Elmet, de Fiona Mozley



Ficha técnica
TítuloElmet
Autora – Fiona Mozley
Editora – Clube do Autor
Páginas – 286
Datas de leitura – 01 a 04 de junho de 2018

Opinião
A primeira coisa que me apetece dizer é que Elmet é um livro estranho, enigmático. Durante toda a leitura tive que constantemente recordar-me de que a sua trama ocorre num passado muito recente e não há séculos atrás, pois as paisagens, o ambiente, os costumes e o modo de vida dos protagonistas parecem sair de um romance dos séculos XVIII ou XIX. Outro paralelismo que se me ocorreu prendeu-se com o facto de que tudo o que mencionei, ou seja, tudo o que compõe a narrativa parecer igualmente sair de uma fábula ou de um conto de fadas, com uma clara e preponderante dicotomia entre o bem e o mal e uma família de três protagonistas unida contra o mundo.
Us against the world – John, Cathy e Daniel são respetivamente pai e filhos e desde muito cedo que aprenderam a depender apenas uns dos outros. John é um homenzarrão, a quem ninguém consegue vencer numa luta física. Ganha o seu sustento com os punhos e, após a morte da avó materna dos seus filhos, decide construir uma casa num bosque que está num terreno que supostamente teria pertencido à sua mulher. Com a ajuda dos seus filhos adolescentes, pouco a pouco, tronco a tronco, vai erguendo as paredes da cabana que será o lar dos três, um lar que permitirá a John distanciar-se de um mundo que já não lhe diz nada e continuar a estreitar os laços que umbilicalmente o une ao que de mais precioso tem na vida – os seus filhos.
A relação entre John Cathy e Daniel é ao mesmo tempo estranha e mágica. Não falam muito entre si, mas as palavras são supérfluas quando existem um laço (a bound – uma das palavras de que mais gosto da língua inglesa) tão visceral entre os três. Poucas páginas depois de ter iniciado a leitura, compreendi algo que o resto da obra apenas veio confirmar – a rotina dos três estava matematicamente pré-estabelecida, cada um sabia ao mínimo pormenor o que teria de fazer e sobretudo o quanto os outros estariam ali para o que fosse preciso. Apesar do seu aspecto intimidante e sorumbático, John consegue, com raros gestos e ainda mais raras palavras, passar para o leitor o quanto ama os filhos e o quanto está disposto a fazer para protegê-los. Cathy é uma esquiva “gata selvagem”, uma autêntica maria-rapaz, sem noção da beleza que vai tomando conta dela à medida que cresce e com uma adoração ilimitada pelo pai. Já Daniel é mais frágil, mais inseguro, esquivo e simultaneamente carente. Juntos, os três compõem a parte mais bela, mágica, triste e dorida da obra e aquela que ficará comigo por muito tempo.
Poderia adiantar um pouco mais sobre a trama, mas prefiro não fazê-lo. Refiro apenas que a mesma se divide em partes escritas em letras diferentes, narradas em primeira pessoa por Daniel e que uma delas se passa num tempo posterior ao da outra e nos vai dando dicas do que poderá ter acontecido à família. Essa parte associada às prolepses coloca a semente da curiosidade e angústia no leitor ao mesmo tempo que o faz conhecer melhor Daniel e o seu apego àquilo que comanda os seus atos e a sua vida. Também confirma aquilo que se suspeita (pelo menos eu suspeitei) desde o início sobre o filho de John, mas, na minha opinião, é a única passagem desnecessária da obra, aquela que a autora poderia perfeitamente ter deixado na gaveta.
Não posso terminar esta opinião sem fazer referência ao título da obra e ao quanto este vai ao encontro da sensação que mencionei no início, isto é, de que, propositadamente ou não, Fiona Mozley escreveu o seu romance de estreia ambientado no presente/passado muito recente, mas utilizando uma panóplia de elementos que me fizeram recordar romances de séculos passados e inclusive fábulas e contos de fada. Elmet, segundo uma citação que abre a obra, foi o último reino celta independente em Inglaterra e, no século XVII, o território que lhe correspondia continuava a ser considerado as badlands, um refúgio para quem vivia à margem da lei. Ora, uma informação que, mal pegamos no livro, nos pode passar despercebida, encaixa direitinho, milimetricamente com tudo o que lemos ao longo da obra e com o seu teor, o seu tom e, por que não, com o estilo que denota muita maturidade da autora.
Creio que, por tudo o que fui dizendo, é evidente que esta leitura não é simples, nem muito menos corriqueira. É, como já afirmei, estranha, enigmática (a capa não engana e assim o confirma), poderá não ser para todo o género de leitor e poderá deixar-vos, como me deixou a mim, “coxos”, incompletos e incrédulos. Porém, é merecedora da vossa atenção e, sem dúvida, merecedora de estar entre os finalistas do Man Booker Prize. Arrisquem e digam depois se valeu a pena tomar esse risco.

