha e que só tenho pena de não encontrar por lá mais nenhum livro da autora.
         Alguém desse lado já leu este livrinho? Já leram mais algum da autora? Se sim ou se ficaram interessados, comentem, por favor! Obrigada!

         NOTA – 09/10

         Sinopse
         Mais do que uma história de mãe e filha, este é um romance sobre as distâncias por vezes insuperáveis entre pessoas que deveriam estar próximas, sobre o peso dos não-ditos no seio das relações mais íntimas e sobre a solidão que todos sentimos alguma vez na vida. A entrelaçar esta narrativa está a voz da própria Lucy: tão observadora, sábia e profundamente humana como a da escritora que lhe dá forma.

Deixarás a Terra, de Renato Cisneros



Ficha técnica
TítuloDeixarás a Terra
Autor – Renato Cisneros
Editora – Planeta
Páginas – 280
Datas de leitura – de 10 a 16 de fevereiro de 2019

  Opinião
         Entre o final de 2018 e o princípio de 2019, deambulando pelo Youtube, descobri uma booktuber mexicana (El librero de Valentina) e fiquei rendida ao seu entusiasmo, à sua vivacidade e ao amor que transpira pelos livros. O primeiro vídeo que vi seu foi, por casualidade, aquele onde ela partilhava com os seus subscritores as melhores leituras do ano que estava ou havia terminado há pouquinho tempo. Vários livros me chamaram a atenção, mas houve um escritor peruano que se destacou e que vim a saber estar traduzido no nosso país. Falo-vos, como é óbvio, de Renato Cisneros que é autor de La distancia que nos separa e deste livro que terminei de ler há dias.
         Quando me dei conta de que a editora Planeta tinha publicado, em dezembro de 2017, Deixarás a Terra, decidi arriscar e enviei-lhes um e-mail a pedir um exemplar da obra. Fiquei muito feliz quando eles acederam ao meu pedido e planeei ler muito em breve a história que envolve um segredo que selou durante duzentos anos o mistério de uma família.
         Recebi o livro em meados de janeiro e um mês depois li-o. Da correspondente leitura tenho que dizer, em primeiro lugar, que pouco ou nada sabia da trama, a não ser que a mesmo se iria espraiar até ao passado e que abordaria a história de uma família e um segredo que poderia (ou não) ditar essa mesma história. Gosto muito de entrar às cegas nas narrativas e com esta não foi exceção.
         A trama está dividida em três partes e vai saltitando do presente para vários momentos do passado que vão chegando até nós cronologicamente. Recuamos até 1828 e de imediato entendemos qual o segredo que “mancha” o destino da família Cisneros. Nos saltos que vamos dando ao presente percebemos que o recuo nos leva até aos tetravós do narrador e que este pretende finalizar aquilo que o seu tio Gustavo começou – pôr a nu esse mesmo segredo e o quanto ele moldou, influenciou, aprisionou e embotou as ações e carácter de todas as gerações seguintes.
         Confesso-vos que a primeira parte da obra estava a ser agradável, mas não mais do que isso. Foi necessário chegar mais perto do presente, sair da anos iniciais do século XIX, entrar na parte dois da narrativa para sentir o meu entusiasmo a crescer e para perguntar-me algo que, até ao momento, não me tinha passado pela cabeça – será que esta família Cisneros tem alguma coisa a ver com o autor, Renato Cisneros? E será que estas pessoas, estas personagens masculinas existiram na realidade ou o autor está a inventar uma família que, por coincidência, tem o mesmo apelido que ele? Fiz estas mesmas perguntas ao “tio” Google e, para meu espanto, as respostas foram afirmativas.
         Ora, perante isto, entendem que a minha perspetiva de leitura mudou, teve que mudar, pois estava a ler a obra como se ela fosse inteiramente de ficção e, ao dar-me conta de que ela é, apesar de romanceada (creio eu), não-ficção, a abordagem teria que ser diferente. Para além disso, à medida que nos aproximávamos do presente, as histórias, as vidas dos antepassados de Renato Cisneros foram tornando-se mais empolgantes e as alternâncias com o presente muito mais complexas, com o narrador a abrir-se mais e a explicar-nos no fundo o porquê de ter decidido partilhar com o mundo os segredos e o lado menos bonito de uma família que sempre esteve associada à História do Peru como país independente, às suas relações diplomáticas e sobretudo às suas letras e literatura.
         Renato Cisneros quis saber quem ele é de verdade, de que forma o peso do passado, dos segredos familiares, de um apelido ilustre moldam alguém e essa demanda foi aquilo que mais me prendeu e agradou nesta leitura. “Acabou-se o mistério”; “Invadiu-me então um sentimento estéril. De triunfo e derrota simultâneos.”; “(…) senti ou soube que aquela seria a última fronteira que teria que transpor em muito tempo.” (págs. 275, 276)
         Não sou a leitora mais adequada ou mais habilitada para livros de não-ficção simplesmente porque não são os meus preferidos e porque não os leio com muita frequência. Porém, gostei muito de ler este livro, gostei muito de percorrer alguns espaços do Peru, de saber mais sobre a sua História, de conhecer algumas das suas personalidades influentes e sobretudo de passagens onde o autor/narrador expõe aquilo que o levou a escrever este livro e a querer conhecer-se através dos seus. Assim sendo tenho que recomendar este livro aos amantes do género e àqueles que, como eu, sentem aquele lado do mundo – América Latina – como um espaço que nos toca de forma especial. Não se vão arrepender se derem uma oportunidade a esta obra e poderão apreciá-la ainda mais do que eu.
         Termino agradecendo – e muito – à editora Planeta que gentilmente me enviou a obra em troca de uma opinião sincera.

