Pela primeira vez rumámos à Feira do Livro de Lisboa!


Hoje fecham-se as portas da 87ª edição da Feira do Livro de Lisboa. Mas para mim manter-se-ão abertas, haverá sempre um cantinho, uma janelinha, uma frinchazinha que não fecham, que se mantêm de braços estendidos para que continue a desfrutar daquela que foi a minha primeira vez nos corredores ladeados de barraquinhas espalhadas pelos jardins do Parque Eduardo VII.


Resultado de imagem para feira do livro lisboa 2017
Há já alguns anos que era um desejo muito comentado em casa – ir à Feira do Livro de Lisboa, a maior certame de celebração do livro em Portugal. Recordo que, mesmo quando ainda tínhamos no Porto uma edição com os mesmos moldes, era frequente ir à barraquinha de uma editora, procurar um livro, não o encontrar e ouvir de um dos responsáveis afirmações como “Infelizmente não o temos. Tivemo-lo na de Lisboa, mas não o trouxemos para o Porto.” Essa diferença, essa pequenez ainda se tornou mais significativa quando a Feira da cidade Invicta se mudou de novo para os Jardins do Palácio de Cristal de candeias às avessas com a APEL e consequentemente com as grandes editoras que mantêm o monopólio de quase o que se publica no nosso país. Por tudo isto e porque me sinto bastante desiludida todas as vezes que faço a habitual visita em setembro à Feira portuense, a vontade de rumar a sul, de deambular de caderninho na mão pelos stands de todas as editoras que trazem brilho, cor e diversidade à festa dos livros tornou-se premente, tornou-se muito urgente.
Ficou decidido que iríamos num fim de semana e de comboio. Contudo, a data apenas ficou definitiva depois de controlados os afazeres escolares do mais pequeno da família. Estabelecemos horários de comboios, mochilas, marmitas e atualizei a lista dos livros que poderiam regressar comigo. O plano consistia em viajar num comboio bem matinal e voltar num ao final do dia, princípio da noite. Conferimos tudo, apenas deixamos a compra dos bilhetes para o próprio dia.
Entretanto, o final do ano letivo estava aí e o cansaço acumulado fez-se sentir da forma habitual. Deixei de conseguir dormir – uma noite, duas noites, três noites, ou seja, quarta, quinta, sexta. Na madrugada de sábado, adormeci por volta das três da manhã e não acordei a horas para podermos apanhar o comboio combinado. Mesmo assim, zonza de sono reafirmei a minha vontade de ir e lá fomos a toda a velocidade para a estação. Infelizmente, não pudemos viajar no comboio que estava prestes a partir, porque os bilhetes estavam esgotados. Só o fizemos no seguinte, que chegou à gare do Oriente pouco antes das duas da tarde. Engolimos o almoço e apanhamos de seguida o metro para o Parque Eduardo VII.
O primeiro vislumbre que tive da Feira deu-se já se passavam uns minutos das três horas da tarde. Teríamos que regressar à estação do metro duas horas mais tarde. Tempo insuficiente, muito insuficiente para deambularmos e espreitarmos todos os stands. Mas não me rendi à consequente e evidente frustração. Saquei do caderninho, consultei a longa lista, o mapa da Feira e dirigi-me aos locais onde estariam as melhores ofertas, o livro do dia que teria que comprar e possíveis autógrafos de autores prediletos. Percorri todo o recinto, mas houve que acelerar o passo e olhar em frente em zonas que teoricamente não teriam nada de interessante. Olhando para o relógio calculei o tempo que poderia perder nos stands da Leya, da Porto Editora, da Tinta-da-china, da Presença, da Penguin Random House. Aos restantes tive que fechar os olhos, ouvidos e não ceder à tentação de acariciar lombadas, desfolhar páginas, ler sinopses.
Às cinco da tarde, enquanto o pequeno da família corria com o pai para fazer a sua última compra, eu entrei no espaço Leya para fazer a minha última compra – Os olhos de Tirésias, de Cristina Drios, livro do dia, autografado pela própria autora.
Foi uma despedida apressada, como o foi toda a visita. Duas horas. A minha primeira vez na Feira do Livro de Lisboa foi muito curta, demasiado curta, mas deixou uma marca indelével, um gosto docinho e uma alegria como já não experimentava há muito tempo. Em apenas duas horas voltei a saborear aquelas ganas incontroláveis de trazer muitos, mas muitos inquilinos novos para a estante. Voltei a saboreá-las porque sabia que todos os livros que desejo ter estavam ali, ao alcance da minha mão, que ninguém me diria que eles não estavam disponíveis na Feira, como tantas vezes ouvi nas últimas edições do Porto.
Não comprei todos os livros que queria. Não os comprei por uma simples questão monetária. Mas vim deliciada com os novos cinco inquilinos da estante. Dois vieram com o correspondente autógrafo do autor. Quatro comprei-os com um bom desconto. Apenas o do Tordo teve um desconto de dez por cento – desconto inadmissível numa Feira do Livro, que deveria oferecer no mínimo o dobro desse desconto.
Quando finalmente me sentei no assento do Alfa Pendular que me levou a casa, percebi que o cansaço físico iria levar a melhor perante o cansaço mental e que por fim iria usufruir de uma bela noite de sono. Percebi ainda que aquela viagem tinha sido a primeira de muitas, porque teria que regressar a Lisboa, à sua Feira e apreciá-la como ela merece. Como eu mereço. Transformar esta visita numa tradição familiar.
Para concluir, deixo-vos algumas imagens (as possíveis – duas horas não deixaram tempo para fotos) que ilustram a nossa passagem por aquela que definitivamente é a melhor e mais completa Feira do Livro de Portugal.

Até para o ano! Voltaremos para uma visitinha bem mais demorada!