Agradeço muito à editora Clube do Autor o envio desta obra em troca de uma opinião sincera.

NOTA – 09/10

Sinopse
Daniel está a ir para Norte e procura alguém. A vida simples que levava com a irmã Cathy e o pai desapareceu; tornou-se ameaçadora e sinistra. Viviam os três à margem da sociedade, numa casa que o pai construíra no bosque, caçando e procurando comida. O pai dissera-lhes que a pequena casa em Elmet era deles, mas afinal isso não era verdade. E alguns homens daquela terra, gananciosos e vorazes, começaram a vigiá-los de perto.
Esta é uma história sobre família, amor e violência; uma análise dura e implacável à sociedade contemporânea, ao indivíduo e à realidade, aos conceitos de classe e às discrepâncias entre quem somos e quem somos capazes de ser.

Balanço mensal - livros lidos e adquiridos/recebidos em maio



Estamos a meio de junho e só agora é que tive tempo (e ânimo) para sentar-me e fazer o balanço do mês de maio que já lá vai… Quero pedir desculpas a quem me segue assiduamente por esta ausência, mas quando o trabalho manda em todos os passos que dou, é impossível mimar e alimentar este cantinho que já é tão vosso como meu.
Agora que consigo, por fim, ver luz ao final do túnel quero tentar pôr em dia os textos que tenho em atraso e partilhar convosco tudo o que tenho andado a ler, a comprar e a acrescentar à minha wishlist.
Maio foi um mês de muito boas leituras. Mas também foi o mês em que desisti de duas que não fizeram clique nem me embalaram nos poucos minutos em que, diariamente, pegava no livro que estava na mesinha de cabeceira e tentava evadir-me da realidade.
 Em dois ou três dias devorei Deixa-me Odiar-te (gentilmente enviado pela editora Clube do Autor) e descobri, depois de tantos e tantos de leitora, o que é isso de um romance chicklit. Não é o meu tipo de obra favorito, mas, caramba, adorei a experiência, adorei a sua previsibilidade e a enxurrada de clichés que inundam a história de dois jovens que trabalham juntos, que se odeiam, mas que se prevê, desde a página inicial, que vão viver uma história de amor muito divertida, cheiinha de contratempos e com um inevitável final feliz. Lê-la foi uma lufada de ar fresco e, como tal, atribuí-lhe a nota de 09/10.
A obra que se lhe seguiu também foi lido num curtinho espaço de tempo. Voltei às letras de Possidónio Cachapa com Segura-te ao meu peito em chamas e admito que não gostei de todos os contos que compõem a obra. Contudo, há dois que são de uma beleza transcendental, que me tocaram e ainda estão comigo. São mais um exemplo do quão bem escreve este autor alentejano e do quanto vale a pena descobrirmos novos autores lusos. Possidónio Cachapa é, como já disse outras vezes, um nome a ter em conta. Eu pelo menos quero, e muito, ler mais dele. A esta colectânea dei 08/10 e aproveito para agradecer, uma vez mais, o empréstimo aos cunhadinhos.
Há muito tempo que queria ler O czar do amor e do tecno. Desde que li a correspondente opinião que a Márcia Balsas deixou no seu Planeta. Sabia de antemão que não seria uma leitura fácil, já que, nas palavras da Márcia, a narrativa se assemelhava a um comboio que parava em muitíssimas estações e que, enquanto leitores, nos veríamos obrigados a entrar e sair continuamente nessas estações. Embarquei repleta de expetativas e as mesmas não foram goradas. A escrita de Anthony Marra é primorosa, as personagens densas, imperfeitas e muito especiais e o tom mordaz, crítico, irónico e ao mesmo tempo emotivo e dorido. Foi assim uma viagem muito saborosa e à qual atribuí a classificação de 09/10.
Maio também me permitiu regressar a um conflito pelo qual tenho uma obsessão doentia. Li Rapariga em Guerra e Como se eu não existisse e voltei a sofrer horrores ao ler os horrores que se perpetraram na Guerra Civil Jugoslava. “Mordi-me” de repulsa e terror perante a história de uma menina que perde a infância numa estrada barrada por soldados/mercenários e perante a história de uma jovem mulher que, nas mãos de outros soldados/mercenários compreende de pior forma possível o que é ser vergada, humilhada e destituída da essência que nos torna humanos e únicos. Foram, como devem calcular, duas leituras poderosíssimas, que me deixaram extenuada, mas com a obsessão inabalável, ou seja, não devo demorar muito tempo em embrenhar-me noutra de cariz semelhante. A Rapariga em guerra atribuí, depois de alguma reflexão, a nota máxima e a Como se eu não existisse a nota imediatamente abaixo, ou seja, um 09.
Intervalei a leitura destas duas obras duras com outra vinda de terras que têm um sabor mágico, pelo menos para mim. Li Tão amigas que nós somos, da chilena Marcela Serrano e adorei o primeiro contacto com esta autora que já me piscava o olho há bastante tempo. A história de quatro amigas, muito diferentes entre si, mas unidas como só as verdadeiras amigas conseguem ser, embalou-me e aconchegou-me como poucas o fazem e, para além de ter ficado com o orgulho feminino ainda mais em alta, saboreei com um prazer muito especial o regresso a paragens sul-americanas e a uma escrita com textura e temperaturas muito próprias. Fiquei com água na boca e agora quero ler mais de Marcela Serrano. A este primeiro contacto com as suas letras dei 09/10.
Referi no início deste balanço que a estas seis obras lidas se juntam duas que não consegui terminar. Uma foi uma experiência falhada no mundo chicklit. Li mais de metade de Amores Proibidos, de Jill Mansell, mas a impressão pouco apelativa que fiquei desde as páginas iniciais nunca se desvaneceu e não criei nenhuma empatia com qualquer uma das personagens e só consigo recordar que todos pareciam ter amantes ou querer ter amantes… A outra experiência falhada foi com uma obra “mais séria” – Paisagem com mulher e mar ao fundo, de Teolinda Gersão. Li apenas 20 ou 25 páginas, mas não quis mais… Não duvido que a obra seja muito boa, mas não se encaixou num mês de muito trabalho e pouca concentração. Talvez lhe pegue mais tarde.

