A vida no campo, de Joel Neto


Ficha técnica
TítuloA vida no campo
Autor – Joel Neto
Editora – Marcador
Páginas – 228
Datas de leitura – de 06 a 14 de abril de 2017


Opinião
Nesta época pascal, na qual a primavera que rebentou em força nos faz olhar com encanto e confiança para os dias que aí se avizinham, tive o privilégio de viajar (fisicamente) até a outra ponta desta península “à beira-mar plantada” e de, através das belíssimas e serenas palavras de Joel Neto, atravessar o Atlântico e penetrar nas portas da sua casa em Dois Caminhos, freguesia da Terra Chã, ilha Terceira, Açores.
Nunca estive no arquipélago açoriano. Até hoje, apenas pude sentir-lhe o sabor a partir da partilha de relatos de amigos e familiares, de imagens e fotos, do anticiclone homónimo e ultimamente dos escritos de Joel Neto, um autor que me arrebatou com a obra Arquipélago. Contudo, apesar de o contacto com essas nove ilhas mágicas nunca ter passado disso, sinto uma vontade imensa em aterrar numa das ilhas, calcorrear a sua paisagem, fixar o olhar naquela imensidão de mar, absorver o seu verde até à náusea e inclusive experimentar a sensação de claustrofobia que me aprisiona sempre que estou num pedacinho de terra rodeado de água.
Como monetariamente ainda não me pude dar ao luxo de desfrutar de uns dias nos Açores, vou tentando colmatar essa falha nas minhas escapadelas geográficas com escapadelas literárias. Sendo assim, tento escolher os “guias” mais conhecedores e que, através de uma linguagem simples e serena, me oriente e dê autonomia para que o deslumbramento seja intenso e pleno, tal como o é tudo o que se relaciona com umas ilhas onde a palavra “paraíso” continua a fazer completo sentido.
Joel Neto entrou na minha vida com o seu Arquipélago. E deixou marca. Uma marca indelével e que exige o que qualquer obra sublime exige – busca companhia, busca outras narrativas do mesmo autor que deixem o leitor em estado de êxtase. De novo.
Sabia de antemão que A vida no campo não era uma narrativa ficcionada. Sabia que se assemelhava a um diário que nos possibilitava seguir as pisadas de Joel Neto durante um ano, durante as quatro estações em que a obra está dividida. Mas estava confiante de que voltaria a deliciar-me não só com o estilo singelo do autor como com uma continuação de uma ode à infância, às gentes que povoaram não só esta etapa como a mais adulta e à simplicidade e magia do verde e do azul das paisagens açorianas.
Não estava enganada. Joel Neto apropria-se de tudo – sobretudo o mais corriqueiro e quotidiano – para partilhá-lo connosco. O seu dia-a-dia no lugar de Dois Caminhos e os passeios que vai fazendo por outras bandas da sua ilha, as suas fugidas para Lisboa, a gente que traz um colorido especial à sua rotina, os costumes, tradições, linguagens e nomes estapafúrdios que abundam pela ilha da Terceira e vizinhas, tudo isto escrito num estilo muito simples, prosaico, mas repleto de humor, alguma ironia e com muita matéria para reflexão.
Foi, como é fácil de adivinhar, uma leitura muito produtiva, que me abriu de novo as portas para entrar no arquipélago açoriano, mas que me deixou, por um lado, imensamente agradecida a Joel Neto e desejosa de ler mais dos seus escritos e, por outro, com um travinho de frustração, já que pude, a partir das suas palavras, viajar do continente até à Terceira, mas não estive verdadeiramente lá e sei que, se já lá estivesse estado, sentiria como mais minhas as paisagens, as gentes, as alterações climatéricas, as tradições, as comidas, enfim a alma açoriana. É só por esta razão que não lhe atribuo a nota máxima. Apenas por isso.
Termino com alguns dos muitos fragmentos que fui sublinhando:

Àquele silêncio nunca mais o encontrei. Acho que é sobre ele que escrevo todos os dias.”
Mas não tenho uma insónia há quase dois anos e meio.”
No alarm and no surprises cantam os Radiohead. Tenho o disco no porta-luvas desde o primeiro dia – quase todas as semanas o ponho no leitor.” (Muito bom gosto musical, Joel)
As mentiras em que as pessoas sustentam a sua felicidade são tão válidas como as verdades.”

NOTA – 09/10

Sinopse

Um homem e uma mulher. Um jardim e uma horta. Dois cães. Ao fim de vinte anos na grande cidade, Joel Neto instalou-se no pequeno lugar de Dois Caminhos, freguesia da Terra Chã, ilha Terceira. Rodeado de uma paisagem estonteante, das memórias da infância e de uma panóplia de vizinhos de modos simples e vocação filosófica, descobriu que, afinal, a vida pode mesmo ser mais serena, mais barata e mais livre. E, se calhar, mais inteligente.