         NOTA – 09/10

         Sinopse
         Um silêncio antigo selou durante 200 anos, o mistério de uma família muito semelhante às tragédias e ambições do Peru. Este romance recorda-nos que as famílias estão feitas de tudo o que escondem e que só uma prosa capaz de atravessar o visível e o soterrado pode rastear o caudal a que chamamos identidade. «As nossas famílias, como em qualquer sociedade conservadora e tradicional, querem calar certos assuntos que não convém trazer à luz e fi-lo [este livro] através de um romance como forma de não pôr em evidência a família, mas de pôr em evidência todas as famílias.»

Carta ao Pai, de Franz Kafka



Ficha técnica
TítuloCarta ao Pai
Autor – Franz Kafka
Editora – Hiena Editora
Páginas – 94
Datas de leitura – de 03 a 04 de fevereiro de 2019

Opinião
         Mais uma obra lida para o projeto da Silvéria - #24horas1livro. Com ela estreei-me nas letras do consagradíssimo Franz Kafka, mas digo já que foi uma das piores estreias de que me lembro nos últimos anos… Que me perdoem os admiradores de Kafka, mas, se o livro não fosse tão fino e se não o estivesse a ler em conjunto com a minha querida Cristina do canal e blogue Linked Books (visitem-na aqui), tê-lo-ia posto de lado sem qualquer tipo de remorso.
         A premissa é muito interessante – estamos, tal como o título indica, perante uma carta que o autor, já adulto, escreve ao seu pai com quem sempre teve uma relação conflituosa. Até ao momento em que trouxe este livro da biblioteca municipal pouco ou nada sabia sobre a vida de Kafka. Estive em Praga em 2003, visitei a famosa casa nº 22 da Travessa Dourada, onde o autor e a sua irmã estiveram hospedados, mas tirando isso, nada tentei saber sobre ele, porque, dos autores que leio, dificilmente procuro saber isto ou aquilo das suas vidas privadas. Assim sendo, entrei para a leitura às escuras, interessada em privar com o autor, em tentar encontrar vestígios da sua escrita neste registo epistolar e, por que não, tentar compreender se a relação animosa que tinha com o pai teria ou não influenciado os seus escritos.
         Desde as primeiras páginas fui assinalando passagens com post-its, fui transcrevendo algumas, mas a partir do meio da carta pus de lado post-its, lápis e caderno e comecei a revirar os olhos, a bufar de impaciência e, pior ainda, a criar na minha cabeça uma imagem nada abonatória do Sr. Kafka… Toda a carta, todinha, é um despejar de culpas ao pai por tudo, tudo de mau que aconteceu na vida do pobre filho – a autoridade, a rigidez, as exigências, as ideias e preconceitos foram sempre barreiras que o menino nunca foi capaz de ultrapassar e, se estivéssemos apenas a falar de Kafka enquanto criança e jovem, todas as suas queixas e ressentimentos seriam mais do que aceitáveis. Agora, por favor, tenham dó, que um Kafka já adulto ainda continue a queixar-se continuamente de que tem medo do pai, de que não casou por causa do pai, de que se tornou aquilo que é apenas por causa dele e por aí adiante, porque as queixas são intermináveis, ai, give me a break, é demais para qualquer pessoa que o está a ler e a aturar!