Entretanto, maio trouxe novos habitantes para a estante. No dia da mãe, os meus homens mimaram-me com dois livros que estavam na minha wishlist – O caderno do avô Heinrich, de Conceição Dinis Tomé e Debaixo da pele, de David Machado. Para além destes, outros três chegaram à estante porque não me controlei e pequei em promoções feitas pela WOOK. Comprei Sete minutos depois da meia-noite, de Patrick Ness, As últimas linhas destas mãos, de Susana Amaro Velho e o ansiadíssimo Meridiano 28, do maravilhoso Joel Neto. Cinco novos habitantes que ficarão à espera da sua vez e que sei que me irão maravilhar.

Concluindo, maio foi um mês mesmo muito proveitoso. Só espero que junho lhe siga as pisadas. Para já, está bem encarreirado.
E como foi o vosso mês de leituras e aquisições? Já leram alguma das obras que comprei/recebi? Se sim, por favor, digam o que acharam, sem revelar demasiado.

Termino deixando-vos, como é habitual, os links para acederem à opinião completa das obras lidas em maio:
§  Deixa-me odiar-te, de Anna Premoli
§  Segura-te ao meu peito em chamas, de Possidónio Cachapa
§  O czar do amor e do tecno, de Anthony Marra
§  Rapariga em guerra, de Sara Novic + Como se eu não existisse, de Slavenka Drakulic
§  Tão amigas que nós somos, de Marcela Serrano

Tão amigas que nós somos, de Marcela Serrano



Ficha técnica
TítuloTão amigas que nós somos
Autora – Marcela Serrano
Editora – Círculo de Leitores
Páginas – 312
Datas de leitura – 24 a 29 de maio de 2018

