Demência, de Célia Correia Loureiro


Ficha técnica
TítuloDemência
Autora – Célia Correia Loureiro
Editora – Alfarroba
Páginas – 394
Datas de leitura – de 18 a 24 de junho de 2017



Opinião
Entrei no mundo das letras de Célia Correia Loureiro pela mão da minha querida Isa do blogue Jardim de Mil Histórias. Recordo-me que li a sua opinião sobre esta obra nos finais de novembro do ano passado e fiquei tão entusiasmada, tão agarrada às suas palavras, que aproveitei de imediato a “desculpa” para pecar no mês onde ainda estou mais proibida de pecar. Resultado – a dois de dezembro Demência já ocupava o seu cantinho na minha estante!
Seis meses depois retirei-a desse cantinho, embrenhei-me na sua leitura e compreendi, às primeiras páginas, o porquê da Isa ter afirmado que mal havia começado a ler a história de Letícia e de Olímpia, não mais a largou. Não mais a largou até ter lido as derradeiras palavras de uma obra que mostra uma maturidade surpreendente para uma autora que não era mais do que uma miúda quando a escreveu.
Demência é um romance onde predominam a força e o carácter das personagens femininas. As duas protagonistas já foram duramente castigadas pela vida. Ambas são viúvas e ambas encaram esse estado civil com evidente alívio. Ambas sabem o que é sofrer nas mãos de um marido-carrasco. Uma poderia ser o conforto da outra se não se desse a trágica coincidência de o marido de Letícia ser filho de Olímpia e de aquela o ter assassinado em sua própria defesa. Assim, uma para sobreviver, privou a outra da maior (e talvez única) alegria da sua existência, do seu orgulho, do seu único filho, do seu eterno bebé.
Nas páginas iniciais da narrativa viajamos até a uma aldeia beirã, situada perto de Tondela e que sempre foi a casa de Olímpia. É aí que ela continua a viver, sozinha, com os seus animais. E é também aí que a vizinhança começa a aperceber-se de que a sogra de Letícia não está bem mentalmente, de que os seus comportamentos e esquecimentos são indícios de que ela não poderá continuar a viver sozinha, desamparada. Essa doença, essa maldita doença será assim a justificação para que Letícia regresse à aldeia que a condenou em praça pública e que ainda condena, mesmo que a justiça a tenha absolvido. Regressará porque é a única familiar de Olímpia. Mas também regressará porque tem duas filhas a seu cargo e está praticamente sem teto e sem dinheiro para seguir com a sua vida longe daqueles que a vêm como uma assassina.
Foi extremamente fácil criar laços com estas duas mulheres. Foi extremamente fácil porque ambas são duas lutadoras, duas sobreviventes, duas mulheres que nos fazem sentir orgulho do nosso sexo, do nosso género. Será muito difícil esquecer a imagem de Letícia a entrar em casa de Olímpia, em casa do ser humano que mais a odeia, alguém que nos momentos de lucidez se vê obrigada a conviver com a nora, a mulher que matou o seu filho, a mulher que a deixou sem chão, sem razão para continuar a viver. Tentamos compreender os dois lados, queremos, quase de uma forma irracional que Olímpia perdoe Letícia, mas de imediato nos pomos no seu lugar, na sua pele, e não é humanamente possível que uma mãe seja capaz de todos os dias sentar-se ao lado da pessoa que matou o seu filho e descontraidamente perguntar-lhe o que quer para jantar ou se prefere chá ou café para o lanche.
Demência é, como se pode depreender, um romance de personagens, mas não apenas de Letícia e Olímpia. É-o, por um lado, de Maria e Luz, as filhotas de Letícia, de Gabriel, de Sebastião, personagens cativantes, que vamos conhecendo e por quem sentimos uma empatia imediata e é-o, por outro lado, de Fernando e Bartolomeu, dois homens doentiamente violentos, que revolvem o estômago de qualquer leitor. Por fim, Demência é ainda um romance onde uma personagem coletiva – os habitantes da aldeia onde moram as protagonistas – tem uma importância vital para o desenrolar da história. Um aglomerado de gente tacanha, mesquinha, de conhecimentos limitados e que segue apenas uma lei, a que deriva de estereótipos, da coscuvilhice, de verdade cegas que ninguém se atreve a contestar, com medo de ser diferente, de ser a ovelha negra. A justiça, a lei nada dita nesta aldeia se os seus habitantes crerem firmemente que eles é que estão certos e que os tribunais deixaram sair impune uma mulher que ceifou a vida a um dos seus, a um homem íntegro, pai afetivo de duas meninas e homem apaixonadíssimo pela sua esposa.
Como o próprio título indica, esta obra aborda uma das doenças que mais me assusta, uma doença tão degenerativa que apaga em pouco tempo todos os contornos que fazem de um homem ou de mulher um ser humano, um ser que pensa, que faz planos, que recorda, que sente, que ri, que chora, que é alguém no pleno sentido da palavra. Dói assistir ao desaparecimento de Olímpia, ao seu completo apagamento que a transforma num farrapo com duas pernas e dois braços. Dói pensar que o mesmo pode acontecer a um dos nossos ou a nós mesmos.
Por falar em dor, não é possível ficar-se impassível a outro tema que atravessa a narrativa. Falo da violência doméstica, outra forma horrenda de aniquilar a alma de alguém, de reduzir a nada a sua autoestima, a sua essência. Letícia é apenas mais uma mulher que a ficção cria para que se continue a tratar este tema, para que proteja todos os que sofrem nas mãos de seres cobardes, que usam e abusam da violência para sentir-se superiores, poderosos.
Tudo isto habita em Demência. Personagens, espaços, mentalidades, doenças, tudo chega ao leitor através de uma história muito bem construída, com uma linguagem simples, sem grandes artifícios, mas muito eficaz por isso mesmo. Tudo produto de uma escritora que denotava já bastante maturidade e um futuro promissor. Uma escritora que pretendo continuar a seguir e a ler, pois fiquei muito bem impressionada com este primeiro contacto com as suas letras. Espero, no entanto, que as outras obras que já publicou não tenham tantas gralhas e erros como esta, porque nunca é agradável tropeçar com tanta frequência como o fiz em palavras mal escritas, formas verbais sem acento ou outras gralhas que me obrigaram a estar sempre de lápis na mão.
Resta-me agradecer à Isa pela saborosa sugestão. Prometo que seguirei a que dás com a obra O funeral da nossa mãe.

