O homem que plantava árvores, de Jean Giono


Ficha técnica
TítuloO homem que plantava árvores
Autor – Jean Giono
Editora – Marcador
Páginas – 70
Data de leitura – 22 de setembro de 2017

Opinião
Esta obra é uma pequenina preciosidade. Recorda-nos o quanto podemos fazer pelo mundo em que vivemos apenas com as nossas mãos e a nossa vontade.
Retrata a determinação de um só homem, de um homem que vive apenas na companhia do seu rebanho, do seu cão e da natureza que o envolve e que é a viva prova de que “os homens podem ser tão eficazes como Deus noutras áreas para além da destruição.” (pág. 34)
É um bálsamo que nos aquieta na dezena de minutos que tarda a sua leitura, mas que se mantém connosco muito e muito tempo depois.
É uma janelinha que nos ilumina e nos faz abraçar o otimismo.
Pessoalmente foi ainda um analgésico que preparou o caminho para a leitura cruíssima que se lhe seguiu.
Cumpriu assim todos os propósitos.

NOTA – 08/10

Sinopse

Jean Giono escreveu este conto lendário nos anos 50 do século XX, com a esperança de desencadear um programa de reflorestação a nível mundial que promovesse a regeneração do planeta. Uma mensagem muito à frente do seu tempo. Inspiremo-nos no incansável pastor que transforma montes hostis numa magnífica floresta.

A casa do sono, de Jonathan Coe


Ficha técnica
TítuloA casa do sono
Autor – Jonathan Coe
Editora – Edições ASA
Páginas – 320
Datas de leitura – de 15 a 22 de setembro de 2017

Opinião
Sempre fui dorminhoca, sempre tirei prazer em dormir, em enroscar-me debaixo dos lençóis, fechar os olhos e deixar-me ser invadida pelo sono. Em jovem reivindicava o direito indiscutível de dormir as minhas dez horinhas. Agora reconheço que a maternidade moldou esse direito, reduzindo-o a quantidade bem menores. Contudo, o prazer mantém-se, sobretudo naqueles dias gelados de inverno, em que nada há melhor do que rolar para o lado, aconchegar os cobertores e regressar ao mundo do silêncio, da quietude e dos sonhos.
Por ser tão dorminhoca, por apreciar tanto o sono e as suas características tão beneficamente saborosas, decidi, após ter lido algumas opiniões positivas sobre a obra A casa do sono, trazê-la da biblioteca e embalar na sua leitura.
Arranquei com a mesma numa noite como uma outra qualquer, em que sempre leio já deitada na cama, para melhor entrar no mundo dos sonhos. Anotei mentalmente a advertência do autor sobre o facto dos capítulos ímpares se reportarem aos anos de 1983-84 e os pares às duas últimas semanas de junho de 1996. Fui sendo apresentada às personagens principais e constatando que praticamente todas se debatiam com o sono e as suas variantes. Fui assimilando os sonhos, os projetos, as ambições de todos e verificando o quanto esses mesmos sonhos, projetos, ambições se concretizavam ou não. Fui absorvendo o estilo aparentemente simples do autor, por vezes irónico, sarcástico, humorístico, por vezes realista, amargo, sofrido. Fui ganhando empatia por Sarah, por Robert. Fui ganhando uma clara antipatia por Gregory. Fui aprendendo as fases do sono e que dão nome às partes que dividem a obra. E fui sendo surpreendida com as reviravoltas e torcidas da narrativa.
Mesmo nos dias em que o “João-Pestana” (ou “Sandman”) ameaçava fechar-me as cortinas e enviar-me para a Fase Um de um retemperador soninho, teimei em ler mais uma página, mais um capítulo, porque todas as peças se iam encaixando de uma forma quase perfeita e o sabor que ia retirando da leitura da caixa que emoldurava as vidas de quatro ou cinco pessoas banais, relacionadas por vivências do passado, era cada vez mais apelativo, culminando num desenlace surpreendente e muito satisfatório.
Foi assim uma leitura deveras interessante, com um toque de humor britânico e que me leva a querer conhecer mais do que já escreveu Jonathan Coe, um autor com muitos traços de brilhantismo.
Uma obra que recomendo, com personagens muito peculiares, como podem comprovar pela sinopse, mas que merecem que as conheçamos!