Opinião
No dia 18 deste mês (maio) participei num encontro onde se reuniu um número considerável de amantes de livros e de bibliotecas e foi ao ouvir uma das participantes que me recordei desses dias (que parecem estar lá longe, longe) nos quais me sentava ao computador e passava minutos infindáveis a cuscar as páginas oficiais de editoras espanholas em busca de novidades. Foi assim que descobri novos autores e obras que aqui em Portugal não se haviam publicado.
Retomando o que estava a dizer sobre o encontro, a palestrante fez uma exposição apaixonante acerca de livros, viagens e autores favoritos e mencionou Marcela Serrano, uma chilena que eu queria muito conhecer desde esses dias de cusquice nas páginas das editoras espanholas. Recordei de imediato um dos seus títulos – Nosotras que nos queremos tanto – e, já em casa, saltei de alegria quando constatei de que a biblioteca da minha terrinha tinha essa obra e em português!
Tão amigas que nós somos proporcionou-me uma leitura muito especial e que vai ficar comigo durante muito tempo. Tenho um fraquinho e um carinho por terras sul-americanas, pelos seus povos, pela sua História, pela sua geografia (que viagem de sonho seria calcorrear os seus cantinhos… menos aqueles onde pudesse ter encontros nada desejáveis com determinados bichos que já deveriam estar extintos…) e nunca irei esquecer o quanto me marcou o primeiro contacto que tive com as suas letras e os seus escritores. Cuando se fala em Chile, para mim fala-se de Isabel Allende e dos seus primórdios, de romances polvorizados de amores quentes, de famílias estranhas e adoráveis, de fábulas, de superstições e da tenacidade de um povo em querer a todo o custo ser livre. Fala-se igualmente de Pablo Neruda e da beleza magistral das suas palavras poéticas. E agora, após a leitura de Tão amigas que nós somos, fala-se ainda de Marcela Serrano.
Acho que o título diz muito do que se pode encontrar na narrativa deste livro. Privamos com quatro amigas, quatro mulheres de idades e proveniências distintas, mas que encontram no colo e no ombro de cada uma o porto de abrigo e de refúgio. Ana, a narradora, Maria, Sara e Isabel são mulheres que me conquistaram pela sua garra, pelos seus ideais feministas, pelas suas imperfeições e também pelas suas fraquezas e debilidades. A juventude ou os seus primeiros anos de adultas colidem com a ditadura de Pinochet e assim, ao mesmo tempo que fui conhecendo mais pormenorizadamente quem eram as quatro protagonistas, fui sorrindo e sentindo aquele gostinho tão saboroso ao comprovar a força e as estratégias bem femininas que todas elas foram pondo em prática para quebrar barreiras políticas, sociais, sexistas e domésticas. Nem sempre foram bem-sucedidas, choraram, sentiram-se sós, amaldiçoaram-se, sofreram e caíram inclusive em depressão. Mas, mesmo nestes momentos, mostraram-se mulheres e eu amei-as ainda mais.
Após uma leitura tão dura como Rapariga em guerra e perspetivando que essa dureza iria continuar com a leitura que se lhe seguiria, Tão amigas que nós somos cumpriu com o seu objetivo. Deixou-me aconchegadinha, com o orgulho de ser mulher nos píncaros e com a cabeça a borbulhar de sonhos e vontades de transpor distâncias geográficas e ir até ao outro lado do mundo, onde as estações estão viradas do avesso e a os espaços de um país entrincheirado por um oceano e uma cordilheira atraem-me como poucos. Por isso, só me resta recomendar vivamente a leitura desta obra de mais uma chilena que me conquistou. Não sei se será fácil encontrarem esta obra, mas vale a pena fazer o esforço de procurá-la em bibliotecas ou alfarrabistas.

NOTA – 9,5/10 (porque queria mais, talvez da narradora, que se esconde um pouco atrás do que nos conta sobre as suas amigas)
Sinopse
Quatro mulheres à beira da maturidade falam apaixonadamente e sem inibições das suas histórias pessoais (...) Retrato de um sector urbano e cosmopolita da sociedade chilena e das suas vicissitudes nos últimos 30 anos, confronta-nos antes de mais e sem concessões com os claros-escuros da condição feminina....

Rapariga em Guerra, de Sara Novic + Como se eu não existisse, de Slavenka Drajulic



Ficha técnica
TítuloRapariga em guerra
Autora – Sara Novic
Editora – Minotauro
Páginas – 234
Datas de leitura – 13 a 19 de maio de 2018
  