         Encerrei a leitura com uma vontade bem considerável de abanar o autor, mesmo ele já estando morto. A imagem que ainda se mantém comigo, mais de dez dias passados, é um de um Kakfa “júnior” mesquinho, cobarde, vingativo, que não teve estofo nem coragem de sair da barra paternal, que nutre, desde pequeno, medo, ressentimento e, por que não, ódio do pai, mas que nunca soube fazer-se alguém, que tem noção dos muitos defeitos do seu progenitor (e sim, são muitos – o senhor era bastante prepotente), mas que não encontra em sim “armas” e valentia para distanciar-se dele, para fazer-se homem e para deixar de detestar o pai e a si mesmo. Sim, porque, a determinado momento da carta, Kafka admite que nem ele gostaria de ter um filho como ele, com o seu carácter fraco e quezilento…
         Como podem calcular, não gostei de quase nada desta leitura e, no final, quando fechei o livro, estava algo aflita porque não sabia como partilhar com a Cristina que eu, estreante no mundo kafkiano, não tinha nada de positivo para contar-lhe da experiência. Contudo, para meu alívio, a opinião dela era muito semelhante à minha ou ainda menos positiva! Não sendo a primeira vez que lia Kafka e baseando-se nas pontuações do Goodreads e nas recomendações de outros bloggers/booktubers que não costumam falhar, a Cristina sofreu uma deceção bem maior do que a minha…
         Mas nem tudo foi negativo nesta leitura e será por isso que não darei à leitura uma pontuação inferior. A conversa que tivemos depois da leitura, na qual a Cristina partilhou os seus pontos de vista muito assertivos e me informou que esta carta, entre outros escritos, não deveria, segundo o próprio autor, ter sido publicada, mas “sim queimada” (foi um amigo que a disponibilizou aos leitores, após a morte de Kafka), foi muito elucidativa e provou o quanto as leituras feitas em conjunto têm um sabor diferente, bem mais suculento e que deverão acontecer com mais regularidade. Da minha parte, poderão estar certos, estarei sempre disponível para “infiltrar-me” numa 😊
         Resumindo, esta não é uma leitura que recomendo. Em absoluto. Mas não fecho a porta às letras do autor checo, apesar de não estar com vontade de pegar numa obra sua nos próximos tempos… E desse lado? Há alguém que já tenha lido esta carta e que tenha uma opinião diferente da minha? Adorava que mo dissessem!

         NOTA – 04/10

         Sinopse
         "Carta ao Pai" (1919), um texto que, tal como o título refere, Kafka dirige ao seu pai, homem severo e de temperamento dominador, com quem o autor foi incapaz de desenvolver uma convivência pacífica. Ao longo da carta, Kafka escreve-lhe sobre o efeito negativo e perverso da educação que recebeu e sobre o sentimento de culpa por não conseguir corresponder com as expectativas. Um livro comovente e de uma sinceridade sufocante, que, tal como os seus romances, conduz-nos para temas como o isolamento, o medo e a vulnerabilidade do homem.