As horas distantes, de Kate Morton


Ficha técnica
TítuloAs horas distantes
Autora – Kate Morton
Editora – Porto Editora
Páginas – 528
Datas de leitura – de 22 de março a 06 de abril de 2017


Opinião

Paredes antigas que entoam as horas distantes.” (pág. 63)

Bastaram três livros para que Kate Morton se tornasse numa das minhas autoras preferidas. Melhor dizendo, bastaram dois, pois este que acabei de ler há uns dias serviu apenas de confirmação.
Já o afirmei e repito-o – não considero esta autora australiana um “monstro” da literatura. Não o é, mas também não necessita sê-lo, pois tudo o que escreve, as histórias que engendra, as personagens que concebe, os inúmeros saltos temporais que apimentam a narrativa, os cenários onde esta se desenrola, tudo é sinónimo de prazeres perfeitos e de leituras que nos enchem, que extravasam para além das páginas das correspondentes obras e se enroscam em nós indefinidamente.
Depois de ter lido e devorado O Jardim dos segredos e O segredo da Casa de Riverton, admito que tinha expectativas elevadíssimas, mas estava certa de que esta narrativa que me levaria de novo para terras misteriosas da Inglaterra não as defraudaria. Bem pelo contrário. Iria preencher-me os dias com minutos de leitura que passariam como se segundos fossem, iria desligar-me de tudo o que se passasse à minha volta e iria provocar-me a conhecida sensação agridoce que sempre se me produz quando tenho entre mãos uma história que quero devorar e ao mesmo tempo saborear pedacinho a pedacinho, para apoderar-me de todo o seu sabor.
Tal como acontece com as suas antecessoras, esta narrativa pula constantemente entre o presente – 1992 – e o passado – década de 1940, sobretudo. O elo de ligação entre estes dois tempos é uma carta que chega ao seu destinatário cinquenta anos depois e que desencadeia consequências imediatas em quem a abre e estranheza, suspeita e uma vontade incontrolável de querer saber mais em quem presencia o estado de choque do destinatário e obviamente no leitor.
Edie é uma jovem cuja vida se encontra posicionada numa encruzilhada. Recém-saída de uma relação, funcionária de uma editora sem perspetivas de futuro e filha única de um casal de classe média, a nossa protagonista testemunha o quanto a chegada de uma carta escrita há cinquenta anos perturba a sua mãe e sente-se obrigada a tentar perceber o que continha essa carta e quem são na verdade as irmãs Blythe, com quem a mãe passou uma temporada nos anos 40, época na qual muitas famílias londrinas enviaram as suas crianças para casas de famílias rurais para assim tentarem salvá-las dos bombardeamentos alemães.
Está assim lançado o ponto de partida para uma leitura repleta de mistério, de personagens que nos vão cativando e de toda uma panóplia de motivos suculentos que fazem o leitor querer ler mais um parágrafo, mais uma página, mais um capítulo, mais uma das cinco partes que compõem a obra. Para além de saltarmos no tempo, vamos viajando entre Londres e Milderhurst, onde se encontra o castelo homónimo e residência das irmãs Blythe, e vamos também alternando de narrador, pois sempre que voltamos ao presente, Edie assume esse papel enquanto nos múltiplos recuos ao passado, o narrador é heterodiegético. Vamos ainda travando conhecimento com um leque de personagens muito interessantes, algumas das quais habitam as duas épocas. É o caso obviamente das três irmãs Blythe e da mãe de Edie (apenas para nomear aquelas que têm um papel mais preponderante na trama).
Quem está familiarizado com a obra literária de Kate Morton, sabe que a autora preza o universo feminino e que são as mulheres, tenham a idade que tenham, que movem a narrativa, que lhe dão, para além de movimento, cor, intensidade, emoção, vida. Em As horas distantes, temos o privilégio de conviver com cinco mulheres determinadas, umas mais pragmáticas, outras mais sensíveis, mais emotivas, mas todas elas dotadas de um poder e de um magnetismo que não nos deixam indiferentes. Nem poderia ser de outra forma.
Outra razão que me impele a corroer-me de uma vontade irrefreável em devorar tudo o que esta autora australiana escreve são os cenários nos quais as personagens deambulam em busca de respostas a variados mistérios. Se nas obras anteriores tinha ficado atrapada pelos encantos e segredos de uma casa senhorial e de um jardim, desta vez não consegui resistir às paredes antigas e conhecedoras de um castelo, que entoam, se nos detivermos a escutá-las, horas e histórias distantes. O castelo de Milderhurst, com o seu aspeto imponente, majestoso e que resiste com a dignidade possível à implacável passagem do tempo provoca, em quem o visita, emoções e sensações antagónicas. Quando Edie se aproxima das suas paredes pela primeira vez, entendemos, como se fôssemos nós mesmos a aproximar-nos, que os calafrios de medo e angústia que a povoam lutam em pé de igualdade com uma atração irresistível que guia os seus passos e a levam a querer e a não querer ali estar, a querer e a não querer visitar mais uma dependência degradada, a querer e não querer percorrer espaços que há cinquenta anos atrás tanto seduziram a sua mãe.
Como se tudo isto não bastasse, a autora ainda apimenta a narrativa com múltiplos segredos que vamos desvendando até às derradeiras páginas e revelando na altura certa as múltiplas camadas que moldam o carácter e a vida cada uma das suas fascinantes personagens. Abri os braços e deixei que cada uma das irmãs Blythe – Percy, Saffy e a deliciosa Juniper – e Edie e a sua mãe se acocorassem no meu colo, porque todas, sem exceção são arrebatadoras e merecedoras de um lugar de destaque no leque de personagens inesquecíveis.
As horas distantes proporcionaram, como não é difícil de adivinhar, uma leitura soberba, da que não vou “desprender” tão cedo e que me faz repetir aqui aquilo que disse ao maridinho mal a terminei – “Das cinco obras que Kate Morton já publicou, eu já li três, isto é, já li mais do que as que me faltam… Oxalá ela nos brinde com uma obra nova muito em breve para equilibrar a balança – três lidas, três não lidas…
Para finalizar, reitero um desejo que já formulei aquando da leitura das outras obras – quem ainda não leu Kate Morton deve fazê-lo o quanto antes, porque está a perder experiências de leitura com um sabor único! Recomendo vivamente Kate Morton, rogo encarecidamente para que leiam todas as suas obras!

