O amor nos tempos de cólera, de Gabriel García Márquez

Domingo, 21 de dezembro de 2014




RELEITURA

Sinopse
O Amor nos Tempos de Cólera constitui na obra de Gabriel García Márquez um marco equiparável ao do célebre Cem Anos de Solidão, considerado até hoje, a sua obra-prima.

Opinião
Tenho que discordar do que é referido na sinopse. Para mim, e que me desculpem todos os que não concordam comigo, Gabriel García Márquez atingiu a perfeição com a narração de amores, misturada com uma crónica social da região caribenha, nos tempos de cólera.
Li pela primeira vez Cem anos de solidão há mais de quinze anos e já estive com a obra nas mãos para fazer-lhe a releitura que sinto que merece, mas confesso que não passei daí… Desfolhei-a, mantive-a na mesinha de cabeceira por umas horas, mas, por fim, tive que voltar a pô-la na estante, porque sei que reler uma obra que está repleta de um número quase infinito de personagens, com o correspondente número de nomes (que ainda por cima são muito parecidos), de situações confusas, escrita com um estilo que vive do realismo mágico levado ao extremo (e que, para uma cética como eu, é demasiado para “poder ser engolido” como crível) seria uma pequena tortura, tal como foi quando a li pela primeira vez… Por todas estas razões, ao mesmo tempo que devolvia Cem anos de solidão ao lugar que ocupa na estante, decidi que seria bem mais saboroso recordar os amores de Florentino Ariza e da sua “deusa coroada”, Fermina Daza J
É certo que García Márquez deleita-nos com uma história recheada de sensualidade e poesia, que centra a sua ação nos cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias que Florentino vive à espera de que Fermina lhe abra a sua intimidade, se entregue a ele e possam assim gozar os prazeres de um amor recíproco. Mas O amor nos tempos de cólera é muito mais que uma história de amor. É uma porta que se abre e que nos dá a oportunidade de embrenharmo-nos na vida (dos finais do século XIX e princípios do século XX) de uma cidade portuária, dos seus habitantes, desde os aristocratas falidos, os comerciantes que vão ganhando a vida de forma mais ou menos legal até aos que vivem na miséria e tentam sobreviver em condições tão desumanas, que estão praticamente condenados a morrer de doenças como a cólera, que assolam a cidade demasiadas vezes. Oferece-nos igualmente uma paleta de costumes, mitos e tradições enraizados (de índole católica e pagã), de como o telégrafo revoluciona as comunicações e da importância que a navegação fluvial tem para a economia da cidade onde coabitam os nossos protagonistas. Já na última parte, o autor narra-nos a viagem “de núpcias” de Florentino e Fermina e em simultâneo vai-nos mostrando, sobretudo através das conversas que eles mantêm com o comandante do navio, o quanto a prosperidade das companhias de navegação fluvial estava diretamente relacionada com a destruição da fauna e flora das margens do rio Magdalena… Há então, nas páginas finais da obra (como acontece ao longo de toda a obra), um entrecruzar da belíssima história dos amores dos nossos protagonistas que conhece o seu desenlace feliz com a realidade económica da companhia dirigida por Florentino e também do seu país, uma realidade que não se restringiu à Colômbia, mas que infelizmente assolou outros países vizinhos – a sobre-exploração da natureza que levou à extinção de milhares de espécies…
Mas deixemos de lado estes factos menos positivos e centremos agora a nossa atenção na já tão conhecida e comentada demanda (de mais de cinquenta e um anos) de Florentino para entrar no coração e na vida da altiva e felina Fermina Daza. Centremo-nos na demanda que faz com que João Melo, no Posfácio que escreve sobre García Márquez e a sua obra, se refira a O Amor nos tempos de cólera como “um livro para viver” J. É óbvio que não posso deixar de concordar (e em absoluto), porque, num cenário onde impera a cólera que devasta populações, onde a morte ronda muito de perto as vidas dos dois protagonistas, Florentino não desiste de viver para conseguir que o seu amor seja correspondido, e, mesmo que só o tenha alcançado aos setenta e seis anos, consegue com isso dar-nos a melhor lição de todas – o amor não tem verdadeiramente idade, podemos ser tão ou mais felizes quando somos jovens ou menos jovens, que não devemos deixar que os anos que carregamos sejam um impedimento para a nossa felicidade, que somos donos do nosso destino, que somos nós que o escrevemos e o determinamos J! Perante tudo isto, como é possível não ficar rendida de corpo e alma a esta obra genial?...
Finalizo transcrevendo algumas das muitas passagens que sublinhei  e que são o exemplo perfeito (pelo menos para mim) do estilo poético, humorístico e cheio de pinceladas realistas e mágicas do autor. Aproveito ainda para assinalar que a edição que li (a 14ª edição das publicações Dom Quixote) está pontuada de gralhas que mostram que falhou o cuidado que deveria haver de uma editora tão reconhecida L
A sanita deve ter sido inventada por alguém que não sabia nada de homensJ (pág. 40)
A leitura converteu-se para ele num vício insaciável. J J(pág. 86)
O coração tem mais quartos do que uma pensão de putas.” (pág. 290)
Por outro lado, quando uma mulher decide ir para a cama com um homem não há muralha que não trema nem fortaleza que não caia, nem nenhuma consideração moral que esteja disposta a ser o seu fundamento; não há Deus que lhe valha”. (pág. 351)

Pois tinham vivido juntos o suficiente para se darem conta de que o amor era amor em qualquer tempo e em qualquer lugar, mas tanto mais denso quanto mais próximo da morte. (pág. 368)

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