Balanço mensal | livros lidos em Janeiro 2019 pelos leitores cá de casa


Em Janeiro, os 3 leitores cá de casa leram 14 livros no total. Participámos em 2 projectos (#HOL74 e #lusiteratura). Eu fiz 3 deliciosas leituras em conjunto! E mais não digo - espreitem o vídeo! Deixo-vos, como é habitual, os links para as opiniões dos livros lidos:
          - Antes de nos encontrarmos, de Maggie O' Farrell

- Os da minha rua, de Ondjaki

- Então, boa noite, de Mário Zambujal
- As mulheres no castelo, de Jessica Shattuck
- A História do Amor, de Nicole Krauss
- Escritos secretos, de Sebastian Barry

          E vocês, o que é que leram? Participaram em algum projecto? Contem-me tudo!



O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá: uma história de amor



Ficha técnica
TítuloO Gato Malhado e a Andorinha Sinhá: uma história de amor
Autor – Jorge Amado
Editora – Publicações Europa – América
Páginas – 74
Datas de leitura – de 31 de janeiro a 01 de fevereiro de 2019

Opinião
         Pode parecer-vos inacreditável, mas eu nunca tinha lido este livrinho. É claro que não me era desconhecido, já tinha visto em bibliotecas e livrarias a sua capa ilustrada com uma andorinha a esvoaçar e um gato às riscas e de bigodes fartos, mas, por esta ou por aquela razão, nunca me tinha sentido tentada a ler. Ora tudo isso mudou quando a Silvéria, do canal The Fond Reader, a aconselhou para o projeto que está a dinamizar durante este mês de fevereiro – #24horas1livro.
         Animada com a opinião/recomendação dela, trouxe-o na última visita que fiz à biblioteca e bendita a hora em que o fiz, porque rendi-me sem pôr qualquer entrave (muito pelo contrário) a esta história infantil (que fiquei a saber que é dado no 8º ano nas aulas de Português), belissimamente ilustrada e composta pela arte e engenho de um dos maiores e melhores contadores de histórias mundiais – o magistral Jorge Amado. É impossível não nos maravilharmos com o jeitinho com que ele cria e conta uma história lindíssima, que tenta derrubar barreiras, ou se quiserem, ideias pré-concebidas, e nos presenteia com uma relação de amor entre um gato e uma andorinha, dois bichos que sempre foram vistos como inimigos um do outro. Apaixonei-me de forma assolapada por este casalinho de bichanos, sobretudo pelo gato, pela sua história, pela sua solidão e pela entrega sem reservas ao amor que lhe nasce quase à primeira vista pela jovem e confiante andorinha. E mais não quero dizer, pois pode ser que haja por aí alguém que, como eu, ainda não leu esta preciosidade e, se assim for, que não seja por culpa minha que não entra na história quase às escuras.
         Esta leitura teve um sabor muito, muito especial por duas ou três grandes razões – primeiro, porque me permitiu participar no projeto interessantíssimo da Silvéria (se quiserem saber mais e participar, cliquem aqui), segundo, fez com que eu regressasse às letras do genial Jorge Amado e terceiro, abriu-me as portas a uma leitura carregadinha de sabor, deliciosa, que me fez sorrir com os “apartes” do narrador, com o sotaque açucarado do português do Brasil e me obrigou a verter umas lágrimas com o desenlace. Foi tudo tão, tão perfeito que até perdoei ao autor a inclusão na história de uma personagem encarnada por aquele bicho rastejante que me provoca calafrios (no mínimo).
         Termino fazendo aquilo que a Silvéria fez comigo – recomendando a todos, sem reservas, que leiam esta obra, que desfrutem de 24 horas (ou mais ou menos) na sua companhia e que se sintam aconchegadinhos com uma das mais belas histórias de amor que conheço. RECOMENDADÍSSIMA!
         Se já a leram ou se ficaram interessados, por favor, deixem os vossos comentários – a “gerência” agradece!
        
