Tanta gente, Mariana, de Maria Judite de Carvalho



Ficha técnica
TítuloTanta gente, Mariana
Autora – Maria Judite de Carvalho
Editora – Ulisseia
Páginas – 158
Datas de leitura – de 28 a 30 de março de 2018

Opinião

Sinto-me só, mais do que nunca, ainda que sempre o tivesse estado.
Sempre.” (pág. 19)

Antes de redigir esta opinião, quis conhecer um pouco melhor esta autora que até há bem pouco tempo desconhecia por completo. Fiquei a saber que não teve uma infância feliz, que perdeu a mãe e o irmão quando era muito pequenina e que esteve casada com um dos nossos homens das letras mais influentes – Urbano Tavares Rodrigues –, por quem sempre tive uma empatia muito grande, nascida apenas e só por causa do seu sorriso e da sua afabilidade. Vi algumas das suas fotografias e outros exemplos da sua bibliografia. E não consegui conter as lágrimas ao confrontar o que a internet me mostrou com os excertos que fui anotando no meu caderninho, dos quais aquele que deixei no início desta opinião é um exemplo claramente doloroso e taxativo do sentimento que percorre a obra Tanta gente, Mariana.
Parti para a sua leitura quase às escuras. Fi-lo de propósito. Aceitei sem hesitar a sugestão da Bárbara, do blogue I keep making these to-read lists and nothing gets crossed out, trouxe o livro da biblioteca e só me dei conta de que ele era uma coletânea de contos e não um romance quando já estava embrenhada na leitura daquele que lhe dá título e que é, sem dúvida, o melhor de todos os oito que compõem a obra.
Tenho consciência de que não irei ser capaz (pelo menos não totalmente) de pôr em palavras o impacto que tiveram em mim todos os contos, sobretudo o da Mariana, uma mulher com apenas trinta e seis anos e que se sente velha, gasta, abandonada, acompanhada apenas por uma solidão muito, muito só e que se encontra num quarto arrendado à espera de uma morte já anunciada – “É o meu fim, o único. (…) Pela primeira vez alguém me vem buscar, alguém me procura. Por que não hei-de estar feliz, eu, a escolhida?” (pág. 68)
É impossível alguém pôr os olhos neste excerto e não se sentir encolhido de estupor, não sentir-se abalroado pelo mundo e não querer desesperadamente estender a mão e mitigar, dessa forma, a dor e a solidão de uma mulher que, aos quinze anos, ouve da boca do seu próprio pai algo tão cru como – “Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode.” (pág. 20) De um soco destas proporções ninguém consegue recuperar. Como poderia?
Todo o conto é deveras avassalador e uma bofetada que quase nos arranca a cabeça. Concordo com todos aqueles que referem que ninguém escreve sobre a solidão como o faz Maria Judite de Carvalho. A sua escrita, onde reina o monólogo interior e uma fria consciência de quem somos e daquilo que nos rodeia, fere como um punhal e, por muito que me tenha sentido trespassada, adorei a experiência, já que eu, como bem sabem, busco de forma obsessiva a dor literária, principalmente porque aprendo muito com ela e saio de cada leitura mais conhecedora e atenta.
Quanto aos outros sete contos, são todos bem mais pequenos que o que abre a obra homónima. São protagonizados por homens e mulheres cujas vidas se assemelham, também elas, a um beco sem saída, esburacado de dor, de perda, de oportunidades não concretizadas e de desesperança. Não me avassalaram como o de Mariana, mas, mesmo assim, destaco o que se intitula “A vida e o sonho”, no qual Adérito vive uma existência da qual não detém a chave. Tudo é medíocre, o casamento, o emprego. Só sentimos uma centelha de vida no prazer escondido que leva a cabo todos os domingos. Mas nem a esse prazer ele abre os braços de forma completa. E mais não digo, para não estragar a leitura daqueles que, futuramente, possam, tal como eu, querer conhecer esta obra e esta escritora magníficas, que merecem o reconhecimento de todos nós.
Agradeço muito, muito à Bárbara a recomendação e espero ter respondido convenientemente às suas expectativas. Entrei pela porta grande no mundo de Maria Judite de Carvalho e tenciono continuar a privar com as suas histórias. Agora resta-me fazer o que fez a Bárbara – seguir com a corrente e recomendar vivamente que leiam Tanta gente, Mariana, pois a viagem que farão nesta coletânea é imprescindível. É dolorosa, mas única!

NOTA – 09/10 (Se todos os contos fossem como o da Mariana e o do Adérito, daria a toda a obra nota máxima)

Sinopse
Uma mulher, Mariana, descobre que vai morrer. Só, no seu quarto, passa em revista toda a sua vida. Desde o falecimento prematuro da mãe ao carinho extremo e triste do pai. Entre alegrias e tristezas esta é uma análise implacável da solidão dos tempos modernos em que, mesmo rodeados pelos outros, nos fechamos em nós.

6 comentários:

  1. Adorei ler a tua opinião! :) concordo tanto, sinto mesmo aquilo que dizes. É verdade, nunca alertei para o facto de ser um livro de contos - e concordo também com a superioridade daquele que dá o título à obra. Todos os retratos de solidão são reais, demasiado reais. É um conjunto lindíssimo, e só tenho pena de a obra da autora não estar mais facilmente disponível.

    Acrescento, já agora, que há uns tempos saiu uma rubrica da antena 3, "paraíso perdido", e um dos "episódios" fala sobre este mesmo livro :)

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    1. Obrigada, Bárbara, fico mesmo feliz por ter conseguido transmitir o quanto gostei da obra de conhecer esta autora e o quanto quero ajudar a que mais gente a leia!
      Vou fazer os possíveis para ler mais obras dela!
      Obrigada pela dica da rubrica - vou ver se a escuto!
      Beijinhos e venham mais recomendações tão boas como esta ;)

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    2. Só li outro livro dela - "Seta Despedida", que encontrei em segunda mão numa livraria em Cascais. O ano passado comprei, na Feira do Livro, "Armários Vazios", mas tive um ano muito complicado e, vergonhosamente, está ainda por ler. O trabalho dela é tristemente difícil de encontrar... (excepto o Tanta Gente, Mariana, e o Armários Vazios). Fico também à espera de recomendações do teu lado - espanhóis e não só :) beijinhos!

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    3. Obrigada pelas sugestões/títulos, Bárbara! Vou ver se os encontro na Feira do livro e em alfarrabistas/OLX, porque quero mesmo, como te disse, ler mais da autora!
      Quanto a recomendações, don't worry, eu vou tratando disso ;)
      Beijinhos!

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  2. E a corrente já surtiu efeito em mim, que fiquei desejosa de o ler!
    Já devo ter-me cruzado com este livro dezenas de vezes e nunca lhe liguei nenhuma, o que só vem provar que não há nada como uma recomendação, uma reacção a transbordar de emoção ou uma citação certeira para um livro ficar logo no nosso radar, como se de uma novidade se tratasse. E este consegue ter as três coisas.
    Beijinhos
    Paula

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    1. Que bom que a corrente já está a funcionar! A autora merece-o, sem dúvida!
      Espero que a tua leitura tenha reacções semelhantes às que senti! Tenho a certeza de que assim será! Depois, contas-me, OK?
      Beijinhos e está atenta ao texto que escrevi sobre uma recomendação tua ;)

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