NOTA – 10/10


Sinopse
Tudo começa quando uma carta, perdida há mais de meio século, chega finalmente ao seu destino...
Evacuada de Londres, no início da II Guerra Mundial, a jovem Meredith Burchill é acolhida pela família Blythe no majestoso Castelo de Milderhurst. Aí, descobre o prazer dos livros e da fantasia, mas também os seus perigos.
Cinquenta anos depois, Edie procura decifrar os enigmas que envolvem a juventude da sua mãe e a sua relação com as excêntricas irmãs Blythe, que permaneceram no castelo desde então. Há muito isoladas do mundo, elas sofrem as consequências de terríveis acontecimentos que modificaram os seus destinos para sempre.

No interior do decadente castelo, Edie começa a deslindar o passado de Meredith. Mas há outros segredos escondidos nas paredes do edifício. A verdade do que realmente aconteceu nas horas distantes do Castelo de Milderhurst irá por fim ser revelada...

Balanço mensal - livros lidos e oferecidos/recebidos em março


No mês que terminou há já uns dias, li seis livros. Intervalei de novo leituras de adultos com leituras dos mais novos. Voltei também às leituras em espanhol, apesar da autora ser italiana (as editoras portuguesas – e consequentemente o seu público-alvo – continuam a não ter noção do quanto Margaret Mazzantini é uma escritora brilhante).
Março foi, para além disso, um mês de estreias. Fiz pela primeira vez uma leitura em conjunto com as “donas” de dois blogues que sigo religiosamente. E finalmente, depois de alguma frustração e muita procura, atribuí nota máxima a uma leitura de adultos e a uma leitura infantil, o que me deixou nas nuvens e com aquele sorrisinho de muita satisfação nos lábios.
Arranquei o mês lendo a segunda obra que me emprestaram os filhotes de uma colega de escola. J’ai peur de savoir lire é uma delícia para miúdos e graúdos e, apesar de exigir muito dos meus limitados conhecimentos de francês, conquistou-me desde as primeiras palavras e saboreei, por um lado, cada passo que deu a mãe para que Stéphane ganhasse um amor incondicional pelos livros e, por outro, as teias de encantamento em que o filho se foi enredando e que o leva a ser mais um sedento de histórias escritas.
Admito que desconfiava que seria a minha Mazzantini que me proporcionaria o fim da busca pela leitura perfeita, por aquela à qual atribuiria a nota máxima. E, como era de prever, não estava enganada, pois Esplendor esteve à altura das mais elevadas expectativas e mexeu com todas as minhas fibras. Aliás, senti-me órfã quando terminei de o ler. Como sempre me sinto quando uma história lambe os laivos da perfeição.
Qualquer obra que se segue a uma que nos tenha oferecido perfeição e saciedade está condenada a sofrer por comparação… Contudo, não posso afirmar que tenha sido essa a razão pela qual não concedi uma nota mais alta à obra Uma praça em Antuérpia. Esplendor exigiu muito de mim, deixou as minhas emoções extenuadas e, por isso, decidi que a obra que se lhe seguiria teria que ser mais leve, menos profunda, menos densa. Acompanhei com gosto a história das duas irmãs gémeas, agradeci a oportunidade que me deram de regressar aos palcos da Segunda Grande Guerra e de recordar umas férias inesquecíveis em terras belgas, mas considero que o leitor (e por que não a obra) mereciam outro final, onde o ciúme e a dor de ser rejeitado não tomassem proporções tão rebuscadas…