NOTA – 08/10

Sinopse
No seio de uma aldeia beirã, Olímpia Vieira começa a sofrer os sintomas de uma demência que ameaça levar-lhe a memória aos poucos. A única pessoa que lhe ocorre chamar para assisti-la é a sua nora viúva, Letícia. Mas Letícia, que se faz acompanhar das duas filhas, tem um passado de sobrevivência que a levou a cometer um crime do qual apenas a justiça a absolveu.
Perante a censura dos aldeões, outrora seus vizinhos e amigos, e a confusão mental da sogra, Letícia tenta refazer-se de tudo o que perdeu e dos erros que foi obrigada a cometer por amor às filhas. O passado é evocado quando Sebastião, amigo de infância de Olímpia, surge para ampará-la e Gabriel, protagonista da vida paralela que Letícia gostaria de ter vivido, dá um passo à frente e assume o seu papel de padrinho e protector daquelas três figuras solitárias…

6 comentários:

  1. Olá Ana
    Que maravilhosa opinião! Se antes já queria ler, agora não me escapa :)
    Beijinhos e boas leituras

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    1. Olá, Sara!
      Obrigada, és uma querida! Sim, aposta, porque vale a pena! Fico à espera da tua opinião!
      Beijinhos e leituras muito saborosas!

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  2. (Aproveitar que hoje tenho finalmente tempo, para fazer os comentários todos!)
    Bem, parece mesmo daquelas histórias pesadas que me agarraram. Se não estivesse a assistir ao vivo ao desaparecimento de alguém que me é querido, ia já para a minha wishlist.
    Às vezes, gostava de conseguir abstrair-me de erros de tradução e de português, porque me distraem e irritam, e acabam por condicionar a minha opinião sobre o livro desnecessariamente.
    Paula

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    1. Que bom ver tantos comentários teus!
      É um bom livro, mas quando a ficção se intromete com a realidade, é melhor não procurar mais dor do que aquela que já sentimos... É um dos meus maiores medos, esse "imperador assassino", como lhe chama Cabré em "Eu confesso", por isso só consigo enviar-te força.
      Quanto aos erros, sejam de tradução ou de falta de revisão, não consigo mesmo abstrair-me deles, irritam-me como dizes e acabam por influenciar negativamente a opinião que tenho sobre um livro, mesmo que a culpa não seja inteiramente do autor... E com a máquina editorial de hoje em dia são inadmissíveis.

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  3. Olá Ana,
    Que bom que gostaste! A escrita da Célia é muito boa e envolvente :)
    Beijinhos e boas leituras

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    1. Sim, Isa, gostei imenso e agradeço-te por isso, mais uma vez! É por isso que também eu gosto muito do teu "jardim"!
      Beijinhos e leituras muito saborosas!

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