         NOTA – 10/10

         Sinopse
         «O mundo só vai prestar
         Para nele se viver
         No dia em que a gente ver
         Um gato maltês casar
         Com uma alegre andorinha
         Saindo os dois a voar
         O noivo e sua noivinha
         Dom Gato e Dona Andorinha»

         Este foi o mote do grande escritor brasileiro para esta fábula dos tempos modernos, que conta a história de amor insólita entre um gato, considerado como a criatura mais egoísta e solitária das redondezas e uma bela e gentil andorinha.
         Com a duração de três doces estações, o improvável romance entre as duas criaturas das «profundas do passado quando os bichos falavam» sobrevive às críticas sociais, à diferença de idades dos dois amantes e às diferenças de carácter entre ambos, para enfim esbarrar na cruel e "natural" evidência, escondida pela paixão inicial, de que «uma andorinha não pode, jamais, casar com um gato».

Livros novos + outros regalitos - Janeiro de 2019


Olá! Partilho convosco e em vídeo quais foram os livros novos que chegaram às estantes em Janeiro, mês de aniversários dos dois adultos cá de casa. No total, são 10 os novos habitantes, 6 dos quais foram prendinhas, 3 foram comprados e um foi o resultado de mais uma colaboração conseguida com a editora Planeta, a quem volto a a agradecer a gentileza de terem respondido, com muita rapidez, ao meu pedido.
No vídeo vêem também o quão feliz fiquei com outros regalitos que nos ofereceram aqueles que nos querem bem. Irão perceber ainda por que razão eu sou a mãe mais babada deste mundo 💗💗💗
Espreitem e comentem! Ficarei encantada com os vossos comentários, como sempre!
Até já!


A história do amor, de Nicole Krauss



Ficha técnica
TítuloA história do amor
Autora – Nicole Krauss
Editora – Publicações Dom Quixote
Páginas – 316
Datas de leitura – de 16 a 19 de janeiro de 2019