O coração e a garrafa é outra obra infantil que transborda de dores infantis e que faz com que o nosso coração se condoa e mirre perante a reação de gentinha de palmo e meio quando tem de conviver com o sofrimento. É mais uma prova do quanto quem escreve para os mais pequenos se tem de armar de “arte e engenho” para, num punhado de páginas, contar uma história que agarre um público inocente mas muito exigente.
Uma leitura conjunta entre mim, a Isaura e a Márcia já estava pensada há algum tempo, mas só se concretizou este mês. E valeu muito a espera, não só pela obra que escolhemos para fazê-la como pela partilha de fragmentos, citações e modos de ver personagens, partes da obra e o estilo do autor. A breve e assombrosa vida de Oscar Wao não me cativou nas páginas iniciais, mas como sigo religiosamente as sugestões da Márcia, sabia que, avançando na sua leitura, iria enredar-me na história turbulenta do Oscar e da sua família e que o estilo oralizante e cru do autor não me iria defraudar. E assim foi. A história transfigurou-se, o protagonismo passou a não ser exclusivamente de Oscar e deliciei-me com a sua “coitadice”, as peripécias explosivas por que passaram os seus familiares e encantei-me com tudo aquilo que transborda da obra e nos faz entender um pouco melhor a República Dominicana, o seu povo e, por que não, os latino-americanos.
Encerrei o mês com O menino que não gostava de ler. Trouxe a obra da biblioteca quando ainda estava sob a influência de J’ai peur de savoir lire, talvez em busca de prazeres semelhantes àqueles que havia sentido no início do mês com a obra francesa. Infelizmente os prazeres não se repetiram, pois o que antes havia estimulado empatia e acenos de concordância, deu lugar a sobrolho franzido, a acenos de discordância e a reações de alguma repulsa. Perda de tempo…
No que diz respeito a habitantes novos na estante, tenho, em primeiro lugar, que dizer que fui uma boa menina, que me portei muito bem e que não comprei nenhum livrinho para mim! A terapia está, pelos vistos, a resultar, ou seja, basta olhar para a estante dos não-lidos que tem vindo a desengordar muito lentamente e lá me vejo obrigada a refrear a vontade de acrescentar-lhe mais uns quilinhos 😄
Contudo, como março é mês do dia do pai e de aniversário do filhote, vi-me forçada a comprar um livrinho para o maridinho e dois para o mais pequeno. Ao papá oferecemos-lhe O contador de histórias duma autora de quem ele gosta muito – Jodi Picoult – e cuja narrativa o levará de volta ao conflito de 39-45. Ao filhote, engordámos-lhe a coleção Os heróis do Futebol com os volumes cinco e seis. Além disso, a família e amigos do D. contribuíram e somaram a estes dois outros cinco de outras coleções!
Março foi assim um belo mês de leituras e só quero que este que já começou lhe siga as pisadas!
Por fim, deixo-vos, como é habitual, os links para acederem à opinião completa das obras lidas este mês:
§  J’ai peur de savoir lire, de Olivier de Solminihac
§  Esplendor, de Margaret Mazzantini
§  Uma praça em Antuérpia, de Luize Valente
§  O coração e a garrafa, de Oliver Jeffers
§  O menino que não gostava de ler, de Susanna Tamaro

O menino que não gostava de ler, de Susanna Tamaro


Ficha técnica
TítuloO menino que não gostava de ler
Autora – Susanna Tamaro
Editora – Editorial Presença
Páginas – 40
Datas de leitura – 22 de março de 2017