Balanço mensal - livros lidos e recebidos em maio


Se em abril o outro lada da vida se intrometeu nas minhas leituras, em maio e princípios de junho encolheu para tamanhos reduzidíssimos o tempo que dedico a este cantinho… É por isso que tenho textos em atraso e que este balanço mensal aparece apenas agora, quinze dias após o arranque do mês que se lhe segue.
Contudo, se compararmos as leituras de abril e maio, confronto-me com um número maior, já que de três leituras passei a cinco, isto é, os minutos dedicados a um dos prazeres mais saborosos da minha vida continuaram a ser escassos, mas foram muito profícuos 😊
A primeira leitura de maio foi a mais difícil do ano e talvez uma das mais difíceis de todos os tempos. A narrativa de Eu confesso, de Jaume Cabré é deveras alucinante, a mistura de tempos, espaços, narradores, personagens que frequentemente é realizada num parágrafo apenas deixa qualquer leitor experiente atordoado, perplexo e sem fôlego. Mas se combinarmos esse ritmo e essa mistura alucinantes com um uma escrita e um estilo assombrosos, sublimes, geniais, temos na nossa mão uma obra que tem que ser conhecida e lida por todos aqueles que ansiamos e desesperamos por uma leitura que nos retire o chão e se mantenha connosco tempos infinitos.
Furta-cores, da brasileira Cristina Parga, é uma coletânea de contos pequeninos, grande parte de pouco mais do que duas páginas. Chegaram à minha estante em outubro do ano passado e foram-me oferecidos por uma “gran amiga”. Nunca havia lido nada da autora, aliás não a conhecia de todo, mas a sua escrita emotiva, prenhe de sentimentos e emoções que nos caracterizam fizeram com que lesse com muito interesse as histórias que compõem Furta-cores, que me apaixonasse e me emocionasse com passagens, com personagens e correspondentes dores, desejos, medos, nostalgias e sonhos. Não emocionei com todos os contos, é certo, mas aqueles que me tocaram pedem que continue a querer ler mais daquilo que esta jovem escritora escreve. E pode ser que o faço mais cedo que o que estava à espera!...
 A terceira obra que li chegou por empréstimo. E que bom que é ter colegas, amigos que me disponibilizam os seus livros, porque fazem-me poupar dinheiro e idas à biblioteca e possibilitam-me leituras maravilhosas. Como a que saboreei com A ridícula ideia de não voltar a ver-te, da espanhola Rosa Montero. Dela apenas havia lido Amantes e Inimigos e tinha ficado fascinada e enfeitiçada pela sua escrita intensa, que fala da vida, de sentimentos, do lado feio e do lado belo do ser humano com familiaridade e conhecimento e que nos faz pensar e sentir que a autora é alguém próximo, que pode a qualquer momento sentar-se ao nosso lado e entabular um diálogo connosco de igual para igual. Essa sensação voltou a materializar-se com a obra que me emprestaram, que entrelaça a biografia da genial Maria Curie com aspetos biográficos da própria Rosa Montero e com divagações e apontamentos que a mesma vai partilhando com o leitor sobre a vida, a morte, o papel da mulher na sociedade ao longo dos tempos, o seu papel de escritora, de mulher e de esposa de alguém ou apenas sobre banalidades que tanto colorido aportam ao dia-a-dia de cada um de nós.
A quarta obra saiu diretamente do meu e-mail para o tablet do meu filhote. Não sou a maior fã de e-books, mas tenho que, mais uma vez, expressar o meu agradecimento à Cristina Tista, uma seguidora do blogue e que me vai enviando obras em formato digital que sabe que me irão agradar. Uma vida à sua frente, de Romain Gary, conta-nos a história sofrida e dolorosa de um órfão, filho de uma prostituta e do seu chulo, que vai sobrevivendo em casa de uma anciana, também ela uma antiga prostituta e sobrevivente dos campos de extermínio de Auschwitz. A narrativa, como se pode depreender, aperta-nos o coração de compaixão e leva-nos a querer saltar para dentro dela para podermos estreitar Momo (o protagonista) nos nossos braços e não mais o largarmos. Está muito bem escrita e o estilo sensível, quase poético, do autor é outro fator que nos agarra e faz de Uma vida à sua frente um romance que deve ser lido por todos.
Encerrei o mês como o comecei – com uma obra saída da minha estante. Mas as semelhanças terminam aí, porque No país da nuvem branca cumpriu com o seu propósito – dar-me espaço para respirar, para desfazer os nós de emoção que me foram apertando com uma leitura levezinha e fácil de tragar, contudo não permitiu sequer que criasse muita empatia com as personagens, sobretudo com as protagonistas, às quais senti que lhes faltava mais entusiasmo, mais força, mais vida.
Resumindo o que foi dito até aqui, as cinco obras lidas em maio não defraudaram. Nenhuma delas o fez, mesmo aquelas às quais dei nota mais baixa. Destaco sobretudo a obra magistral de Jaume Cabré e a deliciosa biografia/autobiografia/ensaio de Rosa Montero. Ficarão comigo por muito tempo!
Quanto a novos inquilinos na estante e face a promessas que cumpri a muito custo, o mês de maio encheu a prateleira das aquisições apenas com uma obra que o meu filhote ofereceu com muito amor no dia da mãe!
Trata-se de Rapariga em guerra, de Sara Novic, que me vai fazer regressar aos palcos da guerra, mais precisamente à guerra dos Balcãs. O meu coração já se aperta de antecipação, porque, como sabem, nutro especial predileção pela dor e pelo sofrimento, anseio por narrativas que me transtornem, que deixem marca. E esta seguramente deixará.
E o vosso maio, como foi? Fico à espera das vossas respostas.
Deixo-vos, como sempre, os links para acederem à opinião completa das obras lidas este mês:
§  Eu confesso, de Jaume Cabré
§  Furta-cores, de Cristina Parga
§  Uma vida à sua frente, de Romain Gary
§  No país da nuvem branca, de Sarah Lark

