Explicação dos pássaros, de António Lobo Antunes

Quinta-feira, 06 de novembro de 2014




RELEITURA

Sinopse
Um homem e uma mulher deixam Lisboa para se dirigirem a Tomar, onde decorre um congresso, mas é em Aveiro que passam o fim-de-semana. O homem quer deixar a mulher, não é capaz de lhe dizer, e finalmente ela resolve deixá-lo. A mulher regressa sozinha. O homem desapareceu. Mais tarde, encontra-se o seu corpo na ria de Aveiro. Suicidou-se. Há pássaros junto do cadáver.

Opinião
Admiro a obra de António Lobo Antunes desde que, há uns bons anos atrás, a minha querida mamã me ofereceu O Manual dos Inquisidores, obra que já li pelo menos três vezes e que recomendo vivamente a todos – àqueles que não conhecem Lobo Antunes e àqueles que já o conhecem, mas ainda não tiveram o prazer de ler essa obra.
Já mencionei antes que, neste momento, as minhas leituras estão a ser intercaladas – leitura de uma obra que tenha “aterrado” ultimamente na minha estante e releitura de outra que já lá esteja há uns aninhos e que, por uma razão válida ou por um impulso do momento, me apeteça voltar a ler. Explicação dos pássaros era uma dessas obras que estava há uns tempos na “lista de possíveis releituras”, sobretudo por ser uma das obras escritas por Lobo Antunes que ainda consigo ler, ou seja, que não é tão densa e complexa como Ontem não te vi em Babilónia (cuja leitura se transformou em tortura, mesmo para alguém como eu, com alguma “bagagem” leitora) ou outras obras mais recentes, mas que possui todas as características que fazem deste autor alvo de uma justa admiração.
Contudo, não foi uma releitura fácil… Não sei se o facto de a ter relido numa altura de muito trabalho, de pouco tempo disponível para sentar/deitar no sofá e embrenhar-me na sua leitura tenha tido alguma influência, mas o que é verdade é que sinto que não voltarei a pegar nesta obra por muito e muito tempo…
Todos os que conhecem os romances de Lobo Antunes sabem que nenhum deles está recheado de momentos alegres, positivos ou que nos possam levantar o ânimo. Nada disso. Mas, mesmo tendo consciência disso, não consigo deixar de sentir que em a Explicação dos Pássaros, o autor conseguiu criar um protagonista que não poderia ser mais fraco ou volúvel. Desde as primeiras páginas sabemos que Rui S. irá suicidar-se e, numa narrativa que salta do presente para o passado ou para o futuro em poucas linhas, vamos acompanhando os seus últimos quatro dias de vida e ao mesmo tempo conhecendo a sua família, os seus tempos de jovem, as suas relações amorosas falhadas e a sua vida miserável, a vida de alguém que não tem nada que o faça lutar, que o faça querer viver um dia após o outro com ânimo e vontade de seguir em frente. O narrador faz questão de nos pôr a par de tudo o que poderia estar por detrás dessa fraqueza de carácter de Rui – uma família burguesa que vive das aparências, uma mãe que passa os dias a jogar cartas com as suas amigas burguesas e sobretudo um pai ausente, que trai constantemente a mulher e que, desde a infância de Rui, quando o tratava como um pai deve tratar um filho, se afastou abruptamente, deixou de brincar, de passar tempo com ele, como fazia no verão, quando o pegava ao colo e lhe explicava os pássaros.
Sendo assim, tal como acontece em O Manual dos Inquisidores, voltamos a uma obra que nos põe em contacto com uma personagem masculina que vê o seu crescimento seriamente abalado com a falta de atenção e acompanhamento da figura paternal. Mas, no caso de Rui S., nem essas recordações nostálgicas da infância, dos preciosos momentos passados com o pai, me levaram a sentir empatia por ele. A descrição que o narrador faz dele, das suas atitudes, dos seus comportamentos faz com que pareça que não quer que simpatizemos ou tenhamos compaixão dele, porque, à medida que a narrativa avança para o seu conhecido desenlace, tudo o que se relaciona com Rui S. nos mostra o seu lado mais fraco e mais abjeto. O narrador parece, dessa forma, ter como único propósito despedaçar, extirpar lentamente a vida do protagonista, tal como farão os amados pássaros ao seu corpo depois de se ter matado…
Resumidamente é um livro muito bem escrito, mas deprimente, que aborda de uma forma crua e nada abonatória a vida do nosso país na época pré e pós 25 de abril, critica sem piedade burgueses salazaristas e comunistas e faz com que a morte/suicídio de um ente querido seja vista como mais um número de circo sem qualidade…

Por tudo isto, sei que não voltarei tão cedo à obra “antuniana”!...

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