Opinião
Não lia Susanna Tamaro há muito, muito tempo. Tenho em casa dois livros seus, um dos quais a sua obra mais conhecida – Vai onde te leva o coração. Não me considero uma admiradora acérrima desta autora, mas decidi ler O menino que não gostava de ler instigada pela obra infantil que li há umas semanas atrás e que também abordava a pouca vontade que um menino tinha de pegar num livro e mergulhar na sua história.
Mais uma vez socorri-me da biblioteca municipal e trouxe esta obra no saco onde vieram outras duas que entretanto já li. Deixei-a para o fim e foi uma decisão que não sei dizer se foi a mais acertada, pois perante as outras que me preencheram quase por completo, O menino que não gostava de ler não cumpriu. A premissa era suculenta – uma criança ainda não maculada pela leitura, pelo sabor de livros e narrativas, resistindo a ser contagiada por histórias que lhe dariam a possibilidade de viajar sem sair do seu cantinho. Uma criança cujos pais são leitores compulsivos. Uma criança que vive numa casa onde se tropeça em livros espalhados por todos os cantos.
Contudo, a viagem pelas 40 páginas que compõem esta obra foi não só rápida como igualmente desenxabida e algo incomodativa… Se eu, tal como Leopoldo, tivesse uns pais que tomassem posições extremistas e tentassem a todo o custo ver-me com um livro nas mãos, só porque eles assim o fazem e assim o querem, também eu muito provavelmente resistiria à leitura com todas as minhas forças e fugiria dos livros como uma criança foge de fazer algo que a obrigam todas as santas horas do dia. Também eu me sentiria incompreendida e tentaria buscar compreensão noutro lado qualquer…
O final da obra e que nos faz descobrir mais uma razão para a aversão de Leopoldo à leitura também me defraudou… Levou a que reagisse com um bom franzir do sobrolho e me apetecesse exclamar – “Então é por isso?...” Bah… Uma autora tão conceituada como Susanna Tamaro poderia ter feito bem melhor. A justificação à aversão é demasiado prosaica para que mesmo o público-alvo da obra se sinta satisfeito.
Concluo dizendo que foi, como já devem ter compreendido, uma leitura pouco produtiva. É verdade que nem tudo é negativo na obra. A relação que nasce entre Leopoldo e o velho cego e a correspondente ligação forte entre os dois e as histórias e os livros são uma lufada de ar fresco e de alegria, mas foram “esmagadas” perante a sensação de frustração e alguma revolta que senti face ao que já expus. Sendo assim, não consigo recomendar-lhes que leiam esta obra…

NOTA – 05/10

Sinopse

No dia em que Leopoldo fez oito anos, os pais ofereceram-lhe dois livros, tal como acontecia em todos os aniversários desde que tinha nascido! Leopoldo sentiu-se tão triste e infeliz... não gostava mesmo nada de ler. Sempre que tentava fazê-lo, as letras começavam a misturar-se umas nas outras numa grande confusão de rabiscos pretos sem qualquer significado. Mas os pais não entendiam o seu problema e insistiam tanto para que ele lesse que um dia Leopoldo decide fugir de casa! É então que conhece alguém muito especial, um grande amigo, que descobre o que realmente se passa com ele e juntos começam a partilhar muitas e muitas páginas de aventuras, sonhos e fantasia...

A breve e assombrosa vida de Oscar Wao, de Junot Díaz


Ficha técnica
TítuloA breve e assombrosa vida de Oscar Wao
Autor – Junot Díaz
Editora – Porto Editora
Páginas – 296
Datas de leitura – de 13 a 21 de março de 2017