NOTA – 08/10

Sinopse
Um enorme edifício no alto de uma falésia, o barulho das vagas, um labirinto de corredores vazios onde o ruído dos passos ecoa… A propriedade de Ashdown abrigou nos anos oitenta uma residência de estudantes: aí encontramos Sarah, que sofre de narcolepsia e não consegue distinguir os sonhos da realidade; o seu namorado, Gregory, que só atinge o orgasmo ao pressionar com os dedos os olhos de Sarah; Terry, um pretensioso crítico de cinema que dorme pelo menos catorze horas por dia e nunca consegue recordar o que sonhou; e Robert, capaz de amar sem limites. Quatro personagens simultaneamente trágicas e hilariantes, capazes de tecer entre si relações extremas que, contudo, não os impedirão de se afastarem.
Doze anos depois, a residência é transformada numa casa de saúde especializada em perturbações do sono. Estranhamente, os ocupantes do edifício voltam a ser os mesmos. Mas nem sempre se lembram dos laços complicados que em tempos ligaram as suas vidas...
Movendo-se entre o passado e o presente, A Casa do Sono é um romance desconcertante, uma estranha e dilacerante história de amor sobre a realidade e o sonho, a memória e a identidade.

Para onde vão os guarda-chuvas, de Afonso Cruz


Ficha técnica
TítuloPara onde vão os guarda-chuvas
Autor – Afonso Cruz
Editora – Alfaguara
Páginas – 622
Datas de leitura – de 05 a 15 de setembro de 2017

Opinião
Há muito que ouvia dizer que Para onde vão os guarda-chuvas é a melhor obra de Afonso Cruz ou pelo menos uma das melhores. Talvez seja. Porém, não encontro nela nada que a destaque das outras que já li – Os livros que devoraram meu pai e Flores. Isto não significa que não me tenha agradado. Não, agradou-me muito, mas, no meu entender, não é uma obra “mais-prima” do que as suas congéneres.
Em Para onde vão os guarda-chuvas tropecei de novo em passagens deliciosamente perfeitas, em paralelismos muito assertivos entre a vida e um tabuleiro de xadrez, em fotografias esclarecedoras e num conjunto de personagens que só poderiam sair da mente lúcida e mágica de Afonso Cruz. Contudo e paradoxalmente, aquilo que mais me emocionou, que mais me tocou foi ao mesmo tempo aquilo que me fez questionar o número de páginas da obra, aquilo que não permite que lhe atribua uma nota mais elevada. Falo da personagem de Isa.
Isa é o âmago, a essência da obra, mas é superficialmente mencionado nas páginas iniciais e só regressa à narrativa quase cem capítulos depois. Compreendo que esse “interregno” tem como propósito explicar o porquê de um muçulmano ter adotado uma criança cristã, mas Isa é demasiado especial para estar tanto tempo sumido da narrativa. Compreendo se afirmarem que a obra vai muito mais além do que as suas personagens, que aflora muitos temas cruciais à nossa existência, mas os dias em que passei na companhia de Isa iluminaram-se com uma luz muito própria, com uma vontade louca de sentá-lo no meu colo e dar-lhe um abraço interminável, com um aperto no peito que ainda hoje me acompanha, com gritos e soluços mudos, com um sorriso coberto de lágrimas por testemunhar o fim de uma luta – ter conseguido aquilo que tanto, mas tanto desejava – ser o menino da sua “mãe viva”.
Custa-me assim perceber por que uma obra com mais de seiscentas páginas não tenha mais de Isa. Como pode um autor criar uma personagem tão bela, tão carente, tão generosa, tão sofrida, tão cativante e não lhe dar mais protagonismo? E como pode um autor criar um Isa, dar-nos a possibilidade de conhecê-lo, de amá-lo e não antever que nos sintamos frustrados por apenas estar ao seu lado durante um terço da obra?...
Uma coisa é certa – nunca me esquecerei de Isa. E isso devo-o à magistralidade de Afonso Cruz. Posso estar descontente com o facto de ter esperado perto de cem capítulos para conhecê-lo, mas esse descontentamento é suavizado por tudo o resto, por tudo o que faz de Isa uma personagem única, inesquecível. Por isso, obrigada, Afonso Cruz.
Tenho noção de que esta opinião é algo redutora, que haveria muito ainda para dizer ou comentar sobre Para onde vão os guarda-chuvas. Mas não me peçam mais, porque não me é possível satisfazer-vos. Colmato a falha partilhando algumas passagens plenas de sabor e de genialidade:

Para onde vão os guarda-chuvas? São como as luvas, são como uma das peúgas que formam um par. Desaparecem e ninguém sabe para onde. Nunca ninguém encontra guarda-chuvas, mas toda a gente os perde. Para onde vão as nossas memórias, a nossa infância, os nossos guarda-chuvas?” 

“(…) como um pensamento está dentro do cérebro, como o verbo sentar está dentro das cadeiras.” (pág. 49)

“ – Um homem e uma mulher (…) são um puzzle de duas peças que só se resolve com o amor”. (pág. 68)

“ – Posso continuar cristão?
(…)
“ – Podes, desde que sejas um bom muçulmano.” (pág. 379)

NOTA – 08/10

Sinopse
O pano de fundo deste romance é um Oriente efabulado, baseado no que pensamos que foi o seu passado e acreditamos ser o seu presente, com tudo o que esse Oriente tem de mágico, de diferente e de perverso. Conta a história de um homem que ambiciona ser invisível, de uma criança que gostaria de voar como um avião, de uma mulher que quer casar com um homem de olhos azuis, de um poeta profundamente mudo, de um general russo que é uma espécie de galo de luta, de uma mulher cujos cabelos fogem de uma gaiola, de um indiano apaixonado e de um rapaz que tem o universo inteiro dentro da boca.
Um magnífico romance que abre com uma história ilustrada para crianças que já não acreditam no Pai Natal e se desdobra numa sublime tapeçaria de vidas, tecida com os fios e as cores das coisas que encontramos, perdemos e esperamos reencontrar.

Ulisses, de Maria Alberta Menéres


Ficha técnica
TítuloUlisses
Autora – Maria Alberta Menéres
Editora – Edições ASA
Páginas – 68
Datas de leitura – de 12 a 16 de setembro de 2017

Opinião
Esta foi a terceira leitura que o D. trouxe para férias e foi a que tanto ele como eu menos gostamos. Ulisses e as suas façanhas não nos conquistaram…
Reconheço que a versão infanto-juvenil deste clássico da literatura mundial está muito bem conseguido, Maria Alberta Menéres aproximou-o à faixa etária dos miúdos da idade do meu, usando uma linguagem muito acessível e resumindo em pouco mais de cinquenta páginas as múltiplas aventuras do protagonista de Odisseia, de Homero. Contudo, ou seja porque narra uma realidade muito distante da que o meu filho vive ou porque essa realidade convive muito de perto com um mundo efabulado ou ainda porque a Antiguidade Clássica nunca me atraiu, sentimos que o que lemos não é apelativo, não nos diz nada e muito dificilmente será recordado por razões que não aquelas que estão associadas à obrigatoriedade da sua leitura para a disciplina de Português.
Sendo assim, apesar de admirar o trabalho importantíssimo que Maria Alberta Menéres tem levado a cabo em prol da literatura, não sou capaz de recomendar esta leitura. É muito provável que haja leitores que se entusiasmem e se maravilhem com as proezas de Ulisses, mas infelizmente nem eu nem o meu pequenote fazemos parte deles…
Venha a próxima leitura!

NOTA – 05/10


Sinopse
Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.
Foi Homero, poeta grego, quem contou no seu livro Odisseia as façanhas de Ulisses, rei de Ítaca, adorado por todos os que o conheciam.
Muitas e estranhas foram as viagens que fez à volta do mundo de então e de si próprio. A sua fama correu de boca em boca e todos o consideravam como o mais manhoso dos mortais e o mais valente marinheiro.
Grande parte da sua vida, passou Ulisses navegando de aventura em aventura, por entre Ciclopes e Sereias encantatórias ou tentando libertar-se da misteriosa Feiticeira Circe para regressar à sua fiel Penélope. Diz-se que, nesses tempos de antigamente, não houve homem que mais sofresse e mais feliz fosse do que o espantoso Ulisses