Opinião
Hoje vou fazer algo que apenas fiz poucas vezes aqui no blogue – vou escrever um texto de opinião conjunto, isto é, vou partilhar convosco como foi a minha leitura de duas obras que abordam o mesmo tema numa perspetiva feminina – a guerra nos Balcãs.
Não é novo para ninguém o meu fascínio (algo mórbido, eu sei) pelos grandes conflitos bélicos. Não me canso de procurar obras que se centrem nas duas Guerras Mundiais, na Guerra Civil espanhola ou na Guerra Civil jugoslava ou Guerra da Bósnia. Já li um número infindável de romances, de ficção ou não-ficção, que me foram ajudando a entender melhor o porquê destes conflitos, o quando e onde e, sobretudo, as suas aterradoras consequências. Contudo, estes dois últimos que li trouxeram-me uma perspetiva algo diferente – permitiram que eu conhecesse o conflito jugoslavo a partir do ponto de vista feminino – de uma criança e de uma jovem.
Em Rapariga em guerra, viajamos até Zagreb. Estamos no ano de 1991, ano que trará a independência da Croácia e o início do conflito entre o recente país independente e a Sérvia. Ana, de dez anos, vive com os seus pais e a irmãzinha, Rahela, na capital croata e viverá, da pior forma possível, essa guerra que destruirá toda a paz aparente que existia entre os estados que compunham a República da Jugoslávia. Dez anos mais tarde, Ana reside nos Estados Unidos, mas o leitor facilmente entende que a jovem, agora com vinte anos, enfrenta os seus dias como se fosse uma sonâmbula. Frequenta o terceiro ano de Literatura na NYU, namora com Brian, para todos os efeitos é uma jovem normal, igual a tantas outras, mas bastou um convite para ir falar, na ONU, da sua experiência como sobrevivente da Guerra Civil Jugoslava, para que essa aparente normalidade estale e se compreenda ainda melhor o quanto a rotina e a vida de Ana se assemelham às de um autómato, que se levanta, trata das tarefas diárias, sai com os amigos, namora inclusive, mas que não abre a ninguém, nem mesmo a si mesma, as portas do seu íntimo e muito menos do seu passado.
Não quero alongar-me mais no resumo da narrativa para que esta possa surpreender qualquer leitor que queira mergulhar nela. O que sim, quero dizer, é o quanto gostei de ler a obra de estreia de Sara Novic, o quanto a sua juventude choca no bom sentido com a maturidade da sua escrita e o quanto sofri, berrei em silêncio, apertei os punhos e sufoquei com a dor de uma menina que perdeu muito mais do que a sua infância com uma guerra que a autora do livro de que vou falar a seguir define com uma absoluta e crua precisão – “A guerra é cada indivíduo, é o que lhe aconteceu, o modo como isso lhe aconteceu, como a sua vida foi alterada.” (pág. 10, de Como se eu não existisse)
Sublinhei e destaquei muitas partes de Rapariga em guerra por senti-las, vê-las como essenciais e como exemplos da referida maturidade do estilo da sua autora e do caminho brilhante que a mesma trilhou para escrever um livro que tinha tudo para cair em descrições exageradamente sentimentais e que puxassem a lágrima fácil e que, pelo contrário, está impregnada de um tom sóbrio e que permite que o leitor construa as suas conclusões e compreenda a dor latente que tortura e sufoca a existência de uma menina que cresceu cedo demais e ainda não conseguiu encontrar o seu lugar no seu mundo e no dos outros.
Para finalizar e antes de partilhar convosco como foi a minha leitura da próxima obra, deixo-vos algumas das passagens que sublinhei/destaquei e que espero possam convencer aqueles que, a esta altura da opinião/review ainda não estejam desejosos de conhecer Ana, uma rapariga em guerra, mesmo após dez anos do estalar da Guerra Civil Jugoslava.
Eu não compreendia porque quereria o Exército Nacional Jugoslavo atacar a Croácia, que estava cheia de jugoslavos, mas quando lhe [ao meu pai] perguntei, limitou-se a suspirar e a fechar o jornal.” (pág. 26)
Num efeito secundário da guerra moderna, tivemos o estranho privilégio de assistir à destruição do nosso país através da televisão.” (pág. 31)
Na Eslovénia, a guerra durara dez dias. Não partilhavam fronteira com a Sérvia, nem tinham pleno acesso ao mar; não eram da etnia errada.” (pág. 34)
O que a guerra significava na América era tão incongruente com o que acontecera na Croácia – com o que estava, decerto, a acontecer no Afeganistão –, que a própria utilização dessa palavra parecia um erro.” (pág. 90)

NOTA – 10/10

Sinopse
Uma saga de guerra, um relato da passagem à idade adulta, uma história de amor e de memória, Rapariga em Guerra percorre todas estas facetas e revela-se um romance de estreia ao mesmo tempo perturbador e cheio de esperança, escrito com a força da verdade.