Opinião
Esta coisa dos blogues adoça realmente os meus dias! Não só partilho com gente conhecida e anónima algo que faço com deleite, como vou cuscando blogues de outros leitores compulsivos como eu. Resultado – além da compulsividade elevada a bem mais do que ao quadrado, tenho o privilégio de travar conhecimento (maioritariamente através de comentários e mensagens) com alguns desses leitores e leitoras que não conseguem passar os seus dias sem embrenhar-se num livro.
Não é novidade, acima de tudo para os mais atentos e fieis ao blogue, que sigo com muita assiduidade os blogues da Márcia (Planeta Márcia) e da Isaura (Jardim de Mil Histórias). Há uns meses atrás decidimos arriscar numa leitura conjunta – ler o mesmo livro ao mesmo tempo. Por sugestão da Márcia, que havia acabado de ficar encantada com a leitura de uns contos de Junot Díaz, escolhemos fazê-lo com outra obra do autor dominicano – A breve e assombrosa vida de Oscar Wao.
Parti cheiinha de expectativas para este desafio. Senti-me como me sinto quando viajo e sei que vou alargar os meus horizontes. Senti-me a ganhar asas, pois estava a iniciar um projeto que, tivesse o resultado que tivesse, me encheria, seria o prenúncio de algo que quero muito que se repita. Saber que do lado de lá estariam duas pessoas que entenderiam na perfeição o quanto é “preenchedor” o ato de ler, de viajar dentro das mesmas centenas de páginas – pouquíssimas coisas se lhe podem comparar.
A breve e assombrosa vida de Oscar Wao é uma leitura impactante. Desde o seu início. Ninguém consegue, em primeiro lugar, ficar indiferente à sua linguagem oralizante, repleta de expressões vernáculas (muitas em espanhol, mas que para mim não são nada difíceis de entender) e que nos transportam para a região do Caribe, mesmo que os protagonistas vivam em Nova Iorque. Estamos constantemente a ser “atacados” por descrições cruas e satíricas e nas primeiras 52 páginas mais não fazemos do que sentir uma mistura de sentimentos que vão rapidamente da repulsa à compaixão, da simpatia à vontade de dar vazão às risadas que se acumulam na garganta. Tudo por causa do pobre Oscar, um jovem dominicano, “nerd”, “geek”, balofo, cada vez mais gordo e que não consegue de maneira nenhuma engatar uma miúda, nem sentir o seu corpo juntinho ao de uma menina. Pobrecito… Nunca se verá nem os outros o verão como um verdadeiro macho dominicano pois “O., é contra as leis da Natureza que um dominicano morra sem foder [os mais sensíveis que me perdoem, mas estou a transcrever uma citação] pelo menos uma vez.” (pág. 157)
Em segundo lugar, esta obra abre-nos a porta para uma realidade que assolou muitos dos países latino-americanos – ditaduras sangrentas e paralisantes. Na República Dominicana reinou durante anos sem fim Rafael Leónidas Trujillo Molina, uma besta como o foram outras bestas como Chávez ou ainda o é o seu doido descendente Maduro. Uma besta que aterrorizou o seu povo e que eliminou sem um pingo de remorso todos aqueles que se atreveram a murmurar algo que ele considerava ser contra si. “Era como estar no fundo de um oceano, afirmava. Não havia luz nenhuma e um oceano inteiro esmagava-vos. Mas muitas pessoas tinham-se habituado de tal modo a isso que o achavam normal, esqueciam-se que existia um mundo por cima delas.” (pág. 78) “… difícil seria exagerar o poder que o Trujillo exerceu sobre o povo dominicano e a sombra do medo que lançou sobre toda a região.” (pág. 200)
Os dominicanos, a sua religiosidade em completa simbiose com o lado pagão, carregadinho de superstições, o lado gingão dos seus homens, dos seus machos que cheiram as fêmeas à distância, os ares quentes do Caribe, tudo isto me convence cada vez mais de que a mistura explosiva de sangues europeus, latinos, africanos, indígenas resulta em comportamentos, atitudes e sentimentos levados ao extremo, à exacerbação. Gritos, cenas de pancadaria, violência gratuita, sensualidade à flor da pele e terrores que advêm de uma crença absoluta no sobrenatural – são exemplos que abundam nesta obra e que retratam o que há de mais genuíno num típico latino-americano, na sua forma de amar, estar, na sua forma de viver a vida. “Em Santo Domingo, uma história não é uma história a não ser que liberte uma sombra do sobrenatural.” (pág. 218)
Um bom livro (e este é um muito bom livro) está, além de tudo o que já mencionei, composto por personagens que se mantêm na nossa memória por mais do que o tempo que levamos a ler as suas peripécias. Oscar Wao (como os dominicanos dizem “Oscar Wilde”) provoca, como já disse, reações adversas no leitor e nos que o rodeiam. Não é fácil criar empatia com este jovem gorducho (apelidei-o de quase tudo – probrecito, desgraçado, triste…) mas o seu final, para o qual aponta o título da narrativa, é em grande e apoteótico e deixa-nos com um sorriso de triunfo nos lábios.
Em contraste com Oscar e com o seu futuro cunhado, dois homens fracos, débeis e volúveis, deparámo-nos com a sua irmã Lola (de longe a minha personagem favorita) e a sua mãe. Duas mulheres “con cojones” (perdoem-me de novo os mais sensíveis), fortes, determinadas e que, por muito que as suas vidas tenham sido madrastas, não abandonam a luta, nem que para isso se vejam obrigadas a fechar o coração ao carinho, ao amor, ao seu lado doce e quente. “É assim a vida. Toda a felicidade que juntamos para nós mesmos será varrida como se nada fosse. Se querem saber, não acredito que haja tais coisas como maldições. Acho que o que há é apenas vida. E isso basta.” (pág. 183)
Resumindo, esta experiência foi deliciosa – pela partilha de opiniões, fragmentos e outros apontamentos com a Márcia e a Isaura – e culminou com a cereja no topo do bolo, com a leitura de uma obra que nos conquistou a todas. Não lhe reservo a nota máxima apenas porque demorou um pouquinho a entranhar, ou seja, senti que as páginas iniciais e a coitadice de Oscar se estendeu mais do que devia. Mas, aparte disso, tudo o resto roça a perfeição e é impossível não nos extasiarmos com a linguagem, o ambiente, o presente e o passado da República Dominicana, o carácter dos seus habitantes e a Lola, que por si só merecia o protagonismo de uma obra.
Recomendadíssimo!