Opinião
         Há muito tempo que tinha este livro anotado no caderninho das leituras que quero trazer da biblioteca da terrinha, mas não me recordo de onde retirei a sugestão. Acho que foi de opiniões de amigos do Goodreads em quem confio muito.
         Entrei para a leitura quase às cegas, como aliás prefiro, mas fiquei extremamente contente quando me dei conta, numa das nossas habituais conversas escritas, que, sem combinarmos nadinha, eu e a Paula estávamos a ler (ela a ouvir em audiobook) a mesma obra. Aproveitamos muito bem os minutinhos em que nos dirigimos ao e-mail para partilharmos ideias, opiniões e inclusive dúvidas sobre momentos relativos ao desenlace. Foi, mais uma vez, uma experiência muito proveitosa e que a mim sempre me deixa com um sorriso nos lábios e como que saciada.
         Desengane-se quem pressupõe que esta obra nos oferece uma narrativa lamechas ou, usando uma expressão da Paula, delicodoce. O título pode ser visto como enganador, já que parte dum outro título, duma outra narrativa que une e entretece todas as histórias que compõem a trama. Porque de verdade é disto que se trata – uma trama que “vive” de várias, que as vai entrelaçando, exigindo do leitor bastante atenção e perícia para encaixar as peças narrativas de um puzzle que só fica terminado e claro (de uma claridade ainda assim algo dúbia) nas páginas e linhas finais.
         Leo Gursky é um velhote solitário, habitante de uma grande cidade americana. É judeu, escapou à morte aquando da Segunda Grande Guerra e traz dentro de si muitas vidas e muitas mortes, muita dor, resignação e uma invisibilidade que nos toca profundamente. Alma é uma miúda de 12 anos que também vive nos EUA com a sua mãe e o seu irmão. Perdeu o pai aos 6 anos e essa perda fraturou de forma irreversível a sua vida e a sua família. Zvi Litvinoff é um escritor algo obscuro, da Europa de Leste e foi amigo, durante a juventude, de Leo Gursky. Por fim, o quarto e último narrador da obra é o irmão de Alma, uma criança cuja excentricidade não traz nem acrescenta nada a uma história que se tornaria mais perfeita se, por vezes, não caísse na redundância ou em momentos um pouco monótonos, como esses que estão associados a Bird, irmão de Alma, e o seu fervor religioso.
         Foi a primeira vez que li Nicole Krauss e gostei imenso, muito mesmo, da experiência. O seu estilo é lindíssimo, lírico, introspetivo, com passagens que me deixaram com uma vontade louca de as sublinhar (só não o fiz porque o livro veio da biblioteca) e com duas das personagens mais enternecedoras e comoventes com que lidei nos últimos tempos, não fossem elas um velhote (Leo) e uma criança (Alma). Leo é, sem qualquer tipo de dúvida, alguém de quem me condoí como poucas vezes o fiz com uma pessoa ficcionada. O amor que, mesmo já velho, ainda devota à mulher da sua vida, a sua inocência e credulidade, a sua invisibilidade voluntária perante alguém que é sangue do seu sangue e os gestos carregadinhos de ternura que tem para com outra personagem nas derradeiras páginas da obra, tudo isto compõe alguém que eu não esqueço, nem quero esquecer. De Alma recordarei os esforços hercúleos de uma menina adolescente que carrega nos ombros a tristeza de uma família órfã de pai e de marido. Às outras personagens dei e continuo a dar um espaço bem mais secundário, mas uma delas manter-se-á comigo como sendo aquela que me reservou a surpresa “mais surpreendente” do final do livro.
         Acho que não vale a pena alongar-me mais, pois o resto deixo para quem queira dar uma oportunidade a esta história maravilhosa, que nos oferece as mais variadas facetas do amor. Peço-vos, por favor, que tomem nota desta minha recomendação e que não se esqueçam dela, porque não se arrependerão – o estilo da autora, com passagens inesquecíveis, não o permitirá.
         Obrigada, Paulinha, por mais uma viagem em conjunto! Venha a próxima!

         NOTA – 09/10

         Sinopse
         Leo Gursky tenta sobreviver mais algum tempo, batendo no radiador todas as noites para dar a saber ao seu vizinho de cima que ainda está vivo e fazendo recair sobre si as atenções ao balcão do Starbucks do bairro. Mas a vida nem sempre foi assim: há sessenta anos, na aldeia polaca onde nasceu, Leo apaixonou-se e escreveu um livro. E, embora não o saiba, esse livro também sobreviveu: atravessou oceanos e gerações, e mudou vidas. Alma tem catorze anos e foi assim baptizada em honra de uma personagem desse livro. Passa a vida a vigiar Bird, o seu irmão mais novo (que acredita poder ser o Messias) e a tomar notas num caderno intitulado Como Sobreviver na Selva – Volume III. Mas no dia em que uma misteriosa carta lhe chega pelo correio começa uma aventura para descobrir a sua homónima e salvar a família. Neste seu extraordinário novo romance, Nicole Krauss criou algumas das personagens mais memoráveis e tocantes da ficção recente numa história transbordante de imaginação, humor e paixão.

Então, boa noite, de Mário Zambujal



Ficha técnica
TítuloEntão, boa noite
Autor – Mário Zambujal
Editora – Clube do Autor
Páginas – 150
Datas de leitura – de 08 a 09 de janeiro de 2019