Ficha técnica
TítuloComo se eu não existisse
Autora – Slavenka Drakulic
Editora – Edições ASA
Páginas – 142
Datas de leitura – 29 a 31 de maio de 2018

Opinião
Após ter lido Rapariga em guerra, lembrei-me de que tinha anotado no meu caderninho das leituras um título que uma das mais fiéis seguidoras do blogue (Obrigada, Paula! J) me tinha recomendado há uns tempos e que retratava o mesmo tema e também no feminino. Trouxe-o comigo na última visita à biblioteca da terrinha, mas não quis lê-lo logo a seguir ao de Sara Novic. Precisava de uma pausa porque, mesmo sendo obcecada por este género de leituras, tenho plena consciência dos meus limites. Assim sendo, intercalei as duas obras com outras menos doridas e só peguei em Como se eu não existisse nos últimos dias de maio.
Slavenka Drakulic é escritora e jornalista e oferece-nos na sua obra um documento histórico que não sei se é ficcionado ou baseado em vidas reais. A protagonista é-nos apresentada apenas pela inicial S. e também conhecemos assim praticamente todas as outras personagens. Em finais de maio de 1992, a aldeia onde S. está temporariamente colocada como professora primária (está a substituir uma colega em licença de maternidade) é invadida pelos soldados sérvios e todas as mulheres e crianças são enfiadas num autocarro e enviadas para um campo de concentração. Aturdidas, todas obedecem sem reagir às ordens do inimigo e S. tenta acreditar que tudo aquilo será provisório, que ficarão no campo até que se proceda a uma troca de prisioneiros de guerra. Contudo, como aconteceu seguramente com milhares e milhares de judeus que embarcaram em vagões de comboios rumo à morte, S. está apenas iludir-se, a consciente ou inconscientemente a iludir-se e a experiência, que já era humilhante, castradora, irá piorar e escalar para níveis atrozes e humanamente impensáveis e inimagináveis.
Li esta obra em dois dias e ainda a estou a digerir. Como mulher, creio que ainda dói e fere mais ler relatos hediondos como este, mesmo que os mesmos sejam ficcionais, já que infelizmente a ficção não difere em nada da realidade, do que se passou entre homens, mulheres e crianças que até há pouco tempo eram vizinhos, amigos a até da mesma família. Não consigo, mesmo depois de ter lido tantos e tantos livros sobre este e outros conflitos, conceber como é que um ser humano é capaz de cometer tais atrocidades a outro ser humano. Sei que me estou a repetir, que já escrevi inúmeras vezes este último pensamento, mas nunca irei entendê-lo. Nunca.
O tom sóbrio e comedido de Rapariga em guerra repete-se em Como se eu não existisse, embora nesta última obra, englobada numa coleção intitulada Documentos, a esse tom se junte outro um pouco mais gráfico, mais cru, mais objetivo. Ambos os desenlaces amolecem a carapaça que fomos criando face a tanto horror e fazem-nos libertar umas lágrimas ou sorrir perante um futuro um pouquinho menos sombrio. Numa perspetiva muito pessoal, dou ligeira preferência à obra de Sara Novic, talvez porque sou mãe e doeu-me muito, muito fundo a história de Ana, da pequenina Ana. No entanto, recomendo sem reservas as duas obras, embora a de Slavenka Drakulic esteja esgotada e só a consigam encontrar numa biblioteca, num alfarrabista ou plataformas como o OLX.

NOTA – 09/10

Sinopse
S. tem vinte e nove anos, é simpática, inteligente e bonita. Tem um namorado, uma casa e um emprego como professora numa pequena cidade da Bósnia. Ou seja, tem uma vida normal. Até ao dia em que um soldado sérvio bate à sua porta. A vida de S. é então subitamente alterada - ela enfrenta agora uma realidade totalmente nova, onde não existem pessoas mas apenas números, onde não há famílias ou lares mas apenas campos: campos de trabalho, campos de concentração, campos de morte. O terror psicológico é constante e a violação das mulheres uma arma de guerra, sistemática e organizada.
S. é apenas mais um peão num jogo de guerra, um jogo bem real, que encontrou como palco a Europa do limiar do século XXI. Como se eu não existisse é o relato pessoal e chocante dessa guerra e de uma luta travada pela sobrevivência; S. procura agarrar-se desesperadamente ao que de humano existe em si, procura uma razão para ter fé e esperança enquanto o mundo à sua volta se despedaça. Como se eu não existisse é a tragédia do conflito dos Balcãs contada no feminino, no cenário de uma guerra em que as mulheres foram parte integrante de um plano sistematizado de aniquilação e domínio.