A amiga genial, de Elena Ferrante

Sábado, 05 de setembro de 2015




Opinião
Uma ida matinal ao cabeleireiro foi o pretexto ideal para devorar as páginas finais de A amiga genial, livro que me acompanhava desde o primeiro dia deste mês.
O nome de Elena Ferrante, a autora, está envolto numa onda de mistério. É o pseudónimo de uma escritora italiana, da qual pouco ou nada se sabe, já que a mesma expressamente deseja que assim seja – para ela, o importante, o essencial são os livros, que, uma vez escritos, para nada precisam dos seus criadores. Se tiverem uma mensagem, algo para dizer, com certeza encontrarão quem os leia e esses leitores, que encontram e são encontrados pelos livros, não necessitam dos supérfluos pormenores biográficos dos escritores.
Já troquei comentários com variadas pessoas sobre A amiga genial e todos foram carregados de opiniões mais do que positivas. Já é do conhecimento público que é o primeiro volume de uma tetralogia. Já foi inclusive lançado pela editora Relógio d’Água o segundo volume – História do novo nome. A minha querida amiga literária, Ana Sofia, acabou de lê-lo há pouquinho tempo e confidenciou-me que é avassalador. Tudo isto são motivos suficientes para aguçar a nossa curiosidade e para impelir-nos a entrar de bom gosto no mundo da misteriosa e talentosa Elena Ferrante.
Tal como referi, A amiga genial é o primeiro volume da apelidada tetralogia de Nápoles e traz-nos a história de duas amigas – Elena (Lenú) e Lila. Logo nas suas páginas iniciais (no prólogo que abre A amiga genial) nos apercebemos de que o mote para a criação desta tetralogia está centrado no momento presente, no qual Lila, já com a idade de sessenta e seis anos, desapareceu sem deixar absolutamente qualquer rasto. Este desaparecimento deixa Elena “deveras irritada” e é a perfeita desculpa para que esta se sente ao computador e comece a escrever “os pormenores da nossa história, tudo aquilo que me ficara na memória.” (pág. 16).
Assim, o volume que terminei de ler narra a infância e adolescência das duas amigas, sobretudo na perspetiva de Elena, a sua narradora. Acompanhamos o turbulento início da amizade, a cumplicidade das duas, o seu afastamento por causa dos dissabores da vida e um reaproximar que fica momentaneamente interrompido por um final intenso e que nos deixa em desespero, numa ansiedade louca pelo volume que se segue. Em linhas gerais este será o resumo (muito resumido) da trama da obra. Contudo, o que nos prende, o que nos agarra, o que nos verga perante o talento indiscutível desta autora italiana é muito mais do que isto…
Elena Ferrante é possuidora de uma escrita visceral, carnal, crua, sem paninhos quentes, mas que retrata magistralmente a realidade humana, plena de contradições, de sentimentos ambíguos, de egoísmos, de medos, de invejas, de ciúmes, de violência. É impossível não ficarmos rendidos às vivências do bairro suburbano e pobre onde coabitam as famílias de Elena, Lila e de outras personagens que estão presentes no seu dia-a-dia. Ao longo da obra, o espaço predominante é esse mesmo e página após página sentimo-nos lá, somos espetadores da rotina de um punhado de famílias, de tal forma bem construídas, com tradições e costumes muito enraizados, nas quais o patriarca distribui pouco afetos e muita pancada, a mulher reflete no rosto a submissão, o rancor por essa vida submissa e sem perspetivas e as crianças sabem desde tenra idade comportar-se como uma enguia para assim por vezes escapulir-se de situações de violência e por outros procurá-las, confrontá-las.
Podemos dizer que Lila e Elena são o espelho dessas crianças e ao mesmo tempo são o seu oposto. Elena é das pouquíssimas crianças que têm possibilidades de prosseguir estudos e Lila… bom, Lila é uma força da natureza, de uma natureza maléfica, contraditória, inteligentíssima, autodidata, que luta com todas suas forças para manter-se no seu bairro de sempre, mas realizando os seus sonhos – tornar-se rica, sair de uma vida pobre através da escrita, dos seus desenhos, da criação de sapatos ou de um casamento.
Elena e Lila são igualmente o oposto uma da outra – Elena é tímida, medrosa, procura o afeto e a aprovação dos outros, sabe que tem que estudar e dedicar-se horas e horas ao estudo para poder ser a primeira da classe e nunca, em momento algum, se sente completamente segura de si e do seu valor, nem mesmo quando Lila lhe chama de sua amiga genial. Por outro lado, Lila, desde tenra idade, mostra não ter medo de nada nem de ninguém, nunca foge a um desafio e se não fosse pelas circunstâncias de uma vida pobre, possuiria todos os atributos para ser genial, pois é dona de uma capacidade e de uma inteligência raras. Contudo, mesmo sendo assim tão distintas, estas duas raparigas têm uma amizade forte, que vai resistindo a muitos percalços e que as unirá, de uma forma ou de outra, para toda a vida.
Neste ponto de uma opinião que vai longa, tenho que refrear a minha vontade de seguir desvendando mais da narrativa e centrar a atenção no que está por detrás da sua criação e que me fez render ao estilo e escrita de Elena Ferrante. São magníficas a habilidade e competência da autora de oferecer-nos, como já disse, uma história que espelha a realidade de uma Nápoles pobre, patriarcal, de gente que passa de geração em geração superstições, medos, ódios e rumores e que dispara violência para tudo e para todos. É também magistral a construção das personagens, sobretudo a das duas protagonistas e dos sentimentos ambivalentes que as une. Desde o minuto em que vê pela primeira vez Lila até ao momento presente, até à altura em que esta desparece (“Vamos ver quem vence, desta vez, disse para mim” – pág. 16), Elena tem consciência de que sente atração e repulsão pela amiga, que se sente diminuída na sua presença, que ser a primeira da classe, obter classificações brilhantes e elogios pela parte dos professores é abafado, espezinhado pelo carácter, pela determinação, pela rebeldia e por fim pela beleza da sua amiga – “Portanto, eu era segunda em tudo” (pág. 39). É ainda irrepreensível o conhecimento que Ferrante demostra possuir de tudo que caracteriza e compõe as etapas da infância e da adolescência. Um dos exemplos que ainda se mantém comigo desse conhecimento está bem espelhado nos princípios da amizade de Elena e Lila, em que as duas, sobretudo a primeira, são possuídas dos habituais medos irracionais (mas que nos paralisam enquanto crianças) de papões, sítios habitados por monstros horrendos e seres terríveis dos quais temos que estar mais afastados possível.
A amiga genial (e o resto da tetralogia, arrisco-me a dizer) é assim uma leitura obrigatória e só posso agradecer à minha querida Ana Sofia pela dica preciosíssima J