Deixo aqui o link para poderem aceder à opinião da Márcia e da Isaura – cliquem no nome de cada uma (para já ainda não está disponível a da Isaura)

NOTA – 09/10

Sinopse
Oscar Wao é enorme. E dominicano.
Gozado pelos colegas e isolado do mundo, sonha com raparigas e aventuras extraordinárias, sente vergonha por não estar à altura da reputação viril dos machos dominicanos, mas não consegue mais do que uma vida de desilusões.
Para Oscar, o drama é um fado demasiado familiar. A sua breve e assombrosa vida está marcada a ferro e fogo por uma maldição ancestral, o fukú, que, nascido em Santo Domingo, é transmitido de geração em geração, como uma semente ruim.
Alimentada pela sorte dos seus antepassados, quebrados pela tortura, pela prisão, pelo exílio e pelo amor impossível, a história de Oscar escreve-se fulgurante e catastrófica, e integra a grande História, a da ditadura de Trujillo, a da diáspora dominicana nos Estados Unidos e a das promessas incumpridas do Sonho Americano.

O coração e a garrafa, de Oliver Jeffers


Ficha técnica
TítuloO coração e a garrafa
Autor – Oliver Jeffers
Editora – Orpheu negro
Páginas – 34
Datas de leitura – 17 de março de 2017


Opinião
É tãaaao saboroso intercalar leituras adultas com leituras infantis! Tiro o chapéu aos inúmeros autores que se dedicam a escrever para os mais pequenotes, porque não considero fácil condensar em poucas palavras uma história apelativa, que prenda os leitores mais jovens e os faça agarrar o livrinho, espreitar as imagens, relacioná-las com o texto e consciente ou inconscientemente compreender que o que leram ou ouvirem alguém ler os levará a crescer.
Em O coração e a garrafa deparámo-nos com um dos maiores medos dos mais pequenos – a perda de alguém que os protege, que os defende e que os guia no conhecido e no desconhecido. Em pouquíssimas páginas, sentimos o nosso coração encolher perante a perda e a reação da menina protagonista face à mesma. A perda traz dor, rouba a redoma que qualquer criança constrói para si e para os seus e para que não se repita, para que não se sinta retraída de dor e completamente desamparada, é preferível arrancar o mal pela raiz – arrancar o coração e guardá-lo numa garrafa.
Contudo, sem coração não há dor, não há sofrimento, mas também não há alegria, prazer, carinho, amor. E isso até os mais pequenotes acabam por descobrir, mais cedo ou mais tarde.
Foi outra ternurinha dorida, outra leitura que me fará continuar em busca de outras histórias infantis que, com um número reduzido de letras e palavras, conseguem o que muitas leituras adultas não conseguem – tocarem-me, aquecerem-me, agasalharem-me como um abraço e um mimo das pessoas que mais amo.
É obviamente uma leitura recomendada! Muito recomendada!

NOTA – 09/10

Sinopse
O Coração e a Garrafa fala-nos de uma menina fascinada com o mundo à sua volta. Até que um dia algo aconteceu que a fez pegar no seu coração e guardá-lo num sítio seguro. Pelo menos durante algum tempo… Só que, a partir daí, nada parecia fazer sentido. Saberia ela quando e como recuperar o seu coração?
Com esta história comovente, Oliver Jeffers explora os temas difíceis do amor e da perda, devolvendo-nos, de maneira notável, um sopro de alento e de vida.

Uma praça em Antuérpia, de Luize Valente


Ficha técnica
TítuloUma praça em Antuérpia
Autora – Luize Valente
Editora – Saída de Emergência
Páginas – 352
Datas de leitura – de 07 a 13 de março de 2017


Opinião
De volta à Segunda Grande Guerra.
Comprámos este livro na Feira do Livro do ano passado (sim, já estou nas leituras de setembro J). Recomendei-o ao maridinho, sugeri-lhe que lesse a sua sinopse e mais não foi preciso. Uma praça em Antuérpia foi a sua “compra individual” (tínhamos “direito” a comprar um livro para cada um e outro que agradasse a ambos).
Nenhuma leitura que seja sobre este conflito que me fascina é um desperdício de tempo. Nenhuma. Porque todas me alimentam o fascínio, todas me fazem saber um pouco mais e todas me transportam para uma época que infelizmente me obriga a compreender melhor o que se vai passando mais de setenta anos depois. Esta de Luize Valente tão-pouco foi uma perda de tempo, pois não só me alimentou o referido fascínio, me alargou os conhecimentos sobre a referida contenda, como também me proporcionou regressar a Antuérpia após lá ter estado há 6 anos.
Foi assim uma leitura perfumada com um cheirinho muito pessoal, de nostalgia e de recordações soberbas de umas férias por terras belgas.
Quem consulta a sinopse de Uma praça em Antuérpia fica a par da trama da obra e das suas protagonistas, cujas vidas serão viradas do avesso com o estalar da guerra e sobretudo com a chegada do exército nazi a terras belgas. Clarice e Olívia são duas irmãs gémeas portuguesas detentoras de um carácter doce mas determinado e com as quais facilmente criamos empatia. São obviamente as personagens principais da obra, embora os percalços da vida de uma ganhem primazia face à existência mais pacata da outra. É uma delas que por causa de um grande amor saltita entre duas cidades portuguesas e passará os momentos mais felizes da sua vida na florescente cidade de Antuérpia. É também as recordações dessa gémea que unem pontos desfeitos e criam ligações entre os anos 30 e 40 e os primeiros dias do novo milénio.
A narrativa está assim dividida entre o passado e o presente e à medida que vamos avançando na sua leitura vamos compreendendo que a obra está repartida num prólogo e em mais cinco partes. Somos detentores, desde as páginas iniciais, da revelação de um dos fatores principais (senão do principal) para o desenrolar da trama e todas as suas restantes páginas são um buscar do porquê, do como, do quando e do onde. Não considero que a opção da autora em fazer essa revelação tão prematuramente faça decrescer o interesse do leitor pelo que se passará nos seguintes capítulos. Acho sim que Uma praça em Antuérpia nos proporciona uma leitura deveras interessante, com personagens atrativas e um enredo aliciante. Só creio que o final peca por parecer pouco credível e rebuscado, o que sempre me faz torcer o nariz e consequentemente baixar a pontuação final.
Já referi nesta opinião que a leitura desta obra foi muito aprazível não só pelo seu conteúdo, mas igualmente porque trouxe ao de cima recordações de dias recheados de sabor. Uma das protagonistas chega a Antuérpia de comboio e deslumbra-se com a majestosidade da estação da cidade. Também eu, há seis anos atrás, segui os passos de Clarice e fiquei longos minutos a admirar a beleza de Antwerpen Ceentral, a compará-la a uma catedral. A mesma personagem viveu momentos inesquecíveis em Grote Markt, a praça principal da cidade. Também eu percorri com os olhos todos os seus cantinhos, contemplei os seus edifícios, as estátuas que encimam alguns deles, a fachada repleta de bandeiras da sua câmara e os pormenores da estátua central cuja lenda nos informa da origem do nome da cidade. Estive apenas um dia em Antuérpia, mas não mais esquecerei a sumptuosidade da sua arquitetura e o facto de o meu filhote ter compartilhado breves momentos de brincadeira com um menino judeu, num jardim polvilhado de família judias, com as suas vestes e penteados tradicionais.
Deixo-vos por fim algumas fotos que comprovam a minha passagem por Antuérpia e que vos podem abrir o apetite não só para visitar a cidade como também para ler o quanto a mesma foi determinante para moldar Clarice enquanto mulher de um carácter doce e determinado.


Interior da Estação de Antuérpia


Exterior da Estação


Grote Markt



Grote Markt


NOTA - 08/10 

Sinopse

Há uma saga que ainda não foi contada sobre a Segunda Guerra Mundial: a história de duas irmãs portuguesas, Olívia e Clarice. Olívia casa-se com um português e vai para o Brasil. Clarice casa-se com um alemão judeu e vai morar em Antuérpia, na Bélgica. Ambas vivem felizes, com maridos e filhos, até que a guerra começa e a Bélgica é invadida.
Para escapar da sombra nazi que vai devorando a Europa, a família de Clarice conta com a ajuda de Aristides de Sousa Mendes, o cônsul que salvou milhares de vidas emitindo vistos para Portugal, em 1940, enquanto atuou em Bordéus, França. A família recebe o visto mas, ao chegar à fronteira de Portugal, um destino trágico a espera... Destino que vai mudar e marcar a vida das irmãs para sempre, por causa de um segredo que só será revelado sessenta anos depois.