Opinião
         Digo-vos que há já algum tempo que queria ler alguma obra de Mário Zambujal. É um autor sobejamente conhecido e “rodado” na nossa literatura, mas nunca havia sentido vontade de experimentá-lo. Tudo isso mudou quando comecei a seguir o canal de uma menina, muito mais novinha do que eu, (sim, estou a falar do canal da Vanessa – The bookish deer) e a deliciar-me com as opiniões que ela ia tecendo sobre o quão maravilhoso havia sido descobrir Mário Zambujal.
         Por tudo isso, assim que me dei conta de que o autor havia lançado, em novembro do ano passado, a sua mais recente obra, entrei em contacto com a editora Clube do Autor e pedi-lhes que ma solicitassem para leitura e correspondente opinião. Agradeço, desde já, a rápida resposta que me deram, pois, passados poucos dias, a obra Então, boa noite morava nas minhas estantes.
         Da minha parte, não houve, e peço desculpa por isso, uma leitura tão célere como normalmente faço quando faço pedidos às editoras. Mas redimi-me dessa falta em janeiro, lendo-o em pouco mais de vinte e quatro horas. Dessa leitura rápida, rápida, destaca-se uma palavra que não me sai da memória sempre que penso na trama e sobretudo no protagonista – lábia.
         Afonso Júlio é um sedutor nato, com características algo “baratas” e muita, muita lábia. E eu tenho que confessar que caí na lábia dele e fui lendo com um sorriso nos lábios as suas peripécias, os seus desarranjos amorosos, perdoando-lhe a sua suposta valentia e fazendo força para que ele conseguisse o seu final feliz. Não me incomodou, como poderá incomodar a algumas leitoras, essa lábia e todos os truques e malabarismos que faz com as suas conquistas femininas, não senti a minha feminilidade ofendida e compreendi, creio eu, aquilo que agrada e atrai do estilo de Mário Zambujal a outros e outras leitoras, como a Vanessa. Gostei do seu humor, da sua boa disposição com uma pitada de ironia e acima de tudo da forma como brinca com as palavras para, a partir delas, espalhar sedução e charme.
         Foi, no cômputo geral, uma leitura agradável que pecou, no entanto, pelo seu final, que considero forçado, previsível e que manchou uma experiência que, até às suas páginas finais, estava a ser divertida e bem-disposta. Achei que o desenlace que o autor deu às peripécias e “demandas” de Afonso Júlio poderia ter sido melhor, mais original e mais adequado a tudo aquilo que me manteve agarrada à trama e desejosa de saber que reviravoltas e estratagemas mais iria usar o protagonista para levar a bom porto um pedido de um familiar falecido e para simultaneamente dar um rumo à sua vida de sedutor inveterado.
         Para finalizar, quero agradecer, uma vez mais, à editora o envio da obra, dizer que gostei deste primeiro contacto com as letras de Mário Zambujal e que não ponho de parte a ideia de ler mais obras suas.
         E vocês, já leram Mário Zambujal? Recomendam-me algum dos seus títulos?
             
          NOTA – 07/10

         Deixo-vos ainda o vídeo de opinião – sobre esta mesma obra – que mora no canal de O sabor dos meus livros. No mesmo poderão também ouvir a opinião acerca de outra obra que li em janeiro – Os da minha rua, de Ondjaki.



        Sinopse

         "Gostei de muitas mulheres mas de nenhuma o suficiente para ser a última."
Fiel ao registo a que já habituou os seus leitores, Mário Zambujal regressa às livrarias nacionais com mais um romance pleno de humor e peripécias, aventuras protagonizadas por um sedutor que só consegue estar acordado durante a noite. Além dos inconvenientes de tal desordem, a vida deste rapaz vê-se ainda mais complicada quando inesperadamente recebe uma herança especial.
Então, Boa Noite relata as aventuras de Afonso Júlio, quase sempre fora de horas, na tentativa de cumprir o último desejo do seu padrinho: encontrar uma mulher, de quem só sabe o nome, e casar-se com ela. Nada impossível, pensarão alguns, mas Afonso Júlio vive com uma mulher e, como se isso fosse pouco, está enamorado por outra mulher. O que lhe vale é o destino.
"Cumpre-me respeitar a sua vontade (...) Pena que não me tivesse fornecido um único contacto para chegar à fala com essa menina. (...) Penosa investigação me espera mas sossegue, padrinho Josué, hei-de enfiar uma aliança no dedinho da Renata Jacinta. Embora pensando noutra."