Leiam Elena Ferrante. Leiam A amiga genial e A história do novo nome (já publicado pela Relógio d’Água). Leiam Crónicas do mal de amor, que reúne três imperdíveis pequenos romances desta autora. Não se irão arrepender!

NOTA – 09/10

Sinopse

"A Amiga Genial" é a história de um encontro entre duas crianças de um bairro popular nos arredores de Nápoles e da sua amizade adolescente. Elena conhece a sua amiga na primeira classe. Provêm ambas de famílias remediadas. O pai de Elena trabalha como porteiro na câmara municipal, o de Lila Cerullo é sapateiro. Lila é bravia, sagaz, corajosa nas palavras e nas ações. Tem resposta pronta para tudo e age com uma determinação que a pacata e estudiosa Elena inveja. Quando a desajeitada Lila se transforma numa adolescente que fascina os rapazes do bairro, Elena continua a procurar nela a sua inspiração. O percurso de ambas separa-se quando, ao contrário de Lila, Elena continua os estudos liceais e Lila tem de lutar por si e pela sua família no bairro onde vive. Mas a sua amizade prossegue. "A Amiga Genial" tem o andamento de uma grande narrativa popular, densa, veloz e desconcertante, ligeira e profunda, mostrando os conflitos familiares e amorosos numa sucessão de episódios que os leitores desejariam que nunca acabasse. «Elena Ferrante é uma das grandes escritoras contemporâneas.» The New York Times

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