No país da nuvem branca, de Sarah Lark


Ficha técnica
TítuloNo país da Nuvem Branca
Autora – Sarah Lark
Editora – Marcador
Páginas – 682
Datas de leitura – de 18 a 28 de maio de 2017


Opinião
Finalmente! Duas semanas depois finalmente consigo sentar-me à frente do computador e sorrir para o ecrã.
Esta altura do ano é caótica, com exigências que caem em catadupa e horas intermináveis de caneta vermelha em punho, à volta de incontáveis grelhas de excel e de papelada física e digital que não me sai das mãos. Por isso, o tempo que sobra para as leituras é diminuto e, como se isso não bastasse, o cansaço acumulado provoca efeitos secundários nefastos que transtornam a qualidade do meu sono e fazem com que a minha cabeça trabalhe a uma velocidade estonteante, mesmo quando está pousada na almofada há mais de duas, três, quatro, cinco horas…
Contudo, este fim de semana ditou uma ligeira trégua e aproveitei-a para escrever a opinião da obra que terminei de ler no “longínquo” dia 28 de maio e da qual, por esta ou por aquela razão, já pouco recordo.
Até retirar da estante a obra de Sarah Lark, tinha preenchido os dias de maio com leituras exigentes e muito emocionais. Assim, já tinha determinado que terminaria o mês fazendo um parêntesis nessa exigência, lendo algo levezinho, algo que não contribuísse para o turbilhão que já se havia apoderado da minha cabecinha exausta.
No país da nuvem branca traz-nos uma narrativa que se espraia por bem mais do que seiscentas páginas e que nos numa viagem que começa na Inglaterra vitoriana e termina nos confins do mundo, na mais longínqua colónia de Sua Majestade – a ilha da Nova Zelândia. É uma narrativa protagonizada por duas jovens mulheres que partem para um casamento com dois homens que vivem na referida ilha e dos quais pouco ou nada sabem. Helen é uma jovem preceptora que tem plena consciência de que está prestes a tornar-se uma solteirona e vê uma clara oportunidade de dar um novo rumo à sua vida num anúncio que lê e onde homens respeitáveis da Nova Zelândia procuram uma companheira. Gwyneira, uma jovem nobre com comportamentos pouco adequados para uma dama – prefere sem dúvida alguma cavalgar, estar no meio de animais que organizar uma festa ou preparar o perfeito ramo de flores para colocar no centro da mesa da sala – aceita casar com o filho de um magnata de criação de ovelhas neozelandês e vê nessa proposta a possibilidade de embarcar na maior aventura da sua vida. As duas coincidentemente viajam no mesmo barco e tornam-se de imediato amigas. Contudo, a chegada ao outro lado do mundo, às suas novas casas vai pôr em perigo essa amizade.
Como facilmente se deduz, esta obra “vive” das suas protagonistas femininas, da personalidade, das alegrias e dos contratempos das suas vidas. Contudo, à medida que nos vamos adentrando na narrativa, deparámo-nos com um cada vez maior protagonismo de Gwyneira, protagonismo esse que faz com que Helen passe a ser um das muitas personagens secundárias que povoam a história. É certo de que a fogosidade, a determinação, as atitudes de uma mulher vanguardista predispõem-nos a aceitar essa realidade, mas, na minha opinião, a leitura poderia ter ganho outro fôlego se o protagonismo fosse mais equitativo, se continuasse a haver um equilíbrio entre o temperamento arisco e tempestuoso de Gwyn e a personalidade serena, objetiva e mais terrena de Helen. Criei empatia com as duas desde o início da obra, sem distinções ou preferências e por isso não aceitei de muito bom grado a primazia de uma face à outra.
No país da nuvem branca, como o título indica (assim nomeavam os maoris a sua ilha), vive igualmente do seu enredo histórico, da mistura entre o ficcionado e os primórdios da colonização de uma ilha sem animais selvagens, com paisagens de cortar o fôlego e uma população indígena que, segundo o que se depreende da leitura (não me dei ao trabalho de confirmar a veracidade das investigações da autora), aceitou pacificamente a chegada do homem branco e a correspondente ocupação das terras. A leitura torna-se aprazível com as descrições das tradições dos maoris, da vivência entre estes e os poderosos brancos, do crescimento voraz de povoações que rapidamente se transformam em cidades e do relaxamento compreensível das normas e regras que de forma alguma se podiam quebrar na sociedade londrina. Vamos contactando com gente simples, com homens e mulheres que foram fazendo a sua fortuna à custa de trabalho, com indígenas que nos fazem ver a vida de uma forma mais concreta, em plena comunhão com os elementos naturais. Vamos ganhando afeição por uma ilha que no século XIX tinha todas as características para ser o paraíso na terra. Vamos, eu que o diga, sonhando com uma visita a esse cantinho do mundo que, ainda hoje, mantém muitas das suas características únicas e que levam a que todos que o visitam venham deslumbrados e perdidamente apaixonados.
Pelo que foi dito até agora, compreende-se que aconselhe a todos que sintam predileção por este género de obra a leitura de No país da nuvem branca. “Papa-se” muito bem – li mais de 200 páginas em menos de quatro dias – oferece-nos uma leitura agradável, interessante e que não defrauda. Contudo, não me satisfez totalmente, pois não buliu comigo da forma como esperava. Sabia que não me traria a intensidade emocional que me trouxeram as obras que a antecederam, mas estava à espera de mais. De mais equilíbrio entre as protagonistas, de mais sentimento, de mais drama, de menos aceitação de algumas situações, de mais dor numa separação, de mais raiva e frustração em quezílias e em outros momentos de violência. Enfim, de mais vida! Por isso, não comprarei os outros volumes da trilogia, porque pressinto que me dariam mais do mesmo…
Assim sendo, não me resta outra alternativa que não seja encerrar rapidamente este parêntesis e mergulhar numa leitura que me faça dobrar de emoção. E já sei exatamente onde procurá-la!

NOTA – 07/10

Sinopse

Londres, 1852. Duas raparigas empreendem uma viagem de barco rumo à Nova Zelândia e tornam-se amigas. Trata-se, para ambas, do início de uma nova vida como futuras esposas de dois homens que conhecem apenas por correspondência. É o começo de uma nova vida com homens que não conhecem. Gwyneira, de origem nobre, está prometida ao filho de um magnata da criação de ovelhas, enquanto Helen, uma jovem perceptora, parte para se casar com um fazendeiro. Procuram encontrar a felicidade num país que promete ser o paraíso. No entanto, as ilusões de ambas depressa se esfumam, principalmente quando descobrem que a sua amizade está em perigo porque os maridos são inimigos. Gwyneira e Helen são mais fortes do que acreditavam ser e rompem com os preconceitos e as restrições da sociedade onde vivem, mas serão capazes de alcançar o amor e a felicidade do outro lado do mundo? 

Uma vida à sua frente / La vida ante sí, de Romain Gary


Ficha técnica
TítuloUma vida à sua frente / La vida ante sí
Autor – Romain Gary
Editora – Versão Epub
Páginas – 180
Datas de leitura – de 14 a 17 de maio de 2017


Opinião
Esta opinião já devia ter sido escrita. Não o foi porque o tempo continua a ser escasso e porque o calor dos últimos tempos apodera-se do meu corpo na forma de uma moleza e languidez que me arrastam até ao sofá e fazem com que cole uma limitada atenção a tudo o que qualquer canal esteja a passar no momento.
  Já passam vários minutos das nove da noite e de hoje não passa – tenho que lutar contra a referida moleza e uma vontade tremenda de me esticar no sofá para avançar umas páginas na leitura que me acompanha. Sendo assim, aqui vai.
Uma vida à sua frente chegou-me às mãos como mais uma oferta maravilhosa de uma das seguidoras do blogue. Foi a terceira leitura digital que fiz e todas elas se devem à generosidade de Cristina Tista, que há uns tempos atrás, “inundou” o mail do blogue com mais de dez e-books cujos títulos faziam parte da minha wishlist.
À partida, tendo em consideração a correspondente sinopse, esta obra do polémico Romain Gary encaixaria na perfeição naquilo que sempre busco numa leitura desafiante e compensadora. Sabia que o seu protagonista era um menino muçulmano, órfão e que vivia com uma ex-prostituta judia, sobrevivente de Auschwitz. Sabia por este ou aquele comentário lido que seria extremamente difícil conter-me e não querer a todo o custo adotar Momo, não sentir uma necessidade absoluta de dar-lhe colo. Sabia que seria um teste ao meu lado maternal para o qual é inconcebível viver um dia sem a partilha de mimos entre mãe e filho.
Como tal, estava preparada para um turbilhão de emoções e para a dor entrelaçada com ternura e comoção. Contudo, o embate, o choque não foram de proporções gigantescas, já que Momo desarma-nos com a sua inocência, a sua precocidade e o desenrasque típico de um órfão que interiormente sabe que apenas pode contar consigo mesmo. Filho de uma prostituta e de um pai do qual não se recorda, diz-nos cruamente que ele e os outros miúdos que vão sendo depositados em casa da Senhora Rosa são “chiquillos que no habían podido abortarse a tiempo y que no eran necesarios”. Veste no seu dia-a-dia a pele de um miúdo corajoso, desenrascado e quase isento de sentimentos, mas de vez em quando desintegra-se e confessa os seus medos, sendo que o principal era ficar sozinho no mundo – “Cada vez se cansaba más la señora Rosa (…) y yo me sentía más pequeño y tenía más miedo.”
Momo é, como podem comprovar por estes fragmentos e por muitos outros que fui anotando no meu caderninho, um protagonista, um narrador e um menino que iluminam e enchem a narrativa de uma luz brilhante e redentora. Quase não necessitamos de nada mais para ficarmos encantados e rendidos. Contudo, Uma vida à sua frente está preenchida de outras personagens não menos cativantes como a já referida senhora Rosa (que transporta às costas um passado ainda mais pesado do que os seus quase cem quilos); o doutor Katz que tem um consultório onde atende todos os que necessitam de ajuda, nem que seja apenas uma carícia na cabeça, como Momo; o senhor Hamil que, mesmo estando cego, não se separa nunca do seu exemplar de Os miseráveis, de Victor Hugo; ou a senhora Lola, um travesti senegalês com um coração do tamanho do mundo.
Aliado a um narrador/protagonista inesquecível e a um leque de personagens com as quais criamos laços fortes, está o facto de a obra estar realmente muito bem escrita, de o autor a ter dotado de um estilo que junta o lado cru da vida com o seu lado mais doce, mais ternurento e mais positivo. Tudo se perdoa, tudo se esquece quando há amor, há atenção, há carinho e alguém se senta ao nosso lado, nos escuta e nos segura na mão, quando alguém põe de lado o nojo e limpa as partes íntimas de uma velha, gorda e doente, quando alguém faz o possível e o impossível para que a vida se mantenha digna e os olhos moribundos de uma velha sejam capazes de brilhar novamente.
Acho que não preciso de dizer nada mais. Momo merece que o conheçam e queiram desesperadamente que ele não sofra nem mais um dia. Obra, por isso, recomendadíssima!

NOTA – 09/10

Sinopse
Uma Vida à Sua Frente é narrado por Mohammed, um rapaz árabe de 14 anos, órfão, que vive no bairro pobre de Belleville com Madame Rosa, prostituta reformada e sobrevivente de Auschwitz. 

Publicado em 1975, o livro teve êxito imediato: vendeu milhões de exemplares em todo o mundo, foi traduzido em mais de vinte línguas e adaptado para o cinema num filme com Simone Signoret. Nesse mesmo ano, recebeu o Prémio Goncourt.

A ridícula ideia de não voltar a ver-te, de Rosa Montero


Ficha técnica
TítuloA ridícula ideia de voltar a ver-te
Autora – Rosa Montero
Editora – Porto Editora
Páginas – 176
Datas de leitura – de 09 a 13 de maio de 2017


Opinião
Em fevereiro deste ano li pela primeira vez Rosa Montero e apaixonei-me por esta escritora espanhola. Ao encerrar a leitura de Amantes e Inimigos (podem consultar a correspondente opinião aqui), disse para mim mesmo que finalmente havia encontrado a perfeita companhia feminina para a outra “deusa” das letras espanholas que me abalroa sempre que leio algo que sai das suas mãos – tive assim a certeza de que Rosa Montero iria sentar-se lado a lado da “minha” Almudena Grandes e percebi também que teria que ter acesso a outras obras suas.
Tenho o hábito, como o tem qualquer livrólico que se preze, de carregar para todo o lado o livro que estou a ler no momento. E é óbvio que também o carrego para o trabalho, pois há que aproveitar cada momento livre para “devorar” mais umas páginas. Este meu hábito não passa despercebido e faz com que muitas das conversas que entabulo com colegas sejam sobre livros e correspondentes leituras. Nos dias em que carreguei para a escola Amantes e Inimigos tive a sorte de, num momento de pausa, estar sentada ao lado de uma colega que partilhou comigo o quanto gosta de Rosa Montero e que não se importaria nada de emprestar-me duas das suas obras que a haviam deixado maravilhada – A ridícula ideia de não voltar a ver-te e A louca da casa.
Em consequência do referido entusiasmo demonstrado pela colega, tive que abdicar da mania das leituras por ordem cronológica. Bom, abdicar não abdiquei totalmente (how could I?...), mas determinei que acabaria de ler os livros que comprara em setembro do ano passado, o livrinho que me ofereceram em outubro e antes de embarcar nas de novembro pegaria num dos empréstimos.
Peguei em A ridícula ideia de não voltar a ver-te como poderia ter pegado em A louca da casa. Quis o acaso que optasse pela obra que junta aspetos biográficos de duas enormes mulheres que partilharam uma das maiores dores – a de perder cedo demais (é sempre cedo demais…) o homem, o companheiro, o amigo, o amante, aquele que estava destinado a dividir a vida connosco.
Esta dor, uma dor verdadeira, é indizível e parece-se muito com a loucura. “O cérebro não consegue compreender que tenha desaparecido para sempre. (…) Mas como, “não o verei mais?” Nem hoje, nem amanhã, nem depois de amanhã, nem dentro de um ano? É uma realidade inconcebível, que a mente rejeita: não o ver nunca mais é uma piada de mau gosto, uma ideia ridícula.” Uma dor que embota os sentidos, que fez com que Marie Curie desabafasse no seu diário dizendo que, um quarto de hora após ter-se levantado relativamente tranquila, tinha outra vez vontade de “uivar como um animal selvagem”. Isto quase um mês depois do seu marido, Pierre, ter morrido atropelado por uma carruagem. Isto escrito por uma mulher inteligentíssima, cujo semblante transparece (em todas as fotos que se lhe conhecem) frieza, distância e autoritarismo, uma mulher que dedicou toda a sua vida às ciências, às experiências, ao que se vê como exato, racional.
O referido diário da mulher que ganhou por duas vezes o Prémio Nobel é o ponto de partida para uma obra que reúne apontamentos de biografia, de autobiografia, de ensaio, de memórias e de muito mais. Rosa Montero parte realmente da descoberta desse diário e das consequentes leituras que fez de biografias de Marie Curie para partilhar connosco a vida desta extraordinária mulher, a dor surda e indizível pela morte repentina do marido, a extrema importância dos seus achados para o mundo da ciência e a luta que travou ao longo da sua vida com uma sociedade e uma mentalidade que olhavam para a mulher como um ser inferior e destinado a afazeres domésticos e familiares. Contudo, A ridícula ideia de não voltar a ver-te não é apenas uma obra sobre Marie Curie. É isso e muito mais. Caramba, é muito mais!
Enchi páginas e páginas do meu caderninho de apontamentos com fragmentos, passagens e expressões que me tocaram e agarraram. Rosa Montero, tal como já referi, sabe como ninguém o que é perder o companheiro de uma vida. Por isso traça um paralelismo entre a sua dor e a de Marie Curie e fá-lo de uma forma tão vívida, tão sentida, que é impossível não sentirmos como nossa um pouco dessa dor – “… sinto falta de conhecer também o passado, a vida de Pablo que eu não vivi. Quero saber tudo acerca dele. Se o conseguisse, e em absoluto, seria como se ele não tivesse morrido.” “ Aqueles dias que passei com Pablo em Nova Iorque, um mês antes de lhe terem diagnosticado o cancro, são agora uma memória incandescente: ele estava mal e eu não sabia; o desconhecimento abrasa, o pensamento é persecutório; a inocência de ambos antes da dor, insuportável.” “Pablo, que pena ter esquecido que podias morrer, que podia perder-te. Se tivesse essa consciência, ter-te-ia amado não mais, mas melhor. Ter-te-ia dito muito mais vezes que te amava. Teria discutido menos por tontices. Ter-me-ia rido mais. E até me teria esforçado por aprender o nome de todas as árvores e por reconhecer todas as folhinhas. Já está. Já o fiz. Já o disse. De facto, consola.”
Acho que pelos fragmentos que aqui deixo dá para ter noção do quanto tenho razão ao elevar Rosa Montero a um patamar até agora reservado apenas a uma espanhola. O que ela põe de si, da sua visão das pessoas e do mundo, das suas convicções transborda para uma obra que põe a nu e em completa evidência uma escrita pejada de emoção, de sinceridade, de comunhão e de vidas vividas por gente famosa, mas que ao fim do dia são como qualquer um de nós e que quebram e uivam de dor, que lutam num mundo desigual e que almejam, mais do que tudo, usufruir de uma vida feita de pequenas banalidades, de uma intimidade que é sinónima de conhecer alguém, de possui-lo, de aceitá-lo, de amar as manias de um companheiro e sorrir perante a imagem não muito clara que não deixa adivinhar onde começa um e acaba o outro. Deliciosamente sublime!
Voltei a ler o que escrevi até aqui e continuo com a sensação de que não estou a ser capaz de fazer justiça a esta obra. Quero mesmo que quem leia esta opinião tenha uma vontade irresistível de ler Rosa Montero, de saborear como eu a sensação de que ela parece estar mesmo a confidenciar-nos o lado mais íntimo da sua vida e da sua escrita, de sentir o coração a encolher e suster a respiração perante trechos dolorosamente reais e próximos de nós. Quero mesmo que sinta o orgulho que senti quando a autora cita Fernando Pessoa ou admite a predileção que tem por Paula Rego. Quero mesmo que se lhe ilumine o sorriso e acene de concordância como eu o fiz ante a inegável verdade do quanto a arte, a literatura consegue transformar um sofrimento que nos parte a espinha numa coisa bela – “Esmagamos carvões com as mãos nuas e às vezes conseguimos que pareçam diamantes.” Enfim, quero mesmo que leiam Rosa Montero, que conheçam as suas letras e se apaixonam pelas mesmas. Como eu!

NOTA – 09/10

Sinopse
Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua. Assim nasceu A ridícula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso. 
São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.

Um livro libérrimo e original, que nos devolve, inteira, a Rosa Montero de A Louca da Casa - talvez o mais famoso dos seus livros.

Furta-cores, de Cristina Parga


Ficha técnica
TítuloFurta-cores
Autora – Cristina Parga
Editora – 7 letras
Páginas – 84
Datas de leitura – de 07 a 09 de maio de 2017


Opinião
Dezassete contos. Uns muito curtinhos, de apenas duas páginas. Outros mais longos. Em todos eles abundam referências corais, o azul do mar em sintonia ou em contraste com o azul do mar ou de um rio, a palete de cores indescritíveis das flores, um cor-de-rosa choque de umas chinelas abandonadas no chão do quarto de alguém – “… as cores invadem, embalam, encantam.”
Este livrinho, totalmente desconhecido até ao momento em que o recebi, foi um “regalito” da minha querida colega e amiga, Lili. É da autoria de uma jovem brasileira, Cristina Pargas, que estudou e viveu em Lisboa e que atualmente vive no Rio de Janeiro, trabalhando como editora. Esta coletânea de contos é o seu primeiro livro.
Apesar da sua juventude, Cristina Pargas delicia-nos com a sua escrita original, polvilhada de apontamentos sensoriais e poéticos. Todas as histórias que compõem esta obra calcorreiam as vidas de gente anónima, de gente que busca conforto, que tateia à procura do contacto, do calor, dos cheiros de alguém. De alguém que o abrace, que o agasalhe e o proteja e o faça não sentir-se só, desamparado.
Desde as primeiras palavras do primeiro conto somos atingidos pelo poder, poesia e magia da escrita desta autora brasileira. A doçura, a sonoridade, os cheiros e a ternura que transportam as palavras que escreve e combina são memoráveis e fizeram com que fosse sublinhando e anotando trechos de uma beleza e sensibilidade que eu considero perfeitas, porque nos entram na alma e tocam no nosso lado mais íntimo e emotivo. Aqui estão alguns exemplos:
“… seus dedos tateiam os meus, úmidos da água. Eu estou aqui ainda, não fui embora, não irei – queria dizer – mas a fala se represa em minha boca.”
Teu rosto ainda em meus dedos, os traços riscados nos movimentos da noite, corpo, olhos e gestos inscritos na minha pele para sempre…”
“… e eu te toco e dispo os tênis e os atiro para longe e relembro o mapa do seu corpo pelo cheiro de cada curva e segredo, e abraço e adormecemos com as estrelas acesas, no escuro do teto acima.”
Como acontece com qualquer coletânea de contos, nem todos mexeram comigo com a mesma intensidade. Houve inclusive um ou outro que me deixaram ou confusa ou indiferente, mas na generalidade senti que o meu coração se encolhia e um arrepio me trespassava ao ter acesso à solidão de uns, à dor, à amargura, nostalgia, medo, luto, abismos e demónios de muitos outros. Por isso, valeu a pena esta leitura, estas leituras. Por isso, agradeço uma vez mais à Lili este “regalito” saboroso e sensorial. Por isso, recomendo-o a quem se inclina de prazer perante uma coletânea de contos e se verga perante uma escrita poética, repleta de sensações, emoções, repleta de vida.

NOTA – 08/10

Sinopse

Furta-cores é um daqueles livros que não é apenas para ser lido: é para ser saboreado a cada releitura, em todas as suas texturas, cores, perfumes e sons. Os contos de Cristina Parga nos levam a redescobrir o gosto da língua, num percurso pelas mais íntimas paisagens estrangeiras – revelando com delicadeza os encontros e desencontros entre as mais diversas solidões humanas.

Eu confesso, de Jaume Cabré


Ficha técnica
TítuloEu confesso
Autor – Jaume Cabré
Editora – Tinta da China
Páginas – 736
Datas de leitura – de 20 de abril a 06 de maio de 2017


Opinião
Há três dias encerrei a leitura desta obra. Tive-a nas mãos durante dezasseis dias. Tardei em lê-la mais do que qualquer obra que li este ano, no ano passado e muito provavelmente há dois anos. Não pelo seu número considerável de páginas. Já li mais páginas em menos tempo. Eu confesso fez-me companhia durante dezasseis dias porque não é, de maneira nenhuma, uma obra fácil. Nem para alguém tão sedento como eu, que busca incessantemente leituras exigentes, que me provoquem e me aturdam.
Aturdimento é assim a palavra mais adequada para descrever-vos como ainda me sinto hoje, três dias depois de ter desfolhado a página final da obra de Cabré. Aturdida com a genialidade e complexidade do seu estilo, com uma narrativa que de uma frase para outra ou mesmo na mesma frase muda de um narrador de primeira pessoa para um de terceira (sendo que ambos são o protagonista da história), salta no espaço e no tempo (muitas vezes de século) e com um protagonista superdotado, inteligentíssimo, mas imperfeito como todos nós, repleto de contradições, dúvidas e atos ou altruístas ou covardes.
Adrià Ardévol nasce a trinta de abril de 1946 no seio de uma família com posses. É o único filho de um casal barcelonês mas cedo nos confessa que “Nunca houve amor em nossa casa. Eu fui uma mera consequência circunstancial na vida dos dois.” Deambula pela casa (e consequentemente pela sua infância) recebendo migalhas de atenção dos progenitores que se digladiam em frequentes disputas sobre a que é que o filho (que nada mais quer do que ter uma mãe que lhe faça de vez em quando uma carícia no cabelo e um pai que se orgulhe dele) terá que dedicar a sua inteligência – se ao estudo de variadíssimas línguas estrangeiras se aos virtuosismos de um violino.
A infância de Adrià, os seus estratagemas para perceber melhor quem são os seus pais, por que se casaram, o fascínio que sente pela loja de antiguidades do pai e por ouvir conversas proibidas são apenas o ponto de partida para uma narrativa que transpira complexidade e que pode desanimar o leitor menos experiente nas páginas iniciais. Admito que, mesmo munida do caderninho que sempre me acompanha em qualquer leitura, eu própria me senti atordoada na primeira parte, onde as constantes mudanças de narrador, de espaço, de tempo e de personagens me apanharam de surpresa e me fizeram recordar o quão exaurida fiquei com mais de metade da obra de Vargas Llosa – Conversa n’A Catedral. Contudo, tal como aconteceu com o magnífico livro do escritor peruano, também não deixei que a complexidade e densidade do estilo de Cabré me afetassem e fui desbravando capítulo atrás de capítulo e habituando-me às referidas reviravoltas. E fui lentamente afeiçoando-me a Adrià.
Tal como o título indica, esta obra é uma longuíssima confissão que engloba, como é óbvio, a vida de Adrià, desde a infância até à terceira idade e que engloba também a vida dos seus pais, dos seus amigos, dos seus amores, das suas aventuras e desventuras. Mas seria muito redutor afirmar que Eu confesso é apenas isso. É igualmente uma longuíssima reflexão sobre o ser humano e o seu lado mais negro, a maldade, a dor, a tortura que se inflige a outro ser humano pelas razões mais mesquinhas e mais abjetas. Muitas vezes justificadas por questões religiosas, políticas ou meramente pessoais. Desde a Inquisição ao extermínio nazi, passando pelo franquismo ou pelas ideias extremistas muçulmanas, tudo interfere com a suposta pacata vida de Adrià para deixar bem claro que “… a história de qualquer coisa explica o estado presente da coisa qualquer.” (pág. 309)
Eu confesso é ainda um hino de louvor à importância de conhecer idiomas, do quanto somos mais ricos se soubermos cultivar a nossa língua materna e as outras ditas estrangeiras. É igualmente uma ode em prosa do quanto a música nos eleva a outros patamares, no quanto um acorde de violino nos arrebata até às lágrimas e exprime o que não é exprimível em palavras. É por fim uma obra que, através do seu protagonista e da sua interminável biblioteca (digna da mais visceral inveja), reflete o que deveria ser um dogma, uma verdade que não admite contestação – os livros são sabedoria, são conhecimento, são entretenimento, são uma porta para uma mentalidade mais aberta e mais tolerante. A propósito, não resisto a deixar aqui mais um fragmento dos muitíssimos que registei no caderninho: “… todos os dias leio e todos os dias me apercebo de que ainda tenho tudo por ler. E de vez em quando tenho de reler, apesar de só reler o que me merece o privilégio de ser relido.” (pág. 542) Soberbamente certeiro!
Há ainda muito mais para dizer sobre esta obra, nomeadamente a belíssima e dolorosamente imperfeita história de amor de Adrià e da sua amada. Mas prefiro não me alongar. Prefiro deixar que Cabré vos surpreenda e vos aturda como me fez a mim. Prefiro que os leitores que lerão esta opinião embarquem nesta odisseia de mais de setecentas páginas, que façam a sua própria viagem e sintam que nem no seu desfecho o autor deixa de ser genial.
Concluo, justificando-me, justificando por que razão não atribuo a Eu confesso a nota máxima. Apenas lhe reservo um 9/10 e faço-o citando Adrià – Mea culpa. Sim, sinto que fui eu quem não esteve à altura da mestria do autor, já que confesso que, por exemplo, alguns pormenores se foram perdendo à medida que avançava na leitura e algumas personagens se misturaram, ganharam contornos de outras. Mea culpa
Tento redimir-me, recomendando vivamente esta obra e, já agora, a outra que muito quero ler deste autor – As vozes do rio Pamano.

NOTA – 09/10

Sinopse

Na Barcelona franquista, o pequeno Adrià cresce num amplo e sombrio apartamento; o pai está determinado a transformá-lo num humanista poliglota, a mãe, num violinista virtuoso. Brilhante, solitário e tímido, o rapaz procura satisfazer as ambições desmesuradas que depositam nele, até ao dia em a morte violenta e misteriosa do pai o leva a questionar a origem da fortuna familiar. Meio século depois, Adrià recorda a sua vida, indissociável do turbulento percurso de um violino excecional. Da Inquisição ao nazismo, de Barcelona ao Vaticano, vai-se desvelando a cruel história europeia: uma cadeia de eventos iniciada na Idade Média, com repercussões trágicas até à atualidade.

Balanço mensal - livros lidos e adquiridos/recebidos em abril


Em abril o outro lado da vida intrometeu-se nas minhas leituras. Viagens, festividades, aniversários, convívios estreitaram o tempo que dedico aos livros e por isso apenas consegui ler três livros. Poderia ter terminado o quarto, que já me acompanha desde o dia vinte, mas não só o referido outro lado bom da vida não o permitiu como o facto da obra de Jaume Cabré ter mais de setecentas páginas fez com que quase fosse uma missão impossível.
Arranquei o mês sabendo que muito provavelmente atingiria a perfeição, que Kate Morton, uma vez mais, me iria enfeitiçar, enredar-me com as suas histórias, as suas personagens, as suas mulheres e me faria sentir perdida e órfã quando encerrasse As horas distantes. E as predições revelaram-se certeiras. Mais um dez em dez, mais uma narrativa que me sugou e cujas protagonistas e histórias pessoais se mantêm ainda hoje comigo.
 A segunda leitura foi igualmente um regresso ao mundo de um autor que me deslumbrou com a primeira obra que aterrou na estante cá de casa. Regressei a Joel Neto e aos Açores com A (sua) vida no campo, um diário do seu quotidiano, das suas reflexões, de pequenezes e minudências de 365 dias sobretudo passados numa pequena aldeia da ilha Terceira. Voltei a derreter-me com a escrita deste açoriano, com a singeleza das suas palavras e sobretudo com o quanto o dia-a-dia de uma pessoa simples e pacata pode ser sinónimo de beleza e encantamento.
Da biblioteca da terrinha veio a terceira obra que li este mês. Trouxe-a comigo por nenhuma razão em particular. Talvez porque queria conhecer uma autora que tem andado na boca de muitos e muitos. Talvez porque poderia surpreender-me e assim levar-me a acrescentar outro nome à lista de aqueles que escrevem delícias que não quero deixar de saborear.
Infelizmente Retrato de família não me surpreendeu. Não me arrebatou ao ponto de querer rapidamente ler mais da sua autora. A sua narrativa tem pontos interessantes, mas peca por ser algo previsível e sobretudo por não aproveitar as possibilidades que se lhe oferecem uma ou outra personagem. Falta-lhe maturidade, porventura porque se trata da obra de estreia de Jojo Moyes. Falta-lhe ainda intensidade e densidade para estar à altura das minhas expectativas, mas admito que a sua leveza e previsibilidade cumpriram o que lhes “pedi”, já que abriram caminho para a obra que se lhe seguiu e que desde as páginas iniciais exigiu toda a minha atenção, toda a minha devoção.
No balanço mensal anterior confessei o quanto tinha sido uma boa menina e o quanto me havia controlado para não pecar e não gastar dinheiro em habitantes novos. Não posso dizer que em abril o mesmo tenha acontecido. Caí em tentação duas vezes. Na primeira não resisti às promoções e adquiri uma obra para o maridinho e outra para mim. Na segunda, vinda de terras espanholas, trouxe na bagagem mais dois habitantes de língua castelhana. Por fim, tenho que agradecer muito ao afilhadinho mais novo, pois presenteou a madrinha com uma obra que fazia parte da minha wishlist!
Da primeira compra veio na encomenda dos correios a obra do Nobel Orhan Pamuk – Cevdet Bei e os seus filhos. Tal como é seu hábito, o maridinho pegou nela mal pôde e, apesar de ainda não a ter terminado (tem mais de setecentas páginas), já frisou por várias vezes que é muito, mas muito boa. Nessa encomenda veio igualmente A vida inútil de José Homem, de Marlene Ferraz, uma obra muitíssimo recomendada pela Márcia e pelo seu planeta e que suspeito que me vai arrebatar.
Os novos habitantes espanhóis são dois e de autores que já conheço e adoro. Patria, de Fernando Aramburu tem ocupado os primeiros lugares dos tops de vendas do país vizinho e vai levar-me de volta ao País Basco e à luta armada pela sua independência que deixou cicatrizes que ainda não sararam. La voz dormida, de Dulce Chacón também está ambientada num período bélico – a apaixonante Guerra Civil espanhola – e será na verdade uma releitura, pois a minha amiga Nancy já mo emprestou há uns bons anos atrás e lembro-me ainda hoje o quanto mexeu comigo a história de um grupo de mulheres inesquecíveis e que foram feitas prisioneiras, mas que nem por isso deixaram de mostrar a sua valentia, ousadia e sacrifício.
Por fim, o quinto habitante chegou à estante pelas mãos do afilhadinho mais novo e O czar do amor e do techno, de Anthony Marra, é outra recomendação vinda direitinha do PlanetaMárcia. As expectativas são elevadas, pois o que a Márcia recomenda dificilmente (mesmo dificilmente) desilude. Não se deixem enganar pelo título estranho e pela capa pouco apelativa, porque o conteúdo é bem sumarento!
Resumindo, abril foi o mês em que li menos. Aliás, não me lembro de ler tão pouco há muito, muito tempo. Contudo, foram três leituras suculentas, duas delas perfeitas ou quase perfeitas. Por isso não posso dizer que esteja desapontada. A vida é, afinal de contas, mais do que leituras!...
E o vosso abril como foi? Partilhem, por favor:
Deixo-vos, como é habitual, os links para acederem à opinião completa das obras lidas este mês:
§  As horas distantes, de Kate Morton
§  A vida no campo, de Joel Neto
§  Retrato de família, de